Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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30.11.03

 
Gladstone Chaves de Melo


Faz uns dois ou três dias divulguei entre os amigos deste “blog” o texto de uma palestra proferida há alguns anos pelo Professor Gladstone Chaves de Melo.
Respeitável filólogo brasileiro, homem de vasto e variado conhecimento, entre vários trabalhos como homem público Gladstone desempenhou importante missão como representante cultural de nosso país em Portugal. Professor emérito da língua pátria, deixou muitos livros publicados. Tenho e guardo com muito carinho algumas de suas obras.

Durante muitos anos tive no Professor Gladstone um paciente consultor com quem eu tirava minhas dúvidas sobre pontos – para mim duvidosos – ligados ao uso do nosso elaborado idioma. Sua explicações eram perfeitas, sempre em excelente linguagem.Nunca deixei de ser esclarecido.

Católico de convicção plena, bom conhecedor da filosofia Tomista, caráter adamantino, esse homem magro, de feição severa, impunha natural respeito aos que com ele conviviam.
Foi vereador do antigo Distrito Federal, transformado no Estado da Guanabara quando a capital do Brasil foi transferida para Brasília. Nessa ocasião, quase todos vereadores fizeram opção pela continuidade como deputados da câmara Estadual do novo Estado. Apenas dois vereadores se recusaram a aceitar esse “jeitinho” bem brasileiro de não perder o emprego. Um deles foi Gladstone. Taxativo explicou: não fui eleito pelo Estado da Guanabara; não é justo, pois, que me aproveite dessa alteração política .Isso era bem do feitio desse autêntico varão de Plutarco.

Certa vez, como vereador, estava se opondo a certa medida proposta em plenário por um de seus colegas de trabalho. O proponente contrariado, em certo instante, dirigiu-lhe estas palavras queixosas: “O senhor está se opondo ao projeto ora proposto porque não sabe o que é ter uma família numerosa ! . A resposta não demorou: Por coincidência sei sim; tenho mulher e seis filhos.

Quando me lembro de Gladstone, fico meio melancólico. Hoje vai ficando bem difícil achar em nossos homens de nível dito “superior” uma pessoa realmente civilizada como foi aquele mineiro reservado que faleceu em silêncio, em sua bem modesta casa, em uma vila também modesta do bairro das Laranjeiras.Hoje temos intelectuais tonitruantes, argumentadores brilhantes, mas aos quais, infelizmente, falta um “quê” de verdadeira e respeitável cultura humana ...

Se o leitor leu com bastante atenção tudo o que escrevemos acima, pode ter ficado com a impressão – errônea, conforme vou logo mostrar- que a Gladstone lhe faltava o senso de humor. Vou dar apenas uns dois exemplos para desfazer o erro do leitor.

Dizia ele: É injusto chamar o dicionário de Pai dos Burros ; burro não consulta o dicionário.Quem faz isso é a pessoa inteligente !

Contou-me certa vez um fato que teria ocorrido com o respeitável gramático brasileiro João Ribeiro, homem sem dúvida alguma muito competente em seu ofício, porém com um bem conhecido defeito: era muito vaidoso.
Em certa ocasião, João Ribeiro precisou viajar ao interior de São Paulo. Foi à Central do Brasil, dirigiu-se ao guichê e pediu ao funcionário:
- Por favor, uma passagem de trem para Guaratinguetá !
O atendente retrucou:
- O senhor quer dizer: para Guaratingüetá. (pronunciando o segundo U da palavra).
Insistiu João Ribeiro:
- Não, é Guaratinguetá !
E teimou o funcionário da Central:
- É Guaratingüetá , sim ! (tornando a pronunciar o mesmo U)
O professor não se conteve:
- Eu sou João Ribeiro ! Quer discutir comigo?
E a resposta desaforada:
- Cagüei-me !

Uma gaiata expressão que Gladstone citava:

Varão, manda ele e ela não. Varela, manda ele e manda ela. Varunca, manda ela e ele nunca !


Começa o Advento


Rorate coeli de super et nubes pluant justum !



posted by ruy at 2:19 da manhã

29.11.03

 
Voar


A primeira vez que voei, isto é, em que viajei de avião, foi quando eu ainda estava com meus 15 anos. Fui levado a uma distante e bonita capital nordestina. Depois vieram muitas outras viagens aéreas como rapaz solteiro, e mais tarde, já casado, sozinho a serviço ou a passeio com minha família. Houve uma bem especial, para muito longe do Brasil, da qual recordo com certa emoção a bela chegada, ao amanhecer, em uma região próxima ao deserto.

