Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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21.3.04

 
Sobre o juízo artístico


Meu amigo M..., o engenheiro, mais uma vez enviou-me um ótimo texto, desta vez versando sobre o juízo artístico.
Trata-se de um trecho da obra “Raison et Raisons”, de Jacques Maritain, um grande filósofo católico, hoje infelizmente bastante esquecido e, pior, criticado por muitos de nós católicos que pouco ou quase nada lemos do muito que foi escrito pelo notável pensador francês.Aliás, existe entre nós brasileiros uma frase popular irreverente que diz assim: “não li e não gostei”. Creio que muitos de nós, infelizmente, dizemos ou pensamos isso ao nos referirmos a Maritain.
Vamos citar algumas partes do texto que nos foi enviado, em tradução de Roberto Mallet.

Nossa atitude frente às obras de arte depende de nosso gosto natural e de nossa educação artística, mas depende também, e mais fundamentalmente, da própria concepção que temos da arte.Se acreditamos que a arte seja um simples exercício de habilidade destinado a agradar, ou a distrair-nos por alguns momentos, ou a apresentar-nos sob uma forma aprazível e fácil uma imagem das idéias que já carregamos em nós mesmos, exigiremos de uma pintura ou de uma sinfonia que nos confirmem nosso própria visão das coisas; é o assunto tratado que nos interessará nelas, e nós exigiremos que esse assunto seja abordado de acordo com o rol de conceitos previamente formados que pareçam exprimir a verdade a seu respeito.Julgaremos a obra de arte como um objeto que nos é submisso, a nossa disposição de espírito será, portanto, a medida do juízo. Em semelhante caso, a bem da verdade, não julgamos a obra de arte, nós é que somos julgados por ela.

É tradicionalmente conhecida a elegância da prosa gaulesa, sem que essa qualidade prejudique a precisão com que o assunto nos é apresentado, isso pelo menos no que toca aos autores não incluídos entre os mais modernos ou modernosos. Aliás, a respeito do assunto Dom Ireneu Penna OSB comenta que os pensadores franceses mais recentes, envergonhados de seus antecessores mais próximos, vêm procurando recuperar aquela boa e tradicional linguagem que encontramos em Maritain e outros autores da mesma época dele.
Se o leitor reler com mais atenção o trecho citado inicial perceberá juntas a elegância e a precisão expressa de forma concisa. Continuemos.

Será completamente diferente se pensarmos que a arte seja um esforço criador cuja fonte é espiritual, e que nos entrega a um só tempo o si mais íntimo do artista e as secretas correspondências por ele percebidas nas coisas, por uma visão ou intuição que lhe é própria e que é inexprimível em idéias ou exprimível somente com palavras em uma obra.
Então essa obra surgirá diante de nós carregada de um duplo mistério, o da personalidade do artista e o da realidade que tocou seu coração.E o que nós lhe pediremos será que nos manifeste esse mistério na alegria sempre nova que é produzida pelo contato com a beleza.Julgaremos a obra de arte como o veículo de uma verdade oculta, à qual essa obra, e nós mesmos, estamos juntamente submetidos, e que é a um só tempo a medida da obra e de nosso espírito. Em semelhante caso haverá um verdadeiro juízo, porque não erigiremos a nós mesmos como juízes, mas procuraremos tornarmo-nos dóceis àquilo que a obra, se ela é boa, nos ensina.


Enquanto lia este trecho do texto que me foi enviado lembrava-me de um fato interessante. Liga-se ao relativo valor da nossa opinião. Vale a pena ler a respeito o que Gustavo Corção escreve em seu livro “O Desconcerto do Mundo”, por exemplo, quando ele nos conta como foi a reação dos críticos e do povo francês quando surgiram os primeiros quadros impressionistas.

Não vou continuar citando outros trechos do texto que me foi enviado. Acho que as amostras sejam suficientes para despertar o interesse dos distraídos.

Termino agradecendo à gentileza do meu amigo M..., o qual, apesar de ter muito trabalho em sua profissão, ainda acha tempo para dedicar-se à tarefa mais importante, a de puxarmos para cima a cultura deste país.


