Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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4.4.04

 
Problema gravíssimo


Ontem à tarde, meu bom amigo A..., o serrano, enviou-me uma mensagem em que contava vários comentários recentes feitos sobre o filme “ The Passion of the Christ”, título que entre nós , infelizmente, foi traduzido com a preposição “de” em lugar do correto “do”, como está no original, comentários esses escritos por alguns jornalistas e um Mestre em Cristologia, professor na PUC-SP.

Ora, jornalistas não costumam ser bem informados sobre assuntos ligados à religião em geral e muito especialmente à fé católica. Entretanto, o caso do sr. Fernando Altemeyer merece ser visto com mais cuidado.Ele é docente em uma universidade que não deve ser muito Pontifícia, já que o nosso papa elogiou francamente o filme de Mel Gibson, nem muito Católica, pelo que Altemeyer andou dizendo sobre o modo tradicional como a Igreja aborda a realidade do sofrimento.

Antes de continuar, lembro um comentário feito faz pouco tempo pelo meu compadre e amigo D..., quando em conversa comigo disse isto:
- “a verdadeira Universidade no Brasil está fora das universidades.”
Não vou citar exemplos que confirmam a veracidade do que disse o meu compadre; citá-los seria faltar com um dever de caridosa discrição. Digo apenas que a experiência algo melancólica do Ruy com o meio acadêmico faz com que eu concorde com D....

Transcrevo a seguir algumas das palavras do professor da PUC-SP:

O filme reforça uma teologia anacrônica e dolorista de Jesus - O filme reforça essa dor com seus tons sombrios, lembrando as pinturas do italiano Caravaggio.
Não vou me deter naquele neologismo metido a engraçado, “dolorista”. Porém, vale a pena, a respeito do assunto, citar alguns trechos do livro de Dom Lourenço de Almeida Prado OSB:
“Na Procura de Deus – ( Reflexões e Sermões)”, editora AGIR. 1992. Comecemos com isto que está na página 133, no capítulo “O sofrimento humano”:

No Cristo o quadro do sofrimento humano é completo.Tudo foi experimentedo, tudo foi vivido.Tudo, porém, foi transfigurado.A morte é vida. Deus que não fizera.a morte, nem os venenos mortíferos, transforma tudo em louvor. A Cruz é a fonte da esperança, é o sentido do sofrimento.

Antes de continuar, é bom que notemos o seguinte: Dom Lourenço, antes de ingressar na Ordem beneditina foi médico competente e respeitado, passou pelos pronto-socorros e pelas enfermarias dos hospitais.Antes de fazer seus sérios estudos filosóficos e teológicos, o nosso amigo monge viu bem de perto a dor e o sofrimento humanos. Não é um intelectual imaturo e “snob” falando sobre o que não conhece.

Mais adiante, no capítulo “A Cruz e a Ressurreição”, Dom Lourenço escreve estes comentários:

Como compreender a misericórdia de Deus? Como entender a Cruz de Cristo? Não haveria um outro caminho, mais à medida de nossa sensibilidade, para a salvação do homem? Claro que haveria. Mesmo no plano de Deus feito homem, Santo Tomás nos diz que uma gota do sangue de Cristo, um gesto seu seria suficiente para resgatar a humanidade inteira. Por que, então, então a cruz e tudo o que ela envolve?

Longe de nós, longe da ousadia do pensamento humano querer decifrar o mistério da Cruz. Mas mesmo sem penetrá-lo, e até por não penetrá-lo, podemos dizer que a Cruz não só foi o caminho mais dignificante para o homem, mas também o mais digno de Deus.

Esta segunda afirmação talvez seja a mais misteriosa. Nós costumamos explicar a cruz como um caminho escolhido por Deus para dar a maior amplitude à dignidade do homem pela Redenção. Deus escolheu essa via por ser a que mais favorecia o homem. A bondade de Deus quis dar ao homem o máximo que poderia dar. E assim é realmente.

