Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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25.4.04

 
Sobre o papel do latim na celebração da missa


Este “pequeno oásis” é, ou pretende ser, um local de encontro para a boa troca de idéias. Polêmicas não me agradam, mormente quando entram pelo terreno acidentado das ironias ferinas, das estocadas brilhantes, porém pouco eficazes no que toca ao principal: o encontro da verdade.Porém é sempre agradável quando, em resposta a um de meus “posts”, chega uma mensagem ao mesmo tempo inteligente e educada, portanto, civilizada, em que o autor apresenta certa objeção a algum comentário meu feito no Despoina Damale. Foi exatamente o caso que se deu com a ponderação feita pelo meu amigo E.W., o físico (mas um cientista que não é adepto do cientificismo), com respeito ao que editei no dia 22 , ao me referir ao uso do vernáculo na missa, em lugar do “bom e significativo latim”.

Escreveu o meu amigo:
- Seu “post de 22/4 chamou-me a atenção num ponto específico: na menção que é feita ao vernáculo em substituição ao latim na Santa Missa.
Tenho opinião de que tal foi uma prática infeliz, sumamente infeliz.
Concordo quando você diz que é possível ser celebrada com dignidade uma Missa
em vernáculo, mas não acho que este seja o melhor modo (do ponto de vista
dos acidentes) de fazê-lo.


- O latim carrega o peso, sim, de uma tradição mui venerável e, além do mais,
atesta a universalidade da liturgia romana (a mesma em todos os lugares e ao
longo dos séculos). Foi um dos triunfos da protestantização litúrgica
pós-Vaticano II a troca do latim pelo vernáculo.


A Santa Missa não é coisa a ser "entendida", mas um mistério (excluído o
sentido modernista, por favor) a contemplar e viver: a renovação incruenta
do Sacrifício do Calvário, "Passion recollected in tranquility".
As palavras não são mais importantes do que o que acontece, o mysterium tremendum que é cada Missa.


O fato é que a "participação litúrgica" enfatizada pelos nossos padres e
bispos é quase sempre mera participação exterior: entendam as palavras,
repitam as respostas, cantem com força, soem os tambores, guitarras e
teclados, batam palmas, abracem-se, beijem-se, e esqueçam-se da adoração a
Deus no Sacrifício infinito oferecido sobre o altar.
O curioso é que, anos depois da maciça troca do latim pelo vernáculo, surge
este movimento carismático cuja principal marca é justamente o rezar em
línguas que ninguém entende.


A liturgia (e o culto de outras religiões segue o mesmo padrão) sempre foi
celebrada em línguas tradicionais que com o tempo tornaram-se mortas (o que
dá a vantagem de se ter uma língua toda própria, "sagrada", para o culto).
Poderia dizer mais, mas o tempo não me permite.


Pois bem, o Ruy poderia tranqüilamente assinar em baixo do trecho acima transcrito.
Neste instante posso adivinhar um leitor dizendo isto: “então, por que você não escreveu comentários bem semelhantes quando redigiu aquele item que despertou a atenção do seu amigo E.W.? “
Ocorre no meu caso, leitor amigo, uma incômoda situação de fato. Na cidade onde resido será muito difícil achar uma igreja em que seja celebrada a missa tradicional, isto é, no saudoso rito latino. Admitindo a hipótese de que exista uma tal igreja, os problemas usuais de horário e deslocamento acabam tornando impraticável a assistência a essa missa mais sintonizada com o mistério tremendo da Eucaristia. Por essa razão, amigo E.W., fico torcendo para que os senhores bispos brasileiros pelo menos devolvam à missa o bom e reverente silêncio que existia em outras épocas.

Além disso, no caso específico do nosso país, aconteceu um fato que não foi citado por E.W., muito provavelmente porque na época meu amigo físico nem era nascido. Refiro-me à drástica retirada do latim do curso secundário, fato esse ocorrido em 1966 ou 1967 (num país cuja língua é de origem latina...).Somem-se a essa infeliz medida outras que contribuíram de modo semelhante para o declínio de nossa cultura (tais como a demagogia da ”universidade para todos”), junte-se de quebra o papel deletério, mediocrizador da televisão, agindo durante décadas no seio das famílias, e teremos explicada a dificuldade intelectual, a lerdeza que muitos de nossos bispos têm para perceberem tudo aquilo que E.W. soube tão bem sintetizar no pequeno espaço de sua cordial mensagem.


