Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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18.1.04

 
O Desconcerto do Mundo


Tem esse título um dos mais belos livros escritos por Gustavo Corção; dos mais belos e infelizmente mais esquecidos. Ao lado de “Dois Amores, Duas Cidades”, “O Desconcerto do Mundo” pode se apontado como um magnífico exemplo do sempre desejável encontro da Verdade com a Beleza.

Consiste essa obra – que mereceu caloroso elogio do poeta Manuel Bandeira – em alguns ensaios em que o saudoso pensador apresenta suas reflexões pausadas, maduras e, sobretudo, vividas sobre temas da literatura e da arte. Qualquer leitor deste “blog” que tenha sensibilidade suficiente para apreciar a beleza que se podem encontrar nessas duas lúdicas atividades humanas não deve deixar de ler “O Desconcerto do Mundo”

Para que o leitor deste “post” possa ter uma pequena amostra do que pode ler naquelas páginas, vou transcrever abaixo um trecho do primeiro ensaio da obra, ensaio cujo título é o mesmo do livro. Trata-se de uma crítica que Corção faz ao conhecido psicólogo Alfred Adler (por favor, não confundam com o grande educador americano: Mortimer J. Adler).

Adler teve a bela e profunda intuição que o levou a deslocar a armadura de instâncias psíquicas freudianas para os eixos do valor. Viu bem que a trave mestra da estrutura psíquica liga a ordem sensível à racional, sendo um sentimento que é ao mesmo tempo um juízo.Infelizmente porém, por falta de uma sadia formação filosófica, tomou o problema pelo lado negativo, e deixou cair no mais brutal empirismo a jóia que encontrara. Daí resultou a monstruosidade, sim, a monstruosidade da terapêutica adlerista para os inferiorizados.É preciso que vençam a inferioridade com uma técnica de valorização.

E isto que poderia ser feito razoavelmente dentro de uma moral reta, e com os indispensáveis discernimentos, será projetado no mundo com as características dadas por uma cultura competitiva, cúpida de prestígio e sucesso. E então o remédio de Adler é o próprio veneno de uma civilização agonizante. Aos ressentidos, aos machucados, em vez de dizermos que procurem principalmente o ato interior de humildade curativa, que procurem a grande lei do amor, que procurem Deus, diremos que tratem de encontrar a ortopedia das coisas exteriores, que tratem de “vencer na vida”, que tratem de conquistar algum prestígio e algum sucesso.

Neste instante, peço ao leitor amigo que releia o texto acima citado prestando a máxima atenção em dois pontos:
1. a linguagem correta, a clara exposição das idéias;
2. a correlação perfeita entre o que ali está afirmado e o que estamos cansados de ver no cotidiano da vida. Por exemplo: o afã com que muitas pessoas de origem humilde se esforçam para subir na escala social, muitas vezes passando por cima do bom e desejável relacionamento cordial com os demais seres humanos, passando por cima de inúteis (na perspectiva pragmática) porém vitais hábitos civilizados.

A atmosfera competitiva na “civilização agonizante” a que se refere o autor de “O Desconcerto do Mundo” é, sem dúvida alguma, um dos macro efeitos do antropocentrismo, por ele mesmo analisado em “Dois Amores, Duas Cidades”.
Nesse ensaio histórico, Gustavo Corção, comentando a virtude da humildade nos diz que, comparando homem a homem, os medievais não eram mais nem menos humildes que nós. Entretanto, na envoltória cultural da Idade Média a humildade brilhava como uma das estrelas guias. E isso, caro leitor, faz uma colossal diferença a favor deles. A diferença que constrói catedrais de pedra e não torres do WTC; a diferença que nos propõe como modelos de procedimento os santos, e não homens simplesmente honestos bem sucedidos na vida.

Note bem, amigo leitor, que é perfeitamente legítimo, e mesmo necessário, que usemos certa parte de nosso tempo para criticar os erros da política, nacional ou internacional. Porém, talvez seja bem mais eficaz, no que se refere a uma desejável recuperação da nossa tumultuada cultura contemporânea, seguirmos o exemplo de Corção que, em seus melhores livros, buscou a raiz profunda dos atuais problemas humanos. E mais, não teve medo nem pejo de usar, nessa procura, os critérios cristãos.