Se o leitor reler os trecho acima transcritos vai notar que no “estilo” de Dom Lourenço não ocorrem frases complicadas, adjetivos rebuscados, períodos arquitetônicos; é o jeito de escrever daqueles homens que, muito mais que o conhecimento e/ou a erudição, possuem sabedoria.
De vez em quando, o sensato monge cita o grande teólogo Jean-Hervé Nicolas ( La Contemplation et Vie Contemplative en Christianisme ) e o saudoso filósofo Jacques Maritain ( Approches Sans Entraves ) , mostrando dessa forma que não quer apresentar pirotecnias e novidades, frutos de uma imaginação fértil e indisciplinada, capazes de provocar o espanto do leitor.

Note bem, amigo visitante deste pequeno oásis, o contraste, enorme, do que está no livro de Dom Lourenço com o que, infelizmente, deve estar sendo ensinado na PUC-SP.E isso é realmente um problema gravíssimo, muito mais sério que as mancadas tragicômicas que o atual governo deste país vem cometendo...


posted by ruy at 6:12 da manhã

3.4.04

 
Uma sutileza importantíssima


Ontem de manhã, como que para compensar uma pessoal frustração do Ruy, conseqüência de velhas dívidas minhas para com meus próximos, tive a especial alegria de ler um brilhante ensaio editado pelo escritor MARTIM VASQUES DA CUNHA, tendo como tema o polêmico filme de Mel Gibson “The Passion of the Christ “. Em tempo, ao usar o termo “polêmico” longe de mim depreciar essa oportuna realização cinematográfica do ousado ator americano, a quem já admirei em vários filmes seus, uns do tipo comédia, outros dramáticos, o que já mostra a versatilidade de Gibson. Apenas assinalo o fato de que essa película mexeu bastante com muita gente bem instalada em suas opiniões e em seus preconceitos.

Não vou comentar neste “post” todos os pontos abordados por Martim Vasques. Outros poderão fazer isso bem melhor que este aprendiz de escriba que edita o Despoina Damale. Porém, tenho um enorme desejo de ressaltar certo detalhe que, de repente, percebi com muita satisfação em certo trecho de “A lágrima feroz” . Refiro-me à sutileza do ensaísta quando ele, com enorme felicidade, escreve isto:

A vala aberta entre o público e a intelligentzia em relação ao mais recente filme sobre esse tal de Jesus de Nazaré, "The Passion Of The Christ" (traduzido nesta nação-maior do ecumenismo macumbeiro como "A Paixão de Cristo", quando seu verdadeiro título é "A Paixão do Cristo") ...

Sim, Martim Vasques foi de uma enorme felicidade ao ressaltar que o nome do filme é : “A Paixão do Cristo” , e não: “A Paixão de Cristo” Cabe-me explicar por quê.

Quando estudamos com seriedade – frisemos isto – com seriedade, a história do Cristianismo, desde o seu humilde, atribulado início na Palestina até o grande brilho da Idade Média, quando então o gênio de um Santo Tomás fixa para sempre as referências teológicas da fé cristã, a ponto de o sábio e santo frade ser formalmente declarado o Doutor Comum da Igreja (por favor, lembrem-se do significado da palavra Comum neste caso de que estamos tratando), descobrimos, muitas vezes surpresos, que essa fé nem sempre foi aceita com todas suas implicações doutrinárias. Se é verdade que a fé religiosa, objetivamente falando é, antes de mais nada, um dom, uma graça de Deus, não é menos verdade que sua correta definição é esta:

- uma adesão livre e racional a uma verdade revelada

Portanto, urge que nossa inteligência não cometa erros de interpretação ao tratar dos temas ligados à fé cristã.

O fato histórico é que, desde os primeiros séculos, surgiram as heresias. Talvez a pior, naquele início, tenha sido mesmo o Arianismo, que se espalhou de tal forma que o grande São Jerônimo chegou a dizer angustiado que o mundo todo tinha ficado ariano. E o que dizia essa subversiva interpretação da nossa fé? Afirmava que Jesus, o Cristo, não era Deus. Ora, afirmar que Jesus não era Deus era o mesmo que dizer que ele não era o Cristo. Era não aceitar o mistério da Encarnação.

