Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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30.1.04

 
Pio XII


Faz dois dias, meu amigo A..., o serrano, enviou-me uma mensagem encaminhando um texto do escritor Olavo de Carvalho em que o conhecido jornalista afirma publicamente estar arrependido de ter publicado no Globo, tempos atrás, um artigo fazendo eco à difamação que foi maquiavelicamente armada há poucos anos contra o papa Pio XII.
Sempre são dignas dos mais calorosos elogios atitudes como essa do brilhante escritor porquanto, infelizmente, não é comum vermos pessoas que cometem tais tipos de erro admitirem a culpa. Entretanto, por se tratar da pessoa de Pio XII, sinto-me obrigado a fazer algumas considerações a respeito do assunto.

Olavo de Carvalho, além de penitenciar-se do grave erro cometido, traduziu e publicou, logo abaixo do seu mea culpa, um artigo do escritor americano Joseph Sobran, no qual este apenas mostra como foram injustas as acusações feitas a Pio XII, no que se refere às atitudes que esse papa teria tomado em relação aos nazistas e aos judeus. Mas, o mesmo Sobran não apresenta, pelo menos no texto traduzido, outras considerações a respeito da pessoa e da obra de Pio XII que não sejam as que desfazem as citadas perversas acusações. Como Ruy Maia Freitas é católico e sabe que muitos dos poucos leitores deste “blog” também são católicos, o “post” de hoje vai dizer algo mais sobre o grande papa.

Para um católico, segundo penso, não basta saber que Pio XII não cometeu aqueles infames atos cuja culpa foi a ele atribuída por aqueles abjetos difamadores. Isso é pouco, muito pouco. Um não-católico pode dar-se por satisfeito com a mera isenção da culpa. Um católico não pode.

Vejamos alguns dados sobre Pio XII:

- Eugênio Maria Giovanni Pacceli, nasceu em Roma em 2 de março de 1876. Filho de uma família dedicada ao serviço papal, teve como pai um homem profundamente piedoso e disciplinado. Foi o mesmo que, tendo perdido prematuramente sua esposa, cuidou de seus quatro filhos e deles educou a consciência.
Eugênio fez seus primeiros estudos em Roma, e desde jovem mostrou-se dedicado aos estudos, que, ao lado de uma extraordinária memória e de uma vida bem regrada, fizeram dele um estudante exemplar.


Essa excelente escolaridade inicial, juntamente com uma maturidade precoce, vão tornar o futuro papa alguém capaz de entender o papel da ciência na vida dos homens. Vão fazer dele o grande incentivador da Academia Pontifícia das Ciências. Vale a pena neste instante lembrar seu discurso aos cientistas membros daquela entidade, proferido em 22 de novembro de 1951. Nessa fala, Pio XII aborda, com total desembaraço e completa segurança, vários temas da ciência moderna, incluindo um que, infelizmente, vem sendo “empurrado com a barriga” por nós modernos: a dramática realidade da entropia crescente (é bem possível que muitos católicos nem saibam o que seja isso.. ).

Ao longo dos seus quase vinte anos de pontificado, Eugênio Pacceli publicou quarenta e uma cartas encíclicas, além de outros importantes documentos, incluindo o texto de suas famosas radio mensagens de Natal, entre elas a transmitida em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial.Nessa mensagem, comentada em um brilhante artigo do professor Gladstone Chaves de Melo, publicado na revista Carta Mensal, o papa afirma que a Igreja não pode renunciar a proclamar diante de seus filhos e diante do universo inteiro as inconcussas normas fundamentais, preservando-as de toda subversão, obscurecimento, refutação, falsa interpretação e erro, uma doutrina que provavelmente os poderosos deste mundo e seus êmulos ridículos devem considerar motivo de riso (Deus rirá por último, senhores presidentes e ditadores deste planeta !).

