Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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14.3.04

 
A Função da Beleza na Religião


Recebi na sexta-feira mais um ensaio de Dietrich von Hildebrand enviado pelo meu amigo M..., o engenheiro eletricista.Desta vez trata-se de O Papel da Beleza na Religião, traduzido por Carlos Ancêde Nougué.
[O autor, nascido em 1889 e falecido em 1977, foi um notável filósofo alemão, discípulo de Husserl e amigo de Max Scheller. Em seu país, opôs-se ao nazismo, o que quase lhe custou a prisão. Seu livro famoso é O Cavalo de Tróia dentro da Igreja, obra em que desmascara os diversos tipos de modernismos que nas décadas de 60 e 70 infiltraram-se nos ambientes católicos].
O tema do ensaio me é muito caro, razão pela qual o “post” de hoje será a ele dedicado. Se o leitor vem visitando regularmente este pequeno oásis deverá ter reparado que por diversas vezes me referi ao verso de Olavo Bilac em que ele diz, com muito acerto: a Beleza irmã gêmea da Verdade .. Ora, creio que Bilac poderia citar o filósofo como testemunha a seu favor.

Mas, demos logo a palavra a von Hildebrand. Começa ele dizendo:

A beleza desempenha importante papel no culto religioso. O ato mesmo de adoração à divindade encerra o desejo de envolver o culto com a beleza. Estigmatizar a preocupação com o belo no culto religioso como "esteticismo" — como fizeram recentemente, com crescente acrimônia, alguns católicos — é revelar uma concepção deformada do culto religioso e da natureza do belo.
É o que se vê claramente quando se considera a natureza do "esteticismo", em vez de se usar o termo apenas como slogan destruidor.


[note, leitor, o modo simples e direto com que o sensato pensador entra no assunto; ele fala sobre as possíveis objeções dos que ainda não se tocaram para o fato observado pelo nosso poeta parnasiano]

O esteticismo é uma perversão na maneira de considerar a beleza. O esteta saboreia coisas belas como quem saboreia vinho. Não as trata com o respeito e a compreensão do valor intrínseco que requer uma resposta adequada, mas como fontes de satisfação meramente subjetiva. Mesmo dotado de refinado bom gosto, mesmo que seja um notável connaisseur, o tratamento do esteta não pode fazer de maneira alguma justiça à natureza do belo. Acima de tudo, é indiferente a todos os demais valores inerentes ao objeto. Qualquer que seja o tema de uma situação, vê-o somente do seu ponto de vista da satisfação e do prazer estético. Não consiste sua falha em superestimar o valor da beleza, mas em ignorar os outros valores fundamentais, sobretudo os morais.

[von Hildebrand vai mais a fundo em sua crítica, justa e necessária. Afinal de contas, religião não é brincadeirinha para desocupados;é, sim, o assunto nuclear de nossas vidas, religarmo-nos com nosso Criador ]

Tratar uma situação de um ponto de vista que não corresponde ao seu tema objetivo é sempre uma grande perversão. Por exemplo, é perverso que um homem trate de um drama humano que exige compaixão, simpatia e ajuda, como se fosse mero objeto de estudo psicológico. Fazer da análise científica o único ponto de vista em qualquer assunto é radicalmente antiobjetivo e até mesmo repulsivo; é desrespeitar e anular o tema objetivo. Além de ignorar qualquer ponto de vista que não seja o "estético" e qualquer outro tema que não seja o da beleza, o esteta também deforma a natureza real da beleza em sua profundidade e grandeza.

[é com pesar que faço agora o comentário seguinte.Várias vezes tenho observado na “web”, esse maravilhoso recurso das telecomunicações constituído pela Internet, certos “estilos” de usá-la que talvez mereçam mesmo essa grave advertência do ensaísta que estamos comentando. Também o Ruy deve colocar as barbas de molho... ]

Como já mostramos em outros livros, toda idolatria de um bem necessariamente exclui a compreensão de seu verdadeiro valor. A maior e mais autêntica apreciação de um bem somente é possível se o vemos em seu lugar objetivo na hierarquia dos seres, disposta por Deus.
Se alguém se recusasse a ir à missa porque a igreja é feia e a música medíocre, seria culpado de esteticismo, pois estaria substituindo o ponto de vista estético ao ponto de vista religioso. Antítese do esteticismo é apreciar a elevada função da beleza na religião, é compreender o legítimo papel que lhe cabe desempenhar no culto e o desejo das pessoas religiosas em revestir de grande beleza tudo o que se refere ao culto divino. Esta apreciação justa da beleza é até um crescimento orgânico da reverência, do amor a Cristo, do ato mesmo de adoração.


[leitor amigo, note que estamos recebendo uma perfeita aula, tanto mais necessária quando percebemos o real alcance da beleza; von Hildebrand está “distinguindo para melhor unir” ].

Infelizmente alguns católicos dizem, hoje, que o desejo de dotar de beleza o culto se opõe à pobreza evangélica. É um erro grave e que parece freqüentemente inspirado em sentimento de culpa por terem eles sido indiferentes às injustiças sociais e negligenciado os legítimos reclamos da pobreza. É então em nome da pobreza evangélica que nos dizem que as igrejas devem ser graves, simples, despojadas de todos os adornos necessários.
Os católicos que fazem essa sugestão confundem a pobreza evangélica com o caráter prosaico e monótono do mundo moderno. Deixaram de ver que a substituição da beleza pelo conforto, e do luxo que muitas vezes o acompanha, é muito mais antitético à pobreza evangélica do que a beleza — mesmo esta em sua forma mais exuberante. A noção funcionalista do que é supérfluo é muito ambígua, simples seqüela do utilitarismo. Contradiz as palavras do Senhor: Nem só de pão vive o homem.