Existe, infelizmente até entre os católicos, um modo de ver a religião cristã como se ela fosse um tipo de sublime moralismo, quando, de fato ela é, sobretudo, um tremendo, um assombroso mistério, do jeito como o enxergava a perspicácia do genial Chesterton.
Bem, para evitar que tal perigosa heresia permanecesse no mundo, com todas as catastróficas conseqüências, necessário era combatê-la. Isso, meus amigos, esse combate, como aliás todos os combates em todas as guerras, convencionais ou não, com ou sem armas nucleares, só pode ser feito com eficácia se houver duas primordiais atitude nos combatentes: obediência e disciplina. E, para que estas duas condições possam existir é necessária a presença de uma instituição onde elas sejam ensinadas e conservadas de modo eficiente. Aquelas duas palavras sempre incomodaram os novidadeiros , de todas as épocas , de todos os matizes. .

A Igreja como instituição visível, hierarquizada, não é um arbitrário e inútil acréscimo à pregação da Boa Nova. É, sobretudo, uma humana e essencial necessidade. O Cristo sabia que aconteceriam as heresias; e também certamente queria que seus seguidores usassem os legítimos meios humanos para combatê-las.Nessa luta, deixar de usar com firmeza e acerto a inteligência é pecar contra o Espírito Santo.

Por tudo isso, afirmo que Martim Vasques foi muito feliz ao ressaltar aquele do que, infelizmente, nossos tradutores não compreenderam. Aliás, não é a primeira vez que fazem isso com Mel Gibson. O filme em que ele faz excelente papel como um coronel católico, pai de família, convocado para lutar no Vietnam, recebeu aqui o título de “Fomos heróis”, quando de fato o nome original – muito mais significativo – é: “We were soldiers”, “Éramos soldados”. Éramos profissionais que tinham que agir com obediência e disciplina.


posted by ruy at 2:18 da manhã

2.4.04

 
O desejável e o prioritário


Em certo instante de seu longo Sermão da Montanha, Nosso Senhor diz estas palavras (para mim bastante claras):

Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso.
Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.

[ Mat., VI, 31-33]

Ora, durante muitos anos, e provavelmente ainda hoje, certos líderes católicos, comentando os referidas palavras, têm dito e têm escrito que aquele trecho do evangelho segundo São Mateus tem servido de pretexto para que os demais cristãos, especialmente os demais católicos, se omitam de seus deveres para com o Bem Comum.Lembro-me aqui, de imediato, os nomes do falecido Betinho, de “frei” Betto e de Leonardo Boff, além de outros que – como era (e ainda é) chic dizer - eram engajados na luta pela justiça social.(de passagem, seria bom lembrar as outras três formas da justiça: a comutativa, a distributiva e a punitiva, essa que é tão necessária para coibir as corrupções e os crimes que nos angustiam hoje em dia).

Para início de conversa, a correta noção do que seja Bem Comum vem sendo ensinada há séculos, e predominantemente ensinada nos ambientes católicos. Tal conceito pode ser encontrado nos escritos de Santo Tomás que, usando sua habitual análise tranqüila e firme, faz claro desenvolvimento do que já estava no velho Aristóteles. Modernamente vários filósofos e pensadores católicos têm abordado o tema, entre eles: Jacques Maritain, Charles Journet, Etienne Gilson e outros, sem esquecer os escritos dos papas, especialmente João XXIII.