Domingo Laetare

Hoje, abrindo um rápido parêntese na Quaresma, é o chamado Domingo Laetare , do latim, na forma do imperativo: “Alegrai-vos! “ Alegrai-vos com a Páscoa que se aproxima !









posted by ruy at 2:44 da manhã

20.3.04

 
Visões limitadas e estáticas


Hoje em dia, qualquer fato que mexa muito com nossa sensibilidade, não importa em que parte do mundo ele ocorra, é trazido rapidamente ao nosso conhecimento, graças aos fantásticos recursos das telecomunicações.Isso é acaciano, porquanto é sobejamente conhecido, porém preciso começar o “post” por aí.Por quê ? Porque justamente essa tremenda rapidez com que a informação é divulgada vem paralisando nossa capacidade de refletir (já citei neste “blog” o artigo magistral de Daniel Boorstin, publicado em Seleções em 1982, em que o mesmo tema é abordado).

A maioria das pessoas que vêm acompanhando as notícias infelizmente está ficando com aquilo que chamo de “ uma visão limitada e estática”. Limitada porque não é mais capaz de uma apreciação ampla dos fatos, isto é, encara-os de modo cartesiano, reduzindo as variáveis a umas poucas, de modo a simplificar a análise do que está ocorrendo(daqui a pouco serei mais específico). Estática porque, ao introduzir na análise o importantíssimo parâmetro tempo dá a esse parâmetro um valor tão pequeno, tão irrisório, que o torna insuficiente para chegarmos às causas remotas dos fatos que hoje nos angustiam. Aliás, essa recusa de um olhar mais profundo para o passado talvez seja uma das maiores desumanidades que estão ocorrendo conosco, dentro de nós, sem que estejamos percebendo isso Se a memória não me trai, foi o autor de “Dois Amores, Duas Cidades” quem escreveu isto:
a retração (isto é, o esquecimento voluntário) do passado é própria dos bárbaros e dos imbecis.

Faz alguns dias, ocorreram na Espanha três simultâneos violentos e covardes atentados terroristas, dos quais resultaram centenas de mortos, incluindo um moço brasileiro que lá estava morando, segundo a Internet, vivendo de biscates.Pois bem este é o fato. Pergunto agora: como a visão “estática e limitada” apressou-se a analisar o ocorrido na terra de Dom Quixote e de Santa Teresa d’Ávila ?

Mais do que depressa, formulou-se a pergunta fácil e imediata: “quem foi? “ E logo em seguida, foram propostas as variáveis do problema: Bush, Blair, Bin Laden, Aznar, petróleo, dinheiro.Esqueci alguma?
No que tange ao tempo , a proposição típica é esta: “os Estados Unidos são mesmo arrogantes e prepotentes”.

Ao reduzir as variáveis àquelas poucas que citamos, cria-se, sem que se note, um isolamento, uma posição cômoda, sem maiores compromissos.Não importam as manifestações de solidariedade para com as vítimas nem as manifestações de revolta contra os terroristas ou contra os americanos e ingleses.Tudo se passa como se houvesse dois mundos bem distintos, um, o dos bandidos, e o outro, o dos mocinhos , isto é, o nosso lado, que não somos ricos, não ligamos para o dinheiro nem para o petróleo, nem somos imperialistas, e nem muito menos terroristas.Prontinhos para ir para o Céu..

Por outro lado, naquele sintético são (os EUA são ), isto é, o verbo ser no presente do indicativo, estamos mostrando que pouco ou nada nos interessa saber como acabou existindo no mundo ocidental um país prepotente com o muito esquisito nome de Estados Unidos da América.Pouco ou nada nos interessa saber que as doutrinas filosóficas Iluministas que geraram o poder político dos EUA são as mesmas, exatamente as mesmas que geraram, por exemplo, as tão faladas republiquetas da América Latina, entre as quais esta que possui um Ministério da Cultura (...), hoje ocupado por um irrequieto cantor popular.Pouco ou nada nos interessa saber que, em uma certa época bem antiga, não existia essa arrogância do Nacionalismo, que é um dos frutos venenosos do antropocentrismo.
Dane-se a história! Vivamos no presente! Castigue-se os EUA e pronto, fica tudo bem. Não precisaremos nos preocupar com mais nada, só com nosso conforto, e empurrar com a barriga a desconfortável realidade da morte.

Pobre da inteligência, coitadinha, como tem levado pancada (...) nesta nossa cultura ocidental moderna...


