Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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7.12.03

 
Providencial senso de humor


Ela pertencia ao Partido Comunista Brasileiro. Era jovem e cheia de idealismo. Fisicamente, apresentava um corpo – digamos assim – “cheinho” , do jeito que a maioria das mulheres não deseja de forma alguma possuir.

Certo dia combinou um encontro político com dois colegas do Partido, os quais, por interessante coincidência, eram também possuidores de um corpo meio ou bastante volumoso. A reunião se passou no apartamento de um deles. Conversaram, discutiram, planejaram. Quando tudo finalmente ficou acertado, um dos três bravos militantes teve a idéia e a propôs aos Camaradas: para terminar nosso encontro, que vocês acham de cantarmos a Internacional ? [ para os que não sabem, trata-se da antiga e tradicional canção dos comunistas no mundo inteiro].A sugestão foi logo aceita.Eles ficaram em pé e entoaram, vibrantes, o hino vermelho.

Ora, acontece que, em certo trecho da letra da citada canção, um dos versos diz assim :

- Nós, os famintos do mundo...

Ao cantar esta frase, ela olhou os companheiros, olhou a si própria e não se conteve: deixou-se rir gostosamente, abertamente, sem parar !

Pouco tempo depois, largava o PCB.


Do fundo da gaveta


[Há cerca de 17 anos moro em um bairro tradicionalmente boêmio, cheio de restaurantes e bares. Pouco tempo depois de ter vindo aqui morar, ao passar por um desses bares, pensei em fazer um poema que ficou até agora “guardado na gaveta”. Não sei como ele hoje será lido pelos visitantes deste oásis...]

No bar da esquina

Da mesa ao ar livre,
escapa a morrinha e o cheiro da cerveja,
a densa fumaça do cigarro;
salta a palavra obscena,
e a gargalhada grossa.
E os quatro vultos, ali sentados,
irradiam, para o espaço da noite quente,
inúteis discussões, política e futebol.

Embora esquecidos da própria nobreza,
(sem perceberem-se capazes de ouvir e de falar,
sem recordarem-se capazes de dizer,
de cada coisa existente,
o que ela mesma é ) –
jaz, em cada um deles escondida,
a primeira, a original natureza,
vive em cada um deles, disfarçado,
um príncipe em roupas de mendigo,
pois cada um deles é de fato : um Homem.

Assim, Kipling,
pelagiano inglês,
desculpa-me a franqueza,
no teu “If” de métrica perfeita,
pintaste, olimpicamente distante,
não o retrato humano,
mas o apolíneo perfil do super-homem !


A fala de DEUS


Deus nos fala de modo mais sutil por meio dos imprevistos e dos pequenos fatos que nos contrariam ou nos aborrecem.


posted by ruy at 1:02 da manhã

6.12.03

 
Reencontrando Camões


Em um dos primeiros “posts” editados no “blog” Despoina, fiz alguns comentários sobre o excelente livro: “Nenhuma paixão desperdiçada (ensaios)”, de George Steiner, uma tradução da Editora Record publicada em 2001.
Torno a recomendar a leitura do referido livro, do qual faz parte um capítulo completo sobre Charles Peguy.Porém, hoje quero enfatizar uma observação de Steiner constante do ensaio intitulado “O que é a Literatura Comparada ? ”

Lemos ali, no segundo parágrafo da página 161 do livro ora mais uma vez recomendado, o seguinte:
Às vezes um acidente determina o destino de uma obra: se Roy Campbell não tivesse morrido antes de realizar seus planos de tradução de “Os Lusíadas”, de Camões, essa obra-prima [ grifo meu ] da literatura européia certamente faria parte dos cânones de reconhecimento anglo-americanos

Pois é, o que acabei de citar foi escrito por um respeitável professor, homem da mais ampla cultura, respeitado em várias partes do mundo, um judeu americano, ou seja, um não-latino.

Ora, em meu tempo de ginásio e de colégio líamos Camões. Ou melhor dizendo, não líamos Camões.
As estrofes de “Os Lusíadas” eram utilizadas sistematicamente para que nelas nós, alunos bisonhos, treinássemos uma relevante operação gramatical chamada “análise sintática”.
Talvez aquele exercício, apoiado no famoso poema, resultasse mesmo em algum proveito quanto ao objetivo desejado pelos nossos professores de português. Mas, infelizmente, um melancólico resultado paralelo era o de nos indispor contra Camões, era afastar-nos da boa e proveitosa leitura de uma valiosa obra literária, patrimônio cultural de duas pátrias.