Bem, até aqui falei sobre o que seria a fabulosa atividade “intelectual” de Pio XII. Mas, como seria a pessoa do papa Pacceli?
Fisicamente, Pio XII era um homem de estatura pequena, delgado, de aparência ascética, irradiando nobreza, serviço, bondade ...e santidade.
Uma senhora carioca, há muitos anos dedicada ao trabalho da catequese, conta que certa vez esteve em Roma e assistiu, na praça de São Pedro, a bênção dada aos fiéis pelo papa Pio XII. Essa senhora diz : quando Pio XII fazia o sinal da cruz parecia que estava mergulhando na Santíssima Trindade.
Seu testemunho de caridade e santidade sem dúvida alguma foi a origem de numerosas conversões, das quais a mais famosa seria a do Grande Rabino de Roma, o qual, ao batizar-se, tomaria o nome do papa : Eugênio, Eugênio Zolli.

Gostaríamos que o leitor neste momento procurasse olhar uma boa foto de Pio XII. Existem várias na “web””. Ali, naquele rosto hierático, o rosto de quem está plenamente convicto de que o Reino de Deus não é deste mundo, podem ser percebidos aqueles olhos onde brilha um profundo sentimento da Eternidade.

Vem agora a pergunta que muitos podem estar imaginando: por que se armou contra Pio XII tão sórdida infâmia ?
Dou a minha própria explicação apoiada em dois pontos.
No final da Segunda Guerra Mundial, cresceu a influência política dos comunistas, nisso ajudados pelo infeliz acordo de Ialta. Envolvidos pela propaganda vermelha do “tudo pelo social”, surgiram na França os chamados “padres operários” (um desses transviados, segundo me contou um amigo bem informado, hoje exerce importante cargo em Cuba). Ora, Pio XII agiu de maneira enérgica contra essa distorção da função sacerdotal. Isso deve, até hoje, desagradar muito os “freis” Bettos e outros que tais, o que explicaria a má vontade contra o grande papa existente entre esses pseudos católicos.
Em 1950, Pio XII proclamou solenemente o grandioso dogma da Assunção de Nossa Senhora, crença milenar entre os filhos da Igreja. Haja vista, por exemplo, o nome colonial da capital cearense: Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, semelhante ao caso do Rio de Janeiro (cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro). Esse dogma deve incomodar muitos de nossos irmãos separados, os quais, teimosamente, insistem em recusar a amorosa maternidade de Maria Santíssima, mãe de Deus e mãe dos homens .
Aí estão, segundo penso, duas possíveis origens do sombrio, do nefando rancor contra um homem que, para mim pelo menos, é um santo. Porém, essa santidade apenas a Igreja pode afirmá-la de modo absoluto.


Um adendo

Este “post” já estava encerrado quando pensei em reafirmar este ponto:
- escrevi pensando muito mais no leitor católico. Um leitor não-católico mas que seja pessoa digna fica satisfeito apenas com o saber que o papa Pio XII é inocente das infames acusações. Um leitor católico precisa saber que Eugênio Pacceli merece nossa profunda veneração.



posted by ruy at 1:10 da manhã

29.1.04

 
Um gravíssimo problema moderno


Faz poucos dias meu amigo W..., o físico, enviou-me cópia de um interessante artigo publicado no Estado de São Paulo, sob o título: A “geração do agora” , de autoria de Alvin e Heidi Toffler (v. Estadão, 14/dez/2003).
O que os autores do referido texto comentam é o que eles chamam “uma erosão da memória”, uma frígida falta de interesse das novas gerações pelo que ocorreu no passado. Começam contando o curioso exemplo dos japoneses jovens, os quais aparentam ignorar que houve uma terrível guerra entre o seu país e os Estados Unidos, o que vale dizer: ignoram as duas terríveis bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki.E os Toffler terminam seu artigo dizendo o seguinte:

- O atual dilúvio de mudanças está mudando as idéias de tempo passado e tempo futuro, eliminando tanto uma quanto a outra e deixando nada além do agora. É uma situação tênue e perigosa. A medida que a aceleração das mudanças aumenta, o passado e o futuro se aproximam, comprimindo o agora em nada. E este não é um lugar muito feliz para alguém passar a vida. (sic)

Ora, o caso dos moços japoneses talvez seja o mais espantoso. Porém, perguntamos, estarão nossos jovens brasileiros não contaminados por essa moderna epidemia ? Prezado leitor deste “blog”, se você tiver menos de trinta anos, por favor me responda, e use a máxima sinceridade nessa resposta:
- qual é o alcance do seu interesse, da sua curiosidade, no que tange aos fatos ocorridos no passado do Brasil e do mundo? Até que ano vai sua afetiva conexão com o passado ?