Um santo Domingo para meus leitores !


posted by ruy at 12:06 da manhã

17.1.04

 

Ainda lembrando Chesterton


Relembrar e tornar a ler Chesterton faz sempre um bem enorme à saúde espiritual.Estas palavras – “saúde espiritual” – podem parecer meio estranhas, como se fossem môts que hurlent de se trouver ensemble . Mas, quando nos lembramos da famosa heresia dos cátaros ou dos albigenses e do super exaltado valor que aqueles hereges davam à nossa alma ao mesmo tempo que nutriam um doentio desprezo pelo corpo, chegando mesmo a considerar o casamento como intrinsecamente pecaminoso (...), verificamos que o arguto poeta Murilo Mendes tinha toneladas de razão quando escreveu isto:

- um homem pode ser muito espiritual e nada celeste.

O fato, meus amigos leitores, é que existe mesmo um modo sadio de buscar a santidade, um modo que, mesmo fazendo uso do mais duro ascetismo – caso típico de um São Francisco de Assis ou de um São Bernardo – não perde a boa orientação que aponta para a Casa Paterna.

Chesterton, em uma de suas mais conhecidas e mais felizes reflexões paradoxais, certa vez escreveu:

- O louco é o homem que perdeu tudo, menos a razão.

Esta frase deveria ser sempre lembrada, principalmente por todos nós que temos o diuturno costume de usar de modo consciente – notem bem: consciente – nossa inteligência, nós que somos vaidosamente, orgulhosamente, sempre tentados a dar a essa inteligência um valor muito acima do que ela realmente possui. E um excelente exemplo dessa traiçoeira hipertrofia ocorre no esquecimento – esquecimento de fato - do essencial mistério que existe nos assuntos da religião em geral e muito especialmente na religião revelada: a fé judaica e, posteriormente, sua plenitude no Cristianismo e na Igreja.

É muito curioso o fato de que, ao ver a prodigiosa riqueza de minúcias na ordem do universo, vendo, por exemplo, a estrutura e o meticuloso funcionamento dos três ossinhos de nosso ouvido médio, uma pessoa suposta inteligente não faça esta sensata reflexão:

- se Deus usou de tanta minúcia, de tanto esmero nessa ordenação cósmica, por que haveria de deixar correr solto, à Bangu, como se costuma dizer, o esforço humano de procurá-lO ? Por que o próprio Deus não daria, de modo claro e preciso, uma pista mais segura para chegarmos até Ele ?

Um ateu ou um seguidor de outra crença religiosa podem opinar sobre o Cristianismo sem se preocupar com eventuais excessos cartesianos. Um cristão NÃO pode.
Vamos lembrar novamente o velho Chesterton quando ele nos diz que o mistério é como o sol ao meio-dia. Não podemos encará-lo de frente, mas é em sua luz grandiosa que vemos todas as coisas.
Ora, no Cristianismo temos várias verdades que precisam ser vistas, têm que ser vistas desse modo, luminoso mas indireto, tais como : a Criação, a rebelião de uma parte dos anjos, a Queda, o Pecado Original, e vai por aí. Querer “racionalizar” apressadamente essas realidades, mesmo usando os mais brilhantes argumentos, é ficar infinitamente longe de seu misterioso significado.O bom teólogo usa a filosofia, sim; usa a razão, sim. Porém, curva-se humildemente diante do mistério e aceita a Revelação .Não inventa moda.Não faz pirotecnia verbal. E sabe, por exemplo, que o pecado é uma realidade ontológica.

Aliás, mesmo no que se refere às coisas ditas “naturais”, a realidade transborda do conceito, conforme nos ensina o Doutor Angélico. E sobre ele, sobre Santo Tomás de Aquino, Chesterton escreveu um de seus mais inteligentes e mais belos livros, obra que mereceu entusiasmado elogio do ilustre Filósofo francês Etienne Gilson.


