Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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28.3.04

 
Sutilezas


Como os habituais leitores sabem, este “blog” é mesmo “um pequenos oásis para os amigos”.Os que o acompanham são em número reduzido, com certeza.E, provavelmente, a quase totalidade desses poucos leitores é constituída por pessoas católicas. Tal circunstância cria para mim uma posição confortável. Como católico posso discorrer despreocupadamente sobre muitos temas ligados à crença comum, dos leitores e minha, na Igreja. E mais que a crença, o mesmo amor filial a nossa Mãe.

Bem, para melhor esclarecer o que vou expor neste “post”, vamos fazer um pequeno esforço de imaginação.Suponhamos que eu seja um cansado peregrino que acaba de alojar-se numa hospedaria medieval, lá pelo ano de 1200, e agora estou na sala de jantar onde se encontram, bebendo um bom vinho ou uma saborosa cerveja, diversos fregueses, um grupo heterogêneo, incluindo franceses, irlandeses, italianos, alemães e outros. De repente, começa no salão uma conversa bem animada, quase uma discussão, cujo tema é justamente uma proposição teológica recém apresentada na universidade de Paris.

Estimulado pelo tema, entro nos debates, participo das discussões. Faço isso sem o menor constrangimento. Não me sinto como estranho àquele ambiente; não me assusto com a diversidade das origens étnicas dos demais participantes do entusiasmado falatório.Por quê? Porque na abóbada cultural da Europa brilha um consenso; todos os que ali vivem respiram a mesma fé, sejam eles santos ou pecadores, nobres ou plebeus, religiosos ou leigos.

Pois é. Hoje, estamos no ano de 2004. Se não tivessem ocorrido todos os incidentes filosóficos e religiosos que acabaram gerando, para infelicidade nossa, o antropocentrismo moderno, eu agora poderia, espontaneamente, ter escrito assim: “estamos no Ano da Graça de 2004”. Este é o ponto crítico, este é o busílis, caro leitor. A nossa fé, os conhecimentos que recebemos das reflexões de Agostinho e de Tomás, a sonoridade bela e contida do canto gregoriano, a beleza nobre da liturgia tradicional, tudo isso e muitíssimo mais é uma imensa graça que cada um de nós recebeu, amigo leitor, católico como eu.

Tal circunstância tinha que ser sempre lembrada por nós, em cada passo de nossos fazeres.Quando ministro minhas aulas, é possível que ali, naquela sala, estejam sentados alunos católicos, outros protestantes, alguns – quem sabe? – espíritas, e até mesmo um eventual ateu. Pergunto: será prudente, ao expor minha aula, fazer aberto proselitismo da minha crença ? Será justo que eu faça isso? E outra pergunta, talvez bem mais importante: e qual seria a eficácia de uma imprudente manifestação de um ingênuo catolicanismo meu ?.

Meu testemunho cristão diante dessa turma de alunos deve ser dado de modo indireto, pelo jeito como abordo certos assuntos da minha cadeira, pela maneira como trato as pessoas, através da alegria sincera com que a aula seja ministrada, por meio da lealdade com que monto as provas a serem resolvidas pelos discentes e , sobretudo, pela justiça com que elas sejam corrigidas por mim.
Isso que se refere a um professor, mutatis mutandis > vale para outros profissionais católicos.

Veja bem a palavra, amigo leitor: catolicanismo. Para mim pelo menos, cada vez que nos esquecemos de que todo o imenso tesouro da nossa fé, da nossa pertencença à Igreja, é uma graça de Deus, corremos o risco de incidirmos nesse desagradável neologismo que acabei de escrever.

Neste instante, é bom recordar, mais uma vez, os versinhos do saudoso Murilo Mendes:

Senhor, minha prece se faz
Em termos exatos:
Que os maus sejam bons
E que os bons não sejam chatos.



posted by ruy at 10:57 da manhã

27.3.04

 
Leitura de jornais


Há algum tempo não tenho o hábito da leitura diária, e mesmo semanal, de jornais.Noticiário da TV, muito menos, porquanto, quase sempre, a telinha colorida para mim é motivo de irritação.
Creio que já falei algumas vezes, neste “blog”, sobre um excelente artigo de Daniel J. Boorstin ( “O homem ‘atualizado’ não sabe nada”, na revista Seleções, dezembro, 1982 ) em que ele recomenda, com ótimos argumentos, que leiamos muito mais livros e muito menos jornais. Aliás, ontem lembrei-me de que, faz uns quarenta anos, o sogro de minha falecida irmã, que era médico, costumava dizer que “jornal é máquina de fazer doido”.Obviamente, era uma opinião pessoal.