Há uns dois ou três dias, circulou bastante pela Internet uma piadinha política que vale a pena lembrar. A cena da piada é um posto de inscrição para candidatos a emprego.Aparece ali sentado um funcionário, atendendo aos desempregados, e diante dele, em pé, uma fila desses infelizes.O primeiro da fila informa ao atendente que não possui nenhuma instrução nem diploma e, por isso, deseja ocupar uma simples vaga de gari ou de coveiro. Ao que lhe responde o funcionário:
- meu amigo, suas qualificações são para Presidente!
Bem, eu ri bastante dessa piada e muita gente a quem eu a contei riu também. E acho bem pouco provável que ela não tenha chegado ao conhecimento de alguém lá em Brasília.

As piadas têm sua hora.E o próprio Santo Tomás de Aquino, cuja festa foi ontem celebrada, dizia que a tristeza é perigosa, e que na vida é bom que existam os ditos engraçados, as brincadeiras. Mas, passado o bom momento da descontração, afugentado o “stress”, vem a hora das reflexões sérias:
- como foi que chegamos a semelhante situação, a um tal estado de coisas que acaba gerando piadas desse tipo?

Na Grécia antiga existiram as cidades-estados. Populações relativamente pequenas podiam reunir-se em praça pública, aproveitando o gostoso clima mediterrâneo (paixão dos turistas ingleses) e ali fazer sua votação realmente democrática, no sentido moderno desta palavra. Para quem é sensato, forçoso é admitir que existe uma colossal diferença entre “democracia” e “democratismo”.
Há dias a Internet noticiou que quarenta e cinco por cento da população brasileira aprovava as viagens nacionais e internacionais feitas pelo nosso Presidente. Acho que o leitor deve estar sabendo em que condições tais viagens são feitas (aviões especiais, grande comitiva, hospedagens etc.).Pergunto: o que provam aqueles 45 % ? Para mim pelo menos, eles provam que 45% de nossa população infelizmente não têm bons critérios para analisar os fatos da política.

E agora a pergunta principal, no contexto deste “post”:
- como foi que chegamos, neste País de mais de 8 milhões de quilômetros quadrados, com uma população de mais de 160 milhões de habitantes, com 500 anos de história, como foi que chegamos a esse quadro favorável à existência de piadas daquele tipo?

Se levarmos nossa pesquisa das causas até 1954, podemos lá encontrar o tresloucado ato de um presidente que, no dia 24 de agosto daquele ano, saiu do Catete por meio de uma trágica e infeliz decisão dele, e com isso subverteu o senso de julgamento das pessoas humildes e de pouca cultura deste país.
Se formos mais longe, bem mais longe, chegaremos ao século XVIII, ao chamado”Século das Luzes”, quando os homens, orgulhosamente, deram as costas e fecharam seus ouvidos Àquele que nos disse claramente:

- Eu sou a Luz do mundo.

Tudo o que vem acontecendo no mundo até agora, amigos, tem sido apenas infeliz conseqüência daquela orgulhosa recusa...

.
PS
Muito obrigado, W..., pelo envio do artigo.
E não deixem de ler o “post” do Mercador de Seda de ontem !



posted by ruy at 1:08 da manhã

28.1.04

 
Ler e ler


[ Em certas horas, o escrever neste “blog” é como um desabafo. Para driblar a tentação do desânimo, de vez em quando é bom sentar no “pequeno oásis” e deixar as idéias correrem soltas ao tocar das teclas. O “post” de hoje está sendo editado desse jeito...]

Ler um livro é um dos atos mais importantes que podemos realizar na vida. E quando escrevo “que podemos realizar” já estou deixando claro que existe uma possibilidade; estou sugerindo que o atingir a tal importância não ocorre de modo automático, em decorrência do simples correr dos olhos sobre as páginas do texto, identificando o sentido de todas aquelas frases ali impressas. A real importância da leitura de um livro vai muito além dessa necessária porém ingênua compreensão verbal.

