Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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4.1.04

 
O lazer


Ontem escrevi que deveríamos ler o que Mortimer Jerome Adler diz sobre o lazer .
Vamos lá:

Assim como a expressão "educação de adultos" é uma expressão infeliz porque a maioria dos pessoas pensa que a educação é algo que se faz com as crianças na escola, a palavra "lazer" é uma palavra infeliz, certamente para a maioria dos americanos, porque "lazer" para a quase todos nós significa tempo disponível, tempo que está sobrando, o tempo que não é necessário para trabalhar e para dormir. Tempo de lazer, na visão da maioria dos americanos, é o tempo que é usado em atividades recreativas, inconseqüentes. Em termos desta concepção de lazer, a educação liberal não faz nenhum sentido; seria melhor fechar todas as escolas.

Deixe-me apresentar outra definição de lazer. A vida humana se divide em quatro partes básicas, e não três. Vou falar primeiro do trabalho. O trabalho é a parte da vida constituída por todas as atividades que cada um de nós deve desempenhar, se somos responsáveis, de modo a merecer e assegurar o nosso sustento. O sono é a parte da vida que passamos nos recuperando das fadigas do trabalho. Neste sentido, quem não trabalha não merece dormir. O sono é uma preparação para o trabalho. As atividades recreativas podem ser enquadradas na mesma categoria que o sono. Não são o mesmo que dormir, mas não são muito melhores do que dormir.

Pense por um momento na palavra "recreação". As atividades recreativas se destinam a recriar nossa energia, vencer a fadiga, afastar a depressão produzida pelo excesso de trabalho. Assim, da mesma forma que o sono, as atividades recreativas existem em função do trabalho.

Isto deixa de lado uma série de atividades através das quais podemos dar conta de nossa obrigação de adquirir todas as excelências que podem adornar um ser humano. Estas (e não podem ser consideradas uma brincadeira, em nenhum sentido da palavra) são as atividades do lazer. Trata-se de atividades intrinsecamente boas, em função das quais é feito todo o resto... em função das quais trabalhamos para viver.
(de uma entrevista com Max Wiesmann )

[Peço ao leitor amigo que preste bastante atenção na serenidade com que Adler nos expõe, de modo bem claro, certas realidade fundamentais de nossa vida; uma serenidade típica dos que têm sabedoria. Por favor, leia e divulgue entre seus parentes e amigos !].


Lembrando a anedota da roda que soltou-se de um carro


Dizem os inimigos dele que o prefeito do Rio “não bate bem da cuca” . Pois é, mas ele acaba de fazer declarações que nos mostram claramente que o alcaide da Cidade Maravilhosa NÃO é burro. E, além disso, tem coragem. Leiamos o que acaba de ser divulgado pela Internet:

Segundo notícia publicada no “site” da prefeitura. César Maia disse que “a aplicação de uma reciprocidade ingênua (referindo-se às medidas adotadas pelo governo dos Estados Unidos em relação à fiscalização de visitantes estrangeiros ) terá repercussão nas agências de viagem, afetando nosso mercado receptivo em relação ao principal mercado exportador de turismo”.

O prefeito qualificou de “desastrosa” a decisão judicial, que afeta o país em plena estação de verão e, em especial, a cidade do Rio de Janeiro, cuja “marca internacional é garantida pela diversidade, pela transigência e pela paz”.

Maia avaliou que “o Brasil estará praticando uma retaliação burra, que nos prejudica e não traz qualquer benefício ao País. O que vamos fazer com as digitais e as fotos dos americanos, a não ser gastar dinheiro em material e pessoal ?”, indagou, acrescentando que “a decisão é uma represália que nos ridiculariza diante do mundo”.


[Como é bom saber que existe um político inteligente e CORAJOSO em nossa Pátria! Alguém capaz de dizer quando for preciso: “o rei está nu!”]


É bom lembrar


Bem a propósito, seria bom sempre recordarmos TODAS as circunstâncias que tornaram possível, que facilitaram aquele tenebroso, aquele insano atentado do 11 de setembro contra as duas torres do WTC.
Faz muitos anos, me ensinaram e nunca mais esqueci:política é memória .


Uma enorme alegria !


