Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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7.3.04

 
Contemplação de Ouro Preto


No “post”de sexta-feira fiz alguns comentários sobre um artigo recém publicado no “site” Outonos: “Poemas para amar Murilo como a si mesmo” , de autoria de Luis Antonio Miscow. Bem, ontem à tarde, estimulado pela leitura do mesmo artigo, tomei coragem e resolvi editar um “post” dedicado a um livro poético de Murilo Mendes: “Contemplação de Ouro Preto”. Por que digo que tomei coragem ? Justamente porque a referida obra de Murilo, com a qual tomei contacto pela primeira vez aproximadamente há meio século, nos anos da minha juventude, é muito mais que uma simples coleção de poemas inspirados na histórica cidade mineira..É um modo poético de mostrar ao leitor como a inteligência pode ver as coisas.Sugestão para os leitores, mormente os mais moços: saiam de vocês mesmos, leiam Murilo Mendes!

Há vários modos de conhecer um assunto qualquer, seja ele um tema literário, seja um idioma estrangeiro, seja um capítulo da Teoria Matemática das Comunicações, essa genial criação de Claude Shannon, publicada em 1948.Entre as diversas maneiras de adquirir o conhecimento, provavelmente a melhor, a mais eficaz seja aquela em que toda a nossa alma participa do processo, aí incluindo a inteligência, a memória intelectual com todos as conhecimentos prévios nela armazenados e a memória sensível, que adiciona às recordações das coisas passadas um conteúdo afetivo, fonte de alegria no ato de conhecer. Somente pessoas que desde sua adolescência foram treinadas para aprender realidades usando, ao mesmo tempo, essa tríplice virtualidade do nosso espírito são capazes de obter um conhecimento perfeito. Ora, Murilo Mendes teve sua infância e sua adolescência vividas em uma distante época em que os ensinos do primeiro e do segundo graus davam aos jovens aquele treinamento. E é essa feliz circunstância que permitiu ao poeta fazer do livro citado, conforme escrevi, muito mais que uma simples coleção de poemas.

A obra, dedicada aos pais do poeta, abre-se com os: MOTIVOS DE OURO PRETO (dedicado a Rubem Navarra, crítico de arte). O poema, desde seu começo expondo a visão sintética de Murilo do tema proposto, inicia-se com estes versos:

Assombrações que sobem do barroco,
Das ladeiras e dos crucifixos esquálidos,
Frias portadas de pedra, anjos torcidos,
Passantes conduzindo aos ombros o passado


Pouco mais adiante, são logo lembradas as igrejas (como cantar Ouro Preto sem falar sobre elas? ) neste quinteto:

O canto alternativo das igrejas
Nos leves sinos da levitação
Cruzando-se em cerrado contraponto,
São Francisco de Assis adverte ao Carmo,
São Francisco de Paula à matriz do Pilar.



Note o leitor que a palavra “contraponto” não é mero recurso verbal para garantir o ritmo do verso; Murilo sempre foi apreciador de música (atenção Alfredo Votta!), de boa música, sendo Mozart seu compositor favorito.

Esse canto inicial, com mais de cem versos, termina com este desafio:

Que pode o Anjo ante a manopla imóvel,
Ante a pátina da morte em Ouro Preto ?
Kirie eléison. Memento mori. Kyrie eléison


E já que falamos nas igrejas, o segundo poema do livro é precisamente : ROMANCE DAS IGREJAS DE MINAS (dedicado a Rodrigo M. F. de Andrade, Diretor Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
Começa metaforicamente (ou não? afinal, cada um de nós é uma unidade substancial) assim:

Minha alma sobe ladeiras
Minha alma desce ladeiras
Com uma candeia na mão,
Procurando nas igrejas
Da cidade e do sertão
O gênio das Minas Gerais


Seguem-se mais de trezentos heptassílabos que vão, em ritmo agradável, falando não apenas nos templos de Ouro Preto, mas também nas demais igrejas de outras cidades, em todas elas descrevendo as estátuas e as pinturas barrocas. Em certo trecho lemos estes versos que nos fazem perceber o esforço feito pelas almas piedosas do século XVIII para se contrapor ao ateísmo Iluminista da época (e que ainda continua...):

Diviso lívidos Cristos,
Diviso Cristos sangrentos,
Monumentos de terror.
O Cristo da Pedra Fria,
O Senhor da Cana Verde,
O Cristo atado à coluna,
O Senhor morto esticado
Envolto em roxo sudário
Debaixo do próprio altar.