Um adendo


Este “post” já estava encerrado quando me lembrei de um telefonema recebido ante ontem.Esse telefonema faz com que eu transcreva a seguir um trecho do Evangelho:

- Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber; e não andeis com vãs preocupações.Porque os homens do mundo é que se preocupam com todas estas coisas.Mas vosso Pai bem sabe que precisais de tudo isso.Buscai antes o reino de Deus e sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo.
(São Lucas, cap.12, vs.29 a 31).

Será preciso explicar que a justiça do Reino não é a mesma do homem?
E será preciso dizer, pela n-ésima vez, que, há uns cinco ou seis séculos, os chefes das nações Ocidentais – todas - vêm pouco se lixando para o mistério da Redenção do homem?

Há um fato bastante curioso que talvez fosse oportuno lembrar agora. Charles de Foucauld largou uma vida de “bon-vivant”, de “play-boy”, abandonou a nobreza, o dinheiro, e converteu-se à fé de seu batismo a partir do dia em que ficou atento ao modo como os muçulmanos rezavam.


posted by ruy at 2:22 da manhã

19.3.04

 
Uma ponte longe demais


[Como neste “post” vou falar sobre um assunto que desagrada a maioria das pessoas, um desagrado bastante compreensível, peço apenas um pouco mais de paciência, além da costumeira com que lêem este “blog”]

Cornelius Ryan foi um jornalista americano que se tornou famoso ao dedicar-se a escrever livros sobre fatos reais da segunda Guerra Mundial. Alguns desses livros foram aproveitados como temas de roteiros de filmes, entre eles o “ A bridge too far “ , título entre nós traduzido por : “Uma ponte longe demais”, na minha opinião o melhor filme de guerra já produzido até hoje .

Versa a película sobre uma gigantesca operação militar, nome código “Market-Garden”, envolvendo tropas americanas, inglesas e polonesas, cujo objetivo final era penetrar na retaguarda das tropas alemãs, ao norte dos chamados Países Baixos, e como isso acelerar o término da guerra. Se a concepção era razoável e mesmo desejável, infelizmente a execução teve falhas terríveis que resultaram em um quase fracasso completo.

A produção do filme teve um planejamento primoroso, chegando ao requinte de colocar nos principais papéis atores das mesmas nacionalidades das principais personalidades envolvidas na história, assim: atores americanos representando militares daquele país, idem quanto aos ingleses, o mesmo quanto aos alemães. Os saltos de pára-quedistas que aparecem no filme foram feitos pela veterana e famosa 82 ª ,uma das divisões que participara da “Market-Garden”.Muitas cenas foram feitas na própria Holanda, cenário das batalhas da referida operação.

A música de fundo (atenção, Alfredo Votta!) dessa obra prima do cinema é uma linda, uma vibrante marcha militar, bem apropriada para animar aqueles que vão partir para cumprir uma missão a priori sabida como muito difícil de realizar. Contrastando com essa música tão alegre, quase no final do filme ouvimos um belíssimo e comovente solo de flauta transversa, tocada por um soldado inglês ferido e prisioneiro, seguido pelo dorido canto religioso dos demais prisioneiros. É uma cena inesquecível.

Um dos momentos mais dramáticos é o de uma travessia do rio Reno, em um trecho fortemente defendido pelos alemães. Vemos, sobre a tela bem aberta, aquele grupo de frágeis botes de borracha, levando os soldados ao comando do bravo major Julian Cook (vivido por Robert Redford), que era católico, o qual rezava repetidamente, enquanto remava junto com seus homens: “Ave Maria, cheia de graça...”, “Ave Maria, cheia de graça...”., Em extrema tensão, entre as rajadas das metralhadoras que varriam a margem do desembarque e sob as granadas dos morteiros que explodiam sobre os botes , ele não conseguia completar a prece.

De fato, a operação envolvia a conquista de várias pontes, cuja posse daria passagem às tropas blindadas dos Aliados. A mais distante, aquela que motivou o nome do livro de Ryan e o conseqüente título do filme, ficava na graciosa cidade holandesa de Ahrnem. Tal objetivo foi designado para os Red Devils, corajosos pára-quedistas britânicos, ao comando do tenente coronel John (“Johnny”) Frost, no filme brilhantemente interpretado pelo versátil ator Anthony Hopkins. O veteraníssimo ator Lawrence Olivier faz o papel do dedicado médico cirurgião holandês que intercedeu junto a um general alemão em favor dos prisioneiros ingleses.