Com perdão da rima


Quem se diz cristão, tem que aceitar a Revelação! Mas aceitar no duro, sem rodeios nem floreios !
Sem esse aceitar, teremos diante de nós alguém que se apresenta como um “círculo quadrado”.



posted by ruy at 1:05 da manhã

16.1.04

 
Voltando aos macro e micro efeitos do antropocentrismo


Ontem de manhã, liguei para um velho amigo, um professor universitário remanescente do bom tempo em que pessoas de grande cultura geral e profissional, dotadas de fina inteligência e até mesmo de coragem física eram civilizadas.Peço aos meus leitores que prestem, por favor, a máxima atenção no que acabei de escrever. Vou repetir, para enfatizar minha afirmativa, as palavras finais do que ali está escrito: “eram civilizadas”. Trocando em miúdos: mesmo que minha inteligência seja bem ágil, mesmo que eu tenha muitos conhecimentos e seja capaz de entrar sem medo numa briga, porém se minha linguagem e minhas atitudes comuns, rotineiras, não se distinguirem muito das que sejam típicas de uma pessoa rude e de pouca instrução – não estarei muito distante de um índio vestido de paletó e gravata.

Pois bem, esse meu civilizado amigo deu-me a notícia que talvez seja a melhor deste ano recém começado, mesmo que não saibamos a priori o que ainda vai acontecer. É a seguinte:
- estaria para ser reeditado o livro: “Dois Amores, Duas Cidades”, de autoria do ilustre pensador brasileiro Gustavo Corção, falecido no final da década de 70.
Esta feliz notícia foi imediatamente divulgada por mim entre os poucos mas bons leitores deste “blog”.

A importância dessa obra, na ocasião editada em dois volumes, consiste em se tratar de um magnífico ensaio histórico, talvez o mais importante escrito neste país nestes últimos cinqüenta anos.
Bem, o que eu quero dizer com os termos: “um magnífico ensaio histórico” ?
Com tais palavras digo que naqueles dois volumes podemos ver descritas, com bastante clareza, as fundações e as colunas sobre as quais, ao longo dos séculos, se construiu a Civilização Ocidental Moderna, e ver tal descrição feita com elegância, com um toque de beleza que, sem dúvida alguma, era fruto da escolaridade recebida pelo escritor G.C. em sua infância e em sua adolescência, em uma época bem distante em que, mesmo nas famílias de posses modestas (caso dos pais do escritor), as pessoas eram educadas, eram capazes de ler boa literatura, ouvir boa música, conversar civilizadamente em família no final da tarde; capazes de chorar ou rir nas horas certas. Uma época que viu bem de perto a glória de um Machado de Assis.

Uma das várias teses expostas em Dois Amores, Duas Cidades é justamente a do antropocentrismo que corrompeu a cultura ocidental a partir do século XIV, quando a filosofia se degradou no nominalismo (Lutero era nominalista) e a religião perdeu aquela tradicional ingenuidade que permitira aos homens construir, com assombrosa paciência, as catedrais de pedra. As torres do WTC, derrubadas pela insânia terrorista, não constituem, conforme disse ingenuamente um leitor deste “blog”, um símbolo do Poder.Aquelas duas torres, meu jovem amigo, simbolizavam (e ainda simbolizam), sim, o culto ao telúrico; representam uma arrogante recusa à forte recomendação Paulina:

- Nolite conformari huic saeculo.

Uma recusa que os medievais não fizeram.

Já me referi em “posts” anteriores ao que chamei: os macro e os micro efeitos do antropocentrismo.Os macro efeitos podem muito bem ser exemplificados pela pletora de absurdos políticos que todos os dias vemos expostos no noticiário dos jornais, das TV’s e da Internet. São essas notícias que fornecem a matéria fácil para todos os tipos de jornalistas políticos, desde os menos dotados, culturalmente falando, até os mais brilhantes analistas, porém todos eles irmanados neste ponto: estão nada ou pouco preocupados com as raízes históricas de nossos atuais problemas. Mostram-se todos satisfeitos, sentados no estreito e incômodo banquinho do presente. Se falam no passado, é um passado mais ou menos recente. A contagem cronológica dos anos, por exemplo, não lhes recorda o mistério da Encarnação do Verbo.