Talvez, um dos mestres que mais energicamente reagiu contra aquela infeliz abordagem do grande épico lusitano tenha sido o nosso saudoso amigo Gladstone Chaves de Melo. Não só fez soar sua voz contra o antipático modo de fazer a “análise sintática”, como também procurou divulgar o profundo significado da obra Camoniana em várias e memoráveis palestras proferidas por ele na Confederação Nacional do Comércio.

Faz alguns anos, ganhei de presente, de um amigo militar, uma elegante publicação de “Os Lusíadas”, editada pela Biblioteca do Exército. Trata-se de uma edição comentada por vários respeitáveis professores de português, entre eles o já citado professor Gladstone que, no início do livro, analisa o poema sob o aspecto literário (o professor Pedro Calmon cuidou do aspecto histórico e ao professor Sílvio Elia coube analisar sob o aspecto filológico).

Na leitura de “Os Lusíadas” descobrimos versos que se tornaram clássicos aforismos ou reflexões, dignos da nossa melhor atenção. Poderíamos agora citar alguns deles:

- Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.

- Que um baixo amor os fortes enfraquece.

- A coisas árduas e lustrosas
Se alcançam com trabalho e com fadiga.


- Que um fraco rei faz fraca a forte gente.

- O coração pressago nunca mente.

- Que onde reina a malícia está o receio
Que a faz imaginar em peito alheio.


- Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.

- ... nunca tirará alheia inveja
O bem que outrem merece e o Céu deseja.


O Canto Oitavo do épico, na referida edição da Biblioteca do Exército, é comentado pela saudosa poetisa professora Lia Correa Dutra, que em sua mocidade pertenceu ao Partido Comunista Brasileiro, tendo dele se libertado graças a uma preciosa qualidade que lhe foi providencial: o seu sadio senso de humor. Mas, como diria Kypling, isto é motivo para uma outra história.


Um adendo de capital importância


Falei sobre o Camões épico. Seria ótimo registrar um complemento sobre o Camões lírico. Quanto a esse outro importante estilo do Poeta, sugiro ao leitor que leia o pequeno grande livro de Gustavo Corção: “O Desconcerto do Mundo”.


posted by ruy at 1:17 da manhã

5.12.03

 
Prestando conta


Ontem de manhã recebi uma mensagem cujo assunto, curiosamente, não tinha nada a ver com os temas que vêm sendo abordados neste “blog”.Entretanto, essa mesma mensagem – ainda que provavelmente não tivesse sido esta a intenção do remetente – me fez pensar em editar isso que chamo: uma prestação de conta .

Vou começar, pois, perguntando:
- por que o Ruy Maia Freitas edita o Despoina Damale ?
Vejamos possíveis respostas:

a)- seria, por acaso, para praticar um certo diletantismo “literário”, acompanhando desse modo o mesmo compasso de muitos outros “blogs” que trafegam pela rede ?
Eu mesmo respondo: de jeito nenhum! Na idade em que me encontro, semelhante veleidade poderia ser classificada no mínimo como ridícula. Pretensões literárias são cabíveis em pessoas jovens, cuja idade torna legítimo o sonhar com a edição de um livro, por exemplo, ou participar de um concurso de crônicas ou de ensaios. Meu tempo para pensar nessas lantejoulas ficou em um passado distante e que não volta mais;

b)- seria, quem sabe, para provocar polêmica com eventuais leitores de crença diferente da minha ou que, mesmo sendo católicos como eu, tenham pontos de vista diferentes dos meus em relação a vários ensinamentos e preceitos propostos pela Igreja?
De novo respondo: não! Detesto a polêmica. Gustavo Corção costumava dizer que o conhecido lugar-comum: “da discussão nasce a luz” implica um terrível engano. Dela surgem, sim, o mau humor, a irritação, o xingamento, a desavença, as vias de fato e coisas piores...
Há quem tenha uma queda especial pela polêmica, quem esteja sempre buscando um pezinho de briga, inclusive nos silenciosos corredores da Internet...Porém, não é esse o meu caso.

c)- seria talvez para conseguir a conversão de um ou outro eventual leitor não-católico, alguém que pudesse ser despertado, mediante a leitura deste “blog”, para certas realidades religiosas hoje tão esquecidas, até mesmo nos meios “soi-disant” católicos ?
Mais uma vez digo: não! Para início de boa conversa, quem converte é DEUS. Nós, muitas vezes, com o indiscreto afã de conseguir um irmão de crença, acabamos mesmo entornando o caldo...Além disso, o lema deste “blog” é: um pequeno oásis para os amigos, isto é, para aqueles que já têm sua fé definida e que, por meio do teclado e da tela do computador, comigo se reúnem de vez em quando para um bom bate-papo.

