Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





Arquivos:





Fale Comigo

28.12.03

 
O Tempo e o Papa


Santo Agostinho é, sem dúvida alguma, um dos santos mais sábios da Igreja, respeitado até mesmo pelos não cristãos. É verdade que, mesmo entre os católicos, de vez em quando aparece algum novidadeiro fazendo esta ou aquela restrição à filosofia do grande Doutor do cristianismo.Isso não impede que ele continue sendo respeitado pelos crentes, tanto quanto o foi pelo mais sábio dos santos: Santo Tomás de Aquino.

Uma das clássicas e sempre lembradas reflexões de Agostinho é a que se refere ao Tempo, essa realidade que para Aristóteles seria apenas, talvez, uma das dez categorias do Ser. Diz-nos o Bispo de Hipona:

- Que é o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir, por palavras, o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido em nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos; compreendemos também o que nos dizem quando nos falam dele. Que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.
(In: Confissões)


Pois é, ai está o que o irrequieto filho de Mônica escreveu sobre o nosso “irmão” tempo. Irmão sim, porque para os que crêem em Deus como Criador do universo, somos “co-criados” com o tempo.Não faz sentido algum perguntar, por exemplo: o que fazia Deus antes da criação do mundo.Deus é aquele que É . Antes que Abraão fosse, eu Sou , disse Jesus ao fariseus, aos Doutores da Lei.

Um dos melancólicos problemas desta nossa época tão agitada pelo noticiário dos jornais e das TV’s é o fato de que rarissimamente paramos para fazer a nós mesmos aquela angustiosa pergunta que fez Santo Agostinho: “O que é o tempo?”Porém, muitíssimo pior que essa ausência da pergunta essencial é a pretensiosa tentativa de resposta apresentada pelos “fabricantes de moeda falsa”, como a eles muito bem se referiu Maritain. E neste instante estou pensando com espacial ênfase em Teillard de Chardin e seus deslumbrados seguidores, entre os quais muitos brasileiros, como aqueles católicos (que tristeza...) que faz alguns anos apoiaram o gaúcho Leonel Brizola para ser governador do Estado do Rio de Janeiro (pobre Rio...)

Essa frustra tentativa de resposta, na verdade, é um simplista “empurrar com a barriga”, é um medroso fechar de olhos diante do mistério; é um grotesco fazer uso de palavras fantasiosas em lugar de reflexões demoradas e profundas; é um orgulhoso, um petulante desprezar a multissecular e respeitável tradição da Igreja. Quando “empurramos um problema com a barriga” não o estamos resolvendo; toda pessoa sensata sabe disso. Afirmar, pois, com uma tranqüilidade olímpica, que daqui a 1000 , ou 2000 ou um milhão de anos o mundo será melhor, com pouquíssimas injustiças, e por isso mesmo pouco importam: os mortos ao fugir de Cuba, os cristãos perseguidos na China, as viagens anódinas do nosso Presidente etc., etc. – dizer que tudo isso é apenas mero “acidente de percurso”, é dar um excelente exemplo do ponto a que leva a crença fanática na solução marxista...

Cada morte que acontece ao nosso lado, ainda que não tivéssemos conhecido a pessoa que partiu, deveria fazer-nos parar e pensar seriamente nisto: “qual é o sentido da MINHA vida?”
E por isso mesmo podemos afirmar que é satânico esse trabalho infame das TV’s ao rebaixar a dignidade das pessoas, e com isso dificultando a elas o acesso a necessárias, essenciais reflexões pessoais.

O leitor amigo que teve a paciência de nos acompanhar neste excurso neste instante pode perguntar : “o seu “post” tem como título: O Tempo e o Papa. Bem, e onde entra o Papa nesta conversa?”