Ora, ontem, no final da tarde, fui ao aeroporto receber uma senhora muito amiga e que vinha do Sul do país. Como, por uma desagradável coincidência, o motorista do táxi que me levou estivesse bastante inquieto, bem irritado, pronto para brigar com qualquer um de seus colegas do trânsito, várias vezes me deixando preocupado, lembrei-me de uma sensação que durante muitos anos me acompanhou bem de perto: a do medo de viajar de avião. Essa fobia só começou a diminuir no dia em que li um livro intitulado : Não faça vôo cego , escrito por um jornalista: Lenildo Tabosa Pessoa

O autor do excelente livro o dedicou ao seu casal de filhos moços, ambos se preparando para o trabalho em aeronaves comerciais. Na dedicatória ele diz que eles, os filhos, logo vão descobrir que é muito mais seguro viajar de avião que nos táxis que os conduzirão aos aeroportos. Ora, foi exatamente isso que senti ontem, enquanto o motorista do meu táxi dirigia nervosamente pelas ruas da cidade...

O livro a que me refiro dá uma minuciosa aula sobre a maravilhosa obra de engenharia que constitui um moderno avião de passageiros, mostrando a notável margem de segurança com que esses possantes jatos se deslocam no espaço, encurtando gigantescas distâncias e, ao mesmo tempo, proporcionando grande conforto ao viajante aéreo.Se o leitor por acaso padece daquela mesma fobia, sugiro a leitura atenta do citado livro!


Saint-Exupéry


A idéia de voar de avião, a lembrança de tantos vôos feitos, acabou me trazendo do fundo da memória a figura super-simpática do piloto-escritor : Antoine de Saint-Exupéry .
Li, traduzido para o português, três livros desse corajoso aviador que, após anos de aventurosa experiência no correio aéreo internacional, um belo dia apresentou-se como voluntário na segunda Guerra Mundial para combater por seu país, apesar de já ter ultrapassado a idade de servir.

De fato, Saint-Exupéry desapareceu com seu P-47 durante o cumprimento de missão de patrulha no Mediterrâneo. Dizem as pessoas que não o apreciam que teria havido de fato um trágico suicídio, e não morte acidental. Com essa opinião jamais concordou Dom Marcos Barbosa OSB, o monge tradutor do famoso “best-seller” : O Pequeno Príncipe , grande admirador do escritor francês.

Guardo comigo um exemplar de Terra dos Homens , traduzido com muita elegância por Rubem Braga, livro que a mim foi dado, com dedicatória, por um amigo, veterano piloto da FAB. No final desse pequeno grande livro, Saint-Exupéry escreve palavras cujo real e completo sentido certamente escapa aos obcecados defensores de regimes políticos do tipo “colégio interno” (Cuba ou China, por exemplo) ou aos cegos admiradores da mui democrática Suécia. Vou transcrevê-las para que o leitor as leia com muita atenção e depois reflita sobre o profundo significado do que leu:

O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal, de contas, a gente se acomoda, como no ócio. Gerações de orientais vivem na sujeira e gostam de viver assim.
O que me atormenta não são essas faces escavadas nem essas feiúras. É Mozart assassinado um pouco, em cada um desses homens.

Só o Espírito, soprando sobre a argila, pode criar o Homem.



Com certeza Saint-Exupéry não faz parte da leitura, por exemplo, do nosso Presidente de facto , nem, infelizmente, da leitura de muitos católicos bem comportados.
Peço ao leitor amigo que releia as palavras citadas.


posted by ruy at 1:48 da manhã

28.11.03

 
Conjunções necessárias


Quando, em certo dia, lemos um historiador sério discorrendo sobre aquela que os mal informados chamam de Idade das Trevas , de repente podemos descobrir que as pessoas do Medievo desfrutavam uma vida naïve , tudo se passando como se, após a queda do Império Romano, os homens da Europa tivessem sido transformados em crianças grandes.

Dito isso sem maiores detalhes, pode parecer ao leitor que, feita uma comparação homem a homem com nós modernos, os habitantes da Idade Média fossem moralmente melhores.Ora, não é bem assim!