[muito oportuna referência ao Evangelho. Entretanto, o autor do ensaio poderia ainda neste instante lembrar, bem, a propósito, o precioso óleo derramado sobre Nosso Senhor, sob os mesquinhos protestos de Judas Iscariotes ]

No livro Nova Torre de Babel, procuramos mostrar que a cultura é um bem superabundante, algo que necessariamente parece supérfluo à mentalidade utilitarista. Graças a Deus, esta não foi a atitude da Igreja e dos fiéis através dos séculos. São Francisco, que em sua própria vida praticou a pobreza evangélica ao extremo, jamais afirmou que as igrejas devessem ser vazias, despojadas, sem beleza. Pelo contrário, igreja e altar nunca seriam suficientemente belos para ele. Diga-se o mesmo de Cura d'Ars, São João Batista Vianney.

[excelente lembrança a desses dois santos, um da Idade Média, outro do século XIX, este bem mais perto de nós. Note o leitor que, não importando a época; existe na Igreja uma longa tradição de respeito à beleza do culto ]

Poderíamos continuar citando outros trechos do ensaio, porém o que foi visto até agora já pode alertar um eventual leitor desatento, alguém que ainda não havia pensado neste assunto.
Para encerrar o “post”, citaremos apenas estas duas considerações de von Hildebrand sobre a liturgia:

A força e o impacto existencial da Sagrada Liturgia têm suas raízes exatamente no fato de não ser abstrato e dirigir-se não só à nossa inteligência ou simplesmente à fé, mas, sobretudo, de falar, de inúmeras maneiras, à totalidade da pessoa humana. Imerge o fiel na sagrada atmosfera do Cristo, pela beleza e esplendor sagrado das igrejas, pelo colorido e beleza das vestimentas, pelo estilo de linguagem e sublimidade musical do Cantochão.
.
Na Liturgia louvamos e agradecemos a Deus, associamo-nos ao sacrifício e à prece do Cristo. Convidando-nos a orar a Deus com o Cristo, a Liturgia exerce papel fundamental em nossa transformação em Cristo. Esse papel não se restringe ao aspecto sobrenatural da Liturgia. Integra, também, sua forma, a sagrada beleza que toma corpo nas palavras e na música da Santa Missa ou do Ofício Divino. Desprezar esse fato é sinal de grande primitivismo, mediocridade e falta de realismo.

Muito obrigado amigo M... e bom Domingo para você e os demais leitores do D D !


posted by ruy at 1:55 da manhã

13.3.04

 
Cântico da Comunhão


Faz uns vinte anos, ainda era ouvido em muitas das igrejas deste país, na hora da comunhão, um cântico cujas estrofes vou transcrever abaixo. Infelizmente este “blog” não dispõe de recursos para a inserção da melodia, de modo que o leitor, ao mesmo tempo que lesse os versos, pudesse acompanhar a música.
Não sei quem teria composto o cântico; sei apenas que devia ser alguém inspirado por uma sincera piedade.


Deus de amor nós Te adoramos neste sacramento
Corpo e sangue que fizeste nosso alimento.
És o Deus escondido, vivo e vencedor;
Aos Teus pés depositamos todo o nosso amor.

No Calvário se escondia Tua divindade,
Mas aqui também se esconde tua humanidade.
Ceio em ambas e peço, como o Bom Ladrão,
No Teu Reino eternamente Tua salvação.

Meus pecados redimiste sobre a Tua cruz,
Com Teu corpo e com Teu sangue , o’ Senhor Jesus;
Sobre os nossos altares, vítima sem par,
Teu divino sacrifício queres renovar.

Ceio em Ti ressuscitado, mais que São Tomé,
Mas aumenta na minha alma o poder da Fé;
Guarda a minha Esperança, cresce o meu Amor;
Creio em Ti, ressuscitado, meu Deus e Senhor!

O’ Jesus que nesta vida pela Fé eu vejo,
Realiza, eu Te suplico este meu desejo:
Ver-Te enfim, face a face, meu divino Amigo,
Lá no Céu, eternamente, ser feliz contigo.



Alguns comentários
Não sou teólogo, porém pelo que aprendi na Igreja, o que aí em cima está escrito não contraria a boa doutrina católica.
O cântico, para mim pelo menos, apresenta uma curiosa característica, tem cinco estrofes, justamente o número das chagas que O Senhor mostrou ao apóstolo Tomé, o primeiro a dar publicamente o testemunho da divindade de Jesus. Era cantado ao som de uma melodia de sonoridade tipicamente religiosa, sem tons fortes e agudos, em ritmo quase monótono, como que para facilitar o acompanhamento por todos os presentes na missa. Isso era no tempo em que a celebração estava realmente centrada em seu significado litúrgico, aquele que é expresso no último verso da terceira estrofe.
Eu ficaria muito alegre se os leitores enviassem alguma mensagem em que ficasse registrado o modo como o cântico foi recebido pelos visitantes deste pequeno oásis.


Uma excelente notícia!

Ontem de manhã recebi mensagem de um jovem leitor e amigo na qual ele me comunica haver achado na Biblioteca de sua cidade o livro “Dois Amores, Duas Cidades”, e já começou a ler.
Em outras palavras: um moço brasileiro, de nível universitário, começa a tomar conhecimento de um das obras mais importantes que já foram escritas no Brasil, um livro que tinha sido injustamente colocado no ostracismo.
Calorosos parabéns , amigo C... !



posted by ruy at 2:01 da manhã

12.3.04

 


Reflexões avulsas


Encadeamentos reais, porém despercebidos.

