Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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25.1.04

 
Reflexões à margem de um filme


Meio contrariado, fui assistir ao filme “Mona Lisa”, estrelado pela atriz Julia Roberts. Disse meio contrariado porque, antes mesmo de chegar ao cinema, já imaginava o que iria ver e ouvir naquelas cenas.Notícias prévias sobre a tal película haviam circulado pela Internet, incluindo um comentário acerca do processo que estaria sendo movido contra a atriz por algumas mulheres contratadas pela produção do filme e que se julgaram lesadas na hora de receberem seus prometidos salários.

Se a memória não me engana, certa vez Leon Bloy teria dito que o teatro é a mais inferior das artes porque nele o artista é obrigado a fingir. Talvez se o Peregrino do Absoluto estivesse vivo e lúcido até hoje colocaria o cinema em nível ainda mais baixo que o do teatro.
O fato é que o filme “Mona Lisa” é meio ou bastante pretensioso. Deseja fazer uma crítica dura ao convencionalismo das famílias conservadoras americanas na região da Nova Inglaterra, no início da década de 50 .Entretanto, ao armar o enredo, a direção e/ou a produção do filme, na minha perspectiva pelo menos, caíram em uma forma de artificialismo, criando alguns tipos caricatos, exagerando situações verossímeis com o objetivo de transformar uma professora, suposta independente, em heroína das jovens alunas de um tradicional colégio yankee .

Diz antigo aforismo: há males que vêm para o bem. Assim, embora não satisfeito com o que vi, deixei o cinema refletindo não tanto sobre a história ali contada, mas sobretudo sobre um assunto de amplitude bem maior que a do tema que provavelmente inspirou as pessoas que produziram o “Mona Lisa”. Refiro-me à família na moderna civilização ocidental, e não simplesmente às famílias americanas cujo comportamento foi maldosamente criticado no filme.

A professora independente defende a liberdade de escolha do estado de vida; rebela-se contra o que ela julga um atraso a saber: o sonho de um festivo matrimônio e da conseqüente família por ele gerada. Aponta o exercício de uma profissão como o grande ideal para as moças a quem ela ensina história da arte. Ora, neste instante, eu pergunto:
- ainda que não houvesse, nas ilustres famílias de Massachusetts, certas antipáticas e injustas atitudes em relação a suas jovens filhas, por que uma futura mãe de família não poderia se valer do conhecimento e da experiência artística adquiridos na escola para melhor incentivar os filhos que tiver, no casamento, a olharem e admirarem valores maiores que os propostos pelo interesse pragmático?

Pergunto mais: por que ela mesma, a professora, em vez de simplesmente exaltar a liberdade que teve, por exemplo, um Van Gogh de criar um novo estilo, não aproveitou a oportunidade para mostrar às adolescentes a arte, sob qualquer de suas formas (e não apenas a pintura), como um processo de “take-off”, por meio do qual o homem busca fugir de suas limitações telúricas, tenta se aproximar da Eternidade para a qual ele foi criado ?

O grande Mortimer Jerome Adler levou sua longa e profícua vida neste mundo tentando convencer seus conterrâneos a olharem a educação como um processo de crescimento interior. É obvio que esse crescimento deve se fazer de modo livre, mas a liberdade vista como um meio e não como um fim em si próprio.O enorme equívoco moderno, e não apenas dos americanos, está justamente no considerar a liberdade desligada da finalidade última da existência humana.

Na base da estátua da Liberdade, na foz do rio Hudson, está gravado um terrível solecismo filosófico , conforme muito bem o classificou Gustavo Corção:
- La Liberté eclarte le monde
Este é o tremendo equívoco de nós modernos, porquanto o que de fato ilumina o mundo é a Verdade, e não a Liberdade .


Um adendo para quem está esquecido

Solecismo = erro de sintaxe.


São Paulo


Hoje é Domingo.Mas, é também 25 de janeiro, dia em que a Igreja comemora a conversão de São Paulo. A mim me comove de modo muito especial aquela pergunta que ele fez, em certo longínquo meio-dia, na estrada de Damasco:

- Senhor, que quereis que eu faça ?

Que o Apóstolo dos Gentios nos inspire a repetir, com a mesma disponibilidade com que ele a fez, aquela essencial pergunta.



posted by ruy at 1:06 da manhã

24.1.04

 
Mais um poema tirado do fundo da gaveta


Faz poucos dias escrevi alguns comentários sobre a leitura de jornais. De fato, não são apenas os jornais que nos sufocam, nos atordoam com as notícias; podemos colocar ao lado deles as TV’s e a própria Internet.
A partir da observação desse atordoamento, escrevi há uns treze anos os versos abaixo transcritos. Apesar de referir-se a fatos da época (por exemplo: Gorbachev já não é mais notícia), creio que o poema continua atual. O leitor poderá julgar por si mesmo.