Bem, então por que o Ruy resolveu criar este “blog”?
Faz pouco tempo, enviando mensagem a um inquieto leitor, eu lhe dizia que o Despoina Damale é uma forma que achei para pagar antigas e pesadas dívidas. Dívidas minhas para com o Senhor, nosso Deus; dívidas para com pessoas muito próximas de mim, por várias das quais me sinto indefinidamente responsável. Conheço muito bem meus antigos pecados de omissão, aqueles cuja lembrança talvez seja a que mais me machuca.

Já me cansei de ver vários e vários moços, inteligentes mas inexperientes, se engajarem em discussões acaloradas, em polêmicas desgastantes e ineficazes, perdendo um tempo precioso que poderia ser muito melhor aproveitado, por exemplo, se fosse aplicado naquela sugestão de Sant-Exupéry citada por mim duas vezes neste “blog” ( fazer chover sobre os homens algo semelhante a um canto gregoriano ).
É isso aí: quero usar este “blog” para divulgar o pensamento do homens que tiveram ou têm mais sabedoria, mais espírito poético; que foram ou são mais capazes de fazer-nos pensar na Eternidade.

Pipoca ! Chega de moralismo irritadiço e boboca, desligado da realidade mais importante e mais necessária, qual seja, a de respondermos lealmente a esta pergunta:
- quem é mesmo Jesus Cristo para mim?
Quem é Jesus Cristo para esses políticos chatos e bombásticos que ocupam diariamente o noticiário nacional e internacional, a toda hora buzinando mentira e besteira no ouvido da gente ?
Quem é Jesus Cristo para esses brilhantes jornalistas que nos deixam preocupados quando fazem suas análises cartesianas e sibilinas ?
O que é para nós a festa do Natal ? Mera oportunidade para distribuir cestas básicas?
Para doar presentes ?
E o Cristo – onde fica ?
É isso o que eu quero escrever neste “blog” , que não é bem “meu” .
Não, leitor curioso e incógnito, não quero “fazer literatura”!
Bolas! Quero falar nas coisas em que eu creio e amo !E para mim pelo menos, são as mais importantes na vida.


Recesso
O Ruy deve ficar ausente por uns cinco dias. Se DEUS quiser, lá pelo dia 19 estarei de volta.



posted by ruy at 2:12 da manhã

4.12.03

 
Violência contra a pessoa


Pois é, fala-se hoje tanto contra a violência – palavra que as televisões e os jornais usam em lugar do termo correto: “criminalidade” – que não se presta a necessária atenção sobre uma silenciosa e perversa violência que está sendo cometida em nossos dias contra a pessoa humana. Mas, antes de expormos aos leitores qual é essa agressão à pessoa que está ocorrendo de modo solerte em nosso país, creio que se faz necessário lembrar o que significa realmente isto : pessoa. Porque, a menos que tenhamos plena consciência do que seja de fato uma pessoa , não ficaremos sensibilizados para o grave problema a que vamos logo nos referir.

Cada ser humano considerado simplesmente como um elemento do conjunto de todos os homens de uma certa sociedade, isto é, como unidade numérica desse conjunto,é apenas um indivíduo. Segundo nos ensina Santo Tomás, a individualidade é o que faz com que uma coisa, tendo a mesma natureza da outra, dela se diferencie, dentro de uma mesma espécie e de um mesmo gênero , isto é, se diferencie de outra coisa da mesma natureza.Existe uma essencial igualdade entre todos esses indivíduos da Humanidade. Uma igualdade que não nos é conferida pelo Estado, mas, sim, pela própria natureza humana. Ora, uma igualdade semelhante é a que existe entre todos os animais irracionais de uma certa espécie, como por exemplo: entre todos os cavalos de um certo Haras ou entre todos os touros de um certo rebanho gaúcho, ou ainda entre todos os frangos de uma determinada granja.