Introibo ad altare Dei, ad Deum qui laetificat juventutem meam

[note bem, leitor amigo, preste atenção na beleza, no significado profundo desta oração ao ser rezada por um padre velhinho, um celebrante de cabelos encanecidos ]


posted by ruy at 3:28 da manhã

24.4.04

 
Kephas, Petrus, Pedro


Bem, antes de entrar propriamente no assunto deste ‘post”, previno que o que vai ser lido em seguida só terá significado para o leitor se este realmente crê que Jesus Cristo é o Verbo de Deus encarnado, é a segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Se essa crença existir nessa pessoa que ora visita este pequeno oásis, então o “post” vale a pena ser lido.Caso contrário, o leitor não precisará gastar seu precioso tempo.

Faz umas duas semanas, na missa vespertina a que tenho o costume de assistir, o padre S... , expondo sua homilia, com as usuais clareza e perspicácia, chamava a atenção dos fiéis para o modo extremamente sutil com que Nosso Senhor respondeu aos fariseus nervosinhos, ansiosos para pegar o Mestre numa cilada, no episódio da mulher adúltera que estava preste a ser apedrejada.Como muito bem frisou padre S..., somente DEUS poderia dar aquela iluminada resposta:
Quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra.

Ora, mais que um simples argumento apologético a favor da divindade de Jesus, esse exemplo deveria ressaltar para nós um fato aparentemente óbvio, o de que Deus pensa de modo diferente do nosso.O estilo de nosso Pai celeste não é o nosso estilo de pensar. Por exemplo, se fôssemos organizar uma empresa comercial ou industrial, e quiséssemos – como é natural – que ela tivesse sempre um desempenho eficaz, ao escolher um gerente para comandar os trabalhos de nossa firma, com absoluta certeza iríamos selecionar uma pessoa que tivesse os melhores predicados, incluindo entre eles um excelente auto-controle, que permitisse, a esse chefe nomeado por nós, agir com acerto mesmo nas horas mais difíceis; um gerente que jamais fugisse à responsabilidade a ele entregue. Ora, pergunto: quem entre os apóstolos foi escolhido por Jesus como pedra fundamental, kephas , da Igreja que o Cristo queria edificar? É Simão, o impetuoso, o frágil diante do perigo (apesar de gargantear coragem nas horas rotineiras), o homem que três vezes renegou Jesus; o homem que vai reconhecer publicamente em São Paulo um apóstolo com mais conhecimentos teológicos que ele; um homem que será censurado publicamente pelo mesmo São Paulo devido a um seu comportamento dúbio.
Como DEUS, Jesus sabia de tudo isso; e nem por isso deixou de fazer Kephas, Petrus, Pedro o pastor máximo de sua Igreja.

Há uma passagem do seu livro Quatre Ans de Captivité à Cochons-sur-Marne em que Leon Bloy escreve estas palavras:

(...) qualquer discípulo de Nosso Senhor, o menor deles que fosse, como testemunho da Renegação de São Pedro, teria o direito de censurar sua covardia ao Príncipe dos Apóstolos, com a mais extrema indignação (e mesmo teria a obrigação de o fazer), contanto que , logo em seguida a esse ato, tivesse declarado manifestamente sua vontade formal de obedecer ao Chefe da Igreja.Tal é o meu caso.Sabeis, caro amigo, que eu aceitaria os mais complicados suplícios, Deo adjuvante, antes do que recusar obediência em matéria de fé e de disciplina ao infalível Sucessor.Mas, todo o resto me pertence e todo cristão deve se afligir com um engano humano do Papa.

De fato, Leon Bloy nunca escondeu seu enorme desagrado em relação ao papa Leão XIII. Entretanto, neste instante convém lembrar aos precipitados o seguinte: Bloy levou a maior parte de sua vida na miséria cruel, para não ter que compactuar com nenhuma forma de acomodação com o mundo. Dois de seus filhos morreram em conseqüência dessa miséria involuntária.

Podemos e devemos repudiar a doentia proposta marxista; podemos e devemos criticar o infeliz regime de “colégio interno “ há quarenta anos imposto ao povo cubano; podemos e devemos criticar o regime político em que hoje vive o milenar e quieto povo chinês; podemos e devemos criticar a “prata da casa” que hoje nos governa (?) lá de Brasília. Podemos, como disse Leon Bloy, criticar os “enganos humanos” do Papa. Podemos e devemos criticar muita coisa errada que vem ocorrendo no mundo moderno.Porém, todo esse enfático exercício do direito e da obrigação da crítica não nos deveria tornar esquecidos daquilo que o Peregrino do Absoluto jamais se esqueceu, nossa terrível e intransferível obrigação de sermos SANTOS, portanto, muito mais do que meros ardorosos paladinos da liberdade.