Talvez por ser mania do Ruy, talvez porque seja um vezo de professor, gosto de dar exemplos que esclareçam minha digressão. Assim, para melhor explicar meu ponto de vista, vou escolher um tema.E, atendo-me ao tema escolhido, vou falar não sobre um único livro, mas sobre vários livros que abordem o mesmo assunto. Vamos lá. O tema que proponho à nossa consideração é: a Idade Média. Quem não gostar, por favor, pode interromper a leitura do “post” e procurar assunto que mais lhe agrade.Não ficarei aborrecido.

Começo, pois, citando alguns livros cujo assunto se liga direta ou indiretamente à Idade Média:

- “Origens da Idade Média” , de William Carrol Bark

- “História das Cruzadas” , de Paul Rousset

- “A Revolução Industrial da Idade Média” , de Jean Gimpel

- “Idade Média – o que não nos ensinaram”, de Régine Pernoud

- “Hildegarda de Bingen”, de Régine Pernoud

- “Santo Tomás de Aquino”, de Gilbert Keith Chesterton (edição: Co-Redentora)

- “ São Francisco de Assis” e “Santo Tomás de Aquino”, do mesmo autor (edição: EDIOURO, num único volume)

- “Pensar na Idade Média”, de Alain de Libera

- “La Grande Clarté du Moyen Age”, de Gustave Cohen

- “A Filosofia na Idade Média”, de Etienne Gilson

- “Dois Amores, Duas Cidades”, de Gustavo Corção.

Nestes livros o leitor vai ver explicados os mais diversos e mais curiosos aspectos do Medievo. Por exemplo, na “História das Cruzadas”, de Rousset, vai ficar sabendo que, ao ser organizada a primeira Cruzada, os bispos italianos divulgaram um documento dizendo que os homens casados só poderiam participar da expedição se tivessem permissão de suas mulheres.
No ensaio sobre Santa Hildegarda, de Régine Pernoud, o leitor vai notar o assombroso respeito que bispos e príncipes tinham pela santa e sábia abadessa.
No livro de Gimpel, veremos que, se a ciência ainda engatinhava nos séculos das catedrais de pedra, já existia na época uma elaborada tecnologia cujo espírito era o mesmo da existente em nossos dias, qual seja, o de facilitar a existência humana neste transitório mundo.

Quanto ao livro de Corção, magnífico ensaio histórico em dois volumes, no primeiro deles o leitor poderá ler três ou quatro emocionantes capítulos sobre aquela época que os ignaros chamam de “Idade das Trevas”, contrariando a opinião do ilustre escritor judeu francês acima citado. O autor de “Dois Amores, Duas Cidades” cita, por exemplo, as entusiasmadas opiniões do escritor americano J.J.Walsh, autor do “The Thirteenth - the Greatest of the Centuries”, e do judeu alemão Egon Friedell, autor de “A Cultural History of Modern Ages”.Diante dos olhos do leitor perplexo estará brilhando o colorido forte das Cruzadas e da duríssima luta contra as grandes heresias, fatos de uma época em que se dava o nome aos bois; quando pecado era mesmo pecado e não, como dizem alguns modernos, “algo criado pela imaginação humana” (meu Deus, a quanto descemos...)

Bem, suponhamos a melhor hipótese, qual seja, a de que um leitor realmente curioso se disponha a conseguir todos os livros que citamos e consiga ler todos eles.Muito bem.Terá sido um estupendo esforço de leitura!
Esse mesmo leitor, se acaso tiver boa memória, vai guardar em sua cabeça uma pletora de valiosas informações sobre o Medievo.Ótimo. E daí?

Se esse curioso e paciente leitor, ao cabo dessa façanha livresca, não sentir, por exemplo, uma estranha nostalgia, não tiver um indefinido sentimento de perda, uma misteriosa saudade daqueles tempos em que santos e pecadores viveram irmanados na mesma fé; em que reinavam reis cujo poder era muito menor que o de um atual presidente de república em nossos países ditos “democráticos” (...); em que as pessoas tinham medo da morte repentina porque realmente acreditavam no Céu e no Inferno e, por isso mesmo, suas vidas eram impregnadas de sentido – se o leitor, terminando todas essas leituras não ficar com seu espírito tomado por esses sentimentos a que acabamos de nos referir, então perdeu seu precioso tempo: foi o mesmo que nada tivesse lido. Sinto muito...