O que poderá haver de conexão entre um certo padre jesuíta que faleceu em Nova York em 1955 e o atual problema da criminalidade nas grandes cidades do Brasil, em especial na que foi batizada com o pacífico nome de São Sebastião do Rio de Janeiro ? Aparentemente, nada a ver uma coisa com a outra. Entretanto, paradoxalmente, para o bem ou para o mal. o que há de mais prático no mundo são as idéias.

O fato é, amigo leitor, que as idéias do padre Teillard de Chardin – o tal jesuíta - idéias impregnadas de fantasia, acabaram influenciando, no mundo inteiro, milhares de católicos de alma generosa e, por isso mesmo, entusiasmados com a possibilidade de realizar-se em nosso planeta uma transformação social completa, ainda que esse mágico processo tivesse que passar por um pequeno e incômodo detalhe, a saber: a cooperação com os comunistas, já que esses fogosos ativistas já haviam mostrado do quanto eram capazes de realizar, em tempo curto, no que se refere a radicais mudanças políticas. As torturas, os campos de concentração, o amordaçamento dos intelectuais – tudo isso seria apenas acidente de percurso na brilhante marcha para o Futuro (com F maiúsculo).
Ora, no inicio da década de 60, vários moços católicos brasileiros aderiram àquelas mirabolantes idéias. Terminado o período do chamado “regime militar”, aqueles mesmos moços idealistas (concedamos isso) passaram a trabalhar ativamente pela eleição de certos políticos e certos partidos cuja “filosofia“ a respeito dos crimes é brutalmente simplificadora: o crime é puramente um problema social. Resolvido esse problema, dizem eles, a sociedade vai poder viver muito mais tranqüila. Até lá, que se lixem as famílias das milhares e milhares de vítimas dos mais agressivos e horripilantes assaltos, roubos, estupros etc. E nesse meio tempo, as TV’s organizam passeatas com enormes e ridículas faixas em que está escrita a palavra PAZ.

Aquilo que hoje vem acontecendo na política de nosso país, gerando críticas calorosas, queixas amargas ou piadas irreverentes é em grande parte conseqüência retardada daquela infeliz fantasia de um homem que, em certo dia de seu passado, vestiu a roupeta de Santo Inácio.


A Regra de ouro de Santo Agostinho

[ Este item faz gancho com o anterior].
De vez em quando aparece alguém fogueteiro para fazer esta ou aquela crítica a Santo Agostinho. Ora, os bem informados estão cansados de saber que o Medievo é balizado por dois brilhantes fachos luminosos: a sabedoria do filho de Mônica e a sabedoria do Boi Mudo da Sicília. O próprio Santo Tomás, que não era nada bobo, soube aproveitar, ao escrever seus profundos escritos, a rica herança do pagão Estagirita e as não menos ricas lições deixadas pelo santo bispo de Hipona.

Entre os muitos aforismos deixados por Santo Agostinho, existe um a que podemos chamar “a regra se ouro” do relacionamento com o próximo: odiar o pecado, mas amar o pecador .Pois bem, creio que podemos alterar um pouquinho a frase de modo que possa ser aplicada a outra faceta do mesmo problema: odiar o erro, mas amar aquele que o comete.

No item anterior, falamos nos moços que tomaram o bonde errado ao aderirem às fantasias de Chardin. Ora, infelizmente, tivemos aqui no Brasil algumas cabeças encanecidas que cometeram o mesmo erro. Penso especialmente em um certo homem de coração enorme, bondoso, a quem faltou perspicácia para perceber que, ao aderir àquelas idéias, estava apoiando aqueles moços idealistas , estava favorecendo indiretamente perigosas ações que eles viriam a praticar e que, ao longo dos anos, trariam as conseqüência a que hoje melancólicos estamos assistindo, todos os dias.. Difícil é deixar de querer bem àquele homem. Mas, como nos disse Santo Agostinho, não podemos de forma alguma dizer “sim” aos erros que o mesmo homem infelizmente aceitou e ajudou a propagar. Como diziam os antigos : Amicus Plato, magis Veritas - “Platão é meu amigo; muito mais amiga é a Verdade” (uma das belezas do latim é a concisão; mas, pergunto,em nossa cultura decadente, quem está mesmo ligando para a beleza?).


Urbanismos

Faz dois anos, passei cerca de um mês em Salvador. Não era a primeira vez que ali fora, mas, desta vez, prestei bastante atenção em certo detalhe que me escapara anteriormente: o urbanismo da capital baiana.

O Rio de Janeiro é, sem dúvida alguma, o cartão postal de nosso país; o encanto da Baía de Guanabara atrai gente do mundo inteiro.As praias de São Conrado e do Recreio dos Bandeirantes têm o seu mágico encanto. A floresta da Tijuca é um permanente convite ao passeio descontraído e repousante. Tudo isso é verdade. Entretanto, para mim pelo menos, o urbanismo do Rio perde longe em beleza para o de Salvador. Basta prestar atenção no fato de que as ruas mais bonitas do Rio estão mesmo junto do mar; haja vista a Vieira Souto. A larga avenida Presidente Vargas não apresenta praticamente nada que nos encha os olhos; é uma comprida reta em que, nos trechos onde há prédios, estes são carentes de beleza, aquela beleza cheia de colorido criativo que é tão comum em Salvador.