Cada um de nós, enquanto indivíduo, tem certas categorias acidentais que nos permitem diferenciar uns dos outros: um é magro, outro é gordo; um é baixo, outro é alto; um é moreno, outro é loiro; um é calmo , outro é nervoso; um é afetivo, outro é frio e distante; e assim por diante. Há certas características físicas de uma enorme relevância, tais como a impressão digital e o tão falado DNA, ambas usadas na rotina das investigações policiais. Em resumo: podemos separar, caracterizar, identificar os indivíduos.

Entretanto, no que toca ao ser humano existe um outro tipo de diferenciação que não ocorre com os indivíduos existentes entre os eqüídeos, entre os bovinos e os galináceos. Tal característica diferenciadora é a que faz com que cada um de nós seja uma pessoa. Ainda conforme Santo Tomás, a personalidade é o que faz com que certos seres dotados de inteligência e de liberdade, subsistam, se mantenham na existência, como um todo independente dentro do grande todo do universo e frente ao todo transcendente que é Deus.
E’ a personalidade que faz surgirem os Dostoiveskys e os Machados de Assis, os Newtons e os Einsteins, os Bachs e os Debussys, os Aristóteles e os Tomás de Aquino, os Euclides e os Gauss, os Franciscos de Assis e os Tomás Morus, as Terezas d’Ávila e as Terezinhas de Lisieux . É aquilo que coloca, na madrugada escura e fria de um hospital, uma paciente enfermeira tomando conta de um doente velho e ranzinza.É o que faz uma professorinha sentir alegria em ensinar as primeiras letras a uma classe de crianças, apesar do modesto e injusto salário que lhe pagam.

Enquanto indivíduos, todos somos de fato essencialmente iguais em nossas necessidades básicas de alimentação, saúde e instrução básica. E qualquer Estado – democrático ou não – pode, e sobretudo deve, prover essas necessidades. Não faz mais do que cumprir o que se chama “justiça social”, uma das quatro facetas da virtude da Justiça. Entretanto, para que possam germinar plenamente os poetas, os gênios e os santos , para que as personalidade possam desenvolver-se em toda as suas maravilhosas virtualidades, é absolutamente necessário que a liberdade da pessoa seja respeitada. Note bem leitor: escrevi liberdade da pessoa , e não do indivíduo. A primeira inclui a segunda. O inverso não é necessariamente verdadeiro. E uma pequena prova disso pode ser vista no texto que a seguir vou transcrever, citado pelo jornalista Merval Pereira, no Globo de 30 de novembro passado.

Trata-se de uma recente declaração do Sr. Ministro Cristóvão Buarque, o qual diz o seguinte:
As instituições de educação superior devem solidariamente produzir os meios para o desenvolvimento sustentado do país e a formação dos cidadãos de uma dada sociedade, de acordo com as pautas valorativas hegemônicas nas relações de forças sociais e políticas de um determinado momento histórico.
Em outro trecho, o documento define:
um dos mais importantes critérios para avaliar a educação superior: a eficácia para fortalecer as preferências éticas e políticas dominantes num determinado momento histórico.

Não vou comentar o horrível estilo bombástico. Fico apenas no setor das idéias.
Para início de boa conversa, compete ao Estado cuidar do “ensino”, da “escolaridade”. Educação é um problema eminentemente pessoal, é meu problema, é problema do leitor, mormente se você , leitor, já não for tutelado pela família ou por uma escola qualquer.O Estado não tem que dar palpite nisso.
Quem forma o bom cidadão é a própria pessoa, quando ela se educa de forma correta, quando segue os princípios permanentes da Lei Natural, e não : “as preferências éticas dominantes num determinado momento histórico” (note bem leitor : talvez para o Sr Cristóvão Buarque, a moral seja algo fluído, evolutivo, variável ao capricho do homem) .
Em resumo, conforme disse o reitor da PUC-Rio: isso é puro totalitarismo

Conforme vimos, no texto ora citado aparecem palavras que implicam uma agressão silenciosa e perversa à pessoa humana.
Reflita bem sobre isso, amigo leitor.

posted by ruy at 2:46 da manhã

3.12.03

 
Carta aos leitores solteiros deste “blog”


[ Antes de começar, digo que estou usando o plural “leitores” conforme a boa tradição do nosso idioma, ou seja: ali estão incluídos os leitores e as leitoras. Aliás, este é um dos motivos que me faz ter preferência pela missa celebrada pelo padre S... : ele não faz concessão ao modismo : “meus irmãos e minhas irmãs”.]