Para terminar, faço um apelo aos leitores. Pensem seriamente numa pessoa que neste mundo foi chamada de GILBERT KEITH CHESTERTON . Era um homem de imensa cultura e não menor sensibilidade; e tinha coragem moral suficiente para enfrentar os poderosos de sua época. Ora, nenhum de nós pode imaginar o bom e velho Chesterton assumindo ares de enfatuada independência em relação a uma sua possível crítica a algum eventual deslize humano cometido pelo papa de seu tempo.Ele era, sem dúvida alguma, um “gentleman”; não iria gabar-se de uma atitude desse tipo.


posted by ruy at 5:22 da manhã

23.4.04

 

“Repeteco”


Não se trata de preguiça, mas hoje vou reeditar um “post” do mês passado. Por que farei isso ? O motivo dessa reedição é um fato que infelizmente acabei presenciando na Internet e que me deixou bastante melancólico.Peço aos amigos que me desculpem por não dizer qual foi o fato.E, além desse meu pedido de desculpa, peço mais isto aos leitores deste “blog”: sempre que se sentirem, de um modo ou de outro, pessoalmente magoados ou ofendidos por alguma coisa que eu tenha escrito, por favor, façam sua queixa ao Ruy. Em princípio, pessoas são bem mais importantes que idéias, ainda que estas sejam certas e brilhantes.Nem que as minhas idéias primassem pela exatidão e pelo brilhantismo isso não me daria direito algum de agredir, consciente ou inconscientemente, qualquer um dos visitantes deste pequeno oásis. Antecipadamente peço que me perdoem se a algum de vocês eu, sem querer, ofendi.


“Post” de 9 de março de 2004.
Idéias e pessoas


O desejo de manter em ritmo constante a edição destes “posts” muitas vezes traz ao Ruy um desconfortável sentimento de frustração. Olho para o “post”anterior e falo com meus botões : “podia ter sido bem melhor...Deixei de dizer o principal...”.É exatamente o que está acontecendo agora, com respeito ao publicado ontem no Despoina Damale. Vou, pois, tentar complementar o que escrevi sob o título: “Sobre o necessário bom uso da inteligência”. Peço aos leitores que me perdoem esse retorno ao tema.

Ensinam-nos os manuais de filosofia, especificamente no capítulo da Lógica: A idéia, noção ou conceito é a simples representação intelectual de um objeto. (note o leitor que idéia, noção e conceito podem ser vistos como sinônimos). Os mesmo manuais definem: O juízo é o ato pelo qual nossa inteligência afirma alguma coisa a respeito de outra coisa. Desde o longínquo dia em que começamos a aprender com nossos pais o nome das coisas, vimos ao longo da vida acumulando idéias e juízos em nossa memória intelectual.E costumamos chamar “lato sensu” idéias todo o imenso acervo armazenado, isto é, até os nossos juízos são também chamados de “idéias”.

Essas idéias, de que muitas vezes nos orgulhamos como se fossem criações inteiramente nossas, abrangem um conjunto que talvez seja o mais heterogêneo do universo. Ali está, por exemplo, o que pensamos sobre a Criação do mundo e o que achamos sobre o atual desempenho do time do Flamengo; ali estão os teoremas de Euler e Fermat sobre os (utilíssimos) números primos e as nossas opções para ir de carro da Tijuca a Botafogo; ali, o nosso entendimento do significado das famosas equações de Maxwell referentes ao eletromagnetismo convive com a nossa raciocinada preferência pelas camisas de dois bolsos; ali, a nossa percepção da diferença entre uma música típica do século XVIII e uma outra do século XIX tem por vizinho o nosso entusiasmo com antigas canções populares italianas.Em suma, miríades de autênticas idéias moram juntas com outro tanto de simples gostos e meras opiniões .

Ora, no que se refere às idéias autênticas, seu direito a existir está condicionado à conexão que precisam ter com um referencial . Posso a meu bel prazer escolher este ou aquele tipo de camisa; mas não tenho o direito de dar palpite quanto à solução de um problema de Física, por exemplo. Uma tentativa de solução procurada pelo caminho legítimo da dialética não pode infringir princípios verdadeiros daquela ciência, já conhecidos por mim.Em resumo: opiniões gozam de muito mais liberdade que idéias.