Anteontem enviei uma mensagem circular aos vários amigos leitores deste “blog” pedindo que opinassem sobre o “post” de ontem. Vários responderam, cada um com seu jeito de escrever, cada um usando sua perspectiva pessoal. Isso me deu uma enorme alegria !

Ora, um ponto que foi bem comentado é que se refere aos chamados: “ministros da Eucaristia”. Agora à tarde (estou escrevendo às 18 30 h de sábado), depois de ler as mensagens dos amigos, lembrei-me de um antigo e muito bom filme francês, em preto e branco, cuja história se passa em uma ilha distante, com uma pequena população de pescadores e de onde o padre tinha ido embora. O nome do filme, se não me engano, é: Dieu a besoin des hommes (“Deus precisa dos homens”).

Para um leitor apressado, o título do filme pode parecer absurdo, já que Deus de nada precisa, porém, vale a pena lembrar agora o que disse o grande Doutor da Igreja, o filho de Santa Mônica:

- Aquele que sem ti te criou, sem ti não poderá salvar-te.
Logo...



posted by ruy at 1:00 da manhã

3.1.04

 
Uma grave escassez


Não, não vou falar no Fome Zero, esse maquiavélico programa lançado meses antes da posse do atual Presidente. Naquela ocasião o jornal Estado de São Paulo publicou um magnífico editorial comentando os vários sofismas, os diversos engodos da proposta do PT.
Não vou falar sobre o magno problema da energia elétrica, problema esse talvez minimizado pela grande freqüência das chuvas que nestes meses finais de 2003 vêm caindo em várias regiões do país.
Tão pouco vou me referir ao insuficiente número de escolas do ensino primário, aquelas que libertam os mais humildes dos entraves do analfabetismo, nem ainda vou citar a falta de professores dedicados àquela tão meritória tarefa pedagógica.
Vou, sim, falar sobre uma escassez talvez muitíssimo mais séria e mais preocupante que as listadas acima.

Vamos começar bem pelo início, sem nenhum desejo de fazer, com esta tautologia, um gracejo para motivar o leitor.
Para a maior parte dos políticos do Ocidente de nossa época, o Cristianismo é apenas uma religião entre outras; um tipo de religião útil porque, sendo sua moral exigente, ela contribui para a manutenção da ordem, para a redução dos inevitáveis crimes que ocorrem na sociedade humana desde que o mundo é mundo. Desde que os fiéis dessa crença não queiram interferir com o trabalho dos poderosos, ela é tolerada.

Mas, essa visão deformada do Cristianismo não ocorre apenas nos políticos, os quais, em sua grande maioria, mais ou menos discretamente, adotam idéias, crenças panteístas, nas quais se afirma a existência de Deus, porém um deus distante, impessoal, não muito preocupado, por exemplo, com certos absurdos, injustos acordos que temos visto serem assinados há dezenas, a centenas de anos pelos chefes das nações.Também pessoas comuns, supostas cristãs, de vez em quando dizem coisas interessantes como esta: a religião é um freio para o padre .

Todos esses graves equívocos são conseqüência do laicismo, do secularismo, digamos logo, do generalizado paganismo que penetrou profundamente nos corações e nas mentes do homem ocidental quando ele, inchado de soberba, começou a se colocar no centro do mundo, no centro da vida. Quando silenciosamente cometeu-se a blasfêmia de colocar Deus em segundo plano - horribile dictu...

Sumamente curioso é o fato de que essa recusa de Deus nem sempre foi feita de modo direto. Ela ocorreu muitas vezes indiretamente quando uma certa incômoda virtude deixou de ser humildemente praticada: a virtude da obediência. Foi justamente o caso do infeliz Lutero e de outros que vieram mais tarde (o leitor deve estar lembrado da referência que fiz a Pio IX, no recente “post” sobre Tolkien. O papa Pio IX teve que se contrapor severamente contra desobedientes católicos novidadeiros, entre os quais, felizmente, não estava o autor de “The Lord of Rings”. Muito pelo contrário; Tolkien era católico fervoroso).

O fato nuclear que deve ser lembrado é o seguinte: o Cristianismo consiste fundamentalmente na adesão plena e incondicional à pessoa do Cristo, nesse compromisso incluída a fidelidade à Igreja fundada por Nosso Senhor sobre a pessoa de Pedro. Mais: o Cristo veio para nos salvar. Nesse processo da Salvação, cada um de nós é chamado, qualquer que seja nosso sexo, profissão estado conjugal ou religioso, a ser santo.Não simplesmente honesto e bem comportado, mas primordialmente: SANTO.