Ora, meu grande amigo e colega de trabalho B... mantém um regular hábito de ler diariamente o seu jornal preferido. E vez ou outra vem à minha saleta trazendo,como se fosse um presente, um recorte em que está uma notícia interessante ou um artigo que de fato compensa a leitura. Nesta semana que hoje acaba, B... trouxe-me um artigo completo e um trecho de um conhecido colunista do JB. Ambos os textos creio que mereçam ser comentados no “post” de hoje.

O artigo completo é assinado pelo sr. PEDRO A. CORRÊA NETTO, que se assina como Professor de psicanálise da PUC- Rio.
Ontem foi o dia das recordações Quando terminei meu primeiro curso de Graduação (lá se vão mais de cinqüenta anos...), um dos bem poucos livros que levava em minha bagagem era justamente um de Rudolph Allers. Não me recordo do título exato, mas o tema era justamente uma minuciosa exposição dos erros e dos sofismas da doutrina do Dr. Freud.Desse modo, é bastante antigo meu conhecimento dessa crítica que os mais sensatos vêem fazendo ao freudismo, e não à psicanálise propriamente dita.E tenho quase certeza que o Professor Corrêa Netto esteja entre os bons, entre os psicanalistas sensatos. Por quê ? Basta ler seu ótimo, seu oportuno artigo.

O título – bem sugestivo – é : “A cultura vazia”; saiu na página A-11, no JB de 23 de março.
Veja, leitor, um trecho do que ali está:

De geração em geração, a partir de nossos pais, mestres, companheiros, a sabedoria e a forma equilibrada do bom viver – e se relacionar – vai se construindo e crescendo dentro de nós, para nós e para todos, gerando um tecido que cobre a história da humanidade. Quando o caminho não é o da perversidade patológica, tipicamente uma exceção, o que predomina e transita ao lado do amor e da amizade é também a matéria-prima das produções culturais que vão enriquecendo o mundo e o indivíduo.

Tudo começa mais cedo do que se imagina geralmente, mas a partir do outro, da outra, da mãe, do pai, dos irmãos, amigos e amigas que se comunicam através do mundo inteiro e, como sabemos, cada vez com maior velocidade.

Que acontece, entretanto, se esse entretecer da cultura não se dá, ou melhor, passa a refletir antes um modelo adesivo, uma cópia xerox sem valor, uma identificação não com o conteúdo – artes, invenções, desempenho, entusiasmo, habilidade, presente e presença, ciência e prazer qualificado, mas meramente com a imagem?

Acontece que o modelo identificatório passa as ser o vazio, despido de conteúdo, mera repetição e/ou excitação sem objeto.O amor sofre logo, luta com fragilidade da mesmice, deixa-se aos poucos infiltrar pela agressividade, pelo sadismo, pela adicção – não apenas de drogas, mas também do próximo, que vai sendo consumido a aprende a consumir também, numa espécie de mútuo devorar-se, onde o encontro propriamente dito não se dá.


Creio que o Ruy poderia assinar em baixo do que aí foi dito, desde que a palavra indivíduo fosse substituída por esta outra muito mais correta, mais cheia de sentido: pessoa.

O outro texto que me foi trazido por meu amigo B... é um trecho do artigo do conhecido colunista Villas Bôas Corrêa. Em um de seus comentários, o jornalista, fazendo referência a recente declaração do sr. Luís Inácio Lula da Silva, escreve isto:

“Livro não ensina ninguém a governar” – sentenciou o presidente, em estimulante recado à juventude que alisa os bancos escolares.

Certamente que a experiência de vida é mestra de respeito.Mas, a aprendizagem de oitiva não é suficiente. Da mesma maneira que o conhecimento superficial dos problemas do país nas viagens apressadas não dispensa o estudo sério das alternativas, antes da decisão consciente e correta.
Livro não faz mal a ninguém.