Isso tudo é bem conhecido e até mesmo acaciano. Ora, para o objetivo que tenho neste “post”, vamos supor que os nossos referenciais sejam corretos. O leitor mais exigente poderia neste instante perguntar: “mas, como saber se o meu referencial é correto? “
Pois bem, ainda que essa pergunta seja razoável e legítima, convém que fique “stand-by” para outra ocasião. Continuo, pois, dizendo que por hipótese nossa matriz de referências é correta..

Admitindo, portanto, que meus critérios de julgamento, isto é, para a emissão dos meus juízos, em especial meus juízos de valor, estejam certos, qual é o meu sentido de hierarquia diante das realidades do mundo? Antes de responder a esta pergunta, convém que eu me recorde de um dado básico. O ser humano foi criado para conjugar dois verbos essenciais : conhecer e amar; afinal de contas, fomos criados à imagem e à semelhança da Santíssima Trindade, cujas Pessoas se relacionam pelo Conhecimento e pelo Amor

Para tornar a questão acima proposta mais acessível ao leitor deste “post”, vamos imaginar dois homens, ambos nossos amigos, ambos mais velhos e mais experientes que nós, um chamado João e o outro José.
João é uma pessoa em quem reconhecemos a inteligência, a cultura e a honestidade.
José é alguém que irradia sabedoria, bondade e senso de humor.
(aqui é preciso ficar bem claro: senso de humor é mesmo aquela qualidade que encontramos nos escritos de Chesterton; não deve ser confundido com as galhofas típicas feitas por nós brasileiros em nossas piadas de português ou em nossas críticas aos políticos, por exemplo).
Pois bem, pergunto agora: qual dos dois, João ou José, seria modelo melhor para que conjugássemos corretamente aqueles dois verbos ínsitos em nossa natureza?

Vamos colocar as coisas mais ainda em miúdos. Cada um de nós tem um pequeno círculo de parentes e amigos: o Zezinho, a Maria, o Chico, a Leninha, o Pedro, a Glória, o Tico, e outros cujos nomes conhecemos. Boa parte dessa pessoas não têm por hábito uma atitude, digamos assim, “intelectual” diante dos fatos.Lê - quando lê - livros sem profundidade, ouve apenas música popular, vai ao cinema somente para distrair-se. Tudo bem.E agora, pergunto: já paramos para prestar atenção no fato de que cada uma daquelas pessoas é mesmo uma pessoa ,única e intransferível? Já paramos para refletir no fato de que cada uma delas tem seu mistério próprio? Respeitamos essas pessoas ? Damos valor a elas? Amamos essas pessoas ?

Certa vez um sacerdote escreveu a Leon Bloy dizendo que ele, o missivista, não tinha alma de santo. Eis aqui o que o Peregrino do Absoluto respondeu ao padre:
:
- Pois bem, digo-lhe que eu tenho a alma de um santo,; que meu senhorio, que é um abominável burguês, meu padeiro, meu açougueiro, meu quitandeiro, que são talvez uns grandes canalhas, todos têm alma de santos, visto terem sido todos chamados, tão bem quanto o senhor ou eu, tanto quanto São Francisco de Assis ou São Paulo à Vida eterna.E terem sido todos resgatados pelo mesmo preço, magno pretio emptis estis .Não existe nenhum homem que não seja um santo, virtualmente.

Pois é, muitos de nós passamos horas e horas preocupados com a ameaça (real) do totalitarismo comunista ou socialista. Ora, o erro básico da proposta comunista ou socialista não está no Gulag ou no paredón; está, sim, justamente no esquecimento da pessoa; ela não faz parte dos planos da Revolução. Quem sabe se não seria muito mais eficaz nosso combate ao perigo citado se levássemos em conta essa necessária hierarquia que dá a pessoa humana a sua fundamental preeminência? Se passássemos a ver com outros olhos, com uma visão contemplativa , o Zezinho, a Maria, o Chico, a Leninha, o Pedro, a Glória, o Tico e outras pessoas comuns que nos cercam, que vivem perto, bem perto de nós. Porque são essas pessoas, esses santos virtuais, que dão significado à nossa luta contra o velho erro da Esquerda.