Faz algum tempo, sugeri ao meu amigo A ..., o inteligente poeta paulista, que assistisse a esse filme. Ora, ele viu, gostou e depois me enviou uma mensagem trazendo este muito feliz comentário, certamente inspirado em Borges:

Até mesmo na derrota existe poesia.

Sugestão para os nossos leitores: não deixem de ver esse filme em que – se prestarmos atenção - podemos ver, bem de perto, a grandeza e a miséria humanas.

Ora, estamos na Quaresma. Seria bom lembrar agora que a cruz do Cristo, sob uma perspectiva meramente humana, foi um imenso fracasso, uma humilhante derrota. Porém, ali, por dentro daquele arquidoloroso sofrimento, estava a mais fulgurante das poesias, aquela que somente Deus poderia conceber: a Redenção do Homem, um poema que ficaria definitivamente completado no Domingo de Páscoa.


Hoje, 19 de março: Solenidade de São José


Excelente oportunidade para refletirmos sobre certas virtudes, tais como a obediência e a discrição.


posted by ruy at 2:29 da manhã

18.3.04

 
Um pungente e justo desabafo


Vou transcrever abaixo trecho da mensagem que recebi ontem à tarde de um leitor a quem muito prezo. Trata-se de um moço inteligente, culto e, sobretudo, dotado de um atributo que hoje em dia, infelizmente, vai ficando cada vez mais raro: a sensibilidade. E não estou me referindo a uma sensibilidade exagerada, dessas que derramam lágrimas por qualquer motivo. A desse amigo, a quem só conheço pelo que escreve, e escreve muito bem, é uma sensibilidade que está em paz com a inteligência; nele, as duas se dão muito bem !
Há quem ache que o assunto mais prioritário, mais urgente para ser tratado hoje em dia seja a política. Para mim, não é não ! Para mim é, sim, a recuperação do bom uso da inteligência, essa faculdade com que Deus nos dotou, colocando-nos logo abaixo dos Anjos na hierarquia da Criação. Por isso, acho que o desabafo do meu amigo tem uma enorme relevância. Vamos ouvi-lo!

No ano passado me aborrecia bastante, durante a Quaresma, ir à igreja e escutar cantarem música sobre índios. Não entendo muito bem esta Campanha da Fraternidade, para ser sincero. Não acho que não possa ser realizada, mas fazem-na justamente na Quaresma. São feitas reflexões, por quarenta dias, sobre assuntos completamente alheios à morte e à ressurreição de Cristo.
Não sou ninguém para comentar, pois minha religiosidade é extremamente volúvel e volátil, devo admitir; mas parece-me haver uma incoerência com o calendário e o ensinamento da Igreja. Passa-se a Quaresma falando de índios ou de água.
Outro dia eu assisti a uma reunião comunitária, que acompanha o livreto da campanha. De religião, houve o sinal da cruz no início e no fim, além de uma dezena do terço, no final. Dentro disso, houve uma hora de debates sobre a água, e políticos e uma série de comentários absolutamente inadequados. Achei lamentável e triste.
Sei que não posso dizer nada, pois não tenho sido fervoroso ultimamente, mas é difícil não observar as incoerências.


Peço ao leitores que releiam sem pressa o que acima transcrevi. E depois, por favor, reflitam e me digam, por favor, com sinceridade, o que deve ser mais preocupante, as bobagens e os absurdos dos nossos dirigentes políticos ou os fatos como esses acima comentados. pelo meu amigo.


A fábula do sábio Zen


[Esta historieta foi-me contada há muitos anos por um padre. Se o leitor prestar atenção, verá o alcance da narrativa]

Vinha por uma estrada da Ásia um sábio Zen, já amadurecido pelos anos, seguido de perto por um grupo de discípulos bem moços.
De repente, o mestre e seus acompanhantes chegaram às margens de um regato e ali perceberam uma bela jovem que, temerosa, não se arriscava a fazer a travessia, apesar da mansidão das águas e da pouca profundidade da correnteza.
O sábio Zen, vendo a indecisão da moça, rápido levantou-a e, com ela no colo, atravessou a correnteza, colocando a beldade em pés enxutos na margem oposta. Em seguida, continuou seu caminho, na mesma calma em que vinha andando.