[no artigo : “A debandada dos camundongos”, JB de 26 de março]

Note bem, leitor, a pertinente ironia do articulista :“estimulante recado à juventude”.
Uma declaração dessa – livro não ensina a governar -, feita pelo homem colocado na posição política mais importante do país, entra em perfeita ressonância com o título do artigo do professor Corrêa Netto citado no início deste “post”. Agora pergunto: como poderemos esperar uma cultura propícia ao crescimento interior das pessoas quando um tal estimulante recado é entregue aos nossos moços ?
Reflita bem sobre isso, leitor amigo.


posted by ruy at 12:27 da tarde

26.3.04

 
Sobre os EUA


Este “post” está sendo editado em razão de um desabafo; o desabafo sincero de um moço inteligente, culto e, sobretudo, generoso, com aquela generosidade típica dos que não estão contaminados pelo cinismo e/ou pela descrença. Em atenção a esse jovem leitor do meu “blog”, vou, pois, expor certas considerações que acho bem pertinentes, e mesmo necessárias.

O referido leitor fez, em seu “blog” uma dura crítica à atual política externa americana, especialmente a que vem sendo adotada em relação ao Iraque.Usou inclusive o termo “império” para melhor identificar os EUA. Bem, para início de conversa, posso até aceitar que se use aquela palavra (império) como também admito o termo “prepotente” para qualificar o grande país do Norte. Entretanto, conforme já escrevi em outro “post”, acho que, para fazer uma análise precisa dos fatos, seja necessária uma visão mais ampla e mais dinâmica da presente conjuntura política mundial, incluindo nesse cenário o comportamento dos recentes governantes americanos.

Os Estados Unidos (o próprio nome, para mim pelo menos, é bem esquisito) não surgiram no mundo de repente, digamos assim, por exemplo, logo depois do término da segunda Guerra Mundial.Para entender completamente que país é esse, urge irmos à sua história, importa pesquisarmos o modo como adquiriram sua independência e o decorrente status de Estado atuante na vida deste planeta. Comecemos com Benjamin Franklin. Por que ele ? Muito simples, Franklin é considerado um dos Pais da Pátria americana. Depois da vitoriosa revolução de 1776, aquele respeitado filho de Boston era recebido com festas pelos Iluministas franceses. Até seu jeito de arrumar os cabelos servia de modelo para os parisienses elegantes.

Ora em um de seus escritos, Leon Bloy, referindo-se a Benjamin Franklin, chama-o de palerma. O meu leitor pode pensar que nessa referência esteja apenas mais uma das típicas lambadas que Bloy aplicava nos homens por quem sentia um aberto desprezo. Porém, quando lemos certos escritos do famoso pensador americano, em que ele discorre sobre virtudes morais, sobre técnicas (...) para que se adquira um aperfeiçoamento moral, chegamos a conclusão de que o Peregrino do Absoluto teria sido benévolo ao usar o termo “palerma”.Num campeonato de mediocridade, Paulo Coelho perderia longe para o autor do Poor Richard Almanach .

Neste momento, é possível que um leitor queira me dizer isto: “péra aí, Ruy! Você não sabe que Franklin é considerado o inventor do pára-raios, esse utilíssimo engenho que protege nossas casas e nossas vidas?”
Sei, sim. E posso até admitir que esse engenhoso bostoniano seja considerado um cientista. E daí? Neste instante lembro, por exemplo, o seguinte:
- Norbert Wiener, o pai da Cibernética, o gênio matemático respeitado no mundo inteiro, tinha o péssimo costume, o nada civilizado costume de apagar seus charutos esfregando-os nas paredes do MIT;
- William Shockley, um dos inventores do transistor, prêmio Nobel de Física, era racista confesso.

Ou seja, a qualificação de cientista não impede que um homem erre, e erre gravemente, em outras idéias, em outras atividades.Esquecer isso é precisamente tornar-se adepto do que se chama cientificismo , isto é, a mania de achar que a Ciência explica tudo na vida, resolve todos os problemas do homem, quem sabe dando consolo ao pai que perdeu um filho pequeno ou ao moço que brigou com a namorada.

O fato é que o mundo político moderno foi construído pelos homens cujas idéias eles mesmo consideravam iluminadas; eles se achavam mesmo os Iluministas. A independência dos países latino-americanos – incluindo o nosso -foi feita por auto-suficientes adeptos dessa “luminosidade”. Homens que criaram uma bizarra, uma desumana Fraternidade sem um pai comum...Nossa República, caro leitor justamente aborrecido com o presidente Bush, foi feita por homens que também se consideravam “iluminados”.Não é por acaso que tivemos em 1893 a chacina às margens da estrada de ferro entre Curitiba e Paranaguá (km 65), quando morreram assassinados o Barão do Cerro Azul e seus infelizes companheiros.Nem também por acaso chegamos à atual tragicômica situação política brasileira.

