Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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16.11.03

 
Reflexões avulsas.


A Língua. –
Faz uns dois ou três dias, um jovem colega engenheiro me procurou para consultar sobre o seguinte: a palavra “bastante” pode ser usada com o sentido de “muito” e, caso positivo, cabe o uso do plural “bastantes” ? Na hora, respondi ao moço que, no meu entender, o uso da palavra “bastante” como sinônimo de “muito” seria errado; eu não o faria. Além do que, soa mau ao ouvido (pelo menos para mim) o plural, por exemplo : “bastantes crianças foram lá”. Pois é, mas à noite, uma jovem senhora, Doutora em Letras me alertou : o próprio Machado (no capítulo II do Dom Casmurro) escreveu: “ bastantes vezes” . Expliquei isso ao meu colega. Porém, o principal de toda esta história é que – felizmente - existem moços, e na área científico-tecnológica, que ainda se interessam pelo uso correto do nosso idioma ! (que lá no Céu me perdoe o Machado, mas que soa feio “bastantes vezes”, soa mesmo ...)

Vocação universitária.
Corrigir provas, qualquer professor sabe disso, é sempre tarefa das mais penosas. Ora, corrigir provas de um exame vestibular é ainda muitíssimo mais penoso.Por quê? Porque nessa hora vemos de perto o que significa um tremendo equívoco, que é o da vocação errada. Equívoco do candidato à escola do terceiro grau e/ou da família desse pobre rapaz, caso ele tenha sido coagido a prestar o concurso. E o mais curioso é o fato de que, por incrível que possa parecer na época de hoje, há famílias que exercem essa coação ! Seria excelente acabar no Brasil com essa “moda” da universidade.

O nome errado há pelo menos 70 anos.
Correlacionado talvez com o item anterior, está o assunto referente ao nome Ministério da Educação, nome há muitos anos usado de modo errado, causando equívocos prejudiciais ao nosso próprio crescimento como pessoas, isto é, como seres únicos e responsáveis. Deveria ser Ministério do Ensino, ou Ministério da Escolaridade. Podem chamar o Ruy de quixotesco, mas faço deste simples “blog” uma tribuna para conclamar meus amigos leitores e suas respectivas famílias a lutarem pela mudança do nome errado !

Bispos bem pouco “bispos”.
Um fiel leitor amigo, pessoa de uma enorme seriedade e não menor zelo pelo Bem Comum da Igreja, enviou-me a desagradável notícia: o bispo (?) Dom Tomás Balduíno compareceu ao Fantástico para se contrapor publicamente às palavras do Cardeal Trujillo após este, como Presidente do Pontifício Conselho para a Família, ter se colocado frontalmente contra o uso da camisinha (problema ligado, no caso específico, à prevenção da AIDS).
Bem, para mim pelo menos, o erro já começa na ida do bispo ao fantástico programa Fantástico. Um bispo prestigiando um programa escandaloso (nos vários sentidos deste adjetivo) da nossa bem conhecida Rede Globo. Que papelão, Dom Balduíno! Ainda bem que não sou de sua Diocese.

Igreja doméstica.
É normal que a linguagem dos papas seja comedida, grave e serena, bem de acordo com o magno papel que exercem na Igreja e no mundo. Ora, sem fazer nenhum alarde, nosso papa fez um apelo às famílias católicas no sentido de que se considerassem como verdadeiras “igrejas domésticas”. Tal apelo de João Paulo II foi feito muito antes do fato híper-doloroso recém ocorrido em São Paulo, quando um pobre casal de moços perdeu estupidamente a vida no momento em que estavam equivocadamente procurando “vivê-la”. Oxalá, em vez de ouvirem as verbosas palavras dos psicopedagogos e psicólogos que deram seus palpites furados sobre o caso, nossas famílias prestem muito mais atenção ao apelo do papa !

Acomodação ou Santidade ?
Negar a realidade da morte é fuga, burrice ou loucura. Mormente hoje em dia em que a criminalidade se espalhou por todos os lugares, acompanhando o degradante consumo das drogas, este quase inevitável fruto do tédio. E o tédio, por sua vez: conseqüência trágica da perda da Esperança, com E maiúsculo, virtude teologal (qual leitor ainda se lembra de quais são as Virtudes Cardiais e quais as Teologais?).
Bem, e agora, que fazer? Procurar uma vidinha bem acomodada, honesta, tentando preparar um cantinho seguro neste mundo repleto de instabilidade? Podem me chamar de pessimista, de desalmado, o que for. Porém, faço a pergunta: o que devemos buscar neste planeta: acomodação ou santidade? (não peçam, por favor, a resposta a Dom Balduíno e outros “bispos” como ele)

Animais.
Uma das poucas pessoas que me lêem falou-me sobre seu afeto pelos gatos e me pediu opinião sobre o assunto.
Bem, começo dizendo: somos animais racionais; não somos anjos.Vale a pena citar Santo Tomás de Aquino que dizia: a crueldade para com os animais revela a índole má da pessoa que a pratica.
Faz pouco tempo, aqui no prédio onde moro, assinei um abaixo-assinado em favor de uma pobre gatinha maltratada por um morador genioso e mal-humorado.Cada vez que vejo, ao sair do edifício, a velha bichana ruiva me lembro, por exemplo, de um dos capítulos do livro “A Descoberta do Outro”: Onde um gato é um gato . E aí me lembro da silenciosa, quase esquecida, presença do senso-comum, e de como um simples animalzinho pode nos alertar para a maravilhosa realidade do SER.