Basta lembrar, entre outros aspectos, o belo trabalho de recuperação feito no Pelourinho e na Cidade Baixa para ressaltar a diferença favorável à terra de Castro Alves. Como outro exemplo, embora não ligado diretamente ao urbanismo, vale a pena lembrar os dois museus existentes em Salvador, um oficial, mantido pelo governo do Estado, outro administrado por uma fundação. Ambos localizados em ruas bonitas, apesar de movimentadas, e nos quais podemos encontrar funcionários vestidos com certa elegância e que atendem aos visitantes de maneira educada e cordial.

Um detalhe: não sou baiano.


A fábula do Carlitos

Charlie Chaplin, que ficou mais conhecido entre nós brasileiros pelo carinhoso apelido de Carlitos, produziu no tempo da segunda Guerra Mundial o filme que talvez tenha sido sua obra prima: “O Grande Ditador”, e cujo tema é uma forte condenação do nazismo, na época vitorioso na Europa.

Para os que não viram o filme, sua história começa com o retorno à casa feito por um humilde barbeiro judeu que estivera longo tempo baixado ao hospital.Ignorando a sombria transformação política que ocorrera enquanto durara seu tratamento médico, de repente vê sua barbearia sendo destruída pelos arrogantes e agressivos adeptos da Nova Ordem.
Desesperado, o pobre barbeiro apanha um apito e começa a soprá-lo com toda a força que pode para chamar a polícia.Porém, quanto mais apita, mais aparecem aqueles latagões fardados, e mais sua barbearia se desfaz em ruínas. Ele, coitado, não sabia que, no novo regime, a polícia era mesmo o maior bandido.

Ora, depois que terminou a Idade Média, o Estado veio pouco a pouco crescendo em poder e em onipresença. A maioria das pessoas não se dá conta dessa triste realidade e, à semelhança daquele pobre barbeiro judeu, na história do Carlitos, muitas vezes apelamos ao mesmo Estado que tanta e tão opressiva burocracia coloca na administração pública. Um exemplo a que tantas vezes tenho me referido é justamente o caso do absurdamente chamado Ministério da Educação.”Apitamos” para que o Estado arrogante continue ingerindo em um assunto de transcendental significado em nossa vida como pessoas livres e responsáveis. Está na hora de avisarmos ao barbeiro: não apite !


Ainda à margem do polêmico filme de Mel Gibson

Faz uns três dias o leitor e amigo C... enviou-me a tradução de um artigo da Sra. Frederica Mathewes-Green, cristã Ortodoxa (uso tal palavra bem a contragosto; para mim, ortodoxos são os católicos, entre eles o Ruy), intitulado: “O significado do Seu sofrimento”.
No texto ora citado, sua autora faz, entre outras, as seguintes considerações:
- É um traço de nossa época que não aceitemos algo como realista a menos que seja brutal. Mas há ainda outro fator a ser levado em conta. Quando os quatro evangelistas escreveram suas próprias versões da Paixão, eles não a abordaram do mesmo modo que Gibson. Nenhum deles retratou Jesus com um dos olhos destruído. Na verdade, as descrições do espancamento e da crucificação de Jesus são tão sucintas quanto é possível a um escritor fazê-las.

- Os evangelistas não quiseram ganhar a nossa empatia demorando-se em seu sofrimento.

De fato, a escritora tem razão.Entretanto, cabem, salvo melhor juízo, estes reparos:

- De fato, os evangelhos, na maior parte das vezes, são sucintos.Porém, um ponto a ser lembrado é o fato de que a crucificação era suplício bem conhecido na época. O próprio Jesus, Nosso Senhor, em certo instante ( antes de ser crucificado) fala sobre a cruz de cada um de nós, no sentido metafórico do termo. (Cf. São Lucas, cap. 14, vs. 27: Quem não leva a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo ).Ora, essa metáfora só faz sentido se admitirmos que as pessoas naquele tempo conheciam os dolorosos detalhes que Gibson ressaltou no filme;
- Outro ponto a considerar é a circunstância de termos em nossa época um grande número de recursos contra a dor, contra o sofrimento físico. Os doentes terminais muitas vezes passam seus últimos dias "escondidos" nas UTI 's. Tudo isso leva ao nosso, isto é, de nós modernos, esquecimento do que deve ter custado ao Salvador a sua Paixão.

A restrição pessoal que faço ao filme de Gibson e a outros semelhantes é quanto ao fato de aparecer bem visível o rosto do Senhor.Para o meu gosto, a face de Jesus deveria ficar oculta, tal como ocorre no excelente filme estrelado por Charlton Heston no papel título: "Ben Hur".

Obrigado, amigo C..., pelo envio do artigo !





posted by ruy at 2:17 da manhã

11.3.04

 
José Arthur Rios


Na minha opinião (e também na de muitas outras pessoas), o monge Dom Ireneu Penna OSB é sem dúvida alguma um dos homens mais inteligentes deste país (o que vale dizer: pertence a uma espécie quase em extinção). E tal qualidade fica ainda muito mais valorizada pela discrição, tipicamente beneditina, desse religioso meu amigo e por quem tenho especial respeito. Ora, certa vez, conversando comigo, Dom Ireneu comentou este fato: no sentido estrito, só existem três ciências: a Física, a Matemática e a Metafísica (justamente as que correspondem aos três graus da abstração formal).