Ao contrário dos anjos, cuja opção imediata dividiu-os para sempre entre bons e maus, nós homens, devido à fragilidade de nossa carne, parte essencial de nossa natureza - e, portanto, ao contrário do que ensinam as religiões orientais, parte digna do máximo respeito - devido a essa fragilidade precisamos de apoios, precisamos de ajudas sensíveis. Basta que nos lembremos do lenço que alguém nos empresta na hora de um pranto, ou do pequeno cartão que um amigo humilde nos envia pelo Natal; ou basta que pensemos no beijo da mulher amada no difícil momento de uma injustiça que nos tenha sido feita por alguém. Somente os orgulhosos espartanos podem afirmar com, certa arrogância, que não precisam dessas pequenas e sensíveis demonstrações de afeto. Para o homem comum, um simples aperto de mão pode valer muito mais que mil palavras eloqüentes.

Essa carência do apoio físico, da ajuda sensível, explica, de modo canhestro, a razoabilidade da existência dos sacramentos. Formalmente definidos como: sinais sensíveis que nos conferem a Graça , explicados como instrumentos que agem ex opere operato , ou seja: sua realidade sacramental NÃO depende da pessoa que o entrega ou o recebe, os sacramentos existem para o nosso bem, para nos ajudar a sermos santos. Para nos auxiliar em nosso retorno à Casa do Pai.

É óbvio que, sendo acanhados os limites de um “post” e não possuindo este escriba grandes conhecimentos de filosofia nem muito menos de teologia, talvez eu não tenha conseguido fazer o leitor perceber o significado e a correlata importância dos sacramentos. Mas, se tal percepção, com a Graça de DEUS, ocorrer, o leitor vai perceber logo em seguida por que a escassez de padres no Brasil é um terrível problema, e por isso mesmo merece, precisa de nossa preocupação e, bem mais que isso, precisa de nossas orações pedindo a Deus que nos ajude na solução.

Escrevi: “que Deus nos ajude na solução”. Sim, por que existe a parte nossa, a tarefa que nos cabe. Não somos robôs nas mãos de Deus.
A parte nossa deveria começar na família. Um rápido exemplo: dos três filhos homens de Tolkien, o mais velho, John Francis Reuel Tolkien , tornou-se sacerdote.


Adendo


Este “post” já estava encerrado quando certo incidente me fez lembrar um detalhe crucial.
Todas as reflexões acima registradas dificilmente poderão ocorrer em ambientes em que exista uma diária, uma contínua procura de distrações, de passa-tempos que, mesmo sendo legítimos e saudáveis, impedem, com seu exagero, o uso da inteligência em sua tarefa mais nobre, a de contemplar a verdade. Essa tarefa essencial é incompatível com a agitação, com a pressa, com a passiva assistência à TV e outras atitudes semelhantes.
Convinha lermos agora o que Mortimer Jerome Adler escreveu sobre o real significado do lazer


JESUS
Hoje, festa do santíssimo nome do Senhor Jesus.
Que o vosso nome, Senhor, seja sempre pronunciado com a máxima reverência !


posted by ruy at 1:39 da manhã

2.1.04

 
Algumas perplexidades após um sepultamento


Ontem fui com minha mulher ao enterro de um velho amigo nosso que falecera na véspera. Partiu de nosso convívio depois de lutar heroicamente, durante anos e anos, com problemas cardíacos. Vários médicos houve que se admiravam daquela misteriosa capacidade de sobrevivência.
A capela do cemitério estava cheia, apesar de ser o primeiro dia do ano e apesar do calor que fazia; viam-se no local muitos parentes, amigos e companheiros. Foi pessoa de boa paz, bem humorado e apreciador da boa conversa; vai deixar saudade.

Antes de sair o caixão, houve uma seqüência de orações dirigidas por um senhor de aspecto sério e que se apresentou como “ministro da Eucaristia”. Foi discreto e correto no modo como procedeu, mas, para mim pelo menos, em que pese à piedade e à correção daquele homem sério, daquele católico que rezou conosco pela alma do nosso amigo, fica sempre a melancólica pergunta:

- por que temos tão poucos padres no Brasil ?