A Chuva e a Bonança

Chuva com vento,
Chuva com raio e trovoada,
Chuva torrencial,
Chuva continuada
Quase um dilúvio.
Encharca os olhos e os ouvidos,
E logo depois a cabeça .
Chove nas ruas,
Chove dentro das casas;
Chove no trabalho,
Chove nas áreas de lazer.
E não se ouve mais nada,
Só essa ruidosa,
Onipresente cachoeira :

-Joga o Brasil com o Chile,
Festival em Joinville,
A gafe do Presidente,
A piada irreverente,
De novo em greve os bancários,
Preso um grupo de falsários,
Declaração de Pelé,
Sobe o preço do café,
Descoberto outro planeta,
O seqüestro da ninfeta,
Brigam sérvios e croatas,
A eleição dos Democratas,
O novo imposto de renda,
Um velho hotel posto à venda,
A Eco-92,
Importaremos arroz,
Mudança no Ministério,
Assalto no cemitério,
Nova moeda argentina,
Mais álcool na gasolina,
Romaria sobe a Penha,
Retorna a questão panamenha,
Gorbachev vai à França,
Cresce o juro da poupança -

E muito mais toda hora,
Todo dia, toda semana,
Chovendo sem parar.
Pobres de nós encharcados,
Encolhidos, humilhados,
Buscando achar um abrigo,
Talvez por meio de um livro,
De leitura demorada,
Exigente, refletida,
Ou um amigo discreto,
Com quem se possa falar,
Um papo descontraído,
Sem ter que falar na chuva
Que pode nos afogar...

Porém, aos poucos surge uma linguagem mansa,
Períodos longos, frases deslizando lentas,
Em ritmo de valsa inglesa antiga,
Sem pressa de chegar a conclusões gritantes;
A vida sendo ouvida em seu murmurejar,
E a gente descobrindo o que estava perto,
Bem perto, junto de nós,
E o nosso olhar não via:
- objetos, pessoas , lembranças,
coisas comuns,
coisas que nos ligam, mais que o resto,
a este bom e transitório mundo.


De um artigo de Daniel Boorstin


É evidente que todos precisamos de informação. Precisamos dela enquanto cidadãos, pais e consumidores. Os nossos cientistas e tecnólogos precisam dela para se manterem atualizados, para preservarem as suas faculdades intelectuais, para não terem de inventar de novo a roda.A informação protege-nos dos ditadores, dos tiranos e dos escroques.

O problema não é que a informação seja inútil, mas sim que ela se espalhe demasiado depressa e nos faça submergir. Pior ainda, este tipo de informação torna-se um vício. A nossa sede de informação, por seu lado, a faz proliferar.

Como conseqüência, desenvolveu-se em nossos tempos uma espécie humana muito particular, já não Homo sapiens, mas Homo atualizadus, maravilhosamente bem informado, mas lamentavelmente ignorante. Ele conhece os tiques dos presidentes, as gafes das celebridades, as ameaças das subidas de preço da OPEP; mas pode sentir-se inteiramente perdido nos meandros do conhecimento, da política exterior, da economia ou da tradição política.
[“O Homem Atualizado não sabe nada” - Publicado na revista Seleções em 1982]


O melancólico desabafo de uma leitora

[O que vai abaixo é parte da mensagem que recebi de uma leitora comentando “post” recente deste “blog”. E ela tem total razão em sua queixa.]


Dia quatro de janeiro, domingo em que era celebrado o Dia de Reis, tive
de ir a uma missa de sétimo dia. O padre que celebrou a missa falou de
tudo, brincou com a namorada de meu amigo (era enterro do pai dele),
falou no fato de que os reis eram bons governantes, falou até do governo
militar. Mas não falou, no entanto, sobre a Ressurreição e a Vida Eterna.
Eu quase fui repreendê-lo depois da missa. Mas de que adianta? Um homem
mais velho que eu, ordenado sacerdote, ele iria apenas ficar indignado
comigo.