No longo poema ROMANCE DE OURO PRETO, dedicado ao poeta Manuel Bandeira, estão estes versos que certamente terão o concordo de qualquer pessoa mais atenta que já tenha visitado sem pressa aquela cidade:

Com teu palor -,
Tu, Ouro Preto,
Que outrora foste
E agora inda és.

De qualquer ângulo,
Tu sempre és bela !



Diante das naturais limitações de espaço do “post”, fica difícil para mim discorrer sobre todos os poemas; são ao todo dezoito, quase todos dedicados a uma pessoa amiga do poeta. Aliás, essa era uma das várias simpáticas características de Murilo: a cordialidade. Era francamente contrário a qualquer tipo de ditadura, mas isso não o tornava mal humorado ou agressivo; não fazia dele um “bore”.
E para terminar esta desajeitada tentativa de apresentar ao leitor o belíssimo livro que é a “Contemplação de Ouro Preto”, aproveitando o tempo da Quaresma, citarei integralmente do mesmo livro o

CRUCIFIXO DE OURO PRETO
( dedicado pelo poeta a sua irmã )

Crucifixo fixo fixo,
Crucifixo, Deus parado
Para eu poder te fixar,
Deus ocluso na tua cruz.
Entre mim e ti, o’ Deus,
Quantas vezes dou a volta,
Quantos olhares, angústias,
Súplicas mudas, silêncios,
Falta de jeito e aridez,
Crucifixo fixo fixo,
Cristo roxo da paixão,
Traspassado, transfixado,
Chagado, esbofeteado,
Escarrado, abandonado
Pelo Pai de compaixão,
Crucifixo fixo fixo,
Deus fixado por amor,
Deus humano, Deus divino,
Deus ocluso na tua cruz,
Crucifixo fixo fixo,
Nosso irmão Cristo Jesus.














posted by ruy at 4:03 da manhã

6.3.04

 
Comentários à margem de um artigo


A edição mais nova do “site” Outonos traz um artigo que me leva a editar o “post” de hoje por vários motivos, entre eles o fato de Ruy Maia Freitas ter há muitos anos uma entusiasmada admiração pelo poeta Murilo Mendes.Para que o leitor possa acompanhar e entender melhor o que abaixo vou escrever é necessário que tenha lido antes o texto a que me refiro: Poemas para amar Murilo como a si próprio , publicado em
www.outonos.com

O artigo começa falando em dois poetas mineiros interioranos, um de Itabira – Carlos Drummond de Andrade – e o outro de Juiz de Fora – Murilo Mendes. Embora a segunda cidade seja maior que a primeira, ainda hoje, segundo me contam os que a conhecem, continua de bom tamanho, conservando assim, apesar do progresso, certas especiais características que fizeram a infância dos dois ilustres filhos das Gerais.
Nesse começo, o autor –Luis Antonio Miscow – faz um rápido paralelo entre Drummond e Murilo, apontando ambos como poetas interessados nos homens:

- Ora, é evidente que os dois só haviam iniciado a longa caminhada através dos homens. E é exatamente esta preocupação com os homens que faz da obra de ambos algo magnífico, eterno.

E, logo em seguida, Miscow deixa Drummond para ficar somente com Murilo. E faz bem em não mais continuar o paralelo. Por quê ?

Em que pese o indiscutível humanismo sempre encontrado na obra do itabirense, a preocupação humanista de Murilo é diferente da que existe no autor dos poemas : “A Luis Maurício Infante”(dedicado ao neto do poeta, recém nascido em Buenos Ayres) e “O Homem: as Viagens”,.Ele, Murilo, deseja que o homem se humanize, sim, mas que também não perca o sentido da eternidade.Arrisco-me a dizer que, sob tal perspectiva, Drummond é mais telúrico. Além disso, a própria vida de cada um dos dois poetas transcorreu de modo diferente uma da outra. Drummond permaneceu a maior parte do tempo no Brasil; escrevendo crônicas em nossos jornais, além dos poemas que nunca deixou de editar. Murilo foi “cosmopolita”, viveu muitos anos na Europa; deixou versos e prosa em italiano e em francês.

Sobre o tipo de humanismo do autor do eloqüente poema : “O Rato e a Comunidade” (para mim um dos mais belos do poeta ), Miscow escreve:

Sendo católico, Murilo Mendes fará ao longo de sua obra milhares de referências à simbologia cristã. Mas os versos devem ser lidos de maneira mais ampla, entendendo-se que ele fala sempre do homem. Quando fala do mundo abandonado por Deus, entenda-se o mundo em que os homens abandonaram as noções de amor ao próximo, impossibilitando qualquer conjunção harmônica, e conseqüentemente qualquer possibilidade de paz.

Está aí bem definida uma perspectiva diferente da adotada por Drummond.