E agora uma segunda pergunta, bem da minha curiosidade:

- quantas pessoas ali presentes, em torno do “ministro da Eucaristia”, estariam naquele momento pensando neste gravíssimo “problema de escassez” ?
Este assunto merece um “post” especial para ser comentado.

Já faz mais ou menos uns dez anos, fui com uma de minhas filhas a um enterro em uma cidade serrana. Fomos bem cedo e voltamos na hora do almoço. Na volta, depois de algumas horas rabisquei este poema:

O enterro de Paulo Dutra

Paulo Dutra teve um enterro bom:
manhã fria,
chuvinha fina,
alguns parentes,
alguns amigos.
Ninguém conversava.

No silêncio do cemitério quase deserto,
apenas se escutavam,
rezadas por sua mulher e sua cunhada,
as orações de um terço.


E por falar em poesia...


Em dois “posts” recentes falei sobre a girafa. Tiro agora do fundo da minha velha gaveta este poeminha sobre esse bicho grandalhão e meio desengonçado:

O Pescoço da Girafa

O pescoço da girafa é longo,
bem mais longo do que se imagina;
ninguém viu jamais onde ele termina.
Vai além do broto mais elevado,
além dos espaços que fitavam o siderado,
o pensativo Pascal.


Estatísticas de 2003.


Faz alguns dias, a Internet divulgou o resultado de uma pesquisa de opinião que dizia o seguinte : “ 45% da população brasileira aprova as viagens feitas pelo Presidente Lula”.

Bem, vamos supor que o tal levantamento estatístico tenha sido feito com lisura.
Ora, nós engenheiros, principalmente os que somos da área das telecomunicações, sabemos da importância da estatística. E sabemos também que a eficácia de sua utilização em nossos projetos depende do uso correto dessa ferramenta matemática, caso contrário os resultados podem ser desastrosos.

Dizer que 45 % da população aprova as viagens do Presidente significa o quê ? Para o pessoal que administra nosso provedor na Internet não sei; mas, para mim, aquele número –suposto verdadeiro – significa que: 45 % do nosso povo, infelizmente, não tem bons critérios para analisar certos fatos da política.


E para fechar o “post” de hoje,


que tal, mais uma vez, citarmos esta sempre oportuna prece do saudoso Murilo Mendes:


Senhor, minha prece se faz
Em termos exatos:
Que os maus sejam bons,
E os bons não sejam chatos.



E mais uma vez: um bom 2004 para os amigos leitores !







posted by ruy at 1:02 da manhã

1.1.04

 
Início de ano


Já faz muitos anos – puxa, como o Ruy está velho...- lembro de ter lido ou ouvido uma bonita crônica de Dom Marcos Barbosa (o monge-poeta que traduziu para o português o clássico de Saint-Exupéry : O Pequeno Príncipe) em que o saudoso beneditino comentava, sentado no interior de sua cela, o foguetório, as ruidosas manifestações dos homens, seus irmãos, na passagem de 31 de dezembro para o primeiro dia de janeiro, o primeiro do novo ano. De modo delicado, discreto, o religioso deixava visível o contraste entre a agitação do mundo e o silêncio do claustro.

Mas, não pense o leitor que Dom Marcos, ao mostrar aquele contraste, se colocasse em posição de superioridade, em atitude de orgulhosa presunção, feitio esse bem alheio à conhecida humildade do simpático poeta e monge, o mesmo poeta e monge que escreveu os belíssimos versos do hino do 36o. Congresso Eucarístico Internacional, realizado em 1954 no Rio, tendo como cenário a linda paisagem da baía da Guanabara :

De todo canto
Vinde, correi,
Foi posta a mesa
Do nosso Rei.


Que saudade, meu Deus...

Agora mesmo, nesta tarde de 31 de dezembro, sentado em meu escritório, estou ouvindo o estampido, as explosões dos foguetes, antecipando aquela pletora de ruídos, os mais diversos, que vão marcar a transição anual, o fechamento da nossa elipse de que o velho Sol é um dos focos.Repete-se o ultra milenar ciclo.

Ciclo. É a palavra-chave. Durante muitos séculos os homens, impressionados com essa astronômica regularidade cíclica, foram levados à desesperada filosofia do chamado eterno retorno, um modo particular de adesão ao panteísmo como explicação do mundo e da vida.