Quanto aos micro efeitos, o primeiro que mais me angustia – me perdoem a palavra meio vulgar – é a bagunça em que está a família moderna.Lembram-se do par de “namorados” barbaramente mortos em São Paulo? Lembram-se da infeliz declaração do pai da jovem assassinada, referindo-se ao uso da camisinha?
Hoje é bastante comum vermos fatos melancólicos: casais que se separam pouco tempo depois de casados, às vezes com filhos pequenos, inocentes crianças cuja tutela final vai ser decidida por um juiz; casais que se formam quase de repente, sem darem a menor importância à cerimônia religiosa, ao Sacramento do matrimônio, e quando muito, aceitam o chamado “casamento civil” . O aspecto mais triste disso tudo é o esquecimento daquilo a que meu jovem amigo C... se referiu com enorme felicidade quando definiu :

- o amor é uma decisão .


Coincidentemente, um dos primeiros assuntos abordados em "Dois Amores, Duas Cidades" é a milenar antiguidade das curiosas, excêntricas exigências, que se faziam aos noivos por ocasião de um casamento.Tais exigências existiam para marcar, para bem caracterizar uma séria e definitiva mudança de estado.E Gustavo Corção chama a atenção do leitor para este ponto: a enorme variedade dos usos, ao contrário do que possa pensar alguém com mentalidade nominalista, comprova de fato uma unidade essencial nas tradicionais e variegadas cerimônias do matrimônio.

Meus amigos, tentem, por favor, tentem mesmo achar esse fantástico, esse oportuníssimo livro !


posted by ruy at 1:29 da manhã

15.1.04

 
Lembranças...


[O “post” de hoje vai por conta da saudade]

A Descoberta do Outro


Já faz algum tempo publiquei neste “blog” um poema em que relato, de modo sucinto, do jeito que é normal no discurso poético, como o Ruy, em plena adolescência, voltou à Igreja, de onde estivera ausente durante três ou quatro anos.
Durante vários anos após aquele feliz regresso, considerei o Cristianismo muito mais, digamos assim, como um seríssimo código de moral. Não que as verdades do Credo fossem por mim ignoradas; eu as aceitava, acreditava nelas. Sabia definir, ainda que de modo elementar, o que é um dogma, e sabia qual é a importância do dogma. Entretanto, o mistério do Cristianismo e da Igreja só apareceria, diante dos meus olhos de moço recém egresso de sua Alma Mater, quando, em uma demorada e meio cansativa viagem, li, profundamente comovido, o livro: “A Descoberta do Outro”, de Gustavo Corção.

Nesse admirável depoimento do saudoso escritor brasileiro – e a palavra saudoso significa aí não apenas o pensador brilhante, mas também o ser humano pleno de qualidades outras – há um capítulo intitulado: “Chesterton e Maritain”, justamente os dois escritores, um inglês e o outro francês, que serviram de suporte intelectual à conversão de G.C. Neste instante é bom lembrar: a conversão de alguém é sempre basicamente um dom de Deus, e não simplesmente o término de um longo processo de elucubração erudita e/ou cartesiana.Quem converte é a graça de DEUS!

Hoje em dia é moda, até mesmo entre católicos que se julgam bem informados, criticar o grande Filósofo que foi Jacques Maritain. Falam inclusive, com certa pequenez de alma, na amizade que Maritan mantinha por certos intelectuais de esquerda. Ora, neste instante vou lembrar dois fatos ligados ao insigne filósosfo. O primeiro é o que se refere à sua clara e firme condenação das idéias de Teillard de Chardin, o infeliz padre jesuíta cujas fantasiosas teorias inspiraram os católicos “avançados”, os mesmos que apoiaram os comunistas em sua teimosa tentativa de construir o tal “mundo melhor” (sabemos bem em que deu essa tentativa).
O segundo fato é o de que existia na casa de Jacques e Rhaíssa Maritain um sacrário onde estava permanentemente o Santíssimo Sacramento. Se eles tiveram da autoridade eclesiástica permissão para esse inusitado privilégio, convenhamos, é por que reconhecia-se no casal uma especial conduta, profundamente cristã.