Veja agora leitor a diferença entre a nossa e a civilização medieval. Naquela época existia uma cultura que, em suas realizações concretas, vivia as palavras do Salmo 35:

In lúmine Tuo, vidébimus lumen - “Em Tua luz, veremos a luz” ,

portanto sem a arrogante auto-suficiência que vem sendo a característica comum dos países modernos a partir do Renascimento. Todos os nossos políticos modernos – incluindo os sobrinhos do Tio Sam que trabalham na Casa Branca e no Capitólio – todos são “iluminados”. Não precisam de outra luz que não seja a de sua inteligência.

O que escrevi acima obviamente não é um quixotesco plano de ação para resolver o problema da paz mundial. Mas, pretendo, sim, alertar o meu jovem leitor amigo para outras facetas da realidade que hoje nos angustia. Desejo, sim, despertar pelo menos a curiosidade dos que me lêem para a origem remota dos nossos atuais dramas e tragédias.
De resto, não são apenas os políticos do mundo que se satisfazem com suas próprias luzes.Nós mesmos, homens comuns, não nos lembramos, muitas vezes, de fazer aquela mesma sincera e grave pergunta que São Paulo fez ao Cristo na estrada de Damasco


posted by ruy at 2:23 da manhã

25.3.04

 
Algumas reflexões avulsas


(I) Creio que a pior maneira de envelhecer seja a que ocorre quando existe em nós a descrença. Não propriamente a falta de fé religiosa – ela também – mas uma descrença generalizada, a que faz surgir nos lábios o sorriso auto-suficiente, irônico, maldoso, de quem se compraz nas falhas, nos tropeços, nas quedas dos outros, usando tais fatos como bom assunto de conversa.Aquela descrença que gera o cínico, isto é, alguém que – como diziam os antigos moralistas – sabe o preço de todas as coisas mas não sabe o valor de nenhuma.


(II) Infelizmente há sempre a possibilidade de que, dentro de uma igreja, repleta de assistentes à missa, eventualmente estejam algumas pessoas em respeitoso, educado silêncio, porém interiormente rindo daquilo em que não acreditam, acompanhando a cerimônia como se ela fosse apenas mera tradição popular, em que nada de especial ocorre, além da rotina litúrgica.Pessoas honestas e bem comportadas, porém distantes, muito distantes do mistério. De fato, a missa é sempre um desafio para todos nós, como também o Cristo crucificado foi um desafio para todos os que estavam junto do Calvário naquela primeira Sexta-feira Santa.


(III) Posso ter lido muitos textos de um certo escritor; posso ter entendido o que ele quis dizer em seus livros ou artigos; posso admirar a sua argumentação precisa e o seu estilo elegante.Mas, a menos que eu tenha conhecido pessoalmente o autor, tenha ouvido o modo como ele fala (ou falava), o modo como ele olha (ou olhava ), o jeito como sorri (ou sorria), será bem difícil entender em plenitude o seu pensamento, o seu modo de sentir, a sua crença. Faltando tal conhecimento pessoal, precisamos nos desligar de nossas idiossincrasias e opiniões – principalmente estas – a fim de chegarmos ao homem que escreveu tudo aquilo.


(IV) Em um de seus livros Thomas Merton lembra um fato ocorrido na Alemanha nazista. Durante a invasão de uma igreja por fanáticos das SS, um deles subiu sobre o altar e ali ficou sapateando durante alguns minutos. Comentando o fato, diz o monge escritor que, como nada ocorreu em seguida àquele sacrilégio, o jovem alemão que o praticou deve ter-se decepcionado por haver descoberto que Deus não era nazista como ele.
Todo blasfemador, todo sacrílego tem um desejo oculto, às vezes subliminar, e quase sempre sofre a mesma frustração daquele moço nazista.