Criticar os desmandos, as burrices, as falsetas, as corrupções, os cinismos dos políticos nossos e os do restante do planeta é facílimo. Difícil mesmo é tentar, discretamente, no silêncio e com sabedoria, reconstruir uma cultura que há pelo menos seis séculos está fora dos eixos, deixando-nos, assim, distraídos diante do que é mais importante.


posted by ruy at 3:18 da manhã

22.4.04

 
Alguns pontos a ponderar


Um equívoco renitente. Quando lemos os evangelhos com atenção (e mais que quaisquer outros livros, eles deveriam ser lidos com a máxima), podemos perceber clara e indiscutivelmente que Nosso Senhor não assumiu nenhum papel de reformador social. Se não vejamos. Viu bem de perto a injusta situação de inferioridade em que vivia a mulher, haja vista, por exemplo, o dramático episódio da mulher adúltera, que estava prestes a ser apedrejada.Notemos que aquela punição violenta era só para as pobres filhas de Eva.Entretanto, Jesus não sugeriu nenhum movimento feminista.Viu de perto a injusta e cruel prática da escravidão, mas não fez campanha alguma para pôr fim aquele terrível costume. Viu de perto a opressão romana, porém não agitou o povo contra o pagamento do imposto a César. Ora, em nossa época continuamos a ver excelentes católicos, e dizemos isso sem nenhuma ironia, que, animados das melhores, mais justas intenções, ainda não perceberam que a missão precípua da Igreja é a santificação das pessoas, e não a de reformar a sociedade humana.


Tradição e tradicionalismo E por falar em teimosia, entre nós católicos – infelizmente – continuam existindo os que não conhecem o velho aforismo latino : Est modus in rebus . Ou colocando em outros termos mas com o mesmo significado : é preciso uma certa prudência no agir humano, buscando sempre fugir aos extremos.Tal equilíbrio, como tão bem costumava explicar o autor de “Dois Amores, Duas Cidades”, é difícil, mas nem por isso menos necessário. É justamente o caso da distinção que devemos fazer entre tradição e tradicionalismo. A boa e correta tradição ensina que a missa é a renovação incruenta do sacrifício do Cristo e, como tal, tem que ser celebrada com o máximo respeito, com total reverência.Ora, podemos, sim, usar, por exemplo o vernáculo, em lugar do bom e significativo latim.Porém, essa nova rubrica não deveria ser pretexto, como de fato vem ocorrendo, para introduzir na missa práticas novidadeiras, barulhentas e/ou sentimentais. Pergunto: por que, por exemplo, na hora do “saudai-vos uns aos outros em Cristo” tem que haver na igreja uma atmosfera de piquenique, com todo mundo abraçando todo mundo, dando “tchauzinho” para as pessoas mais afastadas ?
O tradicionalista ferrenho não consegue separar as coisas; não admite que se possa usar o vernáculo e, ao mesmo tempo, conservar dentro da igreja uma atmosfera de profundo respeito.Isso é possível de conseguir? Sim, basta que os bispos queiram promover esse equilíbrio.


Senso de humor e galhofa Faz poucos dias, ao entrar em um “site” de boa qualidade, acabei lendo um bom texto em que, infelizmente, o autor cometia este equívoco: o de achar que o brasileiro em geral é dotado de senso de humor. Lamento, mas não posso concordar com essa opinião. De fato, em grande maioria nós, brasileiros, somos irreverentes, galhofeiros, bons contadores de piadas que apelam muitas vezes para a malícia em torno do sexo, piadas sobre nossos “avozinhos” portugueses, e vai por aí. Lembro-me do tempo de menino, de adolescente.Era no tempo da guerra e a revista americana Seleções chegava ao nosso país traduzida para o português. Ora, desde aquela época – lá se vão sessenta anos – uma coisa que me chamava a atenção era a grande quantidade de piadas publicadas em Seleções, piadas inteligentes, escritas para o sorriso sutil.Lembro-me das que eram contadas pelo saudoso Bob Hope, que morreu em idade avançada, certamente porque tinha um verdadeiro ...senso de humor ! Quando nós brasileiros iremos aprender a contar piadas nesse estilo? Quando iremos amadurecer ?