Note o leitor que, no parágrafo anterior, coloquei a palavra “desesperada” em itálico. Por quê?
Em geral, se alguém diz para nós: “o Fulano está desesperado”, imaginamos logo que Fulano está preocupado, nervoso, agitado, irritado, incapaz de raciocinar direito, quem sabe? briguento, agressivo, e vai por aí. O sentido habitual da palavra “desespero” tem essas conotações sensíveis. Porém, existe um desespero pior, e pior justamente porque em geral não é percebido; um desespero manso e silencioso. Aquele desespero que se oculta no ativismo, na procura permanente de distrações.

Ora, quando participamos como padrinhos do batizado de uma criança, a seqüência de respostas “creio” que damos às perguntas feitas pelo padre celebrante deveria equivaler a afirmarmos de modo estendido o seguinte:

- creio que essa criança, ora sendo batizada, é um ser humano único, irrepetível e intransferível que, tendo sido resgatado pelo sangue do Cordeiro, foi chamado à Casa do Pai e está destinado à visão beatífica na Eternidade, em companhia da Virgem Santíssima e dos Anjos.

Se, como padrinhos, não entendermos aquela seqüência de respostas “creio” ditas por nós como sendo esta confissão da nossa própria Esperança, então – ai de nós...- pode ser que estejamos distraídos, olhando aquela cerimônia de batismo como se fosse apenas uma alegre reunião de famílias, mais ou menos piedosas.

Que Nossa Senhora Rainha, Mãe de Deus, cuja festa a Igreja comemora neste primeiro dia do ano, nos abençoe e nos proteja sempre e mantenha em nós a virtude da Esperança !


Complemento à resposta dada a R...

Nossa fé permanece “ingênua” enquanto não nos damos conta de nossas reais limitações, de nossas reais fraquezas; enquanto não entendemos plenamente estas palavras de Nosso Senhor:

Sem mim, nada podeis fazer.


posted by ruy at 2:50 da manhã

31.12.03

 
Voltando a um tema


Este “blog” tem um número bem pequeno de leitores, digamos assim: fiéis, talvez uns dez ou doze. Mas, isso para mim não é preocupante. Ou, se algum dia tivesse me aborrecido com tal pequenez, deixei de sentir-me “worry about” quando li a clara, concisa e precisa mensagem a mim enviada pelo jovem C..., o mesmo que edita um dos “blogs” mais inteligentes da Internet (na minha opinião). Ora, acontece que duas mensagens recebidas por mim ontem à tarde, vindas de dois desses poucos e fiéis leitores ( pauca sed bona), me fizeram voltar ao tema do “post” do dia 30. E não é mesmo má idéia terminar o ano com esse tema.

O assunto que ora me dirige os dedos ainda ágeis – graças a Deus – sobre o teclado é o que se chama: a instalação , isto é, aquilo que deixava Leon Bloy irritado contra seus irmãos de crença, isto é, contra nós católicos. Como introdução, transcrevo abaixo a mensagem que enviei ontem a um daqueles dois leitores acima referidos, respondendo a esta pergunta:
- “ Ruy, o que é uma fé ingênua ?

R...
Só essa pergunta sua já paga meu esforço de editar o “blog” Despoina Damale! Gostei! Vamos lá.
Suponhamos uma pessoa que tenha tido a boa Graça de haver nascido em uma família em que ambos os pais, isto é, o pai e a mãe, foram batizados e sempre seguiram, desde meninos, ainda que não sendo santos, a maior parte das “regras” – digamos assim – da Igreja.

A pessoa referida, convivendo com essa família, aprende o essencial do que seja um comportamento moralmente correto.Isso é errado? De jeito nenhum! Mas...

No evangelho, há um certo instante em que o apóstolo Judas Tadeu pergunta a Jesus: “por que revelaste essas coisas a nós ? por que nos revelaste a nós ?” .
Ora, o Cristo não lhe responde; ou lhe dá uma resposta evasiva, uma resposta que não é bem uma resposta objetiva à pergunta feita. E tinha que ser assim mesmo! Por quê?
Pergunto a você (conforme já escrevi em um “post” anterior): por que cargas d’água existe no reino animal um certo bicho estranho chamado girafa ?