Chesterton


A leitura de “A Descoberta do Outro” motivou-me a ler ( e como li !) Chesterton. Um dos muitos livros de Corção é justamente uma biografia do grande ensaísta, daquele inglês repleto de senso de humor. Inspirado em minha leitura desse livro biográfico, ousei escrever o poema abaixo:

Três Alqueires e uma Vaca

No final da tarde abrilenga,
diante dos olhos verdes e moços,
inexperientes na vida,
passa a biografia serena,
sem lances épicos,
sem clarinadas;
uma biografia escrita, bem de propósito,
do mesmo jeito com que o biografado,
exímio contador de histórias,
contou a vida de vários homens ilustres,
santos e poetas.

E o moço, sozinho em seu quarto, vai lendo, página a página,
absorto na alegria, silenciosa e boa,
de quem encontra a verdade e a beleza juntas.

Armam-se lá fora temporais medonhos,
futuras tempestades.
Porém, naquela serena hora vespertina,
alguém ainda ignora o mundo.
E vê crescer diante de si, grande nos dois sentidos da palavra,
a simpática figura de Gilbert Keith Chesterton.


Notícia muito importante !


Fui informado, por pessoa de minha maior confiança, que o maravilhoso ensaio histórico DOIS AMORES, DUAS CIDADES, de Gustavo Corção, vai ser reeditado. Talvez esta seja a melhor notícia deste ano de 2004 !


Agradecimento


Meu amigo C..., em seu “blog” Pro Tensão, fez lisonjeira referência ao meu “post” de ontem, e chegou mesmo a usar um estranho multiplicador para externar sua comparação! Obrigado, C...por seu generoso comentário. Mas, é preciso ressaltar o seguinte:
- a linguagem usada por C... para explicar seus pontos de vista é concatenada, concisa e precisa, bem própria de quem tem um conhecimento sólido do assunto.
O Ruy é meio boêmio e falastrão. Coisa de velho...





posted by ruy at 1:19 da manhã

14.1.04

 
Democracias verdadeiras e democratismos


C.S. Lewis em um de seus lúcidos e bem humorados ensaios (“The Screwtape Letters” ) descreve uma festa de formatura no Inferno. Nessa satânica cerimônia, o Diabo, cumprimentado os jovens capetinhas, exorta-os a agirem de acordo com certas regras práticas como, por exemplo, fazer com que os homens distorçam o genuíno sentido das palavras, corrompam o bom uso da linguagem. Uma das palavras cujo uso deve ser corrompido é o termo “democracia”. Diz o Diabo aos formandos:

- Democracy is the word which you must lead them [ eles: os homens ] by the nose. The good work which our philological experts have already done in the corruption of human language makes it unnecessary to warm you that they should never be allowed to give this word a clear and definable meaning. They won’t. It will never occur to them that democracy is properly the name of a political system, even a system of voting, and that this has only the most remote and tenuous connection with what you are trying to sell them.

De fato, a partir do Iluminismo, o Ocidente vem usando a palavra “democracia” de modo confuso, equivocado e, sobretudo, pernicioso.
Curiosamente, dentro de uma instituição que milenarmente se estrutura na hierarquia – a Igreja Católica - encontramos ao longo dos séculos diversos exemplos do razoável costume, realmente democrático , de ouvir a opinião da maioria. A venerável Regra de São Bento, o Pai dos monges do Ocidente, manda que o Abade ouça a todos no seu mosteiro, inclusive os mais novos.

Meu amigo A..., o serrano, tem boa experiência beneditina e sabe que não estou mentindo ao citar esse importante detalhe da Santa Regra. Ele mesmo, o inteligente e bem humorado A..., em uma das ótimas crônicas do seu livro “A Fraternidade Cósmica do Repolho Místico”, fala em tom de elogio sobre um certo nazista (sic), um excêntrico alemão que bem poucos conhecem, que enfrentou, com muita coragem e não menor sagacidade, seus próprios chefes quando neles descobriu uma farisaica e vil corrupção. Esse curioso fato nos mostra que mesmo em pessoas inspiradas pelas piores ideologias pode ocorrer o sentimento do que seja moralmente certo e do que seja moralmente errado; pode acontecer a percepção de valores. Pois bem, aproveitando a idéia do A..., vou um pouquinho mais longe.