(V) Cada um de nós que seja pai ou pai e avô, naturalmente deseja, quer o bem para seus filhos e netos. Até aí, como diziam os antigos, morreu Neves. Porém, pergunto, que chamamos de bem? Seria simplesmente uma vida confortável, com o melhor nível de segurança possível, com um bom emprego, bom salário ? Uma vida honesta, organizada e tranqüila, quem sabe envolvida pelo prestígio típico dos homens e mulheres bem sucedidos ? Apenas isso ? Ora, pergunto, e onde fica a resposta ao mandamento do Cristo: Sede perfeitos como vosso Pai do Céu é perfeito ? Ou será que achamos que tal mandamento seja destinado apenas aos padres, aos monges e às freiras?
Quando o Ruy está preste a colocar a cabeça no travesseiro, pensa em certos moços que têm o meu próprio sangue, uns perto de mim, outros distantes, e, nessa hora, dói-me a consciência por ter deixado muitas e muitas vezes de refletir sobre esse bem maior para aqueles que amo.


Um adendo

A variação semântica das palavras traduz muitas vezes a mudança cultural das civilizações. Neste “post” usei a palavra honesto no sentido com que hoje ela é empregada. Ora, na Idade Média ser honesto(a) significava algo mais que pagar as contas em dia e dormir somente com o respectivo cônjuge.


posted by ruy at 2:22 da manhã

24.3.04

 
Mea culpa


Já escrevi neste “blog” sobre o cuidado que devemos ter para que, entusiasmados com nossas idéias - mesmo que sejam juízos verdadeiros, mesmo que essas idéias estejam balisadas por valores indiscutíveis – não deixemos de prestar atenção nas pessoas. E aí é preciso deixar bem claro que essas pessoas são aquelas mesmas que fazem parte da nossa própria história: o Joãozinho, a Beatriz, o Pedro, a Leninha, o Nelson, a Carolina, o Tico, a Nena, e tantos outros que conhecemos bem: parentes próximos ou distantes; amigos ou conhecidos; vizinhos do mesmo prédio ou companheiros de trabalho. Obviamente usei nomes fictícios; o leitor terá os nomes de seu pequeno mundo. São pessoas reais, de carne e osso; não são abstrações filosóficas.

Se eu parar um pouco e ficar usando de modo voluntário e disciplinado a minha imaginação, essa tão caluniada “folle du logis”, de repente poderei trazer para bem junto de mim qualquer uma dessas pessoas, alguém que more distante ou, embora residindo geograficamente perto de mim, seja uma pessoa que passo meses, anos sem me encontrar com ela. Nem um rápido telefonema.

Nesse transporte mental em que a imaginação é ajudada pela memória, a pessoa chega aqui com armas e bagagens, isto é, com seus defeitos e suas qualidades, seus problemas crônicos e suas alegrias fugazes, suas culpas assumidas e sua involuntária herança das circunstâncias desfavoráveis em sua vida, aquelas que fazem com que demos plena razão a Ortega y Gasset.Como irei receber esta recém chegada? Sentado numa confortável poltrona moralista ou de modo dinâmico, levantando-me do meu descanso e indo ao encontro de alguém por quem, durante anos seguidos, deixei de fazer o mínimo – que de fato é mesmo um máximo – que seria rezar por essa pessoa ?

Essa função de rezar por , essa silenciosa tarefa que ocupou os breves anos de Santa Terezinha neste mundo, há séculos faz parte da essência do Cristianismo. Realizá-la é fazer um íntimo ato de adoração ao doador de todas as graças, é reconhecê-Lo como o Pai de todos nós. Há pessoas de cultura pequena, sem brilhos intelectuais e sem títulos acadêmicos, que sabem executar esse ato de piedade de modo humilde, confiante e, por isso mesmo, eficaz. Tal como o publicano do Evangelho.

Neste momento, a posição do Ruy é tremendamente incômoda porque, ao dar um rigoroso balanço do quanto eu mesmo já fiz, até hoje, dessa discreta, silenciosa tarefa em beneficio de todas as pessoas que estão ligadas a mim, sinto-me em um colossal débito...E só posso dizer isto:
- Mea culpa...


O mistério da liberdade humana


É terrível esse mistério.A liberdade que tenho de optar pela volta à Casa do Pai é a mesma que tenho de seguir em outra direção.Quem ainda não parou para refletir sobre isso pode estar equivocado sobre o que seja de fato viver conforme a fé recebida no batismo.Aliás, para não incorrer nesse equívoco, bastaria refletir seriamente sobre o mistério de Judas.