Ora, em que pese o meu enorme respeito por Dom Ireneu, creio que no sentido lato existam várias outras ciências tais como, por exemplo, a Química (matéria detestada por uma de minhas netas quando estava no curso colegial) e a Sociologia. Quanto a essa criação do Sr. Augusto Conte, há quem tenha certa mal contida idiossincrasia contra a ciência que estuda de modo sistemático os fatos sociais. Entretanto, acho que devemos distinguir cum grano salis a sociologia autêntica e o sociologismo, do qual os bons sociólogos estão bem distantes. E é este o caso do meu amigo Dr. José Arthur Rios, que já foi professor na PUC – Rio, nos saudosos tempos em que lá ainda não haviam chegado os novidadeiros adeptos das deletérias idéias do infeliz padre Teillard de Chardin, as mesmas fantasiosas idéias que acabaram gerando, aqui no Brasil, os Bettos, os Boffs e outros agitados já falecidos mas ainda incensados pela TV.

Intelectual de direito e de fato, o Dr.Rios é possuidor de vasta cultura humanista, incluindo ali os conhecimentos essenciais do Tomismo, filosofia da qual ele é fiel seguidor. Tem a postura e as atitudes de um verdadeiro gentleman, o que não lhe tira a própria coragem física (não faz muito tempo, atracou-se com um assaltante de rua, que certamente não esperava tal reação de um homem amadurecido pelos anos ).

Há muitos anos brilhante conferencista na Confederação Nacional do Comércio, o Dr.Rios é capaz de expor excelentes palestras, excelência essa observada seja no conteúdo específico, rico em informações precisas e bem referenciadas, seja na linguagem elegante, herança do tempo em que a escola secundária ensinava a ler e a escrever com perfeição. E os temas de suas digressões, caracterizando uma versatilidade típica de homem bem civilizado, abrangem, por exemplo, a existência milenar do brinquedo a que chamamos pipa ou pandorga, com todas suas calidoscópicas facetas; uma interpretação psicológica do romance “O Ateneu” , do atormentado Raul Pompéia; as doutrinas morais que ao longo dos séculos foram sendo propostas pelos filósofos e teólogos para interpretar a dolorosa tragédia da guerra e sugerir possíveis caminhos para a paz; a história da penetração das idéias marxistas na universidade brasileira; e muitos outros assuntos, ligados, uns, às nossas preocupações diárias ou capazes, outros, de fazer-nos lembrar da importância de um sorriso em nossa vida.

Em 1979, um ano depois do falecimento de Gustavo Corção, o Professor Rios publicou no Jornal do Brasil um generoso, um belíssimo artigo que consegue, no limitado espaço que seu autor ocupou para escrevê-lo, dar-nos uma sintética visão daquele grande pensador e de sua magnífica obra. E para que o leitor veja que o superlativo belíssimo não foi exagerado, vou transcrever abaixo o referido texto. Por favor, notem desde o início o expressivo título, em que também não há nenhum exagero.

A LUZ QUE SE APAGOU
(JB 12/7/79)
José Arthur Rios

Durante muitas noites, em certa janela do Cosme Velho, ardeu uma lâmpada que foi, por muito tempo para amigos e discípulos o sinal de uma presença, luz maior de inteligência, amizade e calor humano. Quem espiasse pelas grades da janela, rente a rua, avistava o fino perfil de um velho, quase cego, que debruçado sobre a mesa simples enchia metodicamente, com letra regular, resmas de almaço. Nos momentos mais difíceis dessa vida – e deste país – em horas de risco e incerteza, ali esteve sempre esse homem, na sua vigília. Na saleta, entre o grande crucifixo e o retrato de São Tomás Morus, cercado das imagens de amigos vivos e mortos, esse homem doente, alquebrado, por vezes agonizante, conduzia sem vacilar uma luta desigual contra os erros do seu tempo e as forças desencadeadas do mundo. Naquele espaço celular, mas que confinava com as fronteiras do bem e do mal, uma consciência vigilante, abrasada num intenso amor, combatia o bom combate que só deverá cessar no fim dos tempos.

Decorrido um ano da morte de Gustavo Corção – um ano, um século? – fez-se o silêncio sobre a figura e a obra do grande pensador católico. Trata-se indiscutivelmente de um morto incômodo como todo aquele que nos recorda compromissos e nos indica obrigações, com a mesma solicitude com que nos abria a porta para a ajuda e o conselho. A calúnia e a difamação que armaram uma ciranda em torno dele até pouco antes de expirar, dão-se agora as mãos para aposentá-lo na imensa academia dos esquecidos.

Não importa que esse homem de exemplar pobreza tivesse espalhado, a mancheias, em aulas, cursos e conferências, os dotes extraordinários de seu saber. Mais que isso, tivesse prodigalizado sua sabedoria em lições, artigos, palestras: que tivesse deixado páginas de extraordinária profundidade e beleza: que juntasse a isso capacidade inventiva, altura científica e competência técnica – que tivesse sido, em suma, uma flor de civilização neste país.

Em terra de minoria católica onde a inteligência trilhou todos os descaminhos e prostituiu-se, vezes sem conta, aos senhores do mundo, esse pregador sem púlpito e doutor sem diploma pregou e ensinou a verdade pela pena, pela palavra, pelo exemplo.

Raro, na história da inteligência em nosso país, um homem reuniu tais e tamanhos dons: a precisão minuciosa do cientista, o rigor do raciocínio matemático, as graças do escritor. Espécie rara, pertencia a mágicos e lógicos, montava equipamentos eletrônicos enquanto compunha ensaios definitivos. Enxadrista exímio, absorvia-se no convívio dos santos e na contemplação do Corpo Místico.