Bom Domingo para todos! Na missa, rezem pelo Ruy!



posted by ruy at 1:20 da manhã

15.11.03

 
Agora, falando claramente.


No “post” de ontem, em certo instante procurei tomar certo cuidado para falar tão discretamente quanto possível, em respeito à memória de pessoas recém enterradas e ainda mais respeito às famílias enlutadas. Entretanto, ao entrar hoje de manhã na Internet, infelizmente dei com uma lamentável notícia que agora me obriga a retomar o tema de ontem e, desta vez, falando de modo mais claro. Mas, antes de chegar ao ponto principal deste “post” de hoje, preciso transcrever parte do que foi editado ontem, a fim de que o leitor possa rapidamente se recolocar diante do assunto.

[transcrição parcial do “post” de ontem]:

É fato bem sabido que o casamento ao longo dos séculos e praticamente entre todos os povos sempre foi inaugurado com uma cerimônia religiosa. No cristianismo, essa realidade cresce a um elevado nível de significado, constituindo o casamento na Igreja um dos sacramentos, portanto destinado à santificação do homem.

Essa eminente posição do casamento ao nível de um sacramento sempre levou os católicos a terem um cuidado todo especial com a fase que precede a cerimônia, o rito do compromisso definitivo. Havia o tempo do namoro, havia o tempo do noivado. Ora, qualquer leitor atualizado com as notícias dos jornais e da televisão está cansado de saber, por exemplo, que a palavra “namoro” tem hoje em dia em geral um sentido diferente daquele que possuía em outra época. Está cansado de saber que na cultura contemporânea, mesmo nos ambientes supostos católicos, não mais existe o zelo para preservar, entre os casais candidatos ao casamento, uma coisinha que no passado era conhecida como castidade , virtude esta conexa à obediência ao sexto mandamento.

Neste instante é bem comum aparecer um leitor meio irreverente que diga isto: “é Ruy, mas no passado havia mais hipocrisia...” . Retruco: é possível que sim. Entretanto, creio que um certo moralista do século XVIII certa vez escreveu isto: “a hipocrisia é a última homenagem que o vício presta à virtude”.E acrescento em termos talvez mais cristãos que os do tal moralista: em outros tempos se davam os nomes aos bois; virtude era virtude, libidinagem era libidinagem. Ninguém tinha coragem de negar a verdade; não se procurava uma teoria para tentar justificar o erro. E é essa diferença cultural que nos está colocando, a nós modernos, em quilométrica desvantagem em relação aos antigos...

Eu havia pensado em pôr neste “post” uma referência explícita a um híper-doloroso fato ocorrido nestes últimos dias. Porém, deixo à imaginação do leitor, provavelmente bem atualizado com as notícias, o comentário que deixo de fazer, mesmo porque o correto exercício de uma virtude não deve coexistir com o medo de eventuais perigosas conseqüências do não ser ela praticada. A bom entendedor meia palavra basta. [até aqui foi parte do “post”de ontem]

Pois é, procurei ser discreto. Mas, ao olhar hoje de manhã as notícias dadas pela Internet dou de cara com um palavrório de vários falastrões : psicólogos, orientadores sociais, não faltando entre esses “amigos de Jó” uma "coodenadora do Núcleo de Casamento e Família da Pontifícia Unuiversidade Católica de São Paulo" (!). Ao ler as diversas sugestões feitas por essas pessoas, me lembrei de um livro que conheci em minha adolescência, uma obra que foi traduzida em muitas línguas e, sem dúvida alguma, constituiu-se então no que se chama um “best-seller’. Estou pensando no livro de Dale Carnegie: “Como fazer amigos e influenciar pessoas”. O Ruy mesmo, na época, comprou e leu esse livro. Tolices típicas de um adolescente...

Não vou aborrecer o leitor com a transcrição de todos os bondosos conselhos e bem intencionadas sugestões que tive o desprazer de ler na Internet. Vou apenas sintetizar minha opinião sobre o que ali estava registrado dizendo apenas isto :
ainda que seja muito louvável o interesse desses conselheiros em evitar a repetição da tragédia que levou o casal Felipe e Liana, tudo o que aquelas pessoas sugeriram foge ao ponto nuclear do problema, a saber: estamos mesmo, infelizmente, vivendo em uma sociