Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





Arquivos:





Fale Comigo

15.2.04

 
Reflexões do outono


Faz muito anos conheci um padre italiano que pertencera a uma família nobre e rica, chegara a cursar medicina e tudo abandonou para tornar-se sacerdote. Veio para o Brasil e aqui morreu velhinho e, graças a Deus, bem lúcido.
Certa vez eu disse a ele que gostaria de fazer uma viagem à Itália. Meu amigo, Monsenhor S... ,comentou : “então viaje em outubro; os outubrini são os dias mais bonitos para viajar pela Itália”.
Ora, naquele país, como em outros da Europa, o mês de outubro cai no outono, a estação que se intercala entre os calores do verão e o rigoroso frio do inverno.Metaforicamente falando, na vida humana o nosso outono corresponde à fase em que ainda não chegamos propriamente à velhice, mas já estamos sentindo o desconfortável sopro do derradeiro esfriamento.Ora, pergunto, por que o meu amigo, o padre italiano, teria dito que os dias do outono eram os mais belos para a viagem?

Estas lembranças e reflexões me vieram à memória logo quando saí ontem à tarde de um cinema onde fora com minha mulher assistir ao filme “Sob o sol da Toscana”.
A Toscana, como o leitor deve saber, é a região da Itália onde se pronuncia o italiano padrão e onde, dizem as más línguas, as pessoas são mais convencidas, “snobs” se o leitor preferir. É a terra onde mandavam os perigosos Medici, com suas palacianas intrigas.É também a região onde viveram Dante, Américo Vespúcio, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Maquiavel, Papini e Puccini; é, sobretudo, a região onde viveu a grande Doutora da Igreja : Santa Catarina de Siena.

Um filme que tem a Toscana, em especial Florença, como cenário sempre é atraente; além do colorido das flores e dos frutos da paisagem, faz sonharmos com um remoto passado. Assim, essa comédia romântica a que assisti ontem leva uma inicial vantagem sobre outros filmes congêneres.
Entretanto, é possível que, se tivesse visto o mesmo filme em outra época, no tempo em eu estava na primavera ou no verão da minha existência, talvez não tivesse conseguido perceber, no desenrolar daquelas cenas dramáticas, certas sutis mensagens que só são possíveis de serem descodificadas por nós quando atingimos o outono da vida.Em outra época talvez eu ficasse exclusivamente atento aos condenáveis aspectos da cultura contemporânea, permissiva, tolerante com o homossexualismo e com o chamado amor livre entre um homem e uma mulher.

Quando somos moços e possuímos firme convicção sobre princípios básicos, valores essenciais e, sobretudo sobre pontos nucleares da doutrina religiosa em que fomos educados, temos uma tendência a levar um pouco longe demais o nosso zelo pelo que é moralmente certo, esquecendo, nessa compreensível e justa atitude zelosa, certas severas recomendações que o próprio Cristo, Nosso Senhor, várias vezes nos faz no Seu evangelho.
(aliás, São Bento, em sua venerável Regra, alerta seus monges sobre o perigo do que ele chama o zelo amargo).
E, esquecendo essas recomendações do Mestre, deixamos de prestar atenção nas pessoas, deixamos de ser misericordiosos com as pessoas. Não conseguimos, nesse caso, separar, distinguir o erro e aquele ou aquela que o cometeu, conforme sabiamente aconselhava Santo Agostinho, que nisso mostrava ser bom discípulo de Jesus..Deixando de fazer essa necessária separação, saímos da radiosa província da Moral para entrar na sombria região do moralismo.

Na película a que estou me referindo, existem personagens bem interessantes, tais como o bem civilizado corretor de imóveis que ajuda a escritora americana a comprar uma casa, e Catarina, uma mulher amadurecida pelos anos e pelos sofrimentos, excêntrica, isso talvez como defesa contra a amargura, e a quem os habitantes da cidade chamam de “a loura maluca”. Pois é, em certa cena do filme, a “loura maluca” faz esta reflexão outonal:

O importante é estarmos sempre prevenidos para não deixar morrer aquela criança que ainda existe dentro de nós

Para entender bem o que ela quer dizer com estas palavras é preciso mesmo ter ultrapassado a primavera, o verão e ter chegado aos outubrini de que me falava o bom Monsenhor S...


posted by ruy at 2:32 da manhã

14.2.04

 
Carta a um leitor deste “blog”


Prezado X...

Tenho recebido muitas mensagens de leitores do Despoina Damale, várias trazendo um generoso apoio, algumas de crítica; uma ou outra provocando polêmica, hábito esse que não faz meu estilo. Mas, a mensagem que você me enviou anteontem (dia 12), apesar de não ser longa veio impregnada de perplexidades, e me fez ficar pensativo, imaginando um modo mais adequado para responder a suas perguntas, todas elas respeitosamente feitas.

Um primeiro aspecto que é preciso ser ressaltado, amigo X..., é o papel da inteligência em nossa vida. Colocados, na hierarquia da Criação, logo abaixo dos Anjos, temos uma inteligência, digamos assim, “encarnada”. Desse modo, não gozamos daquela imediata intuição angélica em relação à verdade. Para chegarmos ao conhecimento da verdade, temos que usar o caminho não muito confortável que passa através de nossa sensibilidade; dependemos de nossos sentidos. Além disso, estamos sempre sujeitos à interferência das emoções, do cansaço, das doenças, das idiossincrasias, enfim, de tudo o que faz parte da condição humana.E quando, depois de um sério e demorado esforço, chegamos ao que percebemos estar reluzindo com o brilho da verdade, nesse instante, para que não nos tornemos envaidecidos, vem-nos sempre à lembrança o que disse o mais santo dos sábios e mais sábio dos santos: Santo Tomás de Aquino, quando escreveu isto:
- A realidade transborda do conceito.

Você falou sobre a Poesia. Ora, o bom poeta, o poeta autêntico, e não apenas um escrevinhador de versos, pode, de vez em quando, dar-nos um alerta sobre essa verdade que o Santo Doutor nos ensinou. Em geral, empurrados pela agitação moderna, atordoados pelo ruidoso palavrório da mídia indiscreta e escandalosa, esquecidos da vital importância do silêncio, passamos pelos mais banais objetos à nossa frente sem perceber que o mais prosaico deles, como um simples pé de chinelo ou um modesto banco de madeira, é muito mais do que aquilo que está sendo visto pelo nosso olhar “envelhecido” (note que coloquei o envelhecido entre aspas; entenda-se: o olhar de quem perdeu a candura da infância).

No que toca à Bíblia, peço que você pare um pouco, mantenha sua sensibilidade sob controle e reflita. Pense nos milhares e milhares de homens e mulheres, uns santos canonizados, outros talvez ainda potencialmente canonizáveis, e ainda outros que, embora não tenham sido neste mundo modelos de perfeição, deixaram um exemplo de sincera e dramática procura da santidade, e todos esses homens e mulheres tiveram em vida o maior respeito, a maior veneração pelo Livro Sagrado. Vamos lembrar apenas uns poucos, bem poucos, para não tornar exagerado o tamanho deste “post”:

- São Paulo, Santo Agostinho, São Jerônimo, São Ireneu, São Bento, Santa Hildegarda de Bingen, São Boaventura, Santo Tomás de Aquino, Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz, Santo Inácio de Loyola, Santo Tomás Morus, São Francisco de Sales, Santa Terezinha do Menino Jesus e da Sagrada Face;
- Pascal (matemático, físico e pensador), John Henry Newman, Gilbert Keith Chesterton, Charles de Foucauld (que foi de família nobre e rica e acabou assassinado em seu eremitério no deserto do Saara), Jacques Maritain e sua esposa Rahíssa Maritain, Monsenhor Charles Journet (cujo enterro, à semelhança do nosso padre Leonel Franca, teve a presença reverente de uma pequena multidão em que havia pobres e ricos, homens comuns e embaixadores), Mortimer Jerome Adler (para mim pelo menos, o grande educador do mundo moderno), Dostoievsky, T.S. Eliot, Peguy (que morreu à frente de seu pelotão na guerra de 14), Machado de Assis, Murilo Mendes.

Veja bem, citei apenas alguns homens e mulheres que certamente não foram pessoas desprovidas de cultura nem lerdas de inteligência.Além disso, muitos deles tiveram vida ativa, radiosa presença no mundo civilizado.
Creio que você agora, serenamente, poderá perguntar a si próprio :
- se esse pessoal todo jamais sentiu-se constrangido, diminuído ou pouco inspirado, pouco motivado pela simbólica linguagem usada na Bíblia, por que nós também não poderíamos ler o Livro Sagrado com igual proveito?

E há mais um interessante aspecto que convém lembrar.
O filosofo Ernst Cassirer (que não creio tivesse sido muito religioso), em seu livro “Ensaio sobre o Homem-(introdução a uma filosofia da cultura humana)“ (Ed. Martins Fontes,1977) diz o seguinte:

A razão é um termo muito inadequado com o qual compreender as formas da vida cultural do homem em toda a sua riqueza e variedade.Mas todas essas formas são formas simbólicas.Logo, em vez de definir o homem com animal rationale , deveríamos defini-lo como animal symbolicum .
[op.cit., pg.50]

Admitindo, pois, como correto esse ponto de vista de Cassirer, vemos que o “ëstilo” da Bíblia está perfeitamente adequado ao homem!

Comentei acima o exemplo dos santos. Ora, para finalizar esta carta, que já deve estar cansando você, amigo X..., cito uma oportuna reflexão de Murilo Mendes sobre os santos, tirada do livro “O Discípulo de Emaús”:

- Deus é tão elegante que não aparece para receber aplausos. Manda os santos em seu lugar.

Bom Domingo para você, e receba um abraço do
Ruy.


Amigo H...
Você recebeu os cinco textos que lhe enviei faz uns três dias ?


posted by ruy at 1:10 da manhã

13.2.04

 

Uma historieta verdadeira


Quando eu era adolescente, certa vez vi, em um filme americano, a fachada de um edifício público dos Estados Unidos sobre a qual estavam gravadas, em letras grandes, as seguintes palavras:
PAST IS PROLOGUE

Curiosamente, nunca mais me esqueci desta frase. Ela para mim sempre representou e ainda representa uma essencial verdade, com perdão do filosófico pleonasmo.E por acreditar nessa verdade, escrevo hoje este “post”.

O fato que vou contar a seguir ocorreu há muitos anos, quando grande parte dos leitores deste “blog”nem sonhava que iria nascer.
Tive um bom amigo, o I... ,que, em seu tempo de moço, morava no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, e trabalhava em um distante subúrbio carioca. Todos os dias I... saía muito cedo de casa e ia para o trabalho de ônibus (naquele tempo, poucas pessoas possuíam automóvel).Como a demorada viagem começava ainda no escuro, meu amigo aproveitava para ir cochilando, apesar das freadas bruscas do veículo e apesar dos ruídos do trânsito.

Certo dia, enquanto I...tirava seu habitual cochilo no ônibus, pôde escutar, perto de onde estava sentado, este diálogo entre dois passageiros:

- Oi Fulano, você por aqui ! Há quanto tempo não o via !
- Pois é. Tenho viajado muito e logo pretendo me aposentar.
- Aposentar, como ? Você ainda é bem moço !
- É verdade, mas vou parar de trabalhar porque já estou fazendo um excelente pé de meia ! Imagine você. Há meses estou levando caminhão de tijolos para a construção de Brasília. Pelo caminho, vendo uns duzentos tijolos ali, outros cem mais adiante, uns trezentos depois; e quando chego lá, entrego o restante da carga sem problema. Passam o recibo e ninguém confere coisa alguma. Por isso lhe digo: mais uns seis meses e me aposento!


Ora, esse diálogo me foi contado pelo meu falecido e grande amigo I...., de quem nunca tive motivo para duvidar.
Pois bem, agora imagine o leitor em quantos caminhões ocorria o transporte de tijolos feito daquele modo corrupto, em que eram cúmplices motoristas e outros homens supostos honestos fiscais das obras do novo Distrito Federal.

Se os jovens leitores deste “blog” procurarem antigas edições do mapa do Brasil, pesquisa essa que não deve ser tão difícil, vão com certeza encontrar desenhado sobre o Estado de Goiás um pequeno retângulo sobre o qual nitidamente aparecem estas palavras:
- “LOCAL DA FUTURA CAPITAL DO BRASIL” .
De fato, a interiorização da capital brasileira era uma idéia muito antiga, que existia desde o Império, uma época em que ninguém podia imaginar os futuros foguetes balísticos de longo alcance, como os que durante a Segunda Guerra Mundial fizeram tantos estragos e tantas vítimas na Inglaterra. Ora, a história do Brasil como grande colônia portuguesa na América do Sul registrava várias invasões em nossa costa. Levar, pois, a capital para o centro do País correspondia a uma necessidade estratégica perfeitamente razoável naqueles tempos.

Entretanto, construir a nova capital do modo como foi feito, com um açodamento inspirado no mínimo pela vaidade pessoal, fez surgir em larga escala aquela corrupção dos tijolos e sabemos lá quantas mais...

Há uma antiga e sábia afirmativa de Santo Tomás de Aquino que vale a pena lembrar neste instante:

- Parvus error in initio, magnus est in fine
[Um pequeno erro no início, grande no final]

Creio que tal afirmativa se aplique perfeitamente ao modo como se construiu Brasília e aos maus costumes que, em conseqüência, depois se fixaram na vida pública deste pobre país...


Pequena coleção de erros e equívocos


Na página A4 do JB de ontem (dia 12/fev), foi dada a notícia de que o sr. Ministro da Educação pretende estatizar vagas ociosas nas universidades particulares (sic).
Segundo o que está no jornal, o Ministro disse estas palavras:

A intenção é criar 100 mil vagas até o fim do ano .

No final da notícia, diz-se que o governo deseja um debate “profundo e respeitoso”.E seguem-se as palavras finais do Ministro:
Uma discussão dentro de uma questão sagrada (sic), que é o aparato(sic) de ensino superior vinculado a um projeto nacional de desenvolvimento .

Vamos lá, Ruy, paciência.
Para começar, lembro o que há muito tempo venho dizendo e escrevendo, ou seja, que o nome do Ministério tinha que ser: do Ensino, ou da Escolaridade.Revejam as lições de Mortimer Jerome Adler a respeito do assunto.
“Universidades particulares”. Ora, toda escola em princípio é pública, a menos que tenha sido montada por um milionário excêntrico, dentro de sua mansão e para atender exclusivamente a seus filhos e netos.
Por que esse número bem redondo:100 mil ? Um aspecto que não deveria ser esquecido por quem realmente entende de ensino em geral, e muito especialmente de ensino em nível superior, é o fato de que a universidade deve ser uma instituição destinada aos que têm vocação para os estudos avançados, sem compromissos pragmáticos, como o tal compromisso da “sagrada questão do desenvolvimento nacional”.Curiosamente, esse equívoco “desenvolvimentista” foi cometido pelos governos que vieram logo depois de 1964, precisamente os governantes tão criticados pelos atuais políticos hoje no Poder e que naquela época eram oposição...

Como dizem os franceses: “plus ça change, plus c’est la même chose...”
[Por causa de fatos como esses é que meu bom amigo D...faz pouco tempo, em conversa comigo, comentava: “a verdadeira Universidade no Brasil está fora das universidades]



posted by ruy at 1:01 da manhã

12.2.04

 
O Mal


A maioria das pessoas adultas já leu a passagem do Livro do Gênesis , ou pelo menos já ouviu falar nela, onde a Bíblia nos conta como Adão e Eva foram tentados pela serpente e comeram o fruto proibido, o fruto da árvore do Bem e do Mal.É bom até que reforcemos a afirmativa anterior: serão bem raras as pessoas que ignoram o referido trecho da Sagrada Escritura. Ora, a questão que eu armo no início deste “post” é a seguinte:
- como muitas pessoas se posicionam diante daquela dramática narrativa ?

Toda esquematização corre o risco de ser falha e, por isso mesmo, está sempre sujeita a crítica, mas apesar disso vou dar uma resposta esquemática à pergunta que eu mesmo fiz.
Entre os que têm opinião sobre aquele episódio bíblico, temos de início os moralistas ingênuos e mal informados, aqueles que imaginam que o Pecado Original tenha sido a união carnal do primeiro par humano, ou seja, teria sido um pecado oriundo do uso do sexo.Ora, fácil é mostrar como tal concepção é errônea, basta lembrar que o mandamento “crescei-vos e multiplicai-vos” foi dado por Deus antes da Queda.

Há o grupo dos que, não muito preocupados com coisas tais como: pecado, tentação, castigo etc., dão um sorriso de olímpica superioridade quando ouvem falar naquele capítulo do Gênesis.Certa vez li, em um jornal importante, um artigo em que o autor, jornalista bem conceituado, amigo de um certo presidente da República, viajado na Europa, inteligente e bom escritor, saiu-se com esta (abro aspas): “conheço livros bem mais interessantes que a Bíblia”(fecho aspas ). Esses intelectuais auto-suficientes e supostamente bem instruídos ainda não descobriram a importância da linguagem simbólica. Não sei se são capazes de entender o significado e a correlata importância da poesia na vida humana.Isso para não nos referirmos à impiedade religiosa de quem não tem fé.

Um terceiro grupo conhece o que seja a linguagem simbólica; é capaz de entender, por exemplo, que o primeiro pecado tenha sido mesmo o do orgulho, ou o da intemperança gerada como conseqüência do inicial orgulho. Porém, tendo aprendido, em algum dia de suas vidas, essa correta interpretação da narrativa bíblica, dão-se por satisfeitos com isso e raramente refletem sobre ele, dificilmente param para pensar nele, pouquíssimas vezes interrompem suas tarefas para contemplar o mistério do Mal , justamente o essencial aspecto do assunto em pauta.

Ora, Ruy Maia Freitas tem bem modestas noções de filosofia e ainda mais precárias de teologia. Por isso, neste instante cedo respeitosamente a palavra ao monge beneditino, meu dileto amigo, Dom Lourenço de Almeida Prado OSB. Toda opinião de amigo é meio suspeita, mas apesar disso escrevo isto: para mim, Dom Lourenço é um sábio, não tanto pela quantidade do que conhece, mas sobretudo pela maneira como conhece as coisas. Trata-se dessa diferença entre o real conhecimento e a erudição, diferença essa detectada, por exemplo, no modo sereno e sensato com que um sábio apresenta seus argumentos .

Em seu livro “Na Procura de Deus- (Reflexões e Sermões )” ( editora AGIR- 1992), Dom Lourenço, no capítulo em que aborda o inquietante problema do sofrimento humano, nos fala sobre o mistério do Mal. Deixemos o nosso amigo monge falar:

- Os antigos se inquietavam tanto quanto nós com o problema do mal e da iniqüidade.Muitos imaginaram uma concepção dualista de nossas origens.Haveria um criador do mal e um criador do bem e aí a luta teria começado.Coube à lucidez do pensamento grego, com seus mestres de Filosofia, clarear o assunto, verificando que o mal era um não ser.Era um negativo, uma carência, um vazio.

A explicação metafísica da origem do mal não chega , contudo, a serenar os corações.Esse mal não é sempre um mal físico; é também um mal moral.Esse mal, conquanto se entenda como vazio ou como carência, é uma presença agressiva.É como um estranho que agride o ser, fere-o e , não raro, domina-o e o tiraniza.Esse mal, esse negativo, é, na verdade., angústia, sofrimento, dor e morte.
Como Deus o permite?


Disseram alguns e dizemos nós com razão, que o mal de um existe para o bem do outro.Ou o mal é mera aparência, uma visão parcial da realidade.Somos como uma pequena formiga que passasse por um belo rendado. Se ela parasse diante de um nó desse rendado e passasse a examiná-lo, diria – se soubesse dizer – que monstro disforme é esse ? Quem teria feito coisa tão desarmoniosa? E o artista se justificaria diante da formiga: você pensa assim porque não consegue ver o rendado inteiro.Se visse, perceberia que o nó se harmoniza no conjunto e contribui para a sua beleza.

Está tudo explicado? Ainda não. A ordem do universo é um objetivo muito distante e impessoal para pacificar todas as angústias.Que me adianta a ordem do universo? , diria a mãe que perdeu o filho.Eu quero é o meu filho.Não é apenas uma reflexão de egoísmo.A convicção de que o meu sofrimento beneficia a outro pode engrandecê-lo, mas, se for só isso, não deixaria de reduzir-me à mera condição de meio.

Surge uma explicação mais rica: o mal de agora é permitido, em vista de um bem maior ou de um bem futuro.Os males que vêm para o bem.Realmente, a dor no fígado protege o alcoólatra contra um mal bem mais grave, uma febre pode ser a oportunidade de refletir, contribuindo para retirar do crime a mão que já ia sendo nele colocada.E mesmo o sofrimento moral ajuda a enfibrar a nossa têmpera..
[Op. cit., pg. 131].

Poderia continuar citando trechos daquele capítulo do livro de Dom Lourenço.Porém, acredito que o leitor já teve uma boa idéia do que seja uma forma humana e sensata de abordar um problema tão inquietante como é o do mal.
Infelizmente grande parte dos analistas que se debruçam sobre graves problemas sociais e políticos passam ao largo desse magno mistério que faz parte de nossa vida.São, em geral, análises brilhantes, porém um tanto “cartesianas”, em que não sobra muito espaço para a transcendência.



posted by ruy at 4:59 da manhã

11.2.04

 
A Pessoa mais importante


Suponhamos – uma hipótese bem otimista – que alguns leitores deste “blog”, depois de terem lido meu “post” de ontem, tenham ficado pelo menos convencidos da importância da pessoa , isto é, da relevância desse venerável conceito.A esses poucos e agora alertados amigos peço vênia para propor a nós, isto é, a eles e a mim mesmo, esta questão fundamental :
- qual é a pessoa mais importante em nossa vida?

Quando acima escrevi “questão fundamental”, o adjetivo ali usado não tem, pelo menos para mim, um valor meramente subjetivo. Usei-o como certamente o teria usado, por exemplo, um Leon Bloy. Trocando em miúdos: afirmo que é fundamental porque da resposta àquela pergunta decorre o significado da minha existência, a saber: do meu passado, nele incluídas minha ingênua infância, minha sofrida adolescência, minha desajeitada mocidade; nele incluídas a passagem por uma guerra e por um acidente quase fatal; nele incluída a família que constituí e pela qual me considero moralmente responsável, ainda que minhas filhas há muito tempo tenham já constituído suas próprias famílias.

Da resposta àquela pergunta decorre o significado do que venho fazendo há dezenas de anos no meu ofício de ensinar, isto é, de tentar fazer com que os moços vejam nas minhas aulas muito mais que a simples exposição de teorias e modelos matemáticos, que eles descubram que a sabedoria é mais importante que o próprio conhecimento.

Da resposta àquela pergunta depende o significado deste “blog”.O que ele é para mim, um mero exercício de diletantismo literário ou uma tentativa, ainda que canhestra, de dar um testemunho aos leitores, meus irmãos em Cristo?

Da resposta àquela pergunta decorre um sentido para as minhas habituais críticas às mazelas dos mais diversos tipos que enxergo na sociedade contemporânea, permissiva e impregnada de mediocridade, que me deixam melancólico quando penso em meus netos – moralmente bem melhores do que eu quando tinha a idade que eles têm agora – controlados, sem perceberem, por um Estado cada vez mais onipresente; influenciados pela mídia, cada vez mais irresponsável; e, triste é dizê-lo, desiludidos por muitos bispos e padres que não conseguem convencer seus fiéis quanto ao entusiasmo que eles, os pastores, deveriam ter pela Pessoa supostamente mais importante em suas vidas: o Cristo, Nosso Senhor.

Neste ponto é oportuno fazermos uma outra pergunta:
- por que esses pastores, ainda que sejam honestos e bem intencionados, não conseguem entusiasmar seus fiéis, principalmente os moços ?
[antes de propor a minha resposta, quero deixar bem claro isto:
- para mim, entusiasmar não é o mesmo que estimular emoções ruidosas, incentivar sentimentalismos fáceis e sem profundidade ]

Quem já leu o livro em que o autor de “Dois Amores, Duas Cidades” narra de forma emocionante como se deu sua conversão ao Cristo e à Igreja, deve estar lembrado de um livro por ele citado, um livro que teve papel importantíssimo naquele retorno de filho pródigo. Trata-se da antiga, mas nem por isso menos oportuna, obra de Karl Adam:
JESUS CRISTO.
Existe uma edição recente em português, editora QUADRANTE, em tradução do original alemão publicado em 1933.

Nesse livro de menos de duzentas páginas (tamanho 13,5 por 19 cm) estás presente uma clássica e entusiasmada apresentação da Pessoa de nosso Salvador.

Podemos ler em vários trechos dessa obra de Karl Adam que o autor faz questão de ressaltar este aspecto da pregação de Jesus Cristo: ainda que exigências morais sejam essenciais nos ensinamentos do Mestre, existe um outro aspecto muito mais importante. Vejamos um exemplo.[ peço que o leitor me perdoe pelo tamanho da citação, mas ela é necessária para o bom entendimento do “post”de hoje]

...seja qual for a insistência que Jesus ponha em pregar a penitência e a justiça, por mais essencial que seja essa pregação, está longe de ser a última palavra e o ensinamento mais sublime que trouxe à humanidade.
Não basta que, para Ele, a justiça e o novo Reino sejam uma e a mesma coisa; que a sua mensagem do Reino se concentre em preparar uma comunhão de almas em busca da justiça de Deus; que a consciência que tem de si próprio e do seu papel consista em fazer d’Ele o mensageiro e o iniciador de uma nova vida moral. Restringir o alcance da sua mensagem a essa pregação moral seria desconhecer o conteúdo especificamente religioso, ou mais precisamente, o caráter sobrenatural e escatológico do novo Reino.

[pg. 71, op.cit]

Amigo leitor, veja bem: o caráter sobrenatural e escatológico do novo Reino .
Bem distante, pois, dessa atual mania de criar neste planeta o tal “mundo melhor”,. tão do agrado dos Bettos e Boffs da vida.

No Ato de Contrição, há um instante em que o penitente diz ao Cristo, representado pelo padre confessor:
- “por serdes Vós quem sois sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas”.
Esse é o nosso grande desafio: viver constantemente essa hierarquia de amor.


Hoje, festa da primeira aparição de Nossa Senhora a Santa Bernadete

Nossa Senhora de Lourdes, rogai por nós !



posted by ruy at 1:43 da manhã

10.2.04

 
Pessoas


Faz poucos dias um primo de minha mulher enviou-nos pela Internet um texto poético, “ lato sensu”, de autoria de Michel Quoist.Acompanhava a mensagem um fundo musical, creio que uma canção irlandesa, com certa beleza grave, típica daquela região que, em épocas remotas, “exportou” monges cultos e sábios para o continente europeu. Infelizmente este “blog” não pode fazer soar a canção, mas posso transcrever o texto. Aqui vai:

Se a nota dissesse:
“ Não é uma nota que faz uma música”,
... não haveria sinfonia.

Se a palavra dissesse:
“ Não é uma palavra que pode fazer uma página”,
... não haveria livro.

Se a pedra dissesse :
“Não é uma pedra que pode montar uma parede”,
... não haveria casa.

Se a gota dissesse :
“Não é uma gota que pode fazer um rio”,
... não haveria oceano.

Se o grão de trigo dissesse:
“Não é um grão de trigo que pode semear um campo”,
...não haveria colheita.

Se o homem dissesse :
“Não é um gesto de amor que pode salvar a humanidade”,
... jamais haveria justiça e paz, dignidade
e felicidade na Terra dos Homens.

Como a sinfonia precisa de cada nota.
Como o livro precisa de cada palavra.
Como a casa precisa de cada pedra.
Como o oceano precisa de cada gota de água.
Como a colheita precisa de cada grão de trigo.
A humanidade inteira precisa de ti, pois,onde estiveres,
és único e, por tanto, insubstituível.


Amigo leitor, peço que leia de novo o poema acima transcrito. Feito isso, reflitamos.
Todos os dias, sem parar, muitos de nós – movidos por uma louvável sede de justiça, motivados por uma ardente indignação contra o que está ocorrendo no palco da política internacional e nacional (ambas estão sempre ligadas) – muitos de nós falamos, escrevemos nossos desabafos, nossas lamentações, nossas diatribes.Basta ler os jornais, acompanhar vários “sites “ na Internet, assistir a certas corajosas palestras. Tudo isso é válido e não seria o Ruy Maia Freitas quem iria agora negar aos queixosos – entre os quais me incluo – o direito do grito.

Entretanto, meus amigos, todos esses justos e necessários lamentos só têm consistência porque existe de fato aquilo que Boécio definiu de modo formal como : Rationalis natura indivisa substancia , aquilo que o belo poema de Michel Quoist explicou de um outro modo, mais acessível a todos nós : a pessoa. Nem faz muito sentido acrescentar o adjetivo: pessoa humana; basta dizer simplesmente: pessoa.

Até mesmo aquele pobre deslumbrado (ou deslumbrado pobre) que anda fazendo tantas e tão criticáveis custosas viagens internacionais – ainda que ele não tenha o pleno sentido do que significa esse modo de ser – até mesmo ele é uma pessoa.
Em volta de nós, bem próximas de nós, estão pessoas, a maioria desatenta a isso que é a marca de uma eminente dignidade: ser uma pessoa, única, insubstituível e intransferível.
Será que temos prestado a devida atenção nesse fato? Que tal começarmos a fazer hoje mesmo esse útil exercício de observação, silenciosa e sóbria no uso de adjetivos classificadores ?


posted by ruy at 2:39 da manhã

9.2.04

 
O “pingue-pongue” e o “triângulo necessário”


Por diversas vezes já me referi a estas duas expressões que há tempos resolvi criar para me referir de modo sintético a duas atitudes possíveis de ocorrer nos relacionamentos humanos
É bem possível que alguns leitores deste “blog” torçam o nariz, aborrecidos com minha teimosa repetição.Mas, como faz pouco tempo escreveu meu amigo C..., um “blog” é mesmo a respiração de quem o edita, é uma reflexão bem pessoal de seu autor. Por isso, vou fazer agora minha inspiração, “oxigenando” minha cabeça e meu coração. Desculpem o mau jeito...