Quando um artigo memorável de Alceu Amoroso Lima revelou ao país esse inédito escritor de 50 anos, surpreenderam-se os que até então só o tinham visto debruçado sobre fios e oscilômetros. O primeiro livro: A Descoberta do Outro espécie de pilgrim’s progress, ao sabor de nosso tempo, era, sob as espécies da ficção, a descrição de um roteiro espiritual. O “outro”, para surpresa geral dos existencialistas, não era apenas o próximo, o homem de carne e osso. Era Cristo mesmo, Deus encarnado, pai, irmão e amigo. Aos poucos se desenhava um perfil de escritor singular – técnico que escarmentava o tecnicismo, cientista que subordinava a ciência a uma verdade maior, pensador que mergulhava na teologia, como na humildade e na obediência, as raízes profundas de sua interpretação do homem e do mundo.

De todos os grandes encontros de sua vida, em carne ou em livro, o mais importante foi sem dúvida o conhecimento de Santo Tomás, que leu e meditou até o fim, bússola permanente no mar de infidelidades e vacilações que nos cerca. O que o levou ao Tomismo – ele cientista, manipulador de números e aparelhos – foi a fidelidade ao objeto, a uma realidade negada pelos idealismos.

Poderia ter tecido com o próprio fio de sua vida inúmeros romances. Preferiu dedicar-se ao ensino da filosofia e da teologia e, nos últimos anos, dizia preferir a mestra à ancila.

De repente – foi nos idos de 60 – começou a preocupar-se com os rumos da civilização, sua decomposição a partir do Renascimento, e traçou essa topografia sinistra em Dois Amores e Duas Cidades, balizando-a pelos fachos do messianismo revolucionário.

De sua mocidade ficara a amarga lembrança de uma experiência comunista e a desconfiança das salvações sociais. Via sem ilusões o problema econômico e as falsas esperanças do marxismo “A hediondez da economia capitalista” – escrevia em 1947 – “reside no fato da desumanização do trabalhador para proveito de seus empreiteiros. Ora, a primeira reivindicação enérgica e generosa que aparece na história tem uma esquisita contradição que o mundo irá pagar muito caro. Refiro-me ao marxismo. O seu ponto de partida, apesar de todos os aspectos científicos de que se reveste, é de natureza moral”. E depois de analisar a apropriação do lucro do trabalho pelo capitalista segundo a doutrina marxista, diz: “Ora, o remédio que o mesmo doutrinador proporá para corrigir tamanha injustiça é rigorosamente amoral. Liquida-se com a justiça para se acabar com a injustiça; desumaniza-se a sociedade inteira para corrigir o desumano tratamento que se dá ao trabalhador; tecnicaliza-se rigorosamente a economia para curar essa viciadíssima economia capitalista que tecnicaliza a mão-de-obra e dela tira tudo o que pode”. (As Fronteiras da Técnica, Agir. 1947, págs. 79-81).

Quem o conhecesse, portanto, não se poderia surpreender com a posição que assumiu nos anos 60 contra a subversão e a corrupção. Como o país, radicalizou-se nessa luta. Mais que o problema político, no entanto, absorvia-o a preocupação com sua casa, a infiltração modernista e marxista na Igreja, a nova traição dos clérigos. Denunciou-se com a cólera, a paixão e a veemência que punha em todos os seus atos. Tornou-se mais duro em suas posições. Fernando Carneiro, meio a sério, meio a riso, disse que Corção era um dos poucos temperamentos espanhóis do Brasil. Estranho, por isso, ao nosso pendor para o conformismo, o arreglo e a conciliação.

Nas arquitraves leves e cerradas desse espírito, a chave de abóbada que tudo prendia e sustinha era um apaixonado sentimento de fidelidade. Como Jackson de Figueiredo, em outra época e com outros recursos, dedicou sua vida à defesa da Igreja, cujo centro via na Paixão de Cristo Crucificado. Foi essa a constante dulcinéia desse quixote que a levou ardente, em seu coração, até expirar, no catre em que dormia, no dia que a Igreja venera o sangue de Nosso Senhor.

Das noites na casa do Cosme Velho ficou, na memória dos amigos, a imagem do velho moço, as mãos descarnadas torturando o castão da bengala, as lições de sabedoria, as descobertas imprevistas, os lampejos verbais. Mais que tudo isso, essa luz de fidelidade que mantinha acesa, nos olhos amortecidos, um brilho de infância.





posted by ruy at 2:37 da manhã

10.3.04

 
Dois poemas


Variações em torno do sexo

Reverência,
inteligência -
Bem vizinhas,
bem unidas,
sugerindo até a rima
que ajuda a memorizar.

Reverência,
inteligência.
Existe o feroz desejo,
existe o gracejo vulgar.
Mas é preciso lembrar:
- a palavra,
a boa palavra amiga,
é o caminho melhor
para o banquete fraterno,
para o leito nupcial.

Reverência,
inteligência.
O riso aberto,
a gargalhada,
fazem ruído demais.
Muito melhor é o sorriso,
discreto modo de amar.

Reverência,
inteligência.
Lá no Céu,
(nos disse o Cristo)
seremos tais como os anjos –
É um mistério a contemplar.
Melhor, portanto, a ternura
do que a voraz loucura.


O amor

Eis o longo aprendizado
de um processo gramatical,
colocação de pronomes
na correta ordenação:
primeiramente o tu ,
depois, e bem perto, o eu .

Muitos de nós , renitentes,
cabeçudos repetentes,
vamos, ao longo da vida,
sem essa regra aprender...






posted by ruy at 2:25 da manhã

9.3.04

 
Idéias e pessoas


O desejo de manter em ritmo constante a edição destes “posts” muitas vezes traz ao Ruy um desconfortável sentimento de frustração. Olho para o “post” anterior e falo com meus botões : “podia ter sido bem melhor...Deixei de dizer o principal...”.É exatamente o que está acontecendo agora, com respeito ao publicado ontem no Despoina Damale. Vou, pois, tentar complementar o que escrevi sob o título: “Sobre o necessário bom uso da inteligência”. Peço aos leitores que me perdoem esse retorno ao tema.