Deus não tem que nos dar satisfação por que faz isso ou aquilo.

Chesterton tem um belo ensaio sobre o Livro de Jó (da Bíblia) em que ele diz que o homem é melhor consolado pelo paradoxo do que pelas explicações certinhas, cartesianas.
Para resumir: existe um infinito mistério na vida, no mundo que nos cerca. E quem ainda não parou sequer um minuto para pensar, para refletir sobre isso, tem o que talvez seja “uma fé ingênua ”, uma fé para a qual tudo é bem simples e muito natural.

Quando escrevi em um dos meus “posts” que um sutil perigo que nos cerca é o de sermos bem sucedidos na vida, entre outras razões está justamente esta: alguém bem sucedido tem menos propensão para parar e pensar no mistério da existência. Fica “instalado na vida” (leu meu “post” ?).


Os que sofrem muito, se não caírem no desespero, são os que em geral olham para cima e perguntam angustiados: “por que a mim, Senhor? Por que tinha que acontecer na minha vida aquele problema tão doloroso? Por que comigo?”
Nessa hora, a fé bruxuleia (e às vezes se apaga...) ou então se acende com mais vigor e deixa de ser uma fé ingênua ! Deu para entender ?


A leitura sistemática de autores que sejam bons literatos porém distantes do mistério do Cristo pode contribuir para a permanência dessa “fé ingênua”. Razão pela qual é salutar a leitura de outro tipo de escritor , como por exemplo: um Chesterton, um André Frossard, um Corção.
Um grande abraço do Ruy.


Bem, e agora vem o papel desempenhado pelo segundo leitor, meu amigo P..., cuja mensagem me induziu a voltar ao tema da “instalação”. Esse cortês amigo pediu-me que lhe perdoasse a franqueza, mas que, na opinião dele, eu deveria ter me estendido mais sobre o referido tema.
A resposta que dei à pergunta de R... creio eu que seja uma certa ampliação do “post” anterior. Mas, posso acrescentar alguma coisa. .

Curiosamente, muitos católicos ao procurarem se contrapor à essa infeliz e generalizada “instalação” na vida, entram por um caminho, para mim pelo menos, não muito eficaz, qual seja: o de um cuidado exclusivo, talvez excessivo, com problemas morais, políticos, do mundo em que vivemos– problemas muitos deles graves, sem dúvida alguma – deixando de lado uma relevante, e sobretudo desejável, dedicação a outras tarefas, digamos, mais construtivas do que curativas, como por exemplo: disseminar o bom gosto; estimular o interesse das pessoas pelos bons escritores, mesmo que não sejam católicos (um C.S.Lewis, por exemplo, apesar de não ser católico, tem muito que nos ensinar); incentivar a procura da audiência da boa música, a leitura da boa poesia, a observação da pintura autêntica (não a que se exibe, por exemplo, no museu de arte moderna em Niterói...). A teimosa fixação na moral acaba nos desviando da necessária contemplação do Bem como tal, da Verdade e da Beleza.

Diziam os antigos (em sua ingênua, porém atenta, observação dos fenômenos físicos) que “a natureza tem horror ao vácuo”. Ora, hoje existe mesmo no Brasil um vácuo, um melancólico vazio cultural. Isso faz com que as pessoas se “instalem” na mediocridade, até dentro de certos ambientes onde antigamente isso não ocorria. Que tal, por exemplo, fazermos nós católicos um amplo movimento neste país em prol do retorno do órgão às nossas igrejas? Uma tarefa desse tipo vai mexer com certa “instalação” em nosso catolicismo rotineiro e, muito mais que isso, trará de volta à liturgia da missa a beleza, que é um magno direito do sacrifício eucarístico. Ou não é ?

E que Deus dê a todos os meus amigos leitores um bom 2004 !


posted by ruy at 1:04 da manhã

30.12.03

 
O sutil perigo da instalação


Faz poucos dias recebi pelo correio um texto sem grandes pretensões.Entretanto, a leitura de certos trechos, a par das informações bem interessantes que eles davam, me fez refletir sobre um generalizado e sutil perigo que ronda os católicos. Por que sutil? Porque quase sempre passa despercebido, e isso talvez o torne mais perigoso.E um detalhe bem relevante: os próprios padres não estão imunes ao problema. Um ótimo exemplo desse fato ocorre no clássico romance de Graham Greene: “O Poder e a Glória”, quando o padre fugitivo consegue se ocultar em uma aldeia distante, onde ainda não havia chegado a feroz perseguição do governo mexicano.