Pois é, e o Papa ?
Não é segredo para ninguém que João Paulo II está velho, doente e cansado. Mais dia , menos dia, ele partirá de nosso convívio, Haverá eleição do novo pontífice. Pontífice: aquele que faz a ponte entre o Tempo e a Eternidade. E não, como desejam os infelizes apóstatas: uma ponte entre o agitado PRESENTE e um distante, um nebuloso FUTURO neste planeta.
Urge que nós católicos, lembrando-nos das palavras que Nosso Senhor disse a São Pedro, incluindo as ditas depois da ressurreição, rezemos, e rezemos muito , primeiro, para que João Paulo II continue firme na fé; segundo, para que seu sucessor escute sempre as palavras de Vida Eterna , e não as fábulas que o Demônio sopra no ouvido dos novidadeiros.


São Pedro, rogai por nós !


Um adendo bem necessário


Este “post” já estava encerrado, mas certo incidente ocorrido ontem à tarde me fez acrescentar estas palavras:
- sou católico e amo a Igreja, com o seu mistério próprio, mistério que escandaliza certos espíritos cartesianos e apressados, ainda que brilhantes. Por isso, não gosto quando certas pessoas agridem publicamente a Igreja, em jornais, revistas, na TV, na Internet etc., achando que são mais sábias ou mais sensatas que milhares e milhares de santos e de leigos católicos dotados da mais fina inteligência e da melhor cultura. Desculpem o mau jeito !


posted by ruy at 1:06 da manhã

27.12.03

 
Tolkien


Os cinemas estão com filas enormes de pessoas – adultos e crianças – comprando entrada para assistirem ao terceiro filme da trilogia épica : Senhor dos Anéis (desta vez o filme tem o título:O retorno do Rei ).Muitos espectadores estão comprando o ingresso para o dia seguinte porque a lotação do cinema esgotou-se (é o meu caso).

Ora, esse fato não nos deve impressionar de modo excessivo porquanto outros filmes têm ocasionado enchente nos cinemas, como, por exemplo, as fitas baseadas nos livros que contam as fantásticas aventuras de “Harry Potter”, de autoria da escritora inglesa Joanne K. Rowling. Não seja, pois, essa corrida aos cinemas motivo para nos determos na análise da obra de John Ronald Reuel Tolkien. Outros critérios devem ser aplicados nessa tarefa.

Da biografia de Tolkien (palavra que significa: “tolamente bravo” ou “estupidamente sagaz” e explica o pseudônimo “Oxímoro”, várias vezes usado pelo escritor) ficamos sabendo que ele e seu irmão Hilary, mais moço que John Ronald, perderam o pai quando a família morava na África do Sul (onde nasceu Tolkien). Sua mãe, viúva, mudou-se com os filhos para a Inglaterra. Ali, teve uma vida difícil, marcada pela pobreza e pela doença incurável (diabetes) que a levou deste mundo ainda moça, deixando os dois meninos órfãos.

Ao perderem a mãe, Tolkien e seus irmão ficaram sob a tutela material e espiritual do padre Francis Morgan, meio espanhol e meio galês. Mabel Tolkien havia se convertido ao catolicismo ao voltar a seu país, e nessa religião seus filhos passaram a ser educados Nessa época, chefiava a Igreja o papa Pio IX, o severo autor de um famoso Sílabo , documento pontifício sobre os principais erros “modernistas”, texto esse duramente criticado pelos inimigos da Igreja, pelos anti-clericais, os quais dificilmente entendem o que vem a ser o zelo pastoral de um papa, e pelos “católicos liberais” (esses que sempre adoram novidades). Portanto, educado em um clima de catolicismo sério e respeitador das grandes tradições da Igreja, cresceu Tolkien.

Aos doze anos, John Ronald had mastered the Latin and Greek which was the staple fare of an arts education at that time, and was becoming more than competent in a number of other languages, both modern and ancient, notably Gothic, and later Finnish.Note bem amigo leitor: aos 12 anos Tolkien dominava o Latim e o Grego, e se tornava competente em outras linguagens, tanto modernas quanto antigas. Quando ingressou na universidade, já possuía, portanto, um “cultural background” que facilitaria sua brilhante carreira de autêntico “scholar”, como professor respeitável e que teve como colega e amigo o inesquecível C.S.Lewis .