Adolf Hitler, no começo de sua sombria e nefasta ditadura, certa vez visitou um mosteiro beneditino na Bavária. Ao sair, comentou, para seus companheiros de partido, que o acompanharam na visita, sobre a democracia existente na Igreja Católica, a qual dá a um homem de origem humilde a oportunidade de tornar-se chefe respeitável de uma importante comunidade monástica. Esse fato é contado por Albert Speer, arquiteto, protestante, que foi Ministro do Trabalho de Hitler, no livro “Diário de Spandau” (escrito por Speer quando cumpria pena a ele imposta pelo tribunal de Nuremberg).

Para não dizerem que o Ruy está falando apenas sobre autênticos valores há milênios cultivados na Igreja, vou lembrar agora um fato ligado ao mundo político.
Logo que se proclamou a República no Brasil (um movimento cuja bandeira inicial era cópia perfeita da americana, só mudando as cores das listras, confirmando assim a afinidade ideológica dos Iluministas de cá com os Iluministas de lá), logo que aconteceu a derrubada de Pedro II, certo notável político sul-americano comentou:

- Se há terminado en América la última Democracia.

O que estou tentando, de modo desajeitado, dizer neste “post” é o seguinte: existe uma colossal diferença entre “democracia” e “democratismo”.Portanto, criticar, como costumam fazer, vários e bons jornalistas, os fatos agitados e melancólicos da política nacional ou mundial, criticar as bobagens ditas em público pela nossa mais alta autoridade, criticar o maquiavelismo do assessor “eminência parda” do Governo, tudo isso, ainda que legítimo, fica distante das causas remotas dos atuais problemas. Melhor seria divulgar as considerações perspicazes de certos pensadores sensatos, tais como os ingleses Chesterton e C.S.Lewis. Tornar conhecidos esses verdadeiros exemplos de “homo sapiens” que honram a dignidade humana.

Nessa necessária e patriótica divulgação talvez não consigamos de imediato reverter o processo de decadência que hoje nos angustia, porém estaremos acendendo uma brilhante lâmpada dentro de nossa atual e silenciosa catacumba.


Provérbio de Salomão


[colocado em versos por João de Deus, poeta português ]

Quem de repente se enfurece é estulto,
Quem é prudente dissimula o insulto.



Adendo


Mais uma vez recomendo a leitura do livro do meu amigo A...!
Obrigado aos leitores que me enviaram mensagens de apoio nestes dois últimos dias.
E, como diz meu jovem amigo C... : “DEUS é pai.”


Me perdoem...


Este “post” já estava encerrado, porém, como falamos em “democratismo”, não custa dar um oportuno exemplo do uso corrompido da linguagem recomendado pelo Diabo aos jovens capetas formandos:

Terça-feira, 13 de janeiro de 2004 18h17
"Sem democracia econômica e social, não haverá democracia política", diz Lula.
(da Folha Online).
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou os representantes dos 34 países que participam da Cúpula das Américas, que termina nesta terça-feira, em Monterrey, no México, a participarem de um esforço internacional de combate à pobreza. "Sem democracia econômica e social, não haverá democracia política", disse.

Uma frase bombástica, porém vazia de sentido. Haja vista o caso de Cuba, o país tão admirado por esse pessoal que hoje está no governo do Brasil.




posted by ruy at 1:14 da manhã

13.1.04

 
A serra


Ali, em certo recanto da serra, há um repousante lugar lindo e reservado. Em vários pontos do tal ambiente, podemos, de repente, achar um banco simples, bem isolado do barulho; e, nele sentados, durante não muito demorada solidão, podemos ficar quietos, olhando a exuberância da mata que nos envolve, com suas centenas, talvez milhares de espécies de árvores, arbustos, folhagens e sei lá mais o quê (infelizmente não aprendi em menino a distinguir a variedade dos pássaros e das plantas...)

E é em tal silêncio, em tal solidão, que podemos realizar aquilo a que um certo moderno e polêmico pensador brasileiro se referiu, e nesse ponto com bastante acerto: nosso encontro com a realidade do mundo, com a misteriosa realidade da vida. A menos, é claro, que levemos em nossa bagagem, ao subir a serra, a rotineira agitação que temos aqui em baixo. Por exemplo, entre as pessoas que vão ao belo recanto onde estivemos durante esta maravilhosa semana, existem várias que não perdem seu costume de ler, de ponta a ponta, os principais jornais diários...E depois, passam boa parte do tempo conversando ou discutindo sobre as notícias lidas. Pergunto: como pode encontrar-se a si próprio quem não sabe aproveitar aquela feliz oportunidade que nos é dada pela serra ?