Pois é, Leon Bloy com certeza teria dito ao tal sacerdote uma frase deste tipo:
- Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, ...
[Em respeito principalmente às leitoras deste “blog”, não digo o que provavelmente iria naquelas reticências]










posted by ruy at 1:17 da manhã

23.1.04

 
Nosso irmão, o tempo


Ontem de manhã, indo para o trabalho na condução em grupo, nenhum de nós, incluindo o motorista, conversava sobre o jogo do Brasil com a Argentina. Obrigados a acordar bem cedo, não pudéramos ficar acordados na véspera assistindo àquela partida. Viajávamos em silêncio. Mas, de repente, não me lembro por quê, alguém puxou o assunto dos dinossauros que teriam vivido neste planeta , segundo uma certa notícia da TV ou dos jornais, há seis milhões de anos. Um de nós lembrou a datação que se faz pelo Carbono-14 e cuja precisão depende muito do modo como essa técnica seja usada. Assim, durante um bom tempo, enquanto o carro seguia pelas ruas da cidade, ficamos ali falando com certa perplexidade sobre aqueles seis milhões de anos.

Cheguei ao trabalho refletindo sobre o tempo, o tempo cronológico.
De fato, mormente nos tempos modernos, em que os relógios são onipresentes, nossa vida tem a presença muitas vezes incômoda do tempo. E quando seu valor numérico atinge aquele número imenso ligado à época de gigantescos animais, hoje extintos, é comum, é compreensível que venha logo esta pergunta : “e antes do tempo, o que existia ?” Neste instante, ou a pessoa – caso bem mais geral – vai pensar em outro assunto, ou então, recolhe-se ao seu interior e se interroga sobre o sentido da vida humana. Quando começamos a existir sobre a face da terra? Sempre fomos inteligentes? Sempre fomos livres? Somos livres ? Sim, porque sem essa liberdade, que sentido, que significado, que valor têm nossas acerbas críticas, por exemplo, aos presidentes Lula e Bush? ao maquiavelismo petista? à presença americana no Iraque ? às ameaças, ora veladas, ora abertas, ao direito de pensar em nossas universidades? à subserviência da mídia ao atual governo ? à falta de segurança em nossas ruas ?
E há questões fundamentais, bem mais sérias que essas relativas à moral.Por exemplo:
o que é a Criação? Que sentido tem a narrativa Bíblica da criação do mundo ?

Quando estudamos a doutrina da nossa crença além do que está no primeiro catecismo - tão importante, tão necessário - aprendemos que somos co-criados com o tempo.Ele é como um irmão nosso. Um irmão meio caprichoso, meio de veneta, ora amigo, ora torturante. Sobre ele Santo Agostinho escreveu a célebre reflexão, que está nas Confissões do grande Doutor da Igreja:

- Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu o sei; se desejo explicar a quem o pergunta, já não o sei.

Mas, sabemos que o Bispo de Hipona, ainda que não se dispusesse a dar para seus leitores uma definição cartesiana do tempo, com toda a certeza, depois de convertido com a ajuda das orações e lágrimas de Mônica, viveu o restante de sua vida atento ao mistério do tempo, usando-o, hora após hora, para cumprir a concisa e grave advertência do Cristo:

- Vigiai e orai para não cairdes em tentação.

Ou seja, em vez de motivo para nossa angústia, o tempo se torna instrumento de trabalho, o trabalho mais importante, mais necessário em nossa vida.


Faz uns dez anos, a editora Loyola lançou a tradução de um livro do padre egípcio (é isso mesmo leitor: existem cristãos no Egito! ) Henri Boulad, intitulado:
- “Deus e o mistério do tempo” (no original: “All is Grace. God and the mistery of time”. ).
Nesse pequeno grande livro, lemos algumas citações de PEGUY, como estes versos:

E o próprio Deus jovem enquanto eterno
Olhava esses que são o tempo e o lugar.
Calmo e deixando descer um olhar paternal
Ele via esse que é o reflexo de Deus.

E o próprio Deus jovem enquanto eterno
Olhava esses que são o tempo e o lugar.
Calmo e deixando descer um olhar paternal
Ele via essa que é o reflexo de Deus.


E logo em seguida comenta o padre Boulad:
Existe uma tendência de representar Deus como um ancião barbudo, vindo de eras distantes, carregando nos ombros o peso de séculos passados. Todavia, a realidade é exatamente o oposto. Ao contrário, Deus deveria ser representado como criança, bebê, madrugada, manhã. Não é Deus que é velho. Deus é juventude eterna, a capacidade da eterna renovação.

Quando nos impacientarmos com o tempo, com a falta de tempo, talvez fosse de alguma ajuda lembrar o que, no mesmo livro, escreve aquele arguto padre egípcio :

- Costumamos dividir nossas ações em empreendimentos e atividades comuns. Tomar conta de uma escola ou de um negócio é um empreendimento.Varrer uma sala ou cozinhar, são atividades comuns.A partir dessa concepção, estabelecemos uma hierarquia sem levar em conta o fato de que o que dá o valor a uma ação não é a ação em si, mas o espírito com que é desempenhada. Nada é banal, nada é comum para alguém cuja vida mergulha no eterno.