Isso tudo explica por que o “Senhor dos Anéis” a rigor não é uma obra para crianças, ou mesmo para os adolescentes – coitados... - de nossa época agitada e pragmática, adolescentes não treinados para sentir certo tipo de beleza literária que existe no livro, como por exemplo, no encontro de Aragorn e seus amigos com os cavaleiros de Rohan. O diálogo que se trava entre os personagens daquele encontro lembra os nobres diálogos que adornam as clássicas lendas gregas. Mas, pergunto: qual adolescente hoje em dia costuma ler tais lendas em versões realmente literárias, e não simplórias adaptações para o chamado “público infanto-juvenil” ?

Por melhores que sejam os filmes baseados na obra de Tolkien – e eles foram produzidos com a melhor arte, com o maior cuidado técnico – jamais um espectador convencional, mesmo com razoável escolaridade, saberá avaliar o significado e o correlato valor dos escritos do insigne intelectual que foi John Ronald Reuel Tolkien.

[Para quem ainda não sabia: em 3 de setembro de 2000, o papa João Paulo II tornou públicas a beatificação de Pio IX, de João XXIII, do arcebispo de Gênova Tomás Reggio, do sacerdote diocesano Guilherme José Chaminade, e do monge beneditino Columba Marmion, este último autor de vários importantes livros de espiritualidade .
O beneditino Dom Columba Marmion, se a memória não me engana, faz muitos anos esteve no Brasil. Um dos monges brasileiros que o acompanhou nessa época contava que “Dom Columba agia com a impressionante simplicidade de uma criança”. ]


São João Evangelista


Hoje, festa do discípulo que, depois da morte do Senhor Jesus, amparou Nossa Senhora, até o dia em que ela adormeceu para acordar na eternidade.
Como era bom ouvir sempre, no final das missas celebradas no rito antigo, as solenes palavras do prólogo do evangelho de São João:

- E o Verbo se fez carne e habitou entre nós. E vimos a sua glória, glória própria do Unigênito do Pai, cheio de Graça e de Verdade”.



posted by ruy at 1:19 da manhã

26.12.03

 
Missa de Natal


Ontem, dia 25, dia do Natal, tive um contratempo que me impediu participar de uma de duas possíveis missas a que gostaria de assistir, mormente devido ao fundamental significado dessa magna festa da Igreja. Em conseqüência do problema, acabei mesmo assistindo a uma missa em que vários procedimentos habituais dos paroquianos assistentes obrigaram o Ruy a fazer um grande e sofrido esforço para recolher-se naquele ambiente meio agitado e ruidoso: palmas e movimentos de braços erguidos; a oração do Pai Nosso rezada com todas as pessoas de mãos dadas (por que isso? ); cânticos ao som de guitarras em ritmo moderninho; cumprimentos demorados e bem pouco discretos na hora do “saudai-vos uns aos outros”; etc.

Ontem à tarde, como que para compensar minha “frustração litúrgica”, recebi uma mensagem de meu amigo M... contando que a Missa do Galo no Vaticano fora celebrada em latim e no rito tradicional. Enviei uma mensagem a M... perguntando se não houvera nenhum engano dele, se tinha sido mesmo: LATIM + RITO TRADICIONAL !

Quem sabe se o fato, sendo verdadeira a informação, não será o indício de um certo retorno, ainda que parcial, ao bom tempo em que a missa era celebrada em clima de recolhimento, de profundo respeito ao mistério, dignificando a faculdade que nos aproxima dos anjos: a nossa inteligência.


O Gênio Indomável


Ontem à tarde assisti mais uma vez ao filme : “ O gênio indomável” , com Robin Williams e Matt Damon.
Duas cenas desse filme têm uma dramaticidade especial. Uma delas é a que se passa junto a um lago, perto do qual estão sentados, conversando, o psicólogo, analista, e o jovem gênio irrequieto, agressivo, que no fundo tem uma luta surda consigo mesmo.