Ensinam-nos os manuais de filosofia, especificamente no capítulo da Lógica: A idéia, noção ou conceito é a simples representação intelectual de um objeto. (note o leitor que idéia, noção e conceito podem ser vistos como sinônimos). Os mesmo manuais definem: O juízo é o ato pelo qual nossa inteligência afirma alguma coisa a respeito de outra coisa. Desde o longínquo dia em que começamos a aprender com nossos pais o nome das coisas, vimos ao longo da vida acumulando idéias e juízos em nossa memória intelectual.E costumamos chamar “lato sensu” idéias todo o imenso acervo armazenado, isto é, até os nossos juízos são também chamados de “idéias”.

Essas idéias, de que muitas vezes nos orgulhamos como se fossem criações inteiramente nossas, abrangem um conjunto que talvez seja o mais heterogêneo do universo. Ali está, por exemplo, o que pensamos sobre a Criação do mundo e o que achamos sobre o atual desempenho do time do Flamengo; ali estão os teoremas de Euler e Fermat sobre os (utilíssimos) números primos e as nossas opções para ir de carro da Tijuca a Botafogo; ali, o nosso entendimento do significado das famosas equações de Maxwell referentes ao eletromagnetismo convive com a nossa raciocinada preferência pelas camisas de dois bolsos; ali, a nossa percepção da diferença entre uma música típica do século XVIII e uma outra do século XIX tem por vizinho o nosso entusiasmo com antigas canções populares italianas.Em suma, miríades de autênticas idéias moram juntas com outro tanto de simples gostos e meras opiniões .

Ora, no que se refere às idéias autênticas, seu direito a existir está condicionado à conexão que precisam ter com um referencial . Posso a meu bel prazer escolher esse ou aquele tipo de camisa; mas não tenho o direito de dar palpite quanto à solução de um problema de Física, por exemplo. Uma tentativa de solução procurada pelo caminho legítimo da dialética não pode infringir princípios verdadeiros daquela ciência, já conhecidos por mim.Em resumo: opiniões gozam de muito mais liberdade que idéias.

Isso tudo é bem conhecido e até mesmo acaciano. Ora, para o objetivo que tenho neste “post”, vamos supor que os nossos referenciais sejam corretos. O leitor mais exigente poderia neste instante perguntar: “mas, como saber se o meu referencial é correto? “
Pois bem, ainda que essa pergunta seja razoável e legítima, convém que fique “stand-by” para outra ocasião. Continuo, pois, dizendo que por hipótese nossa matriz de referências é correta..

Admitindo, portanto, que meus critérios de julgamento, isto é, para a emissão dos meus juízos, em especial meus juízos de valor, estejam certos, qual é o meu sentido de hierarquia diante das realidades do mundo? Antes de responder a esta pergunta, convém que eu me recorde de um dado básico. O ser humano foi criado para conjugar dois verbos essenciais : conhecer e amar; afinal de contas, fomos criados à imagem e à semelhança da Santíssima Trindade, cujas Pessoas se relacionam pelo Conhecimento e pelo Amor

Para tornar a questão acima proposta mais acessível ao leitor deste “post”, vamos imaginar dois homens, ambos nossos amigos, ambos mais velhos e mais experientes que nós, um chamado João e o outro José.
João é uma pessoa em quem reconhecemos a inteligência, a cultura e a honestidade.
José é alguém que irradia sabedoria, bondade e senso de humor.
(aqui é preciso ficar bem claro: senso de humor é mesmo aquela qualidade que encontramos nos escritos de Chesterton; não deve ser confundido com as galhofas típicas feitas por nós brasileiros em nossas piadas de português ou em nossas críticas aos políticos, por exemplo).
Pois bem, pergunto agora: qual dos dois, João ou José, seria modelo melhor para que conjugássemos corretamente aqueles dois verbos ínsitos em nossa natureza?

Vamos colocar as coisas mais ainda em miúdos. Cada um de nós tem um pequeno círculo de parentes e amigos: o Zezinho, a Maria, o Chico, a Leninha, o Pedro, a Glória, o Tico, e outros cujos nomes conhecemos. Boa parte dessa pessoas não têm por hábito uma atitude, digamos assim, “intelectual” diante dos fatos.Lê - quando lê - livros sem profundidade, ouve apenas música popular, vai ao cinema somente para distrair-se. Tudo bem.E agora, pergunto: já paramos para prestar atenção no fato de que cada uma daquelas pessoas é mesmo uma pessoa ,única e intransferível? Já paramos para refletir no fato de que cada uma delas tem seu mistério próprio? Respeitamos essas pessoas ? Damos valor a elas? Amamos essas pessoas ?

Certa vez um sacerdote escreveu a Leon Bloy dizendo que ele, o missivista, não tinha alma de santo. Eis aqui o que o Peregrino do Absoluto respondeu ao padre:
:
- Pois bem, digo-lhe que eu tenho a alma de um santo,; que meu senhorio, que é um abominável burguês, meu padeiro, meu açougueiro, meu quitandeiro, que são talvez uns grandes canalhas, todos têm alma de santos, visto terem sido todos chamados, tão bem quanto o senhor ou eu, tanto quanto São Francisco de Assis ou São Paulo à Vida eterna.E terem sido todos resgatados pelo mesmo preço, magno pretio emptis estis .Não existe nenhum homem que não seja um santo, virtualmente.