Depois do desencadeamento da decadência filosófica e religiosa iniciada lá pelo século XIV, a religião pouco a pouco foi sendo relegada para a esfera individual, ficando ausente da sociedade humana como um todo. Uma situação bem diferente da que existira no Medievo, quando, desde o Rei até o mais humilde servo de gleba, todos acreditavam no Cristo e todos participavam igualmente do testemunho público de sua fé .
Não se impressione o leitor, até aqui desatento para o assunto deste “post”, com certos eventos, tais como as chamadas “shows-missas” ou certos encontros católicos de multidões reunidas em grandes estádios de futebol. Tais encontros vêm sendo tolerados pelos mais diversos governantes, quase todos ateus ou panteístas (o que dá quase no mesmo), como se fossem mera diversão inofensiva do populacho carola e/ou ignaro .

Esse processo de laicização, de secularização da sociedade moderna acabou criando um modo de “praticar a religião” – me perdoem usar esta frase tão chocha...- a que podemos chamar de instalação na fé. Um jeitinho de viver a fé sem maiores compromissos que não sejam, por exemplo, o de assistir habitualmente à missa dominical e conservar certas mecânicas rotinas piedosas. Leon Bloy, o Peregrino do Absoluto, rugia de cólera contra esse catolicismo acomodado, um catolicismo no qual pouca esperança humana existe, por exemplo, de surgir uma autêntica vocação para a vida religiosa ou para o sacerdócio.Pense bem nisso leitor amigo: os padres não vêm do planeta Marte. E sem os padres, não podemos ter a eucaristia, a confissão sacramental, a bênção do matrimônio e vai por aí...

E agora o pior: se não soubermos avaliar corretamente o significado dos sacramentos, como poderemos aceitar generosamente a necessidade de termos padres ? E como poderemos avaliar o significado dos sacramentos se nossa fé consistir apenas na prática de rotinas mais ou menos cômodas?

Uma coisa é sofrermos, em humilhado silêncio, por causa da nossa mediocridade.Outra muito diferente, amigos, é acharmos que a Igreja seja exigente demais, por exemplo, em assuntos ligados ao sexo, é querermos inventar regras particulares, de uso próprio, para encobrir, para desculpar nossa fraqueza É desejarmos um cristianismo sem cruz.
Os antigos diziam assim : “quer cometer um pecado, cometa. Mas, não invente uma teoria para justificá-lo”

.
Rubem Braga


Neste Natal uma de minhas filhas deu-me de presente um livro de crônicas de Rubem Braga.Na minha opinião, dos cronistas brasileiros modernos, talvez o velho Braga seja o mais lírico. Durante anos li com muito gosto suas crônicas no Globo.

Como todo bom cronista que se preza, Rubem Braga usa daquela liberdade de que falou o grande mestre Machado de Assis, a liberdade de escolher seu assunto. Além disso, mesmo ao fazer uma eventual crítica a fatos da política ou outro assunto igualmente provocante, esse tipo de jornalista em geral evita um estilo contundente; prefere às vezes uma ironia leve, em tom menor, mas nem por isso alheia à verdade que deva ser dita.

Bem, em que pese minha admiração pelo lírico cronista capixaba, tenho que dizer algo que provavelmente vai desagradar um seu admirador mais exaltado. Refiro-me a certo teimoso apego ao telúrico, uma afetiva fixação no ambiente em que vive e nas pessoas com quem convive; um modo de ver as coisas e os homens no qual, infelizmente, sempre está ausente o sentido da Esperança, com E maiúsculo. Bem a propósito, cito, do livro que ainda estou lendo, a crônica, romântica sem dúvida alguma: “COMO SE FOSSE PARA SEMPRE ” .
Muito bonita. Mas foge a ele ou não escuta o silencioso convite do eterno escondido nas coisas que nos cercam.