Podemos perguntar: e como Deus se relaciona com o tempo? Ora, em outro ponto do mesmo livro diz o Pe. Boulad:

Deus não veio apenas fazer-nos uma visita. Cristo não partiu na Ascensão. Simplesmente desapareceu de nossos olhos. Pois, pouco tempo antes de “subir aos céus, ele nos disse : ‘Eis que vou ficar convosco todos os dias, até o fim dos tempos’ ” (Mt. 28, 20). Disse isso para nos mostrar que sua encarnação é um ato definitivo, um ato pelo qual se situou, de uma vez por todas, no coração do tempo e da história.


Sobre o “post “ de ontem


Meu amigo P... enviou-me oportuna mensagem em que lembra o caso dramático dos fariseus. Eles eram mesmo moralmente perfeitos. Certinhos. Mas, quantas vezes Nosso Senhor teve que mostrar aos discípulos que a justiça , isto é, a santidade dos fariseus não era perfeita.
Obrigado, P...! Você acertou em cheio! Gol de placa!






posted by ruy at 1:06 da manhã

22.1.04

 
Excelente comportamento moral e santidade


É bem possível que muitos leitores ao lerem o título deste “post” façam este comentário:
- “Ué, não são a mesma coisa ? ” .
Lembro-me de uma certa vez quando, conversando com meu amigo Professor Gladstone Chaves de Melo, de saudosa memória, sobre a correlação dos dois conceitos, eu perguntei ao velho e sensato mestre se a santidade implicava necessariamente um excelente comportamento moral. Gladstone, com um sorriso de tranqüila sabedoria, me lembrou de imediato aquela que ele chamava a canonização mais rápida da história: a do Bom Ladrão.

É verdade que a “folha de serviços” de Dimas era bem carregadinha. E também é verdade que os medievais – cuja fé era naïve mas não era burra – tinham pavor da morte repentina. Sim, porque – pergunto aos leitores - qual de nós pode a priori garantir que no último segundo de vida terá uma contrição perfeita , como a teve o Bom Ladrão ?
De passagem, é bom lembrar que São José, São Dimas e São Bento são os patronos da boa morte.

O fato é que aquelas duas atitudes humanas não são equivalentes. Este ponto, segundo o entendo, tem uma transcendental importância, infelizmente esquecida até mesmo nos ambientes católicos, nos quais esse assunto deveria ser muito bem conhecido. E que isso, isto é, que tal conhecimento, infelizmente, nem sempre existe pode ser mostrado por meio de um exemplo contado a mim por um velho amigo meu, o Antonio Carlos, a quem há muito tempo não encontro.

Faz alguns anos, contou-me o Antonio Carlos que, em sua mocidade, tomou conhecimento do chamado “Movimento Familiar Cristão”, na época recém chegado ao Brasil. Consistia esse movimento religioso (ou pelo menos assim se pretendia) em reuniões de grupos de casais católicos, reunidos na casa de um dos casais, com a finalidade de obter para os participantes um aprofundamento da fé católica. Para conduzir a reunião ao pretendido objetivo, usavam-se folhetos, traduzidos de congêneres canadenses , nos quais vinham expostos casos hipotéticos vividos por famílias também hipotéticas. Por exemplo: João e Maria estão casados faz pouco tempo; de repente chega em sua casa a mãe de um deles, portanto sogra do outro cônjuge, para passar uma temporada com o casal. A senhora mãe e sogra tem algumas manias, o que torna a vida em comum naquela casa meio difícil. O que fazer ?

Meu amigo A.C. contou-me que os tais casos hipotéticos acabavam gerando nas reuniões uma certa discórdia porquanto, ao analisar os fatos descritos nos folhetos, os casais verdadeiros, participantes do tal MFC, de repente deixavam escapar antigos ressentimentos pessoais. Algumas vezes, havia discussões azedas entre maridos e mulheres, bate-bocas bem pouco cristãos...Em resumo: acabavam todos fugindo do que se dizia ser o objetivo do Movimento. O casuísmo dos problemas morais acabava atrapalhando a necessária descoberta do mistério vital da nossa fé.