No momento em que escrevo este “post” parece-me que a imensa vantagem dos medievais sobre os homens de agora, especialmente sobre nós ocidentais, consista no fato de que eles, inconscientemente, conseguiram realizar a conjunção de atitudes aparentemente opostas ou, pelo menos, supostas incongruentes, a saber:
- viver de modo equilibrado e buscar a santidade;
- manter a sensibilidade moral e perceber o sentido do mistério.

Na minha opinião, em nossos tormentosos dias a coexistência pacífica desses dois pares de atitudes vai ficando cada vez mais difícil.Para perceber isso, basta prestarmos bem atenção nas conversas feitas em família, na condução para o trabalho, nos intervalos do almoço ou do cafezinho e até mesmo no adro das igrejas após as missas Dominicais.

A pletora de aconselhamentos médicos e psicológicos que pululam em revistas, na televisão, nos jornais e na Internet induzem a maioria das pessoas a terem um cuidado permanente e, sobretudo, minucioso com sua saúde física e mental.
O grande inimigo passou a ser o stress ou o colesterol; e enquanto isso, o Diabo satisfeito sorri de nossas grandes ou pequenas hipocondrias.

Paralelamente, o bombardeio incessante de informações feito pela mídia e pela Internet, trazendo continuamente para dentro de nossas casas as notícias mais chocantes sobre crimes brutais, aberrações sexuais, guerra e terrorismo, excita ao máximo nosso nervo ético. Somos quase todos levados a um irritado e loquaz moralismo.

Desse modo, pouco tempo tem sobrado, esta é a triste verdade, para prestarmos atenção no mistério que existe no objeto mais rotineiro e humilde ao nosso lado e para cuidarmos da santificação de cada um de nós.
Deixamos de ler poesia e de fazer penitência.


E já que falei em poesia...


Vou transcrever um trecho de um belo poema do saudoso Murilo Mendes, poeta católico do tempo em que a civilização e a cultura ainda eram respeitadas neste país, mormente nos ambientes católicos. Trata-se do, bem adequado ao tempo do Advento:

Romance da Visitação

Naquele tempo Maria
- São Lucas escreverá –
Levantou-se bem cedinho,
Dirigiu-se a toda pressa
Às montanhas de Judá,
Comunicar a alegria
Que lhe fora anunciada
Pelo Arcanjo Gabriel.
Comunicar poesia
À sua prima Isabel,
Esposa de Zacarias,
Descendente de Aarão,
Pesada agora de João,
Precursor de Emanuel.
É claro que tinha pressa
De anunciar seu poder
Incluído na promessa,

Não fosse ela bem mulher !
Vai, Maria, vai correndo,
Vai direito a Israel,
Vai voando a Ouro Preto,
Às montanhas do Tibet
Anunciar ao mundo inteiro
Com entusiasmo e fervor
Que Jesus irá nascer,
Anunciar o Salvador,
Que o Anjo te anunciou!
Lá vai Maria apressada,
Como sua vida mudou !
Inda ontem pulava a corda,
Feliz brincava de roda,
Com as órfãs de Nazaré,
Agora já está casada,
Remendando a roupa toda
Do carpinteiro José !


E vai por aí o poema em seus rítmicos 362 versos. Lá, quase no final, lemos estes que nunca me saíram da memória:

Toda alma necessita
De uma irmã na poesia,
Por isso a Virgem bendita
Vai visitar Isabel
Comunicando a alegria
Que lhe trouxera Gabriel.


[ do livro : “Contemplação de Ouro Preto” ]




posted by ruy at 8:41 da manhã

27.11.03

 
Propaganda gratuita


[A rigor nada é de graça. Até mesmo uma Graça (com G maiúsculo) que recebemos, conforme dizia Leon Bloy, alguém pagou por ela, com a invisível moeda do sofrimento.
Mas, asseguro aos amigos leitores que não recebi e nem vou receber um centavo do meu amigo Alexandre Ramos da Silva pelas palavras abaixo escritas. Move-me, ao escrevê-las, apenas o desejo de tornar mais conhecido um livro publicado pelo Alexandre em 2001, quando ele se assinava como Irmão Agostinho OSB.

A obra que merece ser divulgada e lida é : “A Fraternidade Cósmica do Repolho Místico”,
uma coleção de crônicas muito inteligentes, muito bem escritas, sobre temas da maior atualidade. O livro foi editado pela PEREGRINA, sediada em Curitiba, Paraná. Poderá ser achado na livraria Lúmen Christi do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro.