Na Sagrada Escritura há um trecho em que o autor inspirado pergunta:
Como pode ser bom para os outros aquele que não é bom para si mesmo ?
No seu magistral livro : “Dois Amores , Duas Cidades” Gustavo Corção nos fala sobre essa passagem da Bíblia e comenta com notável clareza a clássica doutrina dos dois amores, doutrina essa bem ensinada por Santo Tomás de Aquino, a do bom amor de si mesmo, desejável e necessário, e do amor-próprio, que é fonte de tanta maldade no mundo, causador de discórdias domésticas e de guerras sangrentas.

Na referida cena do filme, o psicólogo diz ao moço mais ou menos o seguinte:
- você conhece muitas coisas por haver lido bastante. Conhece tudo sobre a vida dos grandes pintores e suas obras, sabe pormenores indiscretos sobre Miguel Ângelo mas nunca esteve sob as pinturas da Capela Sistina, com os olhos brilhando de admiração diante daquela beleza. Você conhece muitas poesias e romances que falam sobra a guerra, mas jamais esteve segurando a cabeça de um amigo seu gravemente ferido em combate. Você terá tido várias experiências sexuais com mulheres, mas nunca olhou para uma certa mulher vendo nela uma pessoa única no mundo, uma pessoa que dá sentido à vida que você vive.

Neste instante me lembro de Mortimer Jerome Adler, quando ele, explicando-nos que escolaridade não é educação, afirma que somente pessoas maduras podem se educar, e que nesse processo de amadurecimento entram: a profissão e seus percalços; o casamento e os filhos que dele nascem; as doenças e a morte dos parentes mais próximos ou dos amigos; o encontro com os problemas políticos etc.

Um dos graves problemas que nós professores vimos observando é a ausência desse alerta nos moços que ingressam nos cursos ditos do terceiro grau. Adestrados pelos famosos “cursinhos” para passarem no vestibular, chegam à universidade acreditando que o principal na vida é serem vitoriosos. Não serão todos, felizmente, “gênios indomáveis”, mas deixam perceber uma indesejável limitação cultural, no sentido mais amplo deste adjetivo.


Santo Estevão


Sempre me chamou a atenção o fato de ter a Igreja colocado a festa do protomártir logo em seguida à comemoração festiva do Natal. Tudo deveria, talvez, se passado como se, há muitos séculos, nossa Mãe e Mestra tivesse querido nos prevenir para que não ficássemos tentados por uma certa pieguice diante do presépio e, com isso, nos esquecêssemos de que aquela criança, aquele menino recém nascido veio destinado para um futuro sacrifício, o dele próprio, para a Salvação dos homens.
Ora, Estevão perdeu sua vida neste mundo justamente por haver dado corajoso testemunho ( mártir = testemunho) do Cristo nosso Salvador. Bem colocada está, pois, a celebração de seu martírio neste 26 de dezembro!


posted by ruy at 2:35 da manhã

25.12.03

 
A alegria do Natal


Com aquela sua brilhante e bem conhecida perspicácia, Chesterton em um de seus escritos fala naquelas que ele chama: as idéias cristãs enlouquecidas , isto é, a deturpação das idéias que eram vividas na Cristandade antes que ela se desmoronasse, minada pelo antropocentrismo. Poderíamos lembrar, por nossa conta, os seguintes casos em que ocorre o “enlouquecimento” das idéias cristãs:

- a procura da justiça - Para corrigir injustiças sociais que se acumularam como conseqüência de vários séculos de irreligiosidade antropocêntrica e do correlato egoísmo organizado, surgiram as “soluções” socialistas e comunistas. Todos os que conhecem a história sangrenta da maior parte dos regimes baseados naquelas “soluções” conhecem a dedicação profunda, no melhor estilo religioso, dos ativistas do chamado “mundo melhor”. O assessor mais poderoso do atual Presidente do Brasil faz pouco tempo abraçou-se chorando com o ditador mais antigo do planeta, o que bem mostra o quanto de sensibilidade pode existir em um defensor da justiça baseada nos critérios marxistas;