Ontem pela manhã recebi pela Internet certa provocativa mensagem de um senhor que certamente não é leitor do Despoina Damale, e também com toda a certeza não é católico.Nessa mensagem, o meu correspondente mal consegue esconder sua mal-querença à Igreja, que ele designa pela palavra “Vaticano”, fazendo crítica ao que ele considera um milenar atraso, a saber: a defesa da Lei Natural. O pivô do mau humor desse senhor foi a posição fechada da Igreja (para ele : Vaticano ) contra a proposta do uso do preservativo (camisinha) no combate à AIDS (ou SIDA,conforme deveria ser a sigla em português).

Terminada a leitura dessa infeliz mensagem, fiquei refletindo um certo tempo; logo depois tomei a decisão de usar o “post”de hoje como carta aos leitores solteiros.Porém, logo de início aviso aos amigos que não vou tratar especificamente do tema da AIDS, nem muito menos dessa polêmica que se armou (ou foi armada pela mídia) em torno dos preservativos.

Usando uma surrada porém sempre útil imagem, digo para começar que essa gritaria contra a recente e firme atitude de Roma é apenas a ponta de um colossal “iceberg”. O que está oculto aos olhos dos desavisados é uma gigantesca e enraivecida luta, certamente inspirada pelo Pai da Mentira, pelo Anjo rebelde, contra o Corpo Místico do Cristo.

Todos os conflitos modernos, incluindo os próprios terrorismos; os chocantes e/ou ridículos comportamentos da maior parte dos chefes de Estado do mundo, incluindo a prata da casa ; as aberrações sexuais que se exibem em públicos desfiles, apresentando suas pretensões de serem legitimadas por leis escritas; o aumento da criminalidade em todas as grandes cidades, daqui e dos outros países; o universal problema do consumo de drogas; o descalabro do ensino, que muitos por ignorância ou teimosia chamam de educação etc. – tudo isso espelha uma assustadora decadência cultural cuja origem está no antropocentrismo, que pode ser definido como: a auto-colocação orgulhosa do homem como centro do mundo, como centro da vida humana.Ou seja: seguindo a solerte sugestão do Demônio, nós modernos, a partir do final do século XIV (ou por aí) pouco a pouco fomos nos esquecendo da excelsa primazia de DEUS.

É claro que a misericórdia de DEUS é infinita; mas, o que temos em volta de nós é uma civilização que se perdeu, uma civilização perdida. Dificilmente consigo vislumbrar aquilo que seria uma conversão coletiva. Quanto às conversões individuais, todo dia somos informados que elas estão acontecendo, no Brasil e no mundo. Laus Deo!

Agora vamos aos destinatários desta carta: os nossos leitores solteiros. Por quê me lembrei de vocês? Porque, ainda que não tenha cabimento pensar em ações quixotescas de bem intencionados “salvadores do mundo” (mesmo porque, só quem salva o mundo é o Cristo, Nosso Senhor), é sempre oportuno lembrar o que nos disse Jesus sobre a necessidade de sermos o sal da terra.

Notem bem isto : cada casal, homem e mulher, que se une em matrimônio, ambos dispostos a viver de modo integral sua vida cristã, pode, esse par casado, gerar na vida espiritual da sociedade humana um efeito análogo ao da radioatividade no mundo físico. Os que me vêm acompanhando neste “blog” devem estar lembrados daquele trecho da “Carta ao General X...”, escrita por Saint-Exupéry :

Ah! General, só existe um problema, um único, em todo o mundo.Restituir aos homens uma significação espiritual, inquietações espirituais. Fazer chover sobre eles algo que se assemelhe a um canto gregoriano.

Pois é, vocês solteiros estão com a faca e o queijo na mão. Vocês têm – sabem muito bem disso – duas opções: a do celibato ou a do matrimônio. Se optarem pela vida a dois, por favor, que isso não se faça como um rotineiro processo de acomodação burguesa.Para ser apenas mais um entre os casais que se constituem ao longo do ano, sem grandes diferenças um dos outros. Vocês por certo não irão “salvar o mundo”; nem tão pouco irão construir o tal “mundo perfeito” dos socialistas, sonhado pelo senhor José Dirceu e por outros obcecados como ele. Mas, se quiserem e com a Graça de DEUS, poderão fazer chover, nos ambientes onde forem viver: algo que se assemelhe a um canto gregoriano!