Curiosamente, ao escrever este comentário :

Os homens, por mais próximos que estejam, não se conhecem. Não se tocam, não se participam. São subúrbio porque jamais chegam ao centro, encerram-se às margens de si mesmos. E é preciso, como diz Murilo em outro poema, “substituir o lado pelo centro”.

o articulista do Outonos me fez justamente lembrar um dos poemas mais comoventes de Drummond, a que já me referi acima: “O Homem: as Viagens”

Miscow usou como apoio para seu artigo referências tiradas de cinco dos muitos livros editados por Murilo. É claro que a escolha é sempre um direito de quem escreve, mas eu gostaria que tivesse sido lembrado também um livro de Murilo que tem para mim um especial significado : “Contemplação de Ouro Preto” .Ler esse livro em nossa casa, numa hora de silêncio, de preferência à noite, quando as ruas lá fora estiverem desertas, é fazer, ao longo daquelas páginas, uma enternecedora viagem ao passado deste país, tão pouco conhecido por nós.

Para terminar estes mal alinhavados comentários, faço agora duas observações. A primeira é quanto ao título do artigo de Miscow. Muito bem inspirado, o título está ao modo de Murilo.
A segunda refere-se a uma sugestão que faz pouco tempo apresentei aos leitores deste “blog”, eu mesmo classificando-a como quixotesca, a de procurarmos todos não nos deixarmos envolver demais, não nos perturbarmos com as críticas – justas e necessárias – que vimos fazendo aos políticos deste e de outros países. E, com o espírito menos eriçado, com a cabeça mais fria, dedicarmos boa parte do nosso tempo à tarefa de “puxar para cima” a cultura, tão maltratada em nossos dias. Ora, o artigo de Luis Antonio Miscow, salvo melhor juízo, está contribuindo para esse necessário trabalho de reconstrução..Parabéns !


posted by ruy at 2:44 da manhã

5.3.04

 
Por que maravilhosa ?


No “post”de ontem, em certo instante, referindo-me à Idade Média, usei a expressão:
“ maravilhosa civilização”. Ora, qualquer leitor tem o direito de me perguntar: “por que maravilhosa ?”. Entretanto, mesmo que essa pergunta não me seja feita, creio que seja bem oportuna uma explicação sobre os motivos que me fizeram usar aquele adjetivo.Peço apenas ao leitor um pouco de paciência. E que Deus me ajude a ser bem claro no que, a seguir, vou escrever.

Começarei dizendo que o par de termos “maravilhosa civilização” é perfeitamente aplicável ao Medievo por duas razões básicas, a saber:

- naquela época, distante mil anos na nossa, os homens nem conheciam esta palavra: civilização . O uso do termo com o sentido que conhecemos é bem moderno. Segundo a Enciclopédia Britânica, em 1772 Boswell teria sugerido a palavra “civilization”ao Dr. Johnson, mas este recusou-se a incluí-la em seu famoso dicionário. O fato é que os medievais pertenciam a uma civilização mas não estavam conscientes disso, ou melhor dizendo: não viviam conscientes disso. Para que o leitor melhor compreenda o que estou querendo dizer explico: hoje nos lembramos bem de nossa infância, e a vemos como de fato foi; porém, quando éramos crianças, não tínhamos consciência do que ela, a infância, realmente significava em nossa vida;

- a segunda razão do maravilhoso da Idade Média consiste no fato de que ela é, por vários motivos, irrepetível. Note o leitor que de propósito usei a palavra “motivos”, não para evitar a repetição de termos, mas para afastar qualquer sonho saudosista de restaurar em nossa época aquele tipo de vida que durou cerca de mil anos. Ele não poderá voltar, do mesmo modo como nunca mais voltaremos a ouvir, com a mesma atenção e a mesma alegria, os contos de Grimm que nossas mães ou tias liam para nós em nosso tempo de menino.

No “post” de ontem, falei sobre a polêmica que o filme de Mel Gibson tem suscitado.Realmente, isso vem acontecendo em várias comunidade judaicas. Fazendo gancho com esse fato, agora lembro algo bem interessante que relaciona os judeus com a Idade Média.
Naquela época os irmãos de raça de Nosso Senhor e da Virgem Maria, de São Pedro e dos demais apóstolos, não tinham vida mansa entre os povos europeus.Afinal, eles, os judeus, é que haviam crucificado Jesus. Isso, para um medieval, era imperdoável.
Curiosamente, no tempo de São Fernando, rei da Espanha - primo do grande São Luís, rei de França - existia uma situação que contrastava com o caso geral; o monarca espanhol conseguia manter em razoável bom convívio, em serena harmonia, dentro dos limites de seu reino, os cristãos, os judeus e os árabes. Pois bem, em que pese aquela geral hostilidade que se fazia contra o povo judeu na Idade Média, hoje podemos ler em dois autores judeus – EGON FRIEDELL e GUSTAVE COHEN – os mais entusiasmados elogios àquela época em que foram construídas as magníficas catedrais de pedra.