- a defesa da paz - Uma das bem-aventuranças pregadas por Nosso Senhor no Sermão da Montanha é a que se refere aos pacíficos.Ora, um dos maiores equívocos do mundo moderno, incluindo entre os equivocados os próprios cristãos – haja vista as inúmeras passeatas a favor da paz organizadas em tantos países supostos cristãos – é o de confundir o pacifismo sem fibra e covarde com o autêntico amor pela paz, que foi definida por Santo Agostinho como: a tranqüilidade na ordem. A paz verdadeira não é simplesmente uma ausência de guerra;

- a misericórdia para com os outros - Também no Sermão da Montanha, Nosso Senhor nos aponta como Bem-aventurados os misericordiosos.Temos que ter misericórdia com os que sofrem e com os que erram. Entretanto isso não significa que devamos ter tolerância com o erro, com o pecado. Santo Agostinho há muitos séculos estabeleceu isso com uma regra básica: odiar o pecado, mas amar o pecador . Porém, a moderna sociedade permissiva faz vista grossa para inúmeras violações da moral; basta lembrar as leis (leis...) a favor de absurdos tais como: o aborto e o casamento (casamento...) entre pessoas do mesmo sexo.

O mesmo Chesterton certa vez escreveu que:
- a alegria sempre foi o grande segredo dos cristãos e a pequena propaganda dos pagãos .
Se há um fato que comprova essa outra fina observação do saudoso autor de Ortodoxia, das notáveis biografias de Santo Tomás de Aquino e de São Francisco de Assis, e de tantos outros textos inesquecíveis, é o que se refere à celebração do Natal.

Festa essencialmente religiosa, infelizmente o Natal nos tempos modernos vem sendo sistematicamente festejado com muita agitação e muito ruído, em que pesem certas músicas agradáveis que apresentam razoável inspiração natalina.É uma época em que a figura colorida e bonachona do Papai Noel atrai multidões de grandes e pequenos, uns que vão comprar presentes e outros que vão ganhá-los. Tudo isso acaba nos distraindo e impedindo que nos fixemos atentos sobre o silencioso mistério do Natal.

Já faz muitos anos, em uma distante e bonita capital brasileira, o Ruy voltou à Igreja, depois de três ou quatro anos perdido nos desencontros da adolescência. Nessa mesma cidade, tive um excelente professor de inglês que, mais tarde, eu o veria como um bom chestertoniano na sabedoria e na própria forma física (naquela época eu nem sabia da existência de Chesterton). Com esse professor certa vez aprendi esta frase cujo autor, infelizmente, esqueci:

- Silence is the perfect herald of joy.
[“O silêncio é o perfeito arauto da alegria”. ]

Com a verdade contida nesta frase curta quero encerrar o “post” de hoje:
- para podermos sentir de fato a infinita alegria do NATAL, precisamos comemorá-lo no silêncio de nosso coração agradecido.


posted by ruy at 1:28 da manhã

24.12.03

 
Paz


Se existe uma palavra usada com a máxima freqüência na “época do Natal”, uma palavra que aparece impressa nos milhares e milhares cartões de Boas Festas que o correio entrega em todas as casas, que vemos na ornamentação das lojas comerciais, que lemos nas manchetes dos jornais, que ouvimos na boca dos políticos e dos artistas de TV e de teatro – enfim, uma palavra onipresente no Brasil e no mundo, essa palavra é o monossílabo :PAZ.