O pequeno oásis


Ontem, no final da tarde. aconteceu um fato que me fez perceber como este oásis é mesmo bem pequeno e solitário. Perdido no meio de um deserto grande.Mas, isso talvez sirva para que o Ruy faça o que o profeta escreveu:

- rectas facite in solitudine semitas Dei nostri .


Talvez as mais esquecidas


Este “post” já estava encerrado quando me lembrei de outras pessoas que podemos (e devemos) trazer para perto de nós usando nossa imaginação.Aquelas a que se referiu Adélia Prado quando escreveu isto:
.
Uma vela não se finda, vai para o lugar onde se formam os maios e os meninos, para onde vão os que chamamos mortos.
[in “Manuscritos de Felipa”, ed. Siciliano, 1999]


posted by ruy at 5:37 da manhã

23.3.04

 
Em defesa do bom uso da inteligência


Por várias vezes tenho falado sobre a necessidade de recuperarmos em nossa cultura Ocidental moderna o bom uso da inteligência. Em nosso país, temos, entre outros entraves, o erradíssimo nome Ministério da Educação, nome esse que ajuda a manutenção de um pernicioso equívoco dentro das famílias brasileiras. Equívoco, sim, porquanto o processo educativo vai muito além da escolaridade; envolve um trabalho de crescimento interior da pessoa humana, trabalho esse a ser feito pelo adulto, isto é, por alguém que já não esteja tutelado por sua família nem por qualquer escola, seja de que nível for.

Ora, eis que meu amigo A..., o serrano, acaba de me enviar pela Internet o texto que abaixo vou transcrever. Trata-se de uma notícia que se refere justamente a certa oportuna orientação da Igreja no sentido de elevarmos o nível cultural dos ambientes católicos. Isso é maravilhoso! Esperamos que o leitor leia com a máxima atenção o texto ora transcrito.


Indiferença religiosa exige da Igreja um «salto de qualidade» cultural, segundo o Papa.
Cidade do Vaticano, 16/3/2004 – 09:36.
João Paulo II pediu aos católicos um «salto de qualidade» no campo intelectual para poder dar respostas aos questionamentos sobre o sentido da vida propostos por uma sociedade na qual avança a indiferença religiosa.
É o desígnio que o Santo Padre deixou este sábado ao receber em audiência os participantes da assembléia plenária do Conselho Pontifício da Cultura, consagrada nesta ocasião à reflexão sobre «A fé cristã na aurora do terceiro milênio e o desafio da descrença e da indiferença religiosa».
O tema do encontro, reconheceu o Papa, «constitui uma preocupação essencial da Igreja em todos os continentes».
Em sua assembléia, celebrada entre 11 e 13 de março, o Conselho vaticano analisou um estudo mundial sobre a descrença e a indiferença religiosa no mundo no qual se constata que «do ateísmo militante e organizado de outros tempos se passou a uma situação de indiferença prática, de perda de importância da questão de Deus, e de abandono da prática religiosa, sobretudo no mundo ocidental».
Contudo, explica o «Instrumento de trabalho» («Instrumentum laboris»), analisado por cardeais e bispos de todos os continentes, não se trata de «um abandono da crença em Deus».
O cardeal Paul Poupard, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, nas palavras de apresentação que pronunciou ao Papa, explicou que nestas sessões de trabalho se pôde comprovar que a Igreja enfrenta «uma nova situação de vazio interior» nas pessoas.
Esta «espécie de peso espiritual», acrescentou o purpurado francês, constitui um chamado a toda Igreja a «uma renovação no pensamento, na oração e na ação», em particular, a descobrir «novas linguagens para transmitir o Evangelho e tocar tanto a razão como a sensibilidade, conjugando os caminhos da verdade e da beleza».
Em sua resposta ao cardeal, João Paulo II destacou que «para além da crise de civilização, dos relativismos filosóficos e morais, os pastores e os fiéis devem ter em conta os questionamentos e as aspirações essenciais dos seres humanos de nosso tempo, para dialogar com as pessoas e os povos e propor a mensagem evangélica e a pessoa de Cristo Redentor».
«É necessário apoiar o mundo da cultura, das artes e das letras para que contribua à edificação de uma sociedade que não se fundamente no materialismo, mas em valores morais e espirituais», atentou o bispo de Roma.
«A difusão de ideologias nos diferentes campos da sociedade chama os cristãos a um novo salto de qualidade no campo intelectual para propor reflexões vigorosas que apresentem às jovens gerações a verdade sobre o homem e sobre Deus, convidando-lhes a aprofundar em uma compreensão da fé cada vez mais aguda», assegurou.
Fonte: Font, Zenit.org
.