Lá por umas tantas, notou um burburinho no grupo que vinha atrás; seus discípulos pareciam estar discutindo uns com os outros. Parou e perguntou a eles qual era o problema.
Um dos moços, menos tímido que os demais, respondeu:
- Mestre, é que vimos o senhor carregando aquela mulher no colo...
O sábio olhou para eles serenamente, um por um, e disse com a voz bem tranqüila
- Eu deixei a mulher lá atrás, na margem do regato. Vocês é que continuam com ela no colo.







posted by ruy at 2:24 da manhã

17.3.04

 

Ana Catarina Emmerich


Segundo notícia dada por várias fontes na Internet, Mel Gibson teria montado várias cenas de seu filme “The Passion” a partir da leitura que fez das visões da Venerável Irmã agostiniana Ana Catarina Emmerich, religiosa alemã nascida em 1774, em Flamshe, e falecida em 1824, na localidade de Dulmen.
Pois é, a primeira vez que ouvi falar em Ana Catarina Emmerich foi no livro “As Grandes Amizades”, de Raïssa Maritain, traduzido por Josélia Marques de Oliveira, edição da AGIR, leitura essa que fiz justamente há meio século.
Bem a propósito, vale a pena ler duas referências de Leon Bloy a essa recém beatificada mulher:

- No entanto, outrora, bem antes de Lutero, a Alemanha deu alguns santos à Igreja.E mesmo no começo do século passado[Bloy está escrevendo esta referência no começo do século XX] , viu-se sair de uma velha família de camponeses da Vestifália, essa espantosa flor de misticismo cristão que se chamou Ana Catarina Emmerich.
- É preciso ler o testemunho da inigualável Ana Catarina Emmerich que recebeu, no começo do século passado, o privilégio de ter sido testemunha, ocular e auricular, da Dolorosa Paixão


História (real) de Terror


Nos meados da década de 70, certo dia um homem surge em uma cidade do oeste do Paraná. Estabelece-se como pacífico e cordial comerciante. Casa-se com uma mulher do lugar, com a qual tem um filho. Para a sua família e para as demais pessoas da cidade, aquele homem tem um certo nome e é, sem dúvida alguma, uma determinada pessoa. Passam-se alguns anos. É decretada uma anistia política no país e, de repente, aquele mesmo pacífico habitante revela-se – para geral surpresa, incluindo a de sua família - quem realmente ele era.Ficaram, pois, sabendo que: tinha um nome muito diferente daquele com que se apresentara, era um antigo militante político da Esquerda, um inteligente e sagaz ativista ligado ao terrorismo,um amigo do ditador cubano e outras “cositas más”. Deixa a mulher, o filho, a cidade que o acolhera e volta aos centros políticos para continuar fazendo o que sua paixão verdadeira sempre o inspirara a fazer: conspirar para a conquista do Poder, a fim de instalar no Brasil um regime tipo “colégio interno”.

Está aí um excelente exemplo do que pode acontecer quando a paixão por uma idéia se sobrepõe ao amor que devemos ter pelas pessoas que nos cercam.
Resta para nós outros a lição, a de não nos entregarmos exclusivamente às nossas idéias, por mais certas, por melhor inspiração que elas tenham.


Lantejoulas ou testemunho ?


Manter um “blog” é uma tentação permanente, a de usarmos o brilho dos muitos recursos da linguagem em prosa ou verso, e mesmo os modernos e imaginativos recursos do computador para despertar nos eventuais leitores a admiração, o sorriso de contentamento, o momento de leveza tão necessário em meio à agitação do quotidiano.Editar um “blog” pode ser um constante convite a esse nosso “protagonismo” subliminar.

Entretanto – cuidado, Ruy ! – o ato de escrever deveria ser de fato um testemunho de algo muito mais sério, muito mais importante que o de agradar ao leitor. Deveria, sim, testemunhar, ainda que de modo canhestro, o silencioso oceano de mistérios em que vivemos, sem prestar atenção nisso.


posted by ruy at 5:40 da manhã

16.3.04

 


Suposições


[ Este item foi-me inspirado pelas críticas pertinentes e educadas feitas por meu amigo M...- o engenheiro eletricista – feitas a um dos meus “posts” mais recentes. Espero que o que vou escrever agora complemente de modo eficaz o que escrevi sobre “Idéias e pessoas” .Obrigado, M...!]