Se o leitor reler o início do parágrafo anterior, notará que coloquei entre aspas os termos: “época do Natal”, isso porque, a rigor, estamos mesmo na época do Advento. Como a sociedade é laicizada, paganizada e telúrica, esse importante detalhe fica em geral despercebido. Tudo bem, paciência... Mas, hoje, 24 de dezembro, à meia-noite, teremos de fato a festa do autêntico Natal, a comemoração do nascimento do Rei da Paz: Nosso Senhor Jesus Cristo. Ora, sendo ele o Rei da Paz, convém que procuremos ouvir Suas palavras sobre isso de que o mundo vem falando com tanta loquacidade nestes agitados dias>

Comecemos pelo evangelho segundo São Mateus, Cap. 10, vs, 34 a 38 (por favor, leitor, confira!).Ali podemos ler estas palavras:

Não julgueis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Porque vim separar o homem do seu pai, e a filha da sua mãe e a nora da sua sogra. E os inimigos do homem serão os seus mesmos familiares. O que ama o pai ou a mãe mais do que a mim, e o que ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. E o que não toma a sua cruz e não me segue não é digno de mim.

Vamos agora ao evangelho segundo São João, Cap. 14, vs. 27 (por favor, leitor, confira!).Podemos ler o seguinte:

Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vô-la dou como a dá o mundo. Não se perturbe nem se assuste o vosso coração.

Cabem duas reflexões.
A primeira é quanto ao que lemos em São Mateus. Jesus, Nosso Senhor, obviamente não está incitando de forma alguma as famílias à discórdia..Ele está, sim , nos alertando sobre o seguinte: na hora em que resolvermos seguir fielmente o Salvador dos homens, na hora em nos decidirmos a ser SANTOS, estaremos sujeitos a bater de frente contra o espírito burguês, contra a acomodação, contra a procura desenfreada de conforto e segurança que – todos sabemos disso...- campeiam na maioria das famílias. É mentira do Ruy? Por favor, repito: é mentira do Ruy ?

Quanto ao que está no evangelho de São João, Nosso Senhor deixa claramente exposto que a sua paz é diferente. A paz do mundo muitas vezes é apenas uma ausência de guerra, ausência de tiros e facadas, ausência de socos e pontapés. Mas, lá dentro , no coração do homem, ele está em luta contra si próprio: usa drogas; comete pecados graves contra a natureza; adere às pompas e aos prestígios mundanos; gosta de ser incensado pelos outros etc.É mentira do Ruy? Por favor, repito: é mentira do Ruy ?

Várias vezes neste “blog” escrevi sobre o antropocentrismo, esse tenebroso declínio da civilização Ocidental tão bem descrito por Gustavo Corção em seu monumental ensaio: DOIS AMORES, DUAS CIDADES.
Ora, o significado desse infeliz declínio pode ser sintetizado com esta frase:
- o homem moderno orgulhosamente recusou a realeza de Cristo e a paz por Ele a nós oferecida.
O resultado está aí. É só ler regularmente os jornais e assistir diariamente às TV’s ...

O Presidente Lula recém afirmou que “a paz é o outro nome da justiça social”.
Engano seu, Sr. Presidente. Santo Agostinho já há muitos séculos definira de modo magistral:

- A paz é a tranqüilidade na ordem.

Porém, a ordem a que Santo Agostinho está se referindo inclui – e tem em sua essência – a submissão dos homens ao verdadeiro Rei, DEUS Criador e Redentor nosso. Aí, sim, a paz é autêntica, e não simples frase impressa em cartões coloridos. Entretanto, os poderosos do mundo não me parecem estar muito interessados naquela submissão.


Um fraterno abraço de Natal do Ruy a todos os leitores do “blog” Despoina Damale.



posted by ruy at 12:58 da manhã

23.12.03

 

Recordações...


Faz uns dois dias, de repente, ouvi alguém fazer certas queixas amargas que me fizeram ficar pensando no meu passado, recordando cenas antigas, de meio século atrás.
Lá estava um moço, recém egresso de sua Alma Mater , cheio de perplexidades e de ideais. Em sua bagagem, não volumosa, entre outros livros, estava um exemplar da Bíblia (católica ) e uma cópia de certa carta encíclica do papa Pio XI (o papa da Ação Católica). Nesse documento pontifício – hoje com certeza bem esquecido por muitos católicos – aquele moço inexperiente (por que não dizer logo :bobo ?) havia lido a citação de uma determinada frase da epístola de São Paulo aos Efésios, uma frase que deixara o jovem leitor entusiasmado, imaginando futuros planos para a sua vida.