Não sei se ainda existe aquele MFC. Mas, na homilia da missa a que assisti no Domingo passado, o padre celebrante citou os nomes de várias tradicionais associações religiosas católicas ligadas à vida paroquial. Sentado quieto no meu banco, fiquei falando com meus botões a respeito dessa realidade da vida católica comunitária: as associações. Como será que elas vivem? Como serão suas reuniões? Qual será o ponto nuclear de seus cuidados ? Saberão seus participantes distinguir, entender aquelas duas atitudes aparentemente equivalentes e cujas designações deram o título a este “post” ?

Mas, não apenas esses grupos de pessoas sinceras e humildes, muitas vezes, coitadas, privados de uma orientação segura, podem cometer o sério equívoco de confundir “excelente comportamento moral” com “santidade”. Neste instante penso em grupos de homens inteligentes e honestos, cultos, conhecedores de literatura, possuidores de boa dose de filosofia, quem sabe conhecedores de alguma teologia, desembaraçados no uso da linguagem falada e escrita, homens esses reunidos para abordar, por exemplo, os graves problemas da política nacional ou internacional. Mais ainda, esses mesmos homens são pessoas que se dizem cristãs, e até mesmo católicas . Pois bem, será que tais ilustres senhores estão a par desse problema muitíssimo mais grave, que é o de cada um de nós procurar nossa própria santidade pessoal ?

Notem bem, meus amigos leitores, o que vou lhes dizer neste exato instante:
- se este “blog” for apenas ocasião para um diletantismo meu, consciente ou inconsciente; se eu tiver em mente dar corda à minha vaidade; se o que aqui escrevo não servir de forma alguma para que eu melhore como pessoa humana, e pior, se o que eu publique neste “blog” impedir que os outros se tornem melhores, então TUDO o que aqui editei até agora e lixo é quase a mesma coisa. Esta é uma dura porém necessária verdade.

E se quiserem podem dizer: “ele está naquela idade em que, não podendo mais dar bons exemplos, dá bons conselhos”. Mas, não posso deixar de alertar os moços.Não é à-toa que venho recomendando a vocês que assistam ao filme “O Gênio Indomável”.
Lembrem-se:
- usar bem a inteligência é importante, sim; somar uma boa cultura filosófica é importante, sim; saber escrever e/ou falar com desembaraço e elegância é importante, sim. Porém, o mais importante é saber viver. E obviamente não estou aqui sugerindo a vidinha instalada na morna acomodação burguesa.


posted by ruy at 1:21 da manhã

21.1.04

 
Reflexões avulsas


Emoção

Creio que já comentei há tempos uma frase de um velho amigo meu, um gaúcho atilado, com uma inteligência bem ágil, o qual me disse certa vez:
- Ruy, a posição típica do ser humano é a vertical. Isso já nos dá uma idéia da necessária hierarquia: primeiro, lá em cima, a cabeça; pouco mais abaixo, o coração; em seguida, o estômago; e finalmente, o resto .
Ora, infelizmente, nossa época, por assim dizer, subverteu aquela desejável hierarquia.Faz alguns dias, em um sepultamento ouvi conversas animadas, depois discurso e palmas calorosas em homenagem ao falecido. Ao término daquela movimentada cerimônia, uma senhora com os olhos brilhando, muito animada, se aproximou de mim e de minha esposa e comentou: “assim é que é bom : emoção !”

Na missa vespertina de Domingo passado, mais uma vez tive que suportar essa moda emocional com que, infelizmente, o santo sacrifício vem sendo celebrado, incluindo um canto do Pai Nosso com os fiéis todos segurando uns nas mãos dos outros... Pergunto: onde fica a inteligência, coitadinha ?


Esperança


Como um alegre toque de esperança, nestes últimos três dias recebi duas mensagens, uma de um leitor paulistano e outra de um leitor que reside na bela serra de Teresópolis (um felizardo). Ambas as mensagens me davam notícia sobre recentes celebrações da missa de acordo com o tradicional rito de São Pio V. Tais esperançosas notícias me fazem pensar que, finalmente, os bispos católicos resolveram atender aos veementes apelos do nosso sofrido papa João Paulo II no sentido de que voltemos a celebrar a missa com a dignidade e com o recolhimento adequados ao mistério eucarístico.

Para quem não sabe ou se esqueceu disso: São Pio V foi o mesmo papa que rezava fervorosamente o terço enquanto era travada a famosa, a crucial batalha naval de Lepanto, a mesma em que Cervantes perdeu um dos braços, a mesma cuja vitória pelos cristãos provavelmente impediu que a Europa fosse subjugada pelos turcos.