Suponhamos que eu resolva abordar neste “blog” um tema bem atual e bem relevante, como os que diariamente nos são sugeridos pelos fatos políticos do Brasil e do mundo (convindo sempre lembrar que não estamos de forma alguma separados do restante do planeta; tudo o que acontece aqui está ligado, no tempo e no espaço, ao que aconteceu e acontece lá fora ).
Suponhamos que, ao abordar o referido tema eu adote um critério de análise que seja filosófica e até mesmo teologicamente correto (sendo obviamente essa correção admitida pela maioria dos meus poucos leitores).
Suponhamos que, durante a minha abordagem, eu exponha uma argumentação não só precisa, fiel aos cânones da Lógica, como também brilhante no que se refere à linguagem por mim usada, uma linguagem capaz de entusiasmar os que me lêem.
Suponhamos que, além dos argumentos sólidos sobre os quais apoio minha análise, eu dê ótimos exemplos de fatos que corroborem minhas idéias e me ajudem a convencer um leitor indeciso.
Suponhamos ainda que, para confirmar meu conhecimento do assunto, eu inclua no meu texto várias citações de pensadores, escritores respeitáveis, crentes ou descrentes, autores antigos e modernos conhecidos ou não pelo meu eventual leitor.

Pois bem, feitas essas suposições, todas a mim favoráveis, digo e afirmo agora isto:
- tudo o que o que apresentei ao leitor, ao abordar o tema por mim escolhido, terá um valor bem diminuto, ou mesmo nulo (veja bem leitor: nulo ), se esse meu trabalho intelectual não servir para que os leitores e eu mesmo melhoremos como pessoas humanas. Será um trabalho intelectual de valor irrisório se não contribuir para o meu crescimento interior e para o crescimento interior dos poucos que me lêem.
Trocando em miúdos: nada valerá o que eu escrevi se, ao terminar a leitura do meu texto, o visitante deste oásis não sentir um pouco mais de vontade de ser uma pessoa melhor.

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Três livros esquecidos


Por diversas vezes, e não sem motivo, tenho me referido a uma obra que lamentavelmente foi colocada no ostracismo neste país, o livro “Dois Amores, Duas Cidades”, de Gustavo Corção. Ora, vou agora falar sobre três outros livros de um outro autor e que, infelizmente, também foram relegados ao esquecimento.
O escritor a que vou me referir é o insigne pensador americano, falecido faz poucos anos, quase centenário, Mortimer Jerome Adler. Os três livros foram traduzidos para o português.

Comecemos por este : “Como ler um livro”, escrito de parceria com um amigo de Adler, Charles van Doren , traduzido por Aulyde Soares Rodrigues, editora Guanabara (existe uma outra edição, também traduzida ).
O livro está dividido em quatro partes: 1.AS DIMENSÕES DA LEITURA, 2.O TERCEIRO NÍVEL DE LEITURA: LEITURA ANALÍTICA, 3. COMO ABORDAR OS DIFERENTES TIPOS DE LEITURA e 4.AS METAS FINAIS DA LEITURA.

Seria enfadonho citar todos os títulos que constituem cada uma dessas partes do livro. Mas, para que o leitor possa ter uma idéia do conteúdo dessa obra, que é um clássico nos EUA e no mundo, limitemo-nos ao que está na terceira parte :
- leitura de livros práticos;
- leitura de ficção;
- sugestões para Leitura de Ficção, Narrativas, Peças e Poemas;
- leitura de História;
- leitura de Ciência e Matemática;
- leitura de Filosofia;
- leitura de Ciência Social.

Um aspecto que precisa ser ressaltado neste momento é o seguinte: apesar do título do livro, o assunto é abordado por Adler seguindo aquele seu estilo descontraído, leve, no qual está ausente o menor sinal de um antipático magister dixit , uma descontração tipicamente adleriana, para os que já estamos acostumados a ler o saudoso mestre.

O segundo livro é “A Proposta Paidéia” (um manifesto educacional), traduzido por Marília Lohmann Couri, edição da Universidade de Brasília, em 1984.Na época, ficamos sabendo da existência do livro graças ao meu amigo, grande educador, Dom Lourenço de Almeida Prado OSB, grande adimirador de Adler.
Nesse livro, pequeno no tamanho (menos de cem páginas ), vemos claramente proposto o desejável esquema (se esta for a palavra mais adequada) para organizarmos o ensino do segundo grau, sem dúvida alguma o mais importante no que tange ao treinamento dos adolescentes para sua futura educação (estamos sintonizados com Adler quando ele afirma que a educação de fato só pode ser feita pelo adulto, isto é, por alguém que não é mais tutelado, seja pela família, seja pela escola, de qualquer nível).