No “post” de hoje, vou transcrever alguns pequenos trechos do “Repolho” – conforme bem humorado o autor se refere a ele – para atiçar a curiosidade do leitor deste “blog”]

Do capítulo : “A banda toca e o Titanic afunda”:
- Esperar , na acepção cristã, é algo que está muito distante de encontrar o que fazer para matar o tempo que nos separa da extinção. É um dinamismo de vida um lançar-se ao encontro de algo – melhor, de Alguém – que desde a eternidade veio ao nosso encontro, armou sua tenda entre nós , na maravilhosa expressão joanina, e nos desafia nem tanto a encontrar um sentido mas principalmente a superar o absurdo do cotidiano e caminhar com decisão para onde não haverá mais sofrimento, nem lágrimas, nem morte, “porque tudo isso já passou”.

Do capítulo: “Prudência suicida” :
- William Blake, que gostava muito de uma frase de efeito e criou umas ótimas, dizia que a Prudência é uma velha, rica e feia, cortejada pela Incapacidade. Existe de fato uma prudência assim, espécie híbrida de ignorância, omissão e covardia. Mas a verdadeira prudência, virtude cristã, é algo completamente diferente: consiste na ponderação séria sobre a conduta que se deve assumir numa determinada situação, e na decisão e coragem com que se realiza aquilo que foi decidido.

Do capítulo : “A eternidade no tempo presente” :
- A experiência contemplativa, parafraseando um famoso enunciado tomista, ultrapassa - sem negá-las - a lógica e a razão, atingindo o sujeito total no ponto exato em que a trama de sua existência pessoal se entretece com a do universo que o cerca,e do qual faz parte. É, portanto, uma experiência não de ordem meramente cognitiva, mas existencial , na mais ampla e profunda acepção do termo.

Do capítulo: “A entrevista com o vampiro” :
- A educação superior consiste na preparação das elites intelectuais que irão dirigir os destinos de um país, e isso significa muito mais do que técnicos e especialistas: trata-se de formar pessoas capazes de receber, re-elaborar criativamente e passar adiante as tradições de um povo. É isso que garante no decorrer do tempo e concomitantemente ao desenvolvimento tecnológico, a identidade nacional, o elemento espiritual que vertebra e integra uma nação. Ou seja: quem é capaz de, como sua tarefa histórica, responder pelo patrimônio cultural de um povo, pode perfeitamente dar conta das atividades inferiores, de ordem técnica. Mas o inverso é impossível.

Eu pediria ao leitor que tornasse a ler todas as citações acima feitas, notando nessa leitura a clareza, o pensamento bem ordenado e a elegância no uso da linguagem. Em nenhum dos pequenos trechos escolhidos ocorrem certas ironias, sutilezas, gracejos que aparecem nos capítulos integrais e que, a par das qualidades já referidas, tornam o livro de Alexandre Ramos da Silva uma leitura ao mesmo tempo instrutiva e agradável .

O endereço da livraria Lumen Christi é este:
- CAIXA POSTAL 2666
cep: 20 001 – 970 - Rio de Janeiro – RJ


Boas novas !

Tenho notado, por meio do Despoina, que muitos moços estão se interessando pela leitura de Chesterton e de Gustavo Corção. Assim, a nova geração começa a conhecer o que existe de bom no pensamento católico moderno!


posted by ruy at 1:19 da manhã

26.11.03

 
As duas perguntas que sempre voltam!


Vindo ontem para o trabalho, enquanto o táxi rodava pelas ruas já movimentadas naquela hora matinal , tornei a pensar nas duas perguntas – digamos assim – básicas que surgem na vida de um cristão: a de São Judas Tadeu e a de São Paulo. A do primeiro deles (São Judas) quase ficou sem resposta. Aliás, há um lindo ensaio de Chesterton sobre o Livro de Jó (li quando tinha meus distantes vinte e pouco anos...) em que o saudoso ensaísta, comentando aquele livro da Bíblia, diz o seguinte:
- o homem é muito mais consolado pelo paradoxo do que pela explicação clara e cartesiana

Fiz há tempos um poema sobre o pescoço da girafa. Dizem os biólogos que o longo pescoço da girafa facilita ao desengonçado quadrúpede o acesso aos brotos mais elevados das árvores. Bom, e daí ? Digam-me os sabidos: por que cargas d’água existe, na miríade dos animais do planeta, essa curiosa espécie do pescoço longo?