Puxar para cima, ou puxar para baixo? Se o leitor reler os itens anteriores provavelmente irá perguntar se o Ruy está de mau humor.Não, meu amigo, não estou não. Acontece que há muitos anos resido no Rio de Janeiro, que em priscas eras costumava ser chamado de Cidade Maravilhosa. Depois que aqui desembarcaram políticos pouco civilizados, lamentavelmente apoiados por certos ativos intelectuais católicos, “soi-disants” avançados, introduziu-se na rotina política desta cidade e deste Estado uma atmosfera de generalizado cafagestismo, de grossura,– com perdão desta palavra dura.Inspirados pela teoria marxista de que o mais importante é o Futuro, com F maiúsculo, , por isso mesmo, segundo eles, não valeria a pena perder tempo com sutilezas, tais como: uma cultura exigente e refinada, uma linguagem sóbria e sem demagogia, uma administração que valoriza a competência e não a fidelidade a um partido.Em decorrência desse modo primário de fazer política é que hoje os cariocas, e os que aqui vivem como se cariocas fossem, padecemos um regime de permanente medo, diurno e noturno. Tudo o que vem acontecendo, leitor amigo, é fruto dessa recusa de bispos, políticos, universitários e outros que se negam a seguir o difícil caminho da civilização. Minha referência às piadas inteligentes de Bob Hope e aos “tchauzinhos” pouco inteligentes dentro das igrejas surge desta minha enorme irritação diante dessa falta de liderança autêntica que se abateu sobre a Terra de Santa Cruz. O que sinto é muito mais que um simples mau humor.


Criticar o governo é facílimo, é mais fácil que tirar doce da boca de criança.A toda hora esse governo (?) que aí está nos dá motivo para crítica.Difícil mesmo é ficar sossegado, em silêncio, lendo um livro que nos obrigue a pensar..


posted by ruy at 11:22 da manhã

21.4.04

 
Erros e equívocos sobre a Igreja


Fundada pelo Cristo, não é de estranhar que a Igreja surja diante dos homens como um incômodo sinal de contradição, como um desafio. O bem recente reboliço provocado pelo filme produzido pelo ator Mel Gibson serviu para tornar mais visível essa bi-milenar incongruidade existente entre a vocação do homem para a vida eterna e a pesadumbre dos apelos telúricos do mundo.

Para alguém que seja cristão de forma ingênua, a recusa que o mundo faz a Jesus Cristo soa como um absurdo escândalo. Ora, o fato é que Deus não nos criou como se fôssemos robôs.
Todas as críticas que vimos - e com razão – fazendo ao atual governo deste país, todo o nosso veemente repúdio às agressões que diariamente o pobre povo carioca sofre por parte dos traficantes encastelados nos morros dessa infeliz capital, todo esse clamor só tem sentido, só é coerente porque existe uma realidade chamada “liberdade humana”. Sem ela, pergunto, como atribuir culpa aos maus governantes e aos bandidos ?.

Considerando, pois, o fato de que somos livres, não nos deveríamos espantar com a realidade de existirem muitos homens que recusam a origem divina da Igreja, nem tão pouco nos espantarmos com a existência de pessoas que, apesar de se apresentarem como fiéis à Igreja, agem de modo incoerente com a crença afirmada. Na verdade, quando a Igreja é analisada pelos homens, nessa análise podem ocorrer erro e equívocos.

No que tange aos erros, em geral eles ocorrem entre os nossos irmãos separados (mais conhecidos por “protestantes”) e entre os inimigos da Igreja. Vamos listar alguns desses erros.
- considerar a Igreja simplesmente como uma instituição humana, sem um significado transcendente;
- atribuir à Igreja e ao seu pessoal – o papa, os cardeais, os bispos e os padres – a intenção malévola de dominar o mundo;
- achar que os sacramentos não tenham nenhuma realidade ontológica e nenhuma significação além de um possível simbolismo sentimental;
- ver a Igreja apenas como uma comunidade de cristãos unidos pela mesma fé nos ensinamentos do Evangelho, sem que haja necessidade de uma estrutura, uma hierarquia e uma disciplina para manter intacto o depósito da Revelação;
- acreditar que a Revelação seja uma invenção ardilosa dos padres, dos bispos e do papa, já que Deus (segundo pensam essas pessoas) é um ser não só infinitamente distante do homem como indiferente a ele;
- não entender a santidade como um processo de transformação interior, um encontro eminentemente pessoal com Deus, portanto, muito além de um excelente comportamento moral;
- considerar Maria, aquela que para um católico é a Virgem Santíssima, como se ela fosse apenas uma mulher mais virtuosa que as demais mulheres.