No tradicional ensinamento católico, o Bem Comum é um clima, é um conjunto de condições existenciais que favorecem a boa e reta vida das pessoas, de cada uma das pessoas de uma sociedade verdadeiramente humana. Portanto, não é simplesmente um somatório dos bens dos indivíduos, nos quais esteja ausente o sentido, a percepção de uma finalidade que transcenda o mero conforto e a acomodada segurança. Para que esse favorável clima ocorra, é desejável que os próprios governantes estejam cientes do que seja de fato o levar uma vida boa e reta . Pergunto: qual foi a última vez que um leitor meu, mesmo um que tenha mais idade, viu algum notório político, em elevada função pública, que pudesse ser apontado como real modelo de virtudes?

Comentando o Sermão da Montanha [ver a tradução de Carlos Ancêde Nougué, edições Santo Tomás, 2003] Santo Agostinho escreve:

Tudo quanto para nós é unicamente meio para conseguir outra coisa é, indubitavelmente, inferior ao que por esse meio queremos conseguir.Por isso, aos nossos olhos, em primeiro lugar está aquilo que nos propomos como fim, e não o que somente é meio para chegar a esse fim.Assim, se buscamos o Evangelho e o reino de Deus para obter o nosso sustento, é porque consideramos principal o alimento, e secundário o reino de Deus, ou seja, caso tenhamos assegurado já o sustento, não nos ocuparemos de modo algum do reino de Deus. Nisto consiste o buscar primeiro o alimento e depois o reino de Deus, ou seja, em pôr aquele em primeiro lugar e este em último.Se, no entanto, ao contrário, buscamos a comida para poder chegar ao reino de Deus, então cumprimos o que nos foi dito: Buscai [...] em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo.

Portanto, a pergunta que faço neste instante é a seguinte:
- seria razoável, seria sensato, a pretexto de sanar gritantes injustiças sociais, fazer um trabalho de cooperação política com aqueles que estão pouco se lixando para o que seja o reino de Deus, cooperando com aqueles que sempre afirmaram que a religião é o ópio do povo ?

Para os que acham que o direito de greve foi uma invenção do Dr. Karl Marx., lembro que os artesãos medievais que construíram as catedrais de pedra , que levantaram no Monte Saint Michel, na costa da Normandia, aquela magnífica obra que é conhecida como La Merveille , cruzavam os braços e paravam de trabalhar quando o bispo local atrasava o pagamento de seus salários. Lembro ainda que, no tempo em que o Dr Karl Marx era apenas um adolescente de 14 ou 15 anos, já no parlamento britânico eram feitos os famosos inquéritos das Comissões Saddler e Ashley para apurar as degradantes condições de trabalho infra-humanas nas minas inglesas (1830, 1832)..Ou seja, dentro da própria sociedade surgia, liderado por suas melhores cabeças pensantes, um sadio movimento contra a injustiça sem que, para isso, tivesse que colocar-se a Inglaterra em regime de “colégio interno”, como a Rússia ficou durante 70 anos e do jeito como Cuba está há 40 anos.

Nunca será inoportuno lembrar aquela patética pergunta de Gorbachev ao entrar em uma fábrica soviética:

- por que a geladeira russa é de tão má qualidade ?


Obrigado mais uma vez, amigo M..., pelo livro traduzido pelo Nougué.


posted by ruy at 4:59 da manhã

31.3.04

 
Complemento ao “post” de ontem


Revendo o “post” de ontem, percebi que não estão bem claros meus comentários sobre o problema que considero o mais importante neste nosso moderno mundo ocidental e que é a situação da família. Em certo trecho eu pergunto: “o que a família está construindo?” Ou melhor: “o que as nossas famílias estão construindo?”

Ora, como logo em seguida o “post” termina, pode ficar para o leitor uma falsa impressão sobre o que eu pretendia dizer. Ao fazer aquela pergunta, não me passou pela cabeça, de jeito algum, fazer uma crítica a um atual generalizado comportamento dessa sociedade doméstica que é a célula da pátria.Na verdade, creio que a família esteja sendo vítima, e digo, logo em seguida, de que e de quem ela é vítima:

- vítima do antropocentrismo, origem desse monstro onipresente que é o Estado moderno, voraz controlador e absorvedor de tantas atividades que mais eficazmente seriam realizadas se houvesse maior respeito às pessoas (o exemplo que teimosamente venho apontando é o do ensino, cuja administração, neste país, está entregue a um ministério erradamente chamado “da Educação”, uma tarefa que tem de ser feita livremente pela própria pessoa adulta).Porém, pergunto: como esperar um verdadeiro respeito à pessoa quando os “donos do Poder” estão pouco se lixando para a primordial reverência que deveriam ter para com Aquele que é a fonte de todo poder, de toda autoridade?