Portanto, não esperemos jamais uma resposta a perguntas do tipo :por que fui escolhido? Por que minha vida pessoal tinha de ser estabelecida em tal emaranhado de circunstâncias que tem seu início em uma longínqua e movimentada infância , quando até conflitos armados fizeram parte do cenário?

A segunda pergunta foi respondida clara e completamente. O problema em nosso caso – nós que não temos a firmeza e a coragem do convicto fariseu São Paulo – é justamente que deixamos de fazer a pergunta, ou, se a fazemos, ela é feita sem a necessária confiança n’Aquele que deveria respondê-la quando lhe perguntássemos:
Senhor, o que quereis que eu faça ?

Talvez esteja aí o significado daquela recomendação fortíssima do Cristo:

Se não vos tornardes semelhantes às crianças, não entrareis no Reino dos Céus.

Temos que fazer aquela segunda pergunta como se crianças obedientes fôssemos !


Os pequenos


Em certo momento de sua passagem por este mundo, Nosso Senhor faz seríssima advertência sobre os escândalos, principalmente se forem contra os pequeninos. Ora, penso que os pequenos não precisam ser necessariamente as crianças. Poderiam ser pessoas que sejam pequenas na cultura, pequenas no conhecimento que tenham sobre a crença que professam, pequenas em suas recordações do tempo da infância, de uma infância muitas vezes vivida sob uma influência paterna não muito ligada ao Pai maior, do qual deriva toda a paternidade.

Este é um dos magnos problemas de hoje. Temos milhares e milhares de pais que, sem dúvida alguma, amam seus filhos, querem o bem para eles. Mas, perguntamos: até que ponto esse bem desejado se orienta para o nosso fim último? Vamos a um caso extremo. Quem já viu filme sobre a Máfia deve ter observado o seguinte: eles, em família, se abraçam, se beijam, choram quando um deles morre ou fica doente de doença grave. Mas, matam as demais pessoas com a maior frieza e crueldade (detesto filme sobre mafiosos!).

Obviamente, trata-se de um caso extremo, apenas para alertar o leitor sobre este fato: é possível termos uma infância honesta, bem comportada, bem amparada, porém pequena . Pequena porque os que dela cuidavam não estavam muito atentos ao mistério do Cristo. Que fazer? Deixar de lado esses pequenos? Afinal, que culpa têm eles de terem nascido onde nasceram?

Por essas e outras, acho que se torna imperioso para nós – principalmente nós católicos - fugirmos sempre do farisaísmo empertigado, auto-suficiente e muitas vezes boboca ( é isto mesmo: boboca) e - lembrando sempre que, se algum bem por acaso existir em nós, foi -nos dado por DEUS e não por nossos brilhantes raciocínios - saibamos entender o problema do outro .


Agradecimento

Muito obrigado aos leitores que nestes dias me enviaram generosas mensagens de apoio:
A M... , R M M..., L M...(editor do Viramundos), C M M..., M M L P..., H.S...., E W... e O L....
DEUS lhes pague !


posted by ruy at 2:13 da manhã

25.11.03

 
Vocação.


Se o leitor vem acompanhando diariamente o Despoina Damale, deve estar lembrado de um “post” em que eu citava uma gracinha de um experto menino de seis anos, filho do meu colega e grande amigo N.B. Pois bem, ontem, almoçando com N.B., ele me contou uma outra recente e curiosa façanha do Miguel, seu filho.

Estava meu amigo em sua casa, possivelmente estudando um pouco, quando, de repente, o Miguel parou de dar uma corridinha e disse isto ao pai:
- Eu sei quanto é 99 mais 99 !
N.B. olhou bem para o filho e perguntou:
- Ah é ? Então, quanto dá a soma?
Veio esta inesperada resposta:
- Dá 198 ! Eu sei que 100 mais 100 dá 200. Ora, como 99 é 100 menos 1, então eu tiro 2 do 200 e dá o 198 !

Mal N.B. acabou de contar a resposta do filho (garoto de seis anos !), brinquei com meu amigo: “você agora tem um Gauss na família !”

Não sei se o leitor sabe, porém Gauss, à semelhança de Pascal, foi um dos gênios precoces da Matemática. Obviamente, seria um pouco de ousadia minha afirmar convicto uma genialidade existente no pequeno Miguel. Mas, os que tem experiência com aquela ciência que os doutos nos dizem constituir o chamado: segundo grau da abstração formal (o primeiro é o da Física; o terceiro, o mais elevado dos três, é o da Metafísica) terão percebido na resposta do garoto um modo bastante não convencional de armar uma simples operação aritmética da soma de dois números inteiros. Terão notado uma agilidade mental incomum em crianças daquela idade.