Creio que todas as relações humanas - sejam elas a de marido e mulher, de pai e filho, de patrão e empregado, de chefe e subordinado, de sacerdote e leigo, de professor e aluno, e outras - todas têm a possibilidade de serem conduzidas em uma destas duas formas: a do “pingue-pongue” ou a do “triângulo necessário”. Vejamos.

No caso do “pingue-pongue”, o par que se relaciona fica ligado exclusivamente aos interesses, aos direitos, às opiniões, às idiossincrasias individuais. É o “toma lá, dá cá” tão costumeiro em nosso quotidiano. Pode ser um “pingue-pongue” mais ou menos tranqüilo, como também pode ser uma pequena guerra verbal, às vezes terminada em agressões físicas ou pior...Tudo começa no apego ao “ego” que, semelhante a um pesado arquivo, guarda uma infinidade de regrinhas minuciosas, prontas para serem aplicadas ao menor sinal de um interesse contrariado.E o curioso é que essa atitude pode conviver com a desejável circunstância de serem as pessoas envolvidas no jogo possuidoras dos melhores referenciais.É um “jogo” cansativo, desgastante, monótono e triste.

Na situação do “triângulo necessário”, estão presentes três pessoas, duas que se olham face a face e uma terceira, invisível porém real, que olha as duas primeiras e a quem elas olham com os olhos da inteligência iluminada pela fé. O seja: o triângulo formado por um par humano e pelo Cristo. Levando a analogia um pouco mais longe - o que nem sempre é aconselhável – direi que o vértice principal desse triângulo fica em cima, na correta hierarquia.
Nesse caso, os eventuais desencontros que possam acontecer são logo submetidos ao critério, digamos, Paulino: “Senhor, que quereis que eu faça? “, apenas adaptando a pergunta a esta outra forma:
- “ Senhor, que quereis que nós façamos ?”

Neste instante um leitor pode comentar o que já leu até aqui dizendo que o arrazoado acima exposto é meio ou bastante esquemático.Não discordarei do leitor; apenas lembro que uma linha reta, traçada sobre uma folha de papel, se for observada com uma lupa vai sempre ser vista como algo muito diferente da reta ideal; é um modelo da reta que está no chamado “segundo grau da abstração formal” dos filósofos.Mas, é com esse modelo da reta que muita coisa útil pode ser feita neste mundo.

Continuando, pois, com os dois modelos que deram o título a este “post”, acrescento esta reflexão:
- talvez a mais dramática diferença entre o nosso mundo Ocidental moderno e o mundo Medieval consista nisto: a cultura do Medievo era propícia ao “triângulo necessário”, enquanto a cultura antropocêntrica de nossa época estimula o “pingue-pongue”.


Sutilezas relevantes


Na missa vespertina de ontem, ao transcrever o trecho do evangelho de São Lucas sobre a pescaria milagrosa, o folheto das orações distribuído aos fiéis colocava na boca de São Pedro estas palavras:

- Mas, em atenção à tua palavra, lançarei as redes.

Ora. ao ler o evangelho, o padre S... de propósito trocou a frase, dizendo alto e claro para nós, assistentes à missa, a tradução correta da Vulgata
:
- Mas, na tua palavra, lançarei as redes.

Depois, na homilia, o mesmo padre S...nos explicava :
- a frase como está no folheto sugere um simples movimento de boa educação, como se os pescadores estivessem fazendo uma concessão ao carpinteiro. Porém, a frase original, a correta, soa como um assumido ato de perfeita obediência, aquela que todos nós devemos praticar em relação a Nosso Senhor.

São sutilezas desse tipo que precisam ser lembradas de vez em quando.
Obrigado, padre S...!


posted by ruy at 2:35 da manhã

 

Powered By Blogger TM