Obrigado, amigo A...! Valeu essa mensagem que você me enviou !





posted by ruy at 2:26 da manhã

22.3.04

 
E agora ?


Depois de muita celeuma, finalmente chega às telas dos cinemas brasileiros o filme de Mel Gibson baseado no maior drama de todos os tempos: a Paixão de Jesus Cristo, Nosso Senhor. Curiosamente, ainda que muitos provavelmente não tenham percebido isso, a própria polêmica que se criou em torno dessa película faz parte do mistério da Paixão. Por quê? A razão disso é a mesma que mantém o Sudário de Turim como um objeto desafiador diante dos que não crêem. Se a crença no Cristo ficasse dependente de uma prova científica já não seria rigorosamente um ato de fé religiosa.Da mesma forma, ingênuo seria um cristão moderno que esperasse acontecer no mundo, depois do filme de Gibson, um repentino desabrochar de milhões de conversões à nossa fé. Temos – e quando digo temos, é porque isso é mesmo importante e necessário – temos de lembrar sempre que a fé é basicamente uma graça de Deus.

Ontem à tarde, logo depois de celebrar a missa vespertina do Domingo Laetare, o padre S... fez uma sintética e clara exposição sobre o filme, incluindo uma oportuna crítica ao modo mesquinho e preconceituoso com que os críticos de cinema do Rio acolheram o filme.
Ressaltou, para nós que assistíramos à missa, alguns aspectos, tais como a maneira fiel com que Gibson retratou a brutalidade da flagelação, castigo comumente usado pelos romanos na época. Referiu-se a uma hábil montagem usada pelo produtor do filme, a saber, quando Jesus é pregado na cruz, surgem na tela, em “flashback” , as cenas da instituição da Eucaristia, ouvindo-se as mesmas palavras com que o Senhor criou o maior dos sacramentos, as mesmas que ao longo dos séculos os celebrantes vêm repetindo na missa. Portanto, uma feliz associação teológica feita por Mel Gibson..

Bem, o filme está ai. E agora?
Há muitas pessoas que olham para o Cristianismo é enxergam nele apenas um magnífico acervo de idéias humanitárias, uma filosofia de vida capaz de criar um convívio pacífico entre os seres humanos.Por incrível que pareça, até mesmo entre pessoas batizadas, homens e mulheres que se dizem católicos, há muitos que vivem sua fé como se ela fosse mesmo simplesmente um modo de viver bem comportado, sem nenhum desafio, sem nenhum convite à santidade.

Neste instante, convém lembrar um dito de Santo Agostinho, uma reflexão a que Dom Lourenço de Almeida Prado OSB várias e várias vezes referia-se em suas homilias (hoje, com o peso da idade, o monge nosso amigo não mais celebra em público).A santidade neste mundo, dizia o filho de Mônica, não consiste tanto em já ser santo, mas, sim, em estar sempre em busca da santidade.

Ora, nessa desejável procura da santidade, é preciso estarmos com nossos atos orientados justamente por uma Pessoa, aquela mesma pessoa de quem Mel Gibson, com muito realismo, mostrou os dolorosíssimos sofrimentos.Já faz muitos anos, neste país, um engenheiro de meia idade, profissional competente, homem inteligente, culto e dotado de sensibilidade artística, publicou um livro em que narrava, de peito aberto, a sua pessoalíssima descoberta do Outro.Para muitos que já leram o livro, incluindo católicos, talvez sem uma adequada atenção, esse outro seria o nosso próximo.Porém, conforme em um feliz artigo disse José Arthur Rios, o Outro era mesmo Jesus Cristo, nosso Mestre e nosso Irmão.

Deus queira que o filme ora em exibição nos cinemas possa contribuir para muitos outros encontros pessoais com esse Outro cuja imensurável Paixão dá sentido, confere significado, aos nossos próprios sofrimentos, se os aceitarmos olhando a Sua cruz.



posted by ruy at 4:48 da manhã

 

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