Este curioso fato me faz lembrar algo infelizmente ignorado ou no mínimo esquecido por muitos pais de família: o mistério da vocação. Já escrevi falando na penosa tarefa que consiste a correção de provas de um vestibular.Nessa hora podemos notar que muitos jovens se inscreveram para fazer as provas coagidos por seus familiares, os quais – com a melhor das intenções, porém equivocados – provavelmente queriam porque queriam ver seus filhos com um brilhante diploma de Curso Superior, garantia talvez de um futuro bom emprego.

Ora, acontece que o ser humano tem muitas de suas virtualidades desigualmente distribuídas entre os indivíduos da nossa espécie. É verdade que na Renascença, como corolário da decadência filosófica iniciada no século XIV, existiram muitos dos chamados: “homens protéicos”, indivíduos estranhos que se dedicavam a estudar com obsessão as mais diversas ciências e a praticar com paixão as mais desencontradas artes, como por exemplo: a retórica, a equitação, a esgrima, a música, a poesia e a confecção de roupas (corte e costura). Mas, felizmente esses teimosos adeptos do modelo “João-sabe-e-faz-tudo” foram esquecidos ao longo do tempo; não deixaram escola.

Pode ser que me engane, mas quem sabe se o Miguel não foi chamado (vocare = chamar) pela Providência para ser um futuro grande matemático ?


Um assunto bem pouco apreciado.


Qualquer pessoa normal, até mesmo sendo militar, detesta a guerra. Na Canção do Exército (quem já prestou o Serviço Militar sabe disso) os soldados cantam assim:

A paz queremos com fervor,
A guerra só nos causa a dor.
Porém, se a Pátria amada
For um dia ultrajada,
Lutaremos sem temor !


Ora, não faz muito tempo, um civil (!) pronunciou uma palestra na Confederação Nacional do Comércio sob este título: “Guerra e Paz – uma Doutrina da Guerra”. Estamos nos referindo ao Dr. José Arthur Rios, sociólogo brilhante e que, felizmente, não é adepto do sociologismo.

Da lúcida, elegante, serena e didática palestra do Professor Rios, citamos o trecho abaixo como pequena informação para um leitor mais curioso:

Em Santo Agostinho (354- 430) já se encontra não só a afirmação de que pode haver guerra justa e que é possível, até obrigatório, ao cristão delas participar; mas ainda todos os elementos da guerra legítima já se encontram – embora de forma difusa e dispersa, é verdade, nessa obra enorme. Santo Tomás, a rigor, não inovou, mas deu largo passo ao incluir a guerra como capítulo integrante da moral, versando-a precisamente no tratado sobre a Caridade.


Um apelo cordial.


Este "blog" é um oásis para os amigos; não é uma cadeira onde me sento para fazer meus solitários monólogos.
Por isso, eu ficaria muito contente se meus leitores me enviassem suas opiniões sobre os "posts", sejam elas favoráveis ou não !
Meu e-mail é este:
ruymaiafreitas@bol.com.br


UM ADENDO.

O leitor amigo H... me lembra o seguinte: o livro autobiográfico de Corção (ajudado por Paulo Rodrigues) é:
"Conversa em Sol Menor" , e não em Tom Menor, conforme eu escrevi antes...
Muito grato, amigo H... !



posted by ruy at 2:00 da manhã

24.11.03

 
À margem da edição de um livro.


Ontem enviei a vários leitores deste “blog” a seguinte dica sobre um livro recém editado:

Já está à venda o importante e oportuno livro:
“A Fé Católica – Documentos do Magistério da Igreja”,
de autoria de Justo Collantes - S J, em tradução do espanhol para o português feita por Paulo Rodrigues. A edição do livro foi patrocinada pela Diocese de Anápolis, GO, e pelo Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro. A bonita apresentação gráfica dessa edição deve-se a Abigail Rodrigues, esposa do tradutor.


Ora, quem é Paulo Rodrigues, o tradutor do livro por mim divulgado? Trata-se de um católico arguto que já faz muitos anos se dedica ao estudo e à divulgação da doutrina tradicional da Igreja e dos pensadores fieis à mesma tradição. Neste ponto, um eventual leitor pode me perguntar: o que você quer dizer com estes termos: católico arguto ?
Digo arguto porque ele consegue distinguir, de longe, a enganosa miragem de um foguetório, não a confundindo com uma luz autêntica.