E que me perdoem os apreciadores da praia, porém, a serra é sempre serra !


Leitura de jornais


Creio que já contei isso no Despoina Damale, mas vale a pena recontar.
Certa vez perguntaram a Leon Bloy qual o jornal diário que ele costumava ler, como faz todo mundo, para ficar a par das novidades.
O Peregrino do Absoluto respondeu de pronto:
- primo:Leon Bloy não lê jornais;
- secundo: Leon Bloy não é todo mundo;
- tertio :quando quer saber das novidades, Leon Bloy lê as epístolas de São Paulo.

Ainda que não cheguemos à atitude intransigente de Bloy, havemos de convir que outras leituras bem mais proveitosas podem e devem ser feitas, mormente para não nos perdermos no torvelinho dos fatos. E, mesmo lendo os jornais, convinha analisarmos suas notícias sub specie aetarnitatis
Aliás, faz muito tempo me disseram que, para um cristão, ler jornais deveria ser motivo para fazer penitência, e não como passa-tempo.


Brave New World !


Para não dizer que fiquei a semana inteira sem ler uma notícia sequer nos jornais, digo que, enquanto estive na serra, li duas notícias bem interessantes.
A primeira contava o casamento super-rápido de uma cantora (Britney Spears), realizado na (entre aspas) "capela" Little White Wedding, em Las Vegas. O enlace durou poucas horas, e a decisão do juiz que anulou o casamento (...) foi tomada DOZE minutos após a abertura do tribunal que tratou do pedido da anulação.

No mesmo dia, os jornais falavam sobre o robô Spirit que estava transmitindo nítidas imagens do marrom (e não vermelho como se pensava) planeta Marte.

Combinando as duas notícias, lembrei-me do comentário certa vez feito por Gustavo Corção: a ciência moderna está fazendo o homem conhecer more and more about less and less...


Fé ingênua


De fato, ela é ingênua até o dia em que descobrimos, realmente, nossas limitações, nossas fraquezas, nosso pecado.Quando descobrimos, realmente, que Deus é o Senhor.


posted by ruy at 1:04 da manhã

12.1.04

 
Fé e ateísmo


Acho que deve ser bem difícil encontrarmos alguém que não acredite absolutamente na existência de Deus. Uma pessoa que se afirme lealmente com essa descrença absoluta é o que, para mim pelo menos, consiste no protótipo do ateu. E, muitas vezes, pode ser que tal pessoa, assumindo de fato essa atitude fechada diante do Absoluto, seja alguém muitíssimo infeliz.

No que toca à crença em Deus, isto é, no que se refere aos admitem a existência de Deus, vejo algumas distinções, algumas peculiaridades; de modo esquemático, distingo modos diversos nesse acreditar que merecem nossa reflexão.

Existem, por exemplo, os que acreditam na existência de uma Inteligência, digamos assim, construtora do mundo, um misterioso Ser Supremo que dá origem à vida e à ordem do universo. Essas pessoas têm uma certa atitude respeitosa em relação à divindade; admitem até mesmo um tipo de culto religioso , do qual devem participar os “grandes iniciados”, isto é, o “inner circle” dos que têm um respeito solene por Ele e ao mesmo tempo uma afetividade distante d’Ele. Distante, sim, por quê ? Porque esse Deus que essas pessoas afirmam venerar é um Deus esotérico, indiferente ao interesse ou afeto que os homens possam ter por Ele.E sendo indiferente à atitude dos homens, não lhes apresenta nenhuma exigência moral absoluta. Pelo contrário, deixa que o ser humano faça de sua vida o que bem entender.Prêmio eterno, castigo eterno, são coisas inexistentes nessa crença.
Podemos afirmar sem susto que, para a infelicidade do mundo, a maioria dos chefes políticos e dos homens de maior prestígio nos países do Ocidente têm esse tipo de crença acima descrito.