Pois é, muitos de nós passamos horas e horas preocupados com a ameaça (real) do totalitarismo comunista ou socialista. Ora, o erro básico da proposta comunista ou socialista não está no Gulag ou no paredón; está, sim, justamente no esquecimento da pessoa; ela não faz parte dos planos da Revolução. Quem sabe se não seria muito mais eficaz nosso combate ao perigo citado se levássemos em conta essa necessária hierarquia que dá a pessoa humana a sua fundamental preeminência? Se passássemos a ver com outros olhos, com uma visão contemplativa , o Zezinho, a Maria, o Chico, a Leninha, o Pedro, a Glória, o Tico e outras pessoas comuns que nos cercam, que vivem perto, bem perto de nós. Porque são essas pessoas, esses santos virtuais, que dão significado à nossa luta contra o velho erro da Esquerda.

Criticar os desmandos, as burrices, as falsetas, as corrupções, os cinismos dos políticos nossos e os do restante do planeta é facílimo. Difícil mesmo é tentar, discretamente, no silêncio e com sabedoria, reconstruir uma cultura que há pelo menos seis séculos está fora dos eixos, deixando-nos, assim, distraídos diante do que é mais importante.


Um bom exemplo que explica melhor

O livro “A Descoberta do Outro”, muito mais que uma brilhante exposição de idéias, é sobretudo o comovente depoimento tirado do fundo do coração de um homem que certo dia encontrou-se com a Pessoa mais importante do mundo.


posted by ruy at 2:29 da manhã

8.3.04

 
Sobre o necessário bom uso da inteligência


Muitas vezes, infelizmente, as pessoas que traduzem para o português os títulos e os diálogos dos filmes estrangeiros, especialmente, dos filmes americanos, cometem erros, às vezes sem muita importância, outras vezes comprometendo o verdadeiro sentido das expressões originais.
Um bom exemplo desse fato foi o que ocorreu com o filme, estrelado por Mel Gibson e baseado na guerra do Vietnam: We were soldiers , título este que foi pessimamente traduzido por : Fomos heróis . Ficamos na dúvida sobre qual tenha sido de fato a intenção da pessoa que traduziu: ela queria enaltecer os soldados americanos que lutaram no sudoeste da Ásia ? Ou desejava aumentar ainda mais o já conhecido rancor contra a desastrada política externa dos EUA ? O fato é que o título original – em inglês - é muito mais expressivo, mais fiel à realidade das coisas. (isso é matéria para outro “post”).

Outro filme que teve essa infelicidade de ter seu título mal traduzido foi o premiado: Good Will Hunting , belíssimo drama estrelado por Matt Damon e Robin Williams nos papéis principais.O péssimo nome que deram em português foi: O Gênio Indomável .O nome original tem a vantagem de prestar-se a duas sutis interpretações, ambas coerentes, ambas inteligentes. O nome em português leva o espectador brasileiro a posicionar-se afastado do principal aspecto da história e que é justamente o drama do jovem Will. O nome original, em inglês, pode, juntamente com um atento acompanhamento do drama, fazer com que nos lembremos daquela fortíssima recomendação do evangelho:

- Sede misericordiosos como vosso Pai do Céu é misericordioso .

[imaginem, por exemplo, o que poderia ter acontecido se o psicólogo na história daquele filme não tivesse um pouco dessa virtude cristã]

Bem, no “post”de hoje não pretendo abordar genialidades. Elas são mesmo raras e, regra geral, acabam mesmo gerando comportamentos difíceis. Contam de Norbert Wiener que ele tinha o abjeto costume de apagar seus charutos esfregando-os nas paredes do MIT . Vou falar sobre casos “normais”, isto é, de pessoas muito inteligentes, de ótima cultura, porém sem merecerem o adjetivo “genial”.

Começo usando bem de propósito um tom sem dúvida alguma antipático, porém, na minha opinião, necessário para chamar a atenção dos distraídos.
Pergunto:seria mesmo inteligente gastar tempo, imaginação, criatividade, tinta de caneta e papel ou energia elétrica no computador, gastar tudo isso para ficar quase diariamente escrevendo, prosa ou versos, usando como tema, exclusivo e constante, críticas – críticas aos fatos da política e outros – críticas muitas vezes amargas umas, agressivas outras, e às vezes algumas debochadas, com uma irreverência que chega ao uso pouco civilizado de linguagem escatológica (no sentido médico deste termo) ?

Citar a si próprio é o que se chama: cabotinismo. Mas, como faz pouco tempo me lembrou uma de minhas filhas: “pai, o senhor está numa idade em que pode dizer muitas coisas sem ficar preocupado”, vou mesmo citar o que eu mesmo já escrevi neste “blog”.
Infelizmente, tenho visto muitas e muitas vezes na “web” certa fixação de alguns Internautas nos aspectos sombrios dos fatos que nos envolvem. Isso me levou a colocar neste “pequeno oásis” uma sugestão quixotesca (eu mesmo assim a defini), qual seja: a de que, em vez de ficarmos envolvidos com a crítica continuada – e mesmo justa – dos vários tipos de erros a que vimos assistindo, façamos “a good will hunting” , uma procura da boa vontade . Não é possível que ela não exista em algum lugar.
Guardemos durante certo tempo no armário nossas flechas justiceiras ! Leiamos e divulguemos na “web” Chesterton e Mortimer J. Adler; leiamos e divulguemos na “web” os bons poetas. Puxemos nossa cultura para cima! Porque, para baixo, já existe muita coisa puxando...


posted by ruy at 2:52 da manhã

 

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