Em um dos capítulos de sua Proposta, Adler expõe os três objetivos de um curriculum que deve ser o mesmo para todos os alunos da escola secundária, ricos, classe média ou pobres, a saber:
- aquisição de Conhecimento Organizado;
- desenvolvimento de Habilidades Intelectuais;
- compreensão ampla de Idéias e Valores.
Esse terceiro objetivo pode ser visto como uma pessoalíssima contribuição de Adler, haja vista a preocupação, o carinho que ele teve a vida inteira com o referido assunto

Destacamos um pequeno trecho do livro:
- De todas as criaturas na Terra, os seres humanos são os menos especializados em equipamento anatômico e em modos de comportamento instintivo. São, em conseqüência, mais flexíveis do que outras criaturas em sua habilidade de ajustar-se às mais amplas variedades de ambientes e a circunstâncias externas rapidamente cambiantes. Ajustam-se a todos os climas e condições na terra e perpetuamente se adaptam ao choque da mudança.
E é por isso que o ensino geral, não especializado, tem a qualidade que é mais conveniente para a natureza humana.

[lembramo-nos agora do infeliz “ensino profissionalizante” que em certa época foi introduzido nas escolas secundárias deste país...].

Finalmente, o terceiro livro de Adler, traduzido entre nós e que foi também infelizmente esquecido é “Os Anjos e Nós”, traduzido por Ruy Jungaman, editora Ediouro.
Como muitos leitores devem saber, Adler foi um dos organizadores da famosa coleção dos Great Books of the Western World , conjunto esse que tem como anexo o utilíssimo Syntopicon , um volume em que estão catalogadas as 102 idéias básicas do pensamento ocidental. Ora, por influência direta e insistente de Adler, a idéia de anjo foi incluída naquele conjunto.

Essa inclusão motivou Adler a escrever um opúsculo específico sobre o tema: Anjos.
Nesse brilhante ensaio, o grande pensador aborda o tema desde a inicial questão quanto à possibilidade mesma, à mera possibilidade da existência dos anjos; depois, passa pela doutrina religiosa, pela concepção filosófica terminando com a apresentação das falácias do pensamento moderno quando este se propõe a comentar a realidade dos seres que, na hierarquia da Criação, estão logo acima de nós.

Obviamente, durante milhares de anos, homens e mulheres de espírito simples, de precária cultura, acreditaram nos anjos, veneraram os anjos. Mas, é bem possível que um leitor dotado de um bom nível de instrução, depois de ler as minuciosas explicações de Adler, fique menos acanhado de rezar a tradicional oração ao nosso Anjo da Guarda :

Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade Divina, sempre me rege, me guarda, governa e ilumina. Amén.


posted by ruy at 5:20 da manhã

15.3.04

 
A indesejada das gentes

Assim a chamou Manuel Bandeira. De fato, nenhuma pessoa normal deseja a morte, ou em situação normal, pelo menos. Bem, a partir deste ponto começam as diferenças.
Existem os temerosos, os que mal conseguem esconder um permanente medo da morte; creio que seja relativamente pequeno o número dos “medrosos”.Acho que o conjunto bem mais numeroso seja o formado pelos que podemos chamar, lato sensu , de “estóicos”.Se prestarmos bem atenção, poderemos perceber que a maioria dos políticos mais famosos, dos grandes administradores da indústria e do comércio, dos homens que dispõem de uma forma ou de outra do Poder, a maioria dessas pessoas vive um certo estoicismo diante da morte.
Existe o conjunto dos cristãos, entre os quais, infelizmente, estão muitos – ai de nós ! -que vamos empurrando a morte com a barriga Um número menor vive realmente a Esperança. Aquela que, em anos passados, cantávamos na hora da comunhão:

E quando amanhecer,
O dia eterno, a plena visão,
Ressurgiremos por crer
Nesta vida escondida no pão.


[De fato, era mais fácil tirar esse belo cântico do repertório litúrgico que explicar aos fiéis estar a palavra “pão” referindo-se às sagradas espécies ]

O grande perigo

Anos atrás, alguém disse ao Ruy esta frase em tom sentencioso:
- Ruy, há três coisas perigosas na vida de um homem: jogo, bebida e mulher !