- vítima da influência mediocrizadora e perversa da maioria dos programas de televisão, incluindo aqueles que, sob pretexto de se exibirem como “educadores”, solertemente espalham meias verdades como, por exemplo, quando transmitem sua versão maldosa, repetidora de velhos preconceitos, sobre muitos fatos históricos, uma ciência cujo conhecimento oerfeito exige de fato muitas leituras, reflexões prolongadas, serenas visitas a museus, viagens sem pressa, amadurecimento enfim. Quanto aos programas tipo Big Brother Brasil, Faustão, Ratinho e outros semelhantes, o meu leitor pode imaginar os malefícios que eles vêem causando em todo o país, principalmente nos lares mais humildes.

- vítima do impacto diário, quase contínuo, das notícias que a mídia dissemina, usando todos os recursos das tecnologias modernas, inundando nossas casas com cachoeiras de informação que perturbam o nosso silêncio interior , aquele que é tremendamente necessário para que vivamos uma vida realmente humana.Nem falo no silêncio físico, que já vai ficando difícil de ser encontrado até mesmo nas cidades menores e mais afastadas.

- vítima da omissão terrível de muitos bispos que, em lugar de cuidarem do aprofundamento da piedade de seus fiéis, em vez de incentivarem o bom uso da inteligência como instrumento de crescimento espiritual, em lugar de estimularem o bom gosto e a sensibilidade para a beleza nos atos litúrgicos – têm mostrado maior preocupação com assuntos sociais e temas ecológicos.Faz algum tempo contei neste “blog” a minha contrariedade ao ver, em um grande jornal, a fotografia de um bispo, abaixado, no chão, ajudando um militante do MST a cortar uma cerca de arame farpado, enquanto ele – o bispo...- sorria para o fotógrafo. Neste instante lembro aquela frase do Evangelho: “ovelhas sem pastor.”

Tendo que viver nesse cenário acima descrito, como esperar que a família ocidental moderna encontre para o seu desempenho, um outro papel mais nobre, um papel que não seja o de pobres náufragos de uma civilização antiga, não mais existente, e que tentam, agora, apenas sobreviver em meio a tantas e tão adversas condições ?

Deus, tende piedade de nossas famílias !


posted by ruy at 9:41 da manhã

30.3.04

 
Algo que está fora dos jornais, das TV’s e da maioria dos “sites” e “blogs” da Internet


No “post”do dia 26 fiz referência ao desabafo de um jovem leitor por quem tenho uma imensa amizade. Ele havia editado em seu “blog” uma veemente mensagem em que, entre outros testemunhos, deixava bem claro sua profunda aversão pela política. Ora, diante de tudo o que vem chegando aos nosso olhos e ouvidos através dos meios de comunicação, como discordar integralmente desse meu leitor? Eu mesmo, muitas vezes, sinto um imenso desânimo ao tomar conhecimento de tantos absurdos, tantos fatos tragicômicos que transbordam da política – nacional ou estrangeira – e desafiam a nossa paciência.

De fato, há duas políticas.Uma é aquela que nos é ensinada pelos grandes mestres, desde o velho e sensato Aristóteles, passando pelo fulgor de Santo Tomás e chegando até nós pelos escritos precisos e elegantes de um Jacques Maritain, de um Yves Simon ou de um Charles Journet, sem esquecer as palavras veneráveis de tantos papas que abordam o antigo tema com uma linguagem solene, própria de quem vive perto da Sabedoria. Essa é a política teórica, é o paradigma, é o desejável.