Naquele passado distante estava também um colega do tal moço, um seu amigo possuidor de inteligência ágil, penetrante, aquele tipo de inteligência que permite à pessoa ir rapidamente ao núcleo específico de um problema qualquer. Anos mais tarde, aquele amigo diria ao moço dono daquela Bíblia e daquela encíclica : você tinha uma fé ingênua . E isso era mesmo verdade...


Inteligência e vontade


Um bata-papo de Domingo à noite com meu amigo A ..., o serrano, me faz refletir sobre o problema, para mim pelo menos, muito sério, seríssimo, ligado às homilias comuns em nossas igrejas.

Admitamos que o padre que esteja proferindo a homilia, isto é, o sermão, seja virtuoso e, portanto, bem intencionado. Ótimo! Entretanto...

O que é bem típico acontecer nessas pregações feitas nas missas, mormente nas Dominicais, é o padre celebrante dirigir-se, ou melhor dizendo, ficar mais ligado à vontade de seus ouvintes. Ele, o padre bem intencionado, quer que os atentos fieis queiram praticar tais ou quais virtudes, queiram fazer tais ou quais ações caridosas etc.Neste instante um leitor vai me dizer: Êpa, Ruy ! O que você acha que o padre deveria querer que os pobres fieis quisessem ?

Pois é, à primeira vista, parece que o Ruy esteja mesmo vendo chifre em testa de burro. Porém, existe um tremendo equívoco, despercebido até mesmo por bons e piedosos católicos, aqueles católicos que, em geral, são os mais respeitados em suas paróquias.

Ainda que todos devamos de fato praticar várias virtudes e fazer muitas ações caridosas, tudo isso deveria ser o transbordamento de uma consciência plenamente convencida da absoluta primazia de DEUS, de uma inteligência que esteja amorosamente ligada ao mistério da Salvação, de um espírito que se deixou entusiasmar completamente com o Cristo e, por isso mesmo, almeje apenas isto: a SANTIDADE.

Ora, para chegarmos a tal situação, é desejável que o próprio padre celebrante esteja ele mesmo querendo ser santo . Não simplesmente virtuoso, mas: SANTO. Se a sua vida, dia por dia, hora por hora, estiver sintonizada nessa constante procura, suas palavras não precisarão dar ênfase no façam como estou lhes dizendo , isto é, com a ênfase na vontade. Profundamente estimulados em suas inteligências, seus ouvintes irão refletir, meditar e possivelmente, em conseqüência, praticar livre e alegremente tudo aquilo, de modo muito mais eficaz.

Fazer com que a inteligência opere com eficácia, que ela seja alertada para a contemplação da verdade , não implica necessariamente suprir a mente de uma pletora de conhecimentos, muitos dos quais inacessíveis a pessoas de pouca escolaridade.
É como vejo o problema.


Bispos “burocratas”


[Este item correlaciona-se com o anterior].
Um católico bem informado sabe que os padres seguem seus respectivos bispos, devem-lhes obediência. Assim, um padre, em princípio, reflete o modo de pensar e de agir do bispo.
Conversando com aquele meu amigo A ..., concordei com ele em que certos bispos, apesar de virtuosos e bons conhecedores da doutrina católica, infelizmente se expressam de um modo “burocrático”. Não conseguem entusiasmar a pessoa que os lê ou escuta.