Quando lemos, nesses dois respeitáveis escritores (um deles morreu em conseqüência indireta da perseguição nazista), os comentários perspicazes sobre a vida e a cultura no Medievo, somos levados a dizer com plena convicção:

- aquela foi de fato uma civilização maravilhosa !



posted by ruy at 5:08 da manhã

4.3.04

 
Duas questões fundamentais


Segundo notícia que li na Internet, o ator americano Mel Gibson, agindo como co-autor, diretor, produtor e financiador, teria lançado na quarta-feira de Cinzas, dia 25 do mês passado, em 2000 cinemas, um filme sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo (“The Passion”). Diz mais a mesma Internet que o filme vem gerando polêmica em várias partes do mundo. Como exemplo, aqui no Brasil, meu bom amigo A..., o serrano, depois de ler certo artigo publicado na Veja a respeito do filme, enviou àquela revista uma carta em que tenta mostrar vários erros e equívocos da autora do artigo. Digo “tenta mostrar” porque, em problemas desse tipo, o comum é o jornalista já ter fincado os pés no chão, ficando pouco disposto a reconhecer os erros cometidos.

Bem, mesmo levando em conta várias restrições que possam ser levantadas contra o filme e contra o próprio Gibson, uma coisa essa película já fez: conseguiu despertar a atenção de milhões de crentes e não crentes para a pessoa que para os cristãos é a mais importante do mundo, independente da época que se considere, passada, presente ou futura.
O filme nos faz pensar em duas perguntas fundamentais, sendo a segunda correlacionada à primeira. Vamos começar por esta.

Quem sou eu ?

A pergunta aparece no evangelho de São Mateus : “no entendimento dos homens, quem sou eu ?”.
Seria muita pretensão minha fazer neste instante um comentário apressado sobre esta interrogação de transcendental importância. Vou passar a palavra inicial a Dom Lourenço de Almeida Prado OSB, transcrevendo trecho de uma homilia publicada por esse monge beneditino em seu livro: “NA PROCURA DE DEUS” . Escreve Dom Lourenço:

Menor que o conhecimento científico, maior que o conhecimento científico.Deus quis e quer que cheguemos a Ele por um conhecimento de fé.Podia ser de outro jeito.Deus poderia impor-nos o seu conhecimento por força da evidência, podia mostrar-se a nós com a claridade plena de sua luz.Seríamos arrebatados.Não correríamos o risco de não reconhecê-lo.Não precisaríamos do esforço de procurá-lo.Mas perderíamos a grandeza da escolha, teríamos perdido a nobreza da iniciativa própria e o conhecimento seria menos nosso, conseqüentemente, menos jubiloso. O conhecimento pela fé envolve não apenas a nossa inteligência mas todo o nosso ser.É preciso querer crer, para vir a crer.É preciso uma disposição generosa, uma docilidade.Numa palavra, a humildade.

[ op.cit., pg. 264]
(Peço ao leitor: por favor, releia estas palavras de Dom Lourenço.Note que ali não escoa uma cachoeira atordoante; corre, sim, um regato de águas mansas que nos convida ao silêncio e à reflexão)

Agora, canhestramente, vamos nós.
Há dois mil anos , portanto muito antes que Mel Gibson pensasse em fazer seu polêmico filme, os cristãos conheciam e conhecem as palavras que a multidão vociferante dizia ao supliciado:

- Desça da cruz e acreditaremos nele !

Troquemos em miúdos.

- cure de imediato todos os que estão padecendo os tormentos do câncer, fazendo sofrer com eles os parentes e os amigos do doente, e acreditaremos nele;
- faça os políticos poderosos e prepotentes do mundo inteiro pedirem perdão aos homens comuns pelos desmandos e injustiças cometidos pelo governo de seus países e acreditaremos nele;
- leve os dirigentes das TV’s à frente das telas brilhantes e coloridas para reconhecerem publicamente que suas produções difundiram durante anos e anos a mediocridade e/ou a imoralidade e acreditaremos nele;
- eleve de imediato o nível cultural de nações inteiras que vêm há séculos vivendo na superstição, na sujeira e na miséria, e acreditaremos nele;
- castigue de modo exemplar todos os criminosos que premeditaram e cometeram os crimes mais perversos, trazendo dores profundas e perdas irreparáveis às famílias das vítimas inocentes, e acreditaremos nele;
- acabe, agora, com as guerras que estão matando milhares de jovens soldados e dizimando populações civis desarmadas, e acreditaremos nele.
Poderíamos aumentar esta lista de “gritos” que certamente não vão ser escutados no filme de Gibson, mas que muitas vezes ecoam no interior de almas revoltadas..Eu me lembro da entrevista de um famoso político brasileiro, já falecido, que dizia não acreditar em Deus porque se Deus existisse e fosse mesmo bom não permitiria o mal no mundo.