Um abraço grande do Ruy.

P. S. : Prometo que não ficarei zangado se algum de vocês comentar agora:
ele está naquela idade em que, não podendo mais dar bons exemplos, dá bons conselhos.




posted by ruy at 1:17 da manhã

2.12.03

 
Sinal e Ruído


O uso de qualquer analogia, ensinam-nos os entendidos, deve ser feito com cautela, mas isso não proíbe que ela seja usada.Pois bem, aproveitando fatos da minha área de engenharia , pretendo fazer uma analogia que – acredito – possa ajudar o leitor a entender melhor o que vou expor neste “post”.

Um sistema de telecomunicações tem como função levar a mensagem gerada por uma certa fonte de informação a um determinado destino , em geral muito afastado da fonte. No lado da fonte está o transmissor; do lado do destino está o receptor, aquela parte do sistema – conforme costumo dizer aos meus alunos – que constitui o fino, o que é mais elaborado, mais bonito no processo da comunicação.

Levar um sinal , isto é, a constituição física da informação, de um ponto para outro seria um trabalho razoavelmente banal se não fosse por duas realidades da natureza, a saber:
1)- a atenuação do sinal, isto é o seu enfraquecimento, tanto mais forte quanto mais longe estiver o receptor;
2) - o ruído elétrico, inevitável e onipresente, que é justamente o vilão, o grande bandido dessa novela.
O sinal, em geral bastante atenuado, chega ao destino em um nível às vezes comparável ao do ruído, ou pior: abaixo do ruído existente no receptor. E é esse fato que dá sentido ao elaborado, ao científico trabalho do engenheiro de telecomunicações: como conseguir recuperar a mensagem quando o sinal está ali, sufocado pelo ruído ? Ah ! Se não fosse a velha Dona Matemática, essa tarefa seria praticamente impossível !

Bem, na comunicação humana, naquela que, de um lado, usa o aparelho fonador e, do outro, o maravilhoso aparelho auditivo, as coisas se passam de forma análoga (Gustavo Corção, em suas aulas, costumava dizer que a estrutura óssea do nosso ouvido médio é uma emocionante prova da existência de uma finalidade intencional, desejada por uma Inteligência criadora ).Temos agora o sinal acústico, que leva nossa mensagem (suposta) inteligente ao nosso interlocutor, cujo ouvido tem como papel converter a vibração sonora em estímulos nervosos que serão analisados pelo cérebro. A tarefa final nesse processo comunicativo, é óbvio, cabe à nossa inteligência.
Nessa comunicação, o ruído agora é o acústico. Quem mora em cidade grande sabe muito bem como ele é onipresente ...

E como se passariam as coisas na comunicação entre DEUS e nós homens ?
Dom Lourenço de Almeida Prado, em suas didáticas e agradáveis homilias, gosta muito de citar uma passagem do primeiro Livro dos Reis (1 Reg. 19.9 e 11). Comenta Dom Lourenço:
Veio um furacão, veio um tremor de terra, veio o fogo, mas Elias percebeu que o Senhor não estava no furacão, no tremor de terra, nem no fogo.Veio, afinal, uma brisa suave, e Elias percebeu, na brisa, a presença do Senhor.
Como se vê, Deus nos procura, mas não quer impor a sua presença. Quer que sua presença seja descoberta por nós, por um ato livre de escolha e de amor.

[do livro: “ Na Procura de Deus (reflexões e sermões)” ]

Ora, tudo o que até aqui escrevi é uma paráfrase da minha queixa recente (o leitor, se quiser, poderá reler o meu lamento indo ao “post” de ontem...)
Vamos à missa em uma igreja (obviamente, estou pensando em uma igreja católica, portanto: um templo consagrado). Ela deveria ser para nós como o monte em que estava Elias, conforme lhe ordenara o Senhor. Mas, ali, naquele nosso monte santo, nós mesmos fazemos nossos “furacões”, criamos nossos “terremotos”; geramos, literalmente, o ruído que nos impede de perceber o sutil sinal de Deus !