Amadurecimento


No “post” de ontem, dia 20, citei várias vezes o escritor russo Alexandre Soljenitsin. Ora, de um dos livros por mim citados (“O Primeiro Círculo”) vale a pena transcrever esta reflexão do autor:

Todo o mundo molda seu interior, ano após ano. Devemos tentar temperar, podar, polir a alma a fim de nos tornarmos um ser humano.
[ op. cit., cap. 61 ]

Nos relacionamentos humanos existe sempre o risco de optarmos pelo que costumo chamar: o “pingue-pongue” e nos esquecermos do que nomeei como o “triângulo necessário”. Trocando em miúdos:
- guardarmos velhas mágoas, antigos ressentimentos ou tentarmos amadurecer conforme o sugerido por Soljenitsin e, nesta segunda opção, buscando o auxílio d’Aquele que nos disse: Sem mim nada podeis fazer.
Afinal de contas, foi para Ele que fomos criados. É para Ele que existimos.


O coração


[Este item relaciona-se com o primeiro do “post”]
Nós não somos anjos. Tudo bem. Até aqui, como diziam os antigos, morreu Neves. Entretanto, cumpre lembrarmos os muitos alertas dados a nós pela Sabedoria, como os que estão na Bíblia, como por exemplo, nos Provérbios de Salomão .O poeta português João de Deus colocou em versos vários desse provérbios. Bem a propósito, citamos o seguinte:

Vigiai, diz Salomão,
dia e noite o coração,
pois é dele que provém
todo o mal e todo o bem.



Reflexão feita por meu amigo M..., engenheiro, leitor deste “blog”


"...a diferença que nos propõe como modelos de procedimento os santos, e não homens simplesmente honestos bem sucedidos na vida".
Aqui está a diferença capital, ou melhor, espiritual daqueles que o Senhor classificou como "mornos" e deveriam ser "vomitados".
Generalizando mais um pouco, fazendo coro com Bernanos, pode-se dizer: "Não precisamos de reformadores, mas de Santos!"
No afã de "dar certo", na planificação de uma vida "horizontal", contida na superfície do ser, vemos que o homem perdeu a sua dimensão; perdeu profundidade e "altura". Perdeu as suas asas. Estamos retidos ao rés do chão da existência quotidiana, mundana.
Enquanto o mundo tagarela debate as idéias do dia, absorvidos na convulsão da rotina meramente humana, demasiado humana, sem conseguir erguer os olhos para o Alto, para as idéias mais altas, continuaremos a ver as pessoas arrancando os cabelos para tentar sair do chão.




posted by ruy at 1:14 da manhã

20.1.04

 
O’ meu mágico corcel !


Este é o curioso título do capítulo 17, o mais emocionante (para mim pelo menos) do romance “O Primeiro Círculo”, de Alexandre Soljenitsin, em tradução publicada no final da década de 70 pela editora Bruguera.
O emocionante do referido texto não decorre de algum lance épico, de alguma cena rocambolesca ou eletrizante, como nos filmes de aventura ou de suspense. O capítulo simplesmente conta o diálogo entre um prisioneiro de um gulag soviético e um ministro da ditadura Stalinista. Nesse diálogo, Soljenitsin consegue mostrar ao leitor a dignidade humana de cabeça erguida contra a prepotência totalitária. É um comovente hino à liberdade.Vale a pena o leitor tentar achar o livro em um sebo, nem que seja para ler apenas o referido capítulo.

O mesmo Soljenitsin, depois de exilado de sua pátria, depois de ter recebido o prêmio Nobel de literatura, esteve nos Estados Unidos e ali, perante a comunidade de Harvard, centro de excelência dos estudos jurídicos na América, proferiu sua famosa palestra em junho de 1978, da qual vamos transcrever este pequeno trecho:

- I have spent all my life under a communist regime and I will tell you that a society without any objective legal scale is a terrible one indeed. But a society with no other scale but the legal one is no quite worthy of man either. A society which is based on the letter of the law and never reaches any higher is taking very scarce advantage of the high level of human possibilities. The letter of the law is too cold and formal to have a beneficial influence on society. Whenever the tissue of life is woven of legalistic relations, there is an atmosphere of moral mediocrity, paralyzing man’s noblest impulse.
And it will be simply impossible to stand through the trials of this threatening century with only the support of a legalistic structure.


Pois é, na época dessa famosa palestra do grande romancista russo, creio que ainda não haviam ainda sido legalizados os primeiros casamentos (...) entre homossexuais bem como a adoção de crianças por esses absurdos “casais”. Não se falava em clonagem de seres humanos. Não se faziam abertas e mal-criadas ameaças à liberdade universitária, como fez faz poucos dias um certo assessor do nosso atual Presidente. Hoje temos estas e outras agressões feitas à Lei Natural, feitas contra a lei que Deus colocou no coração do homem, e pela qual – conforme nos ensina São Paulo – até os pagãos serão julgados. Ninguém escapará ao julgamento.