Nos anos finais da passagem de Gustavo Corção por este mundo, Paulo Rodrigues, como fiel amigo do grande pensador, se dispôs a escrever a quatro mãos o que seria a autobiografia do então envelhecido autor de “A Descoberta do Outro”, “Lições de Abismo”, “O Desconcerto do Mundo”, “Dois Amores – Duas Cidades”, e tantos outros livros, incluindo uma biografia de Chesterton escrita à moda do saudoso ensaísta inglês: “Três Alqueires e uma Vaca” . Saiu então o inspirado : “Conversa em Tom Menor” ( o título foi de uma enorme felicidade, uma vez que Corção sempre foi um apreciador de boa música, sendo inclusive fanzérrimo de Mozart).

Em “Conversa em Tom Menor” vemos passar diante de nossos olhos uma existência repleta das experiências enriquecedoras vividas por aquele brilhante engenheiro eletrônico, que poderia ter ficado rico ou, no mínimo, bem instalado na vida se não tivesse se dedicado quase integralmente - depois de sua comovente conversão já em idade madura - ao apostolado do Cristo, Nosso Senhor.

Paulo Rodrigues nesse livro desfaz aquela imagem pequena, muitas vezes injusta, de um Corção polemista e duro, incapaz de ternura e de relações afetivas com as pessoas e com o mundo. Se puderem, leiam “Conversa em Tom Menor” !


Saudade.


Não, amigo leitor, não vou falar sobre uma saudade que tive de alguém ou de alguma coisa. A saudade a que me refiro é a que teve uma senhora muito minha amiga, a qual tomou um avião e foi a uma distante cidade do interior para encontrar-se com outras senhoras que há cinqüenta anos minha amiga não via.

Ao ouvir ela dizer que os cinqüenta anos eram contados a partir da formatura de ginásio da minha amiga e que o encontro era justamente o de todas as colegas de turma (o colégio era apenas feminino), houve alguém que deu um sorriso ligeiramente irônico, como se a pessoa estivesse pensando isto: mas, de ginásio? Gastar um dinheirão de passagem aérea para comemorar 50 anos de formatura ... de ginásio?

Pois é, os juízos apressados sempre são no mínimo inconvenientes. O autor do sorriso ignora muitas coisas.
Não sabe, por exemplo, que aquele velho colégio era administrado por irmãs Vicentinas, no tempo distante em que elas ainda seguiam a orientação tradicional do fundador da ordem e, por isso mesmo, usavam aquele hábito azul cinzento, de saia longa, com mangas compridas e largas, e o característico chapéu branco, enorme, tudo para que ficassem bem parecidas com as antigas camponesas da Normandia, se a memória não me falha.

Não sabe que aquelas freirinhas não tinham grandes estudos, não eram formadas em pedagogia, mas conduziam suas alunas adolescentes com a melhor das pedagogias: a do amor. Ensinavam também a suas meninas uma coisinha que faz muita falta hoje em dia e que se chama: polidez. E como isso faz falta, meu Deus !
As alunas que o desejassem aprendiam a bordar. Isso, que hoje em dia pode parecer piegas e antiquado, faz-me lembrar o que dizia Corção a respeito do conhecimento científico:
- a sabedoria começa pelas pontas dos dedos .

Minha falecida avó, quando minha mulher e eu íamos visitar a ela e ao meu avô, levando nossa filhas pequenas, trazia para a salinha do pequeno apartamento onde os dois moravam : caixinhas, bugigangas, pedaços de brinquedos, coisas desse tipo, e dizia, com sua longa experiência de vida: criança se diverte com qualquer coisa . E era mesmo verdade: minhas filhas nunca se aborreciam com aqueles brinquedos improvisados.

Pois é, acho mesmo que aquelas boas irmãs Vicentinas tinham um pouco dessa psicologia antiga e benfazeja. E talvez por isso mesmo é que minha amiga não se incomodou de fazer aquela despesa com as passagens de avião, nem se preocupou com a longa viagem. Ela foi se encontrar com velhas e gostosas lembranças de um tempo guardado na memória.
Que São Vicente de Paulo acompanhe a minha amiga !




posted by ruy at 12:24 da manhã

 

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