Quanto aos equívocos, em geral eles ocorrem entre os próprios católicos. O primeiro e talvez o mais nocivo deles é o não entender que o fato de pertencermos à Igreja, com todo o riquíssimo patrimônio de cultura filosófica e teológica, acumulado durante séculos e mais séculos de estudo e de reflexão, tudo isso é uma graça que Deus concedeu a cada um de nós. Muitas vezes nós, católicos, nos posicionamos em relação às verdades da nossa fé como se elas nos tivessem sido entregues devido à nossa inteligência ou à nossa virtude, uma posição auto-suficiente beirando o comportamento infantil.

Ainda hoje, de vez em quando encontramos católicos que nos dão a constrangedora impressão de estarem aguardando nervosamente que pessoas não-católicas de repente aceitem os dogmas, o papado, os sacramentos, a moral católica e tudo mais. Parecem estar irritados com a lerdeza do mundo em aderir à Igreja. Ora, meus bons amigos, Deus respeita a liberdade do homem, Deus não quer forçar o homem a acreditar n’Ele. Por favor, lembremo-nos dos versinhos do saudoso poeta católico Murilo Mendes, várias vezes citados neste “blog”:

Senhor, minha prece se faz
Em termos exatos:
Que os maus sejam bons
E os bons não sejam chatos.


Um outro equívoco que convém ser ressaltado é o da valorização super-excessiva dos aspectos morais da doutrina católica em paralelo, entretanto, com o esquecimento de algo crucial em nossa fé: o mistério . Se fôssemos falar neste momento usando um estilo terapêutico diríamos a muitos irmãos católicos:
- por favor, leiam Gilbert Keith Chesterton ! Leiam André Frossard !Procurem descobrir por si próprios a silenciosa - e como faz falta o silêncio! - presença do mistério. Aprendam a ser reverentes diante do mistério! Sejam, por favor, mais poéticos ! Sejam mais intelectuais e menos moralistas , por favor !
Desculpem o mau jeito...


P S


Por diversas vezes tenho escrito neste “blog” fazendo elogios ao Medievo. Não retiro o que disse. Entretanto, não creio que seria possível, e mesmo desejável, um retorno “tout-court” àquela luminosa Idade que os mal informados chamam de “Idade das Trevas”. A Idade Média deveria servir, sim, de paradigma para a nossa inteligência e para o nosso coração, hoje tão afastados do que é principal para o homem.

Já faz muito tempo, meio século precisamente, este escriba, Ruy Maia Freitas, não enxergava certas coisas que hoje vê, e as enxerga agora graças a Deus . Naqueles dias eu não percebia a importância e a necessidade de ficar quieto e prestar atenção no mistério de cada pessoa com quem convivemos.


posted by ruy at 3:18 da manhã

20.4.04

 
Tomando fôlego


Irreversibilidades .

Vejo bem distante, a perder de vista,
Chesterton sentado ao meu lado,
à beira da cama velha.
Ainda não sei (mas vou saber um dia)
Que se aproxima o fim das ilusões ingênuas.

Um vespertino toque alexandrino -
que poderia ser ignorado -
dá começo ao drama essencial,
difícil caminho para o auto-encontro.

Dentro em breve, menos do que eu imaginava,
um simples cartão de visitas vai transformar-se,
(mágica fantástica),
em tapete mágico,
levando o príncipe bisonho
(aprendiz da difícil arte de viver),
ao país dos sonhos desejáveis,
mas nem sempre possíveis de realizar


Poema da entrega.

Sim cada segundo é vosso, Senhor.
Este verso que acabo de escrever,
ainda que contenha uma verdade,
será um simples bocejo,
sopro de voz sem valor,
se o coração não falou.

A Eternidade, embora não pareça,
está presente neste rápido segundo
que escorre entre meus dedos lerdos,
diante do meu olhar estático.
E o grande segredo da alegria,
essa pérola sem preço,
reside nesta entrega necessária:
- sim, cada segundo é vosso, Senhor !






posted by ruy at 3:19 da manhã

19.4.04

 
Um fato triste, muito triste


Meu amigo A... , o serrano, de vez em quando conversa comigo pela Internet. Um dos temas que têm servido para nossos bate-papos “weberianos” é a situação em que está a maior parte dos ambientes tradicionalmente católicos, isto é, a provação por que está passando a Igreja do Cristo (de propósito usei o termo provação , mais correto que a palavra crise , esta que é do agrado dos não-católicos ou dos inimigos da Igreja).