Ainda na mesma fala aos formandos de Harvard, Soljenitsin comenta o problema do terrorismo (veja bem leitor: isto em 1978, muito antes daquele trágico 11 de setembro de triste memória):

- When a government starts an earnest fight against terrorism, public opinion immediately accuses it of violating the terrorists’ civil rights.

Mais adiante, como se o palestrante houvesse lido o livro a que venho tantas vezes me referido (“Dois Amores, Duas Cidades”), ele comenta a influência nefasta do Iluminismo, base dos regimes políticos modernos – incluindo o nosso – e fala sobre a anthropocentricity, with man seen as the center of everything that exists .
Ou seja, é o anthropocentrismo, com seus macro e micro efeitos que venho comentando neste “blog”.

No que toca aos macro efeitos, o leitor continuamente atento às notícias internacionais está a par dos choques entre a arrogância nacionalista dos dirigentes políticos americanos (por favor, não os confundamos com o povo americano !) e os demais dirigentes políticos do mundo, atento ao choque entre aquele poderoso nacionalismo e as pretensões internacionalistas da ONU. Ora, todos esses trágicos desencontros me fazem lembrar neste instante de um trecho de outro livro de Soljenitsin: “Como reorganizar a nossa Rússia ?” (tradução da nova Fronteira, em 1991). Ali podemos ler o seguinte:

Cada povo, até mesmo o menor deles, é uma faceta insubstituível do projeto de Deus.Vladimir Soloviev escreveu, transpondo o mandamento cristão: Ama a todos os outros povos como ao teu próprio .

Ora, como esperar tal generosa atitude das nações que, há muitos séculos, perderam o consenso cristão que existiu na luminosa Idade Média ?


20 de janeiro

São Sebastião, mártir, rogai por nós !


posted by ruy at 12:48 da manhã

19.1.04

 
Um tema de capital relevância


O “post”de hoje está sendo editado para atender a sugestão de um jovem leitor, inteligente e crítico (no bom sentido desta palavra), um moço por quem tenho especial amizade e respeito e para quem peço as bênçãos de nosso Pai Celeste. Quando ele fez a sugestão referida, provavelmente não terá pensado na real complexidade que o assunto implica.Assim, espero não decepcioná-lo com a abordagem que vai abaixo desenvolvida.

Faz muitos anos, na época em que o Ruy acabava de retornar à Igreja depois de uns três ou quatro anos dela afastado, tive um professor de inglês muito bom, um tipo bem chestertoniano , no modo como ele encarava a vida e, curiosamente, com sua própria postura e forma física. Mas, tudo isso só fui verificar mais tarde, três anos depois, quando descobri Chesterton, nos escritos e nas fotografias dele. Ora, aquele velho mestre costumava em aula citar frases interessantes em inglês. Uma delas, que nunca mais esqueci, embora tenha esquecido o autor, é esta:

- Silence is the perfect herald of joy
[O silêncio é o arauto perfeito da alegria ]

Quando comecei a ler a obra do autor de “Ortodoxia”, “Santo Tomás de Aquino”, “O Homem Eterno”, as “Aventuras do Padre Brown”, “O Homem que foi Quinta-feira” , “São Francisco de Assis” , A Barbárie de Berlim”, “A Esfera e a Cruz” e tantos outros, atrevi-me de repente a ler os ensaios de Chesterton não traduzidos, isto é, lendo-os no próprio idioma inglês. Ensaios brilhantes, com a presença habitual dos paradoxos tão ao gosto do saudoso escritor.Em um desses ensaios, lembro-me bem que Chesterton dizia (não me recordo exatamente da frase) que “a verdadeira alegria é rara e difícil, e tão trabalhosa quanto a agricultura”.

Para mim não foi difícil entender por que o ensaísta lembrou-se dessa milenar atividade humana como padrão de dificuldade. Nascido no interior de São Paulo, tive um tio que mantinha a duras penas um sítio na roça. Pude assim observar, desde menino, o quanto é penoso o trabalho agrícola.

Pois bem, o “post” de hoje, atendendo à sugestão do meu jovem leitor e amigo, versa sobre a alegria, e começo dizendo que, para mim, essa capital atitude humana, para ser autêntica – note bem o leitor: autêntica - deve mesmo corresponder ao que diz a velha frase aprendida em minha adolescência e ao que afirma a reflexão de Chesterton. Ao escrever isso, estou certo de que vou desagradar grande parte de meus leitores, mormente porque eles, sem dúvida alguma, são brasileiros como eu e, como tais, têm sobre a alegria a visão de algo que seja bem expansivo, espontâneo, muitas vezes ruidoso, muito mais emotivo que racional.