Que Rubem Braga esteja agora olhando para sempre a Beleza que é sempre !


posted by ruy at 2:05 da manhã

29.12.03

 
Inteligência, cultura e vida


O leitor que vem acompanhando os comentários editados neste “blog” deve ter reparado que diversas vezes, ao falar sobre infelizes novidades introduzidas na celebração da missa, ressaltei um lamentável aspecto dessas levianas inovações, a saber: o menosprezo da faculdade que nos aproxima dos Anjos, a nossa inteligência. Entretanto, posso, com os meus freqüentes comentários, ter deixado uma falsa impressão de estar exagerando a importância dessa faculdade e, para corrigir esse engano, apresso-me a escrever o que segue abaixo.

No dia 26 deste mês editei um “post” em que fiz referência ao filme: “O Gênio Indomável”, com Robin Williams e Matt Damon nos principais papéis. Antes de entrar no desenvolvimento do “post” de hoje, vou transcrever trechos daquele outro.

Ontem à tarde assisti mais uma vez ao filme : “ O gênio indomável” , com Robin Williams e Matt Damon.
Duas cenas desse filme têm uma dramaticidade especial. Uma delas é a que se passa junto a um lago tranqüilo, perto do qual estão sentados, conversando, o psicólogo, analista, e o jovem gênio irrequieto, agressivo, que no fundo tem uma luta surda consigo mesmo.

Na referida cena do filme, o psicólogo diz ao moço mais ou menos o seguinte:
- você conhece muitas coisas por haver lido bastante. Conhece tudo sobre a vida dos grandes pintores e suas obras, sabe pormenores indiscretos sobre Miguel Ângelo mas nunca esteve sob as pinturas da Capela Sistina, com os olhos brilhando de admiração diante daquela beleza. Você conhece muitas poesias e romances que falam sobra a guerra, mas jamais esteve segurando a cabeça de um amigo seu gravemente ferido em combate. Você terá tido várias experiências sexuais com mulheres, mas nunca olhou para uma certa mulher vendo nela uma pessoa única no mundo, uma pessoa que dá sentido à vida que você vive.


Ora, quem navega pela Internet e freqüenta alguns “sites” e “blogs” se prestar atenção vai perceber um fato que em si mesmo, isto é, sem levarmos em conta aspectos mais amplos, é bastante auspicioso: a presença de um pugilo de “bloggers” moços, inteligentes e cultos, alguns com um impressionante nível de conhecimentos literários e mesmo filosóficos. Isso, conforme já escrevi, em princípio é louvável. Por quê ? Porque, num país que, infelizmente, tem tolerado a mediocridade cultural –me dispensem de dar exemplos disso, por favor – é um consolo verificar que existe, graças a Deus, uma juventude corajosa e disposta a não entregar os pontos diante da maré de burrice oficial e bem instalada. Entretanto...

Perdoem-me os jovens combatentes, mas este setuagenário quer lhes dar um alerta.
Continuem a ler, sim, a estudar, sim, aumentando assim o patrimônio cultural de vocês; porém lembrem-se do “gênio indomável”. Vale a pena, quem ainda não viu, assistir ao filme, para prestar muita atenção na história, mormente naquela cena por mim citada no início deste item do “post”. Cuidado para não se deixarem impressionar demais por mestres que apenas transmitam a vocês o conhecimento intelectual, mas não sejam capazes de testemunhar diante de vocês o principal : vida.

Quase no final daquele filme, o bom psicólogo consegue que seu pupilo faça uma coisinha vital muito importante: chorar. E, logo em seguida, ele, o “gênio indomável” parte em busca da mulher que desprezara, vai em busca do Amor.

Um grande perigo no caminho do homem


Certa vez, alguém me disse esta frase em tom sentencioso:

- Ruy, há três coisas bem perigosas na vida de um homem: jogo, bebida e mulher !

Não vou negar que esses três “acidentes de percurso” sejam de fato perigosos; mas há uma situação que pode vir a ser bem mais perigosa, com conseqüências muitas vezes infelizes, dolorosas até para outras pessoas, além do “acidentado” :

- o ser um bem sucedido na vida.

Quem atinge uma tal situação corre o enorme risco de julgar que seus valores, seus critérios de julgamento sejam todos inteiramente corretos.
E nunca é demais lembrar: a honestidade, ainda que necessária, não é a maior virtude. A Caridade, sim, é a maior delas, e precisa ser bem entendida como: o amor a Deus e ao próximo por causa do amor a Deus .


posted by ruy at 1:20 da manhã

 

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