Dom Lourenço, quase ao terminar aquela homilia, diz estas palavras:

- O conhecimento da fé é mais que um conhecimento :é uma resposta a Deus que, ao revelar-se, se dá com uma animação de compromisso e de entrega.É um conhecimento pessoal.A pergunta não é só: “quem sou eu, mas “Quem sou eu para você ? “
Não se trata de conhecimento de informado, mas do conhecimento de envolvido e engajado.Não vos chamo mais de servos ...mas vos chamo de amigos...o amigo sabe das coisas do amigo (Cf. Jô 15,15).É o conhecimento do amigo.


A segunda pergunta, correlacionada com a anterior, seria, a meu ver esta:
- O que é a Igreja para mim ?
Por que digo que existe uma correlação entre as duas questões ? Vejamos.
Se de fato aceito, creio que Jesus Cristo é o Verbo de Deus Encarnado, é a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, se creio que Ele, ressuscitado, reina eternamente no Céu, tenho que admitir que Ele, como Deus, sabia de tudo que iria ocorrer, desde a tríplice negação de Pedro até o procedimento condenável de alguns papas do Renascimento, um dos quais recebeu um pito, cara a cara, dado por Santa Catarina de Siena.
Mas, há outro “detalhe” que escapa aos analistas desprovidos de uma necessária sensibilidade, aquela que não faltava ao nosso poeta Olavo Bilac que, em inspirado verso escreveu isto:
- “ a Beleza, irmã gêmea da Verdade” .
E aí, meus amigos leitores, eu escuto o Canto Gregoriano; eu vejo a cor e o brilho dos paramentos litúrgicos; eu aspiro o perfume do incenso que sobe num silencioso convite para que ergamos nossa cabeça; eu acompanho o rito das missas celebradas na língua de um povo que deixou de existir para dar lugar à maravilhosa civilização que os mal informados chamam de “Idade das Trevas”.
E mais: vejo uma multidão de homens e mulheres inteligentes, cultos e de fina sensibilidade que nunca se envergonharam de venerar sua Mãe, a Igreja, a mesma que foi fundada pelo Cristo.

É, Gibson, você já conseguiu fazer algo muito bom: fazer com que pensemos no mais necessário.


posted by ruy at 6:24 da manhã

3.3.04

 
Reflexões avulsas


Narcisismos.
Diz a lenda que Narciso apaixonou-se por sua própria imagem refletida sobre a superfície de um lago ou de um manso regato (não me lembro do detalhe).
Ora, existe aquilo que poderíamos chamar o “bom narcisismo”.Ele pode ocorrer quando o homem, voltando-se para seu próprio interior, de repente descobre maravilhado sua personalidade, sua unicidade e, ao mesmo tempo, constata a assustadora fragilidade dessa maravilha; verifica que é ao mesmo tempo ser e nada, glória e miséria. Descobrindo-se ontologicamente limitado e dependente, curva-se agradecido e obediente, e alegremente se humilha diante do seu Criador.
Porém, podem ocorrer também os “maus narcisismos”, aqueles que se deleitam com a própria feiúra .Um exemplo bem recente é o da presunçosa expectativa que vários elementos do meio artístico brasileiro criaram em torno do filme “Cidade de Deus”, julgando-o merecedor de um prêmio no Oscar.Com meus olhos vi e com meus ouvidos escutei, cerca de um mês atrás, certo notório artista do cinema e da TV nacionais dizer na tela colorida isto: “Cidade de Deus é um filme mais interessante que “O Senhor dos Anéis”.