Santo Tomás de Aquino


Coincidentemente, hoje, 28 de janeiro, é a festa de Santo Tomás de Aquino, Doutor da Igreja, santo da Idade Média e de todos os tempos, santo universal.
Como seria bom neste instante termos som neste “blog” para aqui fazer soar, no venerável idioma, os versos do cântico que Santo Tomás compôs em honra ao Santíssimo Sacramento :

Tantum ergo sacramentum
Veneremur cernui:
Et antiquum documentum
Novo cedat ritui:
Praestet fides supplementum
Sensuum defectui.


Genitori, genitoque
Laus et iubilatio,
Salus, honor virtus quoque
Sit et benedictio:
Procedenti ab utroque
Compar sit laudatio.
Amen



Santo Tomás – Rogai por nós !.




posted by ruy at 1:07 da manhã

27.1.04

 
Música e silêncio


Aparentemente são duas coisas essencialmente excludentes, a menos que o leitor, ao ler o título do acima, pense no silêncio desejável à audição de músicas agradáveis.Mas, ao iniciar este “post”, estou pensando mesmo na própria estrutura da música, estou me lembrando de suas “leis” , conforme a elas se referiu muito bem o meu amigo A...em seu “blog” O Mercador de Seda . De fato, a música normalmente é construída com sons e silêncios. É a isso que se refere o autor de um antigo editorial do jornal “Civiltà Cattolica”, publicado no início da década de 90. Vejamos o que ali foi escrito:

- Para realizar o equilíbrio entre palavra e silêncio, onde se prescinda da experiência dos místicos e dos homens de oração, resta somente a música na qual ressoa verdadeiramente a palavra originária. Teria sido por isso que os românticos a julgaram raiz de todas as artes ? No ritmo, melhor talvez, no “número”, que lhe é intimamente identificado, ela reflete a alternância de sons e de pausas que é igualmente essencial à natureza dialogal do homem.

Note bem leitor: alternância de sons e de pausas, ou seja: de sons e de silêncios.

O mesmo editorial nos conta um fato muito interessante ocorrido por ocasião das comemorações feitas no bicentenário de Mozart.

Em 5 de dezembro de 1991, o Santo Padre rendeu homenagem a Mozart, participando de um concerto no Vaticano, durante o qual Carlos Maria Giulini dirigiu o Requiem em ré menor, KV 626. Por desejo expresso do maestro, compartilhado pelo Papa, ao término da execução, a assembléia levantou-se, sem o tradicional aplauso, e em seguida abandonou a sala em silêncio.
Um jornalista escreveu no dia seguinte: “Seis mil pessoas que aplaudem causam impressão, mas seis mil pessoas que silenciam no momento sempre esperado às aclamações impressionam mais ainda.Esse substituir o clamor pela meditação contribuiu para aumentar a emoção de todos e tornar único esse concerto no ano de Mozart”


Educação “musical”


Meu amigo B... é excelente engenheiro em sua especialidade (eletrônica).Conhece tão bem a matemática superior quanto a literatura brasileira e a estrangeira (lê romances de autores franceses no original), e tem uma habilidade manual digna de um artesão da Idade Média (é capaz de realizar objetos em madeira, alumínio ou acrílico com admirável perfeição, além de elaboradas montagens eletromecânicas necessárias às suas pesquisas no laboratório). Todas essas qualificações não impedem que B... seja uma pessoa discreta, educada e cordial, em síntese: um homem civilizado.
Ora, uma dos muitos predicados desse meu amigo é o seu gosto pela chamada música “clássica”, ou seja, a música erudita.Ele é capaz de assobiar um concerto de Beethoven enquanto ajusta o mecanismo para controle do movimento de um pêndulo.

Conversando várias vezes com B..., ele e eu concordamos quanto ao seguinte ponto de vista:
- as pessoas que tiveram em sua adolescência uma certa educação “musical”, ou seja, que foram treinadas para perceberem a beleza existente na música, têm um modo de analisar os problemas da vida diferente daqueles que, infelizmente, são insensíveis à linguagem musical.Tal insensibilidade é um tipo de deficiência que deveria ser, tanto quanto possível, pelo menos atenuada no curso secundário.