A outra é a do café-com-leite-e-pão-com-manteiga, a política do quotidiano, a que tem cheiro de suor, e muitas vezes de sangue.É aquela política que gera as críticas enraivecidas e as piadas irreverentes, que traz preocupações e angústias. É a que deixa aborrecido, e com razão, o meu jovem leitor e amigo.Mas, o pior dos efeitos dessa política prática , e cuja causa está no antropocentrismo, é o de deixar despercebido um problema de gravidade igual ou maior à que nos angustia quando somos informados sobre os fatos ligados ao governo das nações. Vamos logo ao ponto dizendo que o problema máximo é a situação em que hoje vive a família.

Quando escrevo “a situação em que vive a família”, muitos dos que me lêem talvez pensem de imediato nos atuais problemas financeiros, na falta de escolas ou, elas existindo, no alto custo das mensalidades, na carência de atendimento médico confiável.Ou talvez pensem, e com razão, nos perigos físicos e morais das cidades grandes. Tudo isso existe e é mesmo preocupante. Entretanto não era nisso que eu estava pensando ao escrever aquela frase.

Se o leitor vem freqüentando regularmente este pequeno oásis, deve ter lido o “post” do dia 28 (“Sutilezas”) em que escrevi isto:

Bem, para melhor esclarecer o que vou expor neste “post”, vamos fazer um pequeno esforço de imaginação.Suponhamos que eu seja um cansado peregrino que acaba de alojar-se numa hospedaria medieval, lá pelo ano de 1200, e agora estou na sala de jantar onde se encontram, bebendo um bom vinho ou uma saborosa cerveja, diversos fregueses, um grupo heterogêneo, incluindo franceses, irlandeses, italianos, alemães e outros. De repente, começa no salão uma conversa bem animada, quase uma discussão, cujo tema é justamente uma proposição teológica recém apresentada na universidade de Paris.

Estimulado pelo tema, entro nos debates, participo das discussões. Faço isso sem o menor constrangimento. Não me sinto como estranho àquele ambiente; não me assusto com a diversidade das origens étnicas dos demais participantes do entusiasmado falatório.Por quê? Porque na abóbada cultural da Europa brilha um consenso; todos os que ali vivem respiram a mesma fé, sejam eles santos ou pecadores, nobres ou plebeus, religiosos ou leigos.


Essa imaginária cena no salão de uma hospedaria medieval poderia ser calmamente transposta, “mutatis mutandis”, para o interior de uma casa de família medieval.
Ora, a construção de uma catedral naquela época exigia o continuado esforço de um pequeno exército de artesãos em que se enfileiravam : pedreiros, ferreiros, carpinteiros, pintores, vidreiros, curtidores e outros.Esses rígidos e competentes operários tinham suas famílias, e é claro que o salário recebido pelo serviço prestado naquela gigantesca e demorada obra era destinado ao sustento de suas mulheres e de seus filhos. Porém, em paralelo com essa pragmática visão do trabalho, havia entre aqueles homens e suas famílias o consenso do transcendental significado da obra:
- eles sabiam que estavam construindo uma catedral de pedra !

E agora pergunto aos meus bons leitores:
o que estão construindo as nossas famílias?
Se, por azar meu, o leitor for um adepto das fantasias de Marx ou do infeliz padre Teillard de Chardin, responderá que estamos construindo o Futuro, com F maiúsculo, como é do agrado dos esquerdistas empedernidos.
Se o leitor, ainda para meu desconsolo, estiver satisfeito com a acomodação mais ou menos burguesa que campeia na sociedade moderna, vai dizer que minha pergunta é inócua, ingênua e, quem sabe, impertinente.
Em ambos os casos, resta-me continuar quieto na solidão deste oásis.


Um pedido: por favor, tentem encontrar o livro “Dois Amores, Duas Cidades”, e leiam-no!


posted by ruy at 3:27 da manhã

 

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