Existe ainda um modo de acreditar em um Deus pessoal que pode dar o prêmio ou o castigo, conforme o comportamento moral do homem. Mas, ao mesmo tempo, tal modo de crer pensa em Deus como alguém que está sempre pronto a resolver nossos mais diversos problemas, a atender nossos variados desejos, desde a cura de uma doença até a obtenção de um bom emprego, seguro e com ótimo salário; desde a compra de um confortável e bem localizado apartamento até a realização de uma alegre viagem a Disneyland; desde um noivado com pessoa bem financeiramente até a eleição para um prestigiado cargo político.Uma divindade pronta a quebrar os nossos galhos e também a fazer vista grossa para nossas mediocridades, ai de nós...
Podemos dizer que na maioria das vezes, infelizmente, adotamos um modo de crer parecido com esse a que acabamos de nos referir.

Entre as pessoas que crêem em um Deus pessoal que poderá dar a eterna recompensa ou o eterno castigo conforme tenha sido nossa vida neste mundo, existe o conjunto dos que poderíamos chamar “crentes ferozes”, cristãos apreciadores das discussões apaixonadas, sempre dispostos à polêmica, quem sabe admitindo até o uso da força para punir os adversários da religião cristã. Esquecidos de que a fé é um dom de Deus, esses exaltados defensores da Igreja não percebem o mistério – no sentido ontológico, teológico do termo - que existe no Corpo Místico do Cristo.

Por último, existe o grupo, melancolicamente pequeno, dos que acreditam em um Deus ao mesmo tempo pessoal e ciumento. Um grupo em que, infelizmente, o Ruy Maia Freitas não consegue se inserir como deveria ...
Para as pessoas desse “pequeno rebanho”, Deus amou o homem a tal ponto que se fez um de nós, igual a cada um de nós, menos no pecado. Um Deus que, muitíssimo mais que um simples solucionador de nossos problemas diários, quer ser por nós procurado por causa d’Ele mesmo; quer ter um amoroso encontro pessoal conosco. Ele vai dar, sim, prêmio ou castigo conforme o nosso comportamento, sem dúvida alguma. Mas, não quer que sejamos tão pouco generosos reduzindo nossa vida a um cartesiano e mesquinho jogo de interesse, a uma tática para chegar ao Céu.Ele quer antes de mais nada o nosso amor.
Crer desse terceiro modo é incômodo, é bem difícil Muito mais que um ótimo comportamento moral, muito mais que a nossa rotineira assistência à missa Dominical, tal modo de crer exige nossa entrega afetiva. Deus espera pacientemente que acreditemos n’Ele quando nos diz isto :

- Sem mim, nada podeis fazer.

Ora, os poderosos do mundo, os nossos políticos, os nossos homens mais importantes, os homens bem sucedidos na vida, não estão muito preocupados com isso. Afinal, eles chegaram a suas altas posições sem que jamais tivessem de se preocupar com Alguém que muitos sábios do mundo dizem que nunca existiu, ou, se por acaso existiu, foi um homem com os mesmos defeitos de cada um de nós, um mero pregador como foram Buda, Maomé, Confúcio e outros semelhantes.
E quando uma certa instituição se afirma como tendo sido fundada por aquele próprio Deus encarnado, e teimosamente nos ensina coisas tais como: a existência de três pessoas em um único Deus, a virgindade fecunda de uma jovem mulher judia, a transubstanciação de um pedaço de pão e de um pouco de vinho, e outros desafios à humana inteligência – essa instituição torna-se bastante incômoda para todos os que acreditam em Deus mas O querem bem longe de nós.


Renovando um enfático apelo


Mesmo correndo o risco de se tornar enfadonho, este setuagenário renova este veemente apelo aos leitores jovens deste “blog” :
- por favor, não deixem de ver o filme “O Gênio Indomável”, com Robin Williams e Matt Damon ! Por favor!
Lembrem-se : viver não deve ser apenas estar sempre fazendo brilhantes raciocínios. A vida é muito mais que um somatório de conhecimentos magníficos, ainda que sejam verdadeiros.


posted by ruy at 12:53 da manhã

 

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