Na ocasião, sendo eu bem mais moço que meu interlocutor, fiquei constrangido e não retruquei dizendo a ele que a ambição de Poder é de fato um perigo maior que aqueles.
Ora, com o passar dos anos, com o embranquecimento dos meus cabelos, hoje creio que exista um perigo ainda mais sutil, o ser bem sucedido na vida. Por quê? Provavelmente porque o homem bem sucedido na política, na carreira profissional ou nos negócios dificilmente vai admitir que seus critérios de julgamento, suas concepções da moral, sua escala de valores sejam falhos.

Ver e ver

Régine Pernoud, em seu livro traduzido para o português : “Idade Média - o que não nos ensinaram” comenta o melancólico fato, por ela observado, de que diariamente centenas e centenas de parisienses passam em frente à catedral de Notre Dame sem prestarem atenção naquele maravilhoso exemplo de arquitetura medieval. Podemos dizer que eles a vêm mas não vêm .
De fato, qual daqueles transeuntes apressados, ao passarem junto daquelas veneráveis paredes, daqueles arcos elegantes, vai lembrar-se de que ali, no interior daquela igreja, rezaram reis e rainhas de França? Qual daquelas distraídas moças a caminho do trabalho vai lembrar-se de que, no século XVIII, ali, no altar sagrado, foi cometida uma sacrílega blasfêmia, criada pela perversa imaginação dos ateus que fizeram a Revolução Francesa ?
Qual dos moços que, em seu trajeto para a universidade, passando em frente aos milenares portões, vai lembrar-se de que, um certo dia, em pé junto de uma das colunas silenciosas que sustentam a abóbada, um moço como eles, inteligente e culto, chamado Paul Claudel, meditando no mistério do Natal, de repente converteu-se à fé católica ?

Três perguntas fundamentais

Curiosamente, estas perguntas não foram feitas por um filósofo ou, se foram, tornaram-se de fato conhecidas como propostas por um artista, pelo irrequieto pintor Paul Gauguin:
- D’où sommes-nous? Que sommes-nous ? Où alons-nous ?

Se o leitor prestar um pouco de atenção nas três questões armadas pelo famoso neo-impressionista que se encantou pela Baía da Guanabara, vai logo intuir que elas são básicas na vida de qualquer ser humano, seja ele filósofo, artista ou simplesmente uma pessoa comum.
Está aí uma boa pergunta: existe de fato uma pessoa comum ? Pense bastante nisso amigo leitor !

Terrorismo

Diante dos brutais e covardes atos terroristas dos quais quase diariamente tomamos conhecimento pela TV, pelos jornais ou pela Internet, a grande maioria das pessoas logo pergunta : “Quem foi o responsável? Quem realizou o atentado ? “
Segundo penso, a pergunta que deveria vir em primeiro lugar é esta: “Por quê?”
Muitos de nós, confortavelmente sentados na cadeira do Presente, olhamos olimpicamente para o Passado e não conseguimos entender as Cruzadas. Não percebemos que, se é verdade que, em certa distante época, houve sangrentas lutas entre cristãos e muçulmanos, lutas como as que, libertando a península Ibérica, empurraram de volta os árabes para o outro lado do estreito de Gilbratar e as lutas que, por um certo período, mantiveram livre a Terra Santa, aqueles combates eram naïves , os inimigos viam-se refletidos uns nos olhos dos outros.Esta é a pergunta-chave: “por que deixamos de ser naïves ?”

A Cruz

Um dos bons efeitos do polêmico filme de Mel Gibson é o de fazer pensarmos na cruz.
Olhando a forma típica da cruz, em sua ortogonal e brutal simplicidade, quem entre nós terá por acaso pensado nessa realidade nuclear da vida cristã?
De fato, as nossas cruzes individuais têm as formas mais estranhas, mais bizarras; silenciosas umas, ruidosas outras; percebidas por nós, umas, desconhecidas por nós, outras; intermitentes umas, permanentes outras; enfeitadas umas, ficando transparentes para o mundo exterior, repulsivas outras, impedindo a quem as carrega de ter o eventual consolo que poderia ser dado por um outro homem.Entretanto, é preciso lembrar que, para o cristão, a cruz só é realmente cruz se assumida com nossos olhos postos na Eternidade.
Quem saberia, por exemplo, que Tomás Morus, sob aquele brilhante traje de Lorde Chanceler, vestia um áspero cilício, para lembrar-se sempre do Reino verdadeiro, aquele para o qual todos fomos criados?.



posted by ruy at 2:23 da manhã

 

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