Neste instante, o Ruy dá uma sugestão, que pode parecer meio bizarra.
Deveríamos introduzir em nossos seminários a leitura sistemática e comentada da boa poesia, mormente a boa poesia católica. Temos no Brasil: Jorge de Lima e Murilo Mendes, Alphonsus de Guimarães e Adélia Prado (em que pesem a algumas restrições feitas a essa mineira de Divinópolis). E leríamos ali também, por que não?,os poemas traduzidos de T.S.Eliot e Chesterton, de Claudel e Peguy.
Que tal essa idéia para ajudar a reduzir o “burocratismo” de Suas Excelências Reverendíssimas?


O Ruy continua sozinho no oásis, esperando o Natal.


posted by ruy at 12:52 da manhã

22.12.03

 
Ruy, fique quieto !


[Fique quieto e deixe que nos fale um santo ! E um santo da boa Idade Média. ]

Sermão de Natal de São Beda, o Venerável

E eis que os pastores se apressam, com grande alegria, para ver aquele de quem ouviram falar. E como buscaram com fervoroso amor, mereceram achar rapidamente o Salvador. Assim também os inteligentes pastores dos rebanhos, ou melhor, todos os fiéis que se propõem a procurar a Cristo com o trabalho do espírito, o demonstram por suas palavras e atos.

Vamos até Belém, disseram, para ver esta palavra que se realizou. Vamos, pois, nós também, caríssimos irmãos, pelo pensamento, até Belém, cidade de Davi, e lembremos, cheios de amor, que nela o Verbo se fez carne e celebremos com honras sua Encarnação. Deixemos para trás as baixas concupiscências da carne e, com todo o desejo da alma, vamos até a Belém do alto, ou seja, a casa do Pão vivo, não fabricada, mas eterna no céu, e relembremos amando que o Verbo se fez carne. Para lá Ele subiu na carne, onde senta à direita do Pai. Procuremo-Lo no alto, com perseverante virtude, com coração solícito, pela mortificação do corpo, para encontrarmos reinando no trono do Pai, Aquele que os pastores viram chorando no Presépio.

E vieram apressados e encontraram Maria e José, e a criança recostada no Presépio. Vieram os pastores apressados e encontraram Deus nascido como homem e os ministros deste nascimento. Corramos nós também, irmãos, não com os passos dos pés, mas com o progresso das boas obras, para ver esta mesma humanidade glorificada, com seus ministros tendo já recebido a digna recompensa por seus trabalhos. Corramos vê-Lo na resplandecente majestade do Pai, que é também sua. Corramos vê-Lo, digo, pois tanta felicidade não se procura com vagar e preguiça, mas deve-se seguir as pegadas de Cristo com vivacidade. Pois Ele próprio, desejoso de ajudar nosso caminho, estende a mão, querendo ouvir de nós: "Atraia-nos atrás de ti, corremos no aroma dos teus perfumes".

Continuemos, então, apertemos os passos da virtude, para O alcançarmos. Ninguém se atrase a se converter ao Senhor, que ninguém deixe ir passando os dias; peçamos por todos os meios e antes de tudo, que Ele dirija nossos passos segundo a sua palavra e que o mal não tenha domínio sobre nós.

Ao vê-Lo, reconheceram a palavra que lhes tinha sido dita sobre esta criança. E nós, irmãos amados, as coisas que nos foram ditas sobre o nosso Salvador, Deus e homem verdadeiro, recebamos logo com pia fé e abracemos depressa com grande amor, para que possamos ter delas, no futuro, um perfeito conhecimento de visão compreensiva. Elas são a vida única e verdadeira dos beatos, não só homens, mas também dos anjos, que contemplam perpetuamente a face do Criador, como ardentemente desejava o salmista, que dizia: "Minha alma tem sede do Deus vivo, quando virei e aparecerei diante da face de Deus". E ele mostra que seu desejo não pode ser contentado com nenhuma influência terrestre, mas somente da visão de Deus, quando diz: "Ficarei saciado quando se manifestar a Vossa glória". E como não são os preguiçosos e os moles que são dignos da divina contemplação, nos adverte solícito: "Mas eu aparecerei diante de Vós na santidade".



posted by ruy at 1:36 da manhã

 

Powered By Blogger TM