Fica aí uma sugestão para os leitores deste “blog”: estimularem a si próprios e a seus amigos a terem interesse pela audição de boa música !


posted by ruy at 1:18 da manhã

26.1.04

 
As crianças e a vida


No livro “Deus e o mistério do tempo”, há bem pouco tempo citado neste "blog", o padre Henri Boulad escreve estas palavras:

- As crianças vivem neste mundo maravilhoso de prodígios ininterruptos. Elas sentem apenas o presente. Porém, à proporção que nos tornamos adultos, perdemos essa boa sorte e olhamos nervosamente para trás e para a frente – e só fazemos isso. Em contraste, as crianças vivem apenas no momento presente. Quando brincam, envolvem-se em seus jogos, perdem-se neles. Quando lhes contamos uma história, ficam ali, boquiabertos, olhos arregalados, absorvendo avidamente a narrativa, sem pensar em outra coisa, esquecendo-se de tudo o mais.Quando vão dormir, estão tranqüilas e sossegadas. “Bons sonhos”, dizemos.Porém, quando nos deitamos, ficamos pensando: “Que fiz? Que não fiz? Que vou fazer amanhã? Que deveria ter feito hoje? ” E temos insônia.

Essa descontração, esse descuidado posicionamento infantil diante da vida é lembrado pelo historiador judeu Egon Friedell ao referir-se à psicologia típica do homem medieval, no livro A Cultural History of Modern Ages, livro esse citado no ensaio histórico cuja leitura venho há vários e vários dias recomendando aos leitores deste “blog”: DOIS AMORES, DUAS CIDADES. Conforme nos alerta Gustavo Corção em seu magnífico ensaio, essa atitude dos medievais não deve ser erroneamente confundida com algum tipo de infantilismo mais ou menos ridículo. É, sim, a atitude decorrente de uma saudável aceitação do mundo e da vida; provém de um consenso gerado pela fé comum, aquela fé que era a alma da Cristandade.
Maritain comenta a que ele denomina a atitude não-reflexa do homem na Idade Média, em contraste com o psicologismo de nós modernos, essa teimosa mania de ficarmos analisando a nós mesmos, querendo a toda hora interpretar a origem secreta de nossos atos.Confesso que às vezes me sinto meio angustiado ao ver muita gente moça com essa melancólica mania...

Ora, em aparente oposição ao ponto de vista de Maritain, o brilhante filósofo e medievalista Etienne Gilson fala no que ele chama o socratismo cristão, ou seja, o “nosce te ipsum” (“conhece a ti mesmo”) que foi praticado por muitos homens e mulheres no Medievo.Como, pois, conciliar essas duas interpretações, aparentemente opostas, de dois renomados pensadores cristãos, católicos ?
Corção explica que esse socratismo de fato existiu, porém era realizado à luz da humildade, isto é, do reconhecimento e amorosa aceitação de nossa essencial dependência em relação a Deus, nosso Pai. Bem ao contrário da orgulhosa auto-suficiência que começou a existir na sociedade quando se apagou o grande brilho que foi a Idade Média, conforme a esta se refere o judeu francês Gustave Cohen. Aquele socratismo não era um psicanalítico, um doentio esmiuçar os porões da nossa alma, como hoje, infelizmente, muita gente acha que é chique fazer.

Quando leio textos como estes a que acima acabo de me referir, textos cuja leitura não me canso de recomendar aos leitores deste “blog”, mais me convenço de que a origem dos nossos atuais problemas está mesmo na perda do necessário sentido da infância, e então me lembro sempre daquelas palavras ditas por Nosso Senhor:
- Em verdade vos digo: qualquer um que não receber o Reino de Deus como criança de modo algum entrará nele. (Lc, 18,17).


Um apêlo aos leitores jovens!


Moços, não se deixem envenenar pelo sombrio psicologismo !Leiam, por exemplo, Chesterton, como vacina contra esse perigoso veneno.




posted by ruy at 1:12 da manhã

 

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