O passado distante atuando no presente.
Quando a princesa Diana morreu, vítima de um acidente, em agosto de 1997, imediatamente, condoído daquela pobre moça, lembrei-me do longínquo culpado, a saber, aquele rei luxurioso e prepotente que no século XVI, para melhor satisfazer sua lubricidade, inaugurou na Inglaterra uma desobediência talvez bem mais grave que a de Lutero.De fato, não se pode entender o nacionalismo inglês sem levar em conta a pessoa egocêntrica de Henrique VIII. Tenho uma enorme antipatia por esse monarca, tanto maior quando me lembro que foi ele quem mandou decapitar Tomas Morus, o grande Santo Tomás Morus, rico em sabedoria e em senso de humor, tal como seu compatriota, o bom Chesterton.
Eis aí um excelente exemplo de como um fato ocorrido em um passado distante pode repercutir no presente. Para o bem ou para o mal, independente do tempo, somos todos solidários. Leon Bloy tinha uma fina sensibilidade para essa misteriosa conexão das almas que, feita sob a inspiração da Graça, constitui a Comunhão dos Santos.Caso contrário, leva à terrível promiscuidade dos condenados, lá onde haverá “choro e ranger de dentes”.


Fumar em público.
Está ai um hábito do ser humano que há muitos e muitos anos provoca discórdia na sociedade.
Lembro-me de um quadro que vi no Tesouro da Juventude (presente de meus pais quando completei oito anos) no qual era representada esta curiosa cena, provavelmente pintada no século XVII: revoltados contra a proibição baixada pelo “mayor” da cidade contra o ato de fumar, um enorme grupo de cidadãos postou-se diante da residência daquela autoridade e ali ficaram fumando acintosamente, desbragadamente, seus longos cachimbos, típicos da época..
Aqui no Brasil temos assistido aos embates entre os “legalistas” e os “antilegalistas”, isto é, entre os que apóiam as leis contra o fumo e os que, mesmo não sendo fumantes, se opõem contra aquilo que consideram, com certa razão, uma indevida presença, uma antipática intromissão da autoridade pública nos hábitos das pessoas.
Ora, pelo que tenho observado, parece-me que os gregos e troianos dessa guerra esfumacenta não tocam num ponto para mim nuclear, e que se distancia dos aspectos legais, a saber: infelizmente, muitas vezes o fumante talvez se comporta de modo egoísta , sem se preocupar, nem um pouco, com os vizinhos, os quais eventualmente têm alergia ao fumo (que me perdoem os leitores fumantes).


Ler em voz alta.
No Domingo passado, ao assistir à missa vespertina na igreja que tenho por hábito freqüentar, tive que escutar contristado a leitura da epístola feita por um adolescente, rapaz humilde, com certeza piedoso, mas que não conseguia dizer de modo claro, bem concatenado e no ritmo correto, as frases que ia lendo no folheto da missa. Não era simplesmente um problema de nervosismo; nesses casos, o comum é a gagueira.O que eu ouvia, entretanto, deixava mesmo transparecer que aquele pobre menino não estava sendo treinado em seu curso secundário no exercício da leitura em voz alta.
É bem conhecida a passagem das Confissões em que Santo Agostinho observa admirado como Santo Ambrósio lia em silêncio, sem mover os lábios, contrariando o geral costume da época.Se o costume de ler em voz alta era comum quando se tratava de prosa, com muito mais razão no caso da poesia, recurso óbvio para narrar as epopéias a um grupo de ouvintes, muitas vezes formado por analfabetos.
Essa leitura da poesia em voz alta permaneceu ao longo dos séculos. Quando eu era menino, aprendi com meu pai o gosto pelo ritmo dos versos. Nas escolas faziam-nos ler textos em voz alta; os professores ensinavam-nos a pontuação e a pronúncia corretas
Fica a pergunta: por que não restaurar no ensino do primeiro e do segundo grau esse milenar treinamento da nossa sensibilidade ?


posted by ruy at 2:36 da manhã

2.3.04

 
O pior prejuízo


Se a memória não me trai, como dizem os gaúchos com aquela pronuncia deles, bem aberta no monossílabo verbal, já falei neste “blog” sobre os macro e os micro efeitos do antropocentrismo na Civilização Ocidental Moderna. Entretanto, o tema – para mim pelo menos – tem uma tão grande relevância que senti hoje um enorme desejo de retomá-lo neste pequeno oásis.

Já constitui mesmo lugar-comum o afirmar que vivemos todos imersos numa densa atmosfera cultural a que já classificaram com o sugestivo nome de infoesfera , isto é, uma envoltória cultural impregnada pelas informações que todos os dias são continuamente produzidas pelos jornais e revistas noticiosas, pelas estações de rádio e TV, pela Internet e sei lá mais quê. A maioria das pessoas está a par dos fatos da política nacional ou internacional, a par das fofocas do meio artístico, a par das últimas descobertas científicas, a par do resultado do Oscar e dos resultados dos campeonatos de futebol estaduais e nacionais. É, sem exagero algum, uma pletora de informações.