Continuamos, muitos amigos e eu, esperando que a maioria de nossos bispos faça a “engenharia" que lhes compete, para reduzir a um nível bem baixo o ruído que hoje nos dificulta ouvir a mesma brisa que Elias ouviu passar.
Rezemos para que logo o “sistema” seja restaurado, obviamente no que toca ao desejável bom funcionamento das nossas recepções.
Quanto a Deus, Ele é sempre perfeito no que transmite e no que recebe.


posted by ruy at 1:54 da manhã

1.12.03

 
Canto Gregoriano


Uma das mais ricas tradições da Igreja é a do canto gregoriano. Manifesta ele uma piedade autêntica, aquela em que a sensibilidade e a inteligência se mantêm em sereno equilíbrio no louvor a Deus. No canto religioso protestante, a emoção em geral prevalece (por essa razão há quem diga que em nossa atual liturgia católica costuma de vez em quando ocorrer um processo de “protestantização”... ).Sonho com o dia em que na maioria das nossas igrejas (leia-se: templos católicos) o povo simples entoe o gregoriano.

Neste “post” vou citar duas opiniões, ambas de homens cultos e que tiveram vida bem ativa neste mundo. Um deles foi um alemão, um luterano; o outro, um francês que, pelo menos, deve ter sido educado na Igreja.

Albert Speer foi ministro do trabalho de Hitler. Brilhante arquiteto, logo atraiu a simpatia do ditador nazista, que tinha um especial gosto pela coisas da arquitetura. Terminada a segunda Guerra Mundial, no julgamento dos crimes de guerra em Nuremberg Speer foi condenado a vinte anos de prisão, pena que cumpriu integralmente em Spandau. Ali, ele secretamente escreveu um diário que seria publicado mais tarde. No dia 19 de abril de 1958, ficaram registradas estas palavras:

Ouvimos hoje um disco de canto gregoriano. Sendo principalmente uma expressão da piedade profunda do início da Idade Média, tal música é também – em sua qualidade um pouquinho monótona – uma prova da capacidade de sentir emoções puras, o que era muito comum entre o povo daquela época. Eles não precisavam de estímulos muito fortes. Também na pintura medieval gestos pequenos eram suficientes para expressar um drama. E há pouco surpreendeu-me ler que muitas pessoas desmaiaram ao ouvirem pela primeira vez a polifonia primitiva. [ ele aqui está se referindo ao canto polifônico, aquele que já faz tempo é bem comum em nossas igrejas ] Isto leva a crer que certas formas de progresso empobrecem ao invés de serem fontes de enriquecimento.

Em “post” anterior já falei sobre Antoine de Saint-Exupéry. Um dos livros dele traduzidos para o português é o intitulado : Um sentido para a vida . Trata-se de uma coletânea de ensaios, narrativas, coisas assim. Lá está a pungente : Carta ao General X... , escrita em La Marsa, perto de Tunis, em julho de 1943, da qual citarei este trecho:

Ah! General, só existe um problema, um único, em todo o mundo.Restituir aos homens uma significação espiritual, inquietações espirituais. Fazer chover sobre eles algo que se assemelhe a um canto gregoriano. Se eu tivesse fé, é mais que certo, passada esta época de “ job necessário e ingrato”, eu não conseguiria suportar senão Solesmes. (*) Não é possível viver-se só de geladeiras, política, orçamentos e palavras cruzadas, não é mesmo ? Não é possível ! Não é possível viver-se sem poesia, sem cor e sem amor. Basta escutar um canto popular do século XV para podermos medir até onde descemos.


Nota explicativa

(*) Solesmes é uma abadia beneditina, fundada em 1010. Suprimida pela Revolução Francesa, foi restaurada por Dom Gueranguer em 1833, e veio a tornar-se abadia-mãe da congregação francesa na França.É célebre por seu canto litúrgico e por sua erudição.


Por favor !


Quando é que voltaremos a ter silêncio e demais atitudes condizentes com o respeito devido à Casa de Deus ? Por que não se aguarda o início da missa de modo reverente, meditando naquilo que dali a pouco vai acontecer naquele recinto sagrado ?
Cada igreja para mim é isto: a Casa de DEUS ! Podem me chamar de velho ranheta, podem me chamar de velho quadrado, mas digo com plena convicção: alguma coisa está errada !
E por que o folheto das orações da missa tem que ter propaganda da Casa Sendas e do Leite de Rosas?
Desculpem o mau jeito...


Agradecimento

Ontem recebi várias cordiais visitas ao “oásis “!
Muito obrigado aos bons amigos ! Que DEUS os abençoe !



posted by ruy at 1:36 da manhã

 

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