De fato, convém reconhecermos a existência de dois tipos de alegria.Um deles, bom e necessário – e é o próprio Santo Tomás quem nos ensina isso - é o que se liga a muitas de nossas manifestações habituais e espontâneas no cotidiano, brincadeiras alegres, sinceras e sem maldade; manifestações perfeitamente humanas e que, pelas suas características, à primeira vista parecem contrariar a minha idéia do que seja uma alegria autêntica. Sou obrigado a me explicar.

Quando somos moços, a maioria de nós pelo menos tem uma natural inexperiência.Em geral, nessa fase da vida nossa fé religiosa é ingênua, ainda que sincera. Com o passar dos anos, vamos descobrindo nossas limitações, nossa fraquezas, nossa tendência ao pecado.Vamos tomando contacto com as adversidades de todos os tipos, incluindo decepções conosco mesmo e com o nosso próximo. A doença e/ou a morte de parentes, amigos e colegas, por sua vez, mostra-nos de repente a precariedade da nossa existência. Tudo isso pode contribuir para que viceje em nós um tipo de difusa desilusão, talvez inconsciente; um certo pessimismo disfarçado sob risos fáceis (note bem leitor: risos fáceis ), que nos acompanha ao longo dos anos, às vezes prolongando nossa adolescência psicológica até uma idade avançada. Esse estado de coisas é ajudado pela atmosfera cultural paganizada de nossos dias.

Mas, existe um outro problema ainda mais sério que esse do natural desgaste dos anos, e que é o nosso encontro com o terrível mistério da própria existência como tal; nosso encontro – quando ele ocorre – com a angústia metafísica. Quando ele ocorre, sim, porque muitos passam a vida inteira instalados, bem comportados, sem jamais se darem conta desse mistério.

O que é bastante comum na sociedade ocidental moderna é o que podemos chamar de um permanente “empurrar com a barriga”. Quando eventualmente vamos a um sepultamento, é muito raro que no cemitério se perceba um silêncio e um recolhimento compatíveis com a seriedade da morte. Ela nos incomoda. Por isso, conversamos, contamos piadas. Procuramos a alegria. Veja leitor: procuramos a alegria. Mas, neste caso é uma alegria fácil e não silenciosa, ao contrário daquela a que nos referimos no início deste “post”

A verdadeira alegria, vamos logo ao ponto, é a cristã. Por quê ? Porque está baseada na Esperança, com E maiúsculo. Não adianta embromar. Ou de fato acreditamos que o Cristo veio para nos salvar, e aí temos o máximo motivo para nos alegrarmos, ou de fato não acreditamos, e os nossos risos , as nossas gargalhadas ruidosas poderão estar disfarçando a mais sombria, a mais triste das desesperanças.

Vou apresentar dois exemplos de situações em que pode surgir uma autêntica alegria.
Imaginemos a audição de uma certa música de Debussy. E cito de propósito esse compositor porque, para mim pelo menos, suas composições conduzem a um reencontro com o silencioso e bom mistério escondido nas coisas que nos cercam neste mundo visível. Ora, para perceber esse reencontro duas condições se fazem necessárias, o silêncio adequado para bem ouvir aqueles sutis, maviosos acordes e, sobretudo, um elaborado processo educativo – portanto, não fácil – que nos possibilite apreciar tal tipo de música.

O outro exemplo, meus bons amigos, é o que se refere à missa, à celebração eucarística. A missa católica, tradicionalmente pelo menos, é marcada por um bom silêncio, favorável ao desejável recolhimento diante do magno mistério ali celebrado.As próprias leituras feitas pelo padre e as respostas dadas, nos momentos certos, pelos fiéis, deveriam ser feitas em um tom de voz compatível com o ... silêncio.
Mas, para viver a missa dessa forma, é preciso que toda a comunidade católica, padres e leigos tenha sido preparada por um antigo, e não fácil , hábito de reflexão sossegada , de vida interior.

Não sei se atendi à expectativa do jovem leitor que me sugeriu o tema deste “post”...


Um adendo


Podem me chamar de velho ranzinza, de velho careta, do que quiserem, mas fico mesmo incomodado quando vejo católicos com sensibilidade para o Bem, para a Verdade (e é bom que continuem assim), mas sem se preocuparem muito com a Beleza !


posted by ruy at 1:23 da manhã

 

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