Várias vezes, ao abordar esse tema ingrato, meu amigo A... aponta os senhores bispos brasileiros como os grandes responsáveis por muitos dos problemas que nos afligem, ou pelo menos afligem a ele, A..., e a mim mesmo. Alguém poderia dizer que se trata de uma idiossincrasia ou, quem sabe, um exagero do serrano. Entretanto, se levarmos em conta o correto significado dessa ordenação sacramental a que chamamos bispo, teremos que acabar dando razão ao meu amigo. Se não, vejamos.

Um bispo é, rigorosamente falando, um sucessor dos primeiros doze apóstolos, lembrando que Judas Iscariotis foi substituído por São Matias. Desde os primeiros anos do Cristianismo estabeleceu-se a distinção essencial entre o bispo e o presbítero, este que hoje chamamos pelo nome de padre , palavra que vem do latim: pater = pai (mais uma razão para entendermos por que um bom padre não deve ter excessiva familiaridade com seus paroquianos; deve, pelo contrário, manter a boa distância paterna em relação a eles).

Cabe em especial ao bispo o munus pastoral; ele deve ser o guardião das ovelhas (isto é, nós, os leigos) a ele confiadas. É, pois, uma missão essencialmente religiosa, mesmo quando as ações a executar sejam extrinsecamente orientadas para um problema de interesse geral como, por exemplo, o seríssimo problema do ensino em nossa pátria.A perspectiva do bispo tem que ser sempre a do Reino que não é deste mundo.

Feita esta introdução, vamos ao fato que deu motivo ao título deste “post”.
Há uns dois dias, um amigo meu de longos anos, pessoa com mais tempo de vida e bem mais experiência de sofrimentos que o Ruy, conversando comigo pelo telefone contou-me que havia recebido um especial convite que lhe fora feito por um bispo. Tratava-se de uma convocação dirigida ao meu amigo - pessoa de vasta cultura, de antiga e profícua vivência acadêmica, autor de inúmeras brilhantes palestras, proferidas nos ambientes mais diversos – uma convocação para participar de um “grupo de reflexões”.

Segundo nos diz, com sua habitual sobriedade, o dicionário, esse livro que é injustamente chamado ” pai dos burros” (dizia-nos o professor Gladstone Chaves de Melo: “burro não consulta o dicionário”), a palavra refletir significa: pensar maduramente, meditar , e, com tal significado (há outros, mas eles não se ligam ao nosso tema), o verbo é relativo (espero que o leitor recorde suas aulas de gramática). Ou seja, quem reflete pensa maduramente sobre algum assunto, medita sobre algum tema.Isso para não lembrar que um dos sentidos que o mesmo dicionário dá para a palavra “reflexão” é : prudência.

Fechando este rápido parêntese, continuo contando o que me contou aquele meu experiente amigo. Foi ele ao local da reunião marcada pelo bispo. Esclareço; esse meu velho amigo é um “gentleman”, isto é, uma espécie em extinção neste país onde tudo é motivo para piada, para galhofa, e para descontração irresponsável.Sendo assim, ao descrever-me o ambiente que encontrou, ao referir-se ao grau da bizarra heterogeneidade das pessoas outras que também haviam sido convidadas pelo bispo, muitas delas com pouquíssimo ou nenhum interesse pelo Bem Comum da Igreja, esse meu discreto amigo não usou esta expressão que, para mim pelo menos, seria a que melhor descreve o tal ambiente: “um saco de gatos”. A tal reunião acabou tendo um final frustrante para todos, incluindo o próprio bispo.

E para finalizar este meu melancólico “post”, informo aos amigos leitores que o referido bispo, mesmo antes de ingressar no seminário, ou seja, mesmo antes de passar pelo habituais e exigentes cursos de filosofia e teologia exigidos pelo presbiterato (formação do padre), já possuía prestigiado diploma de nível universitário, a ele conferido por uma das instituições científicas mais sérias e tradicionais deste país, o que vem a favor desta antiga opinião minha: uma pessoa pode ter vários diplomas de nível dito superior, pode ter recebido honrosos títulos acadêmicos, mas, apesar disso, ser incapaz de perceber certas realidades essenciais ao bom uso da inteligência.

Pois é, amigo A..., vamos continuar esperando pela conversão dos nosso bispos. Rezemos por eles..


posted by ruy at 12:03 da tarde

 

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