Esse fato foi muito bem comentado pelo escritor americano Daniel Boorstin em um artigo, publicado na revista Seleções do Reader Digest em dezembro de 1982, intitulado: O Homem “atualizado” não sabe de nada , de onde citamos este trecho:

O problema não é que a informação seja inútil, mas sim que ela se espalhe demasiado depressa e nos faça submergir. Pior ainda, este tipo de informação torna-se um vício. A nossa sede de informação, por seu lado, a faz proliferar.
Como conseqüência, desenvolveu-se em nossos tempos uma espécie humana muito particular, já não Homo sapiens, mas Homo atualizadus, maravilhosamente bem informado, mas lamentavelmente ignorante. Ele conhece os tiques dos presidentes, as gafes das celebridades, as ameaças das subidas de preço da OPEP; mas pode sentir-se inteiramente perdido nos meandros do conhecimento, da política exterior, da economia ou da tradição política.


O que Boorstin afirma no trecho acima transcrito está correto, é mesmo verdade.Mas, se o leitor tornar a ler, com atenção, o que ali está afirmado poderá perceber que existe uma discreta ênfase, talvez intencional, nos problemas políticos, os quais geram grande parte, quem sabe a maior parte, da sufocante pletora de informações. Ora, justamente essa ênfase é que vem desviando a atenção de nossos melhores críticos, sejam eles jornalistas inteligentes e de ótima cultura, sejam pensadores dotados dos melhores critérios, sejam pessoas comuns com bom nível de escolaridade, desviando, repito, nossa atenção do magno problema gerado pelo antropocentrismo na cultura ocidental .Qual seria esse “magno problema”?

Pretendo responder a esta pergunta listando fatos que o leitor poderá constatar facilmente mediante uma atenta observação do quotidiano. Vejamos:
- na maioria de nossas famílias atualmente vivemos, consciente ou subconscientemente, basicamente preocupados com nossa sobrevivência;
- na maioria de nossas famílias consideramos como um valor a ser preservado o objetivo de vencer na vida ; nossos moços (e moças) são desde cedo incentivados a escolherem profissões seguras, isto é, selecionadas entre as que possam garantir melhores salários, conforto e segurança;
- na maioria de nossas famílias aceitamos passivamente a onipresença do Estado, por exemplo: pouco estamos nos incomodando com o errado nome : Ministério da Educação, uma absurda designação dada a um órgão público que a rigor deveria chamar-se Ministério do Ensino , ou da Escolaridade
- na maioria de nossas famílias atualmente vemos a religião muito mais como um costume herdado de nossos pais e avós, sem que essa crença implique outro hábito que não seja o do comparecimento ao culto semanal (entenda-se a palavra “hábito” no seu melhor sentido);
- na maioria de nossas famílias atualmente nem sequer pensamos na hipótese de um de nossos filhos abraçar o sacerdócio ou a vida religiosa “stricto sensu”;
Em resumo: infelizmente , na maioria de nossas famílias atualmente vivemos, e sem perceber isso, uma descontraída acomodação, uma instalação no mundo, haja vista, por exemplo, o número bem reduzido de nossos ambientes familiares em que ocorre a freqüente oração em comum.

Ora, esse quadro melancólico do ambiente familiar é fruto de um lento e progressivo processo de esvaziamento filosófico e religioso cujo início pode ser mais ou menos assinalado no século XIV. O nominalismo marca o começo da entropia filosófica e paralelamente, quando Lutero (que, coincidentemente, era nominalista) deu seu insolente grito de revolta, já havia em toda a Cristandade focos de rebeldia; a própria Sé de Pedro deixara-se envolver pela tentação da Carne e do Mundo.O Concílio de Trento foi uma magnífica tentativa para colocar ordem na Casa.

Infelizmente a maioria dos que vêm dedicando seu tempo e sua inteligência à censura (justa e necessária) dos erros políticos que hoje nos infernizam raramente pára para observar que a instituição humana mais prejudicada pela decadência cultural do Ocidente é a família..
Uma boa pergunta: por que ocorre esse generalizado esquecimento ?

É por causa de todos esses fatos que venho insistentemente, ad nauseam, recomendando aos leitores deste “blog” a leitura do livro “Dois Amores, Duas Cidades”. Ali, naquele genial ensaio histórico, podemos ver muito bem explicada a origem de nossos atuais desconfortos, a começar pelo magno problema da família.


Um adendo

Este “post”já estava encerrado quando me lembrei de um importante detalhe que convinha ser ressaltado, especialmente para os que dedicam a maior parte de seu tempo à análise dos temas políticos:
- a amizade cívica , condição essencial para chegar ao Bem Comum de uma sociedade humana, só pode florescer quando nas famílias existe uma verdadeira amizade.Esta, por sua vez, só existe de fato quando o maior Amigo tem a primazia na vida familiar.
Mas, quem hoje em dia, mesmo entre os supostamente mais bem informados, sabe definir o que sejam: amizade cívica e Bem Comum ?


posted by ruy at 2:39 da manhã

1.3.04

 
Seguindo minha própria sugestão


No meu “post” de ontem fiz uma sugestão aos leitores deste “blog”. Hoje vou tentar seguir o sugerido por mim, passando a palavra a meu velho amigo Magno Stavacca Jr . Trata-se de um artigo que ele publicou já faz um bom tempo. Apesar disso, creio que o assunto seja bem oportuno.


Robert Louis Stevenson.
( Magno S. Jr.).


Em 13 de novembro de 1850, nascia em Edinburgh, Escócia, Robert Lewis (depois Louis ) Balfour Stevenson, que viria a ser um dos maiores romancistas e poetas do século XIX. Devido a um crônico e delicado problema pulmonar acabou transferindo residência para a ensolarada região do Hawai, onde veio a falecer em dezembro de 1894. Seus restos mortais jazem no topo do Monte Vaea, em Samoa, conforme desejo do próprio escritor. Na lápide estão os versos escritos por ele mesmo como epitáfio:
Under the wide and starry sky,
Dig the grave and let me lie…


Impiedosamente criticado pelos críticos considerados “superiores”, Stevenson foi defendido e elogiado pelo notável ensaísta Gilbert Keith Chesterton, em livro cujo título é o nome pelo qual o romancista ficou mais conhecido: Robert Louis Stevenson. Nesse livro, o magistral Chesterton presta homenagem à vida “lively, romantic and adventurous” do autor dos romances : “A Ilha do Tesouro”, “O estranho caso do Dr. Jeckil and Mr. Hyde”, “Raptado”, “O Senhor de Ballantrae”, “A Flecha Negra: um Conto de Duas Rosas” (vários deles levados à tela dos cinemas) e muitos outros, além de inúmeros poemas.

No que me toca, tenho um particular carinho pelo grande romancista por dois motivos.O primeiro deles é de natureza bem pessoal. Acontece que o livro “A Ilha do Tesouro” foi o primeiro romance que li em minha vida, quando tinha de sete para oito anos. Lia maravilhado aquela narrativa em torno de cruéis piratas, enfrentados pela coragem de um menino, talvez pouco mais velho que eu ! Creio que vou morrer guardando na memória a emoção daquela infantil leitura. Bem a propósito, vou transcrever em seguida um trecho do supra citado livro de Chesterton, em que o ensaísta faz um belíssimo elogio à infância :

“But most men know that there is a difference between the intense momentary emotion called up by memory of the loves of youth, and the yet more instantaneous yet more perfect pleasure of the memory of childhood. The former is always narrow and individual, piercing the heart like a rapier; but the latter is like a flash of lightning, for one split second revealing a whole varied landscape; it is not the memory of a particular pleasure any more than of a particular pain, but of a whole world that shone with wonder. The first is only a lover remembering love; the second is like a dead man remembering life."
[do livro de Chesterton sobre Robert Louis Stevenson].

Para explicar o segundo motivo do meu carinho por Stevenson, preciso falar do recém beatificado Padre Damião de Veuster, belga nascido em 1840, falecido em 1889, em Molokai, no Hawai, depois de dezesseis anos inteiramente dedicados aos doentes de uma colônia de leprosos existente naquela ilha, doença que ele mesmo veio a contrair e que o acabou matando.
Ora, tão logo se soube, naquela ocasião, que o padre Damião ficara doente, certo pregador religioso não-católico fez de público grave acusação à dignidade do missionário belga, insinuando que o contágio da doença fora decorrente de uma suposta vida promíscua do sacerdote.
Assim que Stevenson tomou conhecimento dessa infeliz homilia, publicou um veemente artigo na imprensa local, não só defendendo o padre injustiçado como também criticando severamente a mesquinha, a terrível leviandade do tal pregador. Detalhe importante: Stevenson não era católico. Esse fato é contado pelo conhecido romancista inglês Graham Greene, em um de seus ensaios.


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O BOL está péssimo... Hoje de manhã sei que há mensagens de alguns amigos, mas não consigo ter acesso a elas. Quando estive na serra, no Carnaval, o gerente do cyber-café queixou-se do mesmo problema. O jeito é usar os dois e-mails.
Aos que enviaram msgs de ontem para hoje, por favor retransmitam-nas usando o outro e-mail do Ruy.
Muito obrigado.



posted by ruy at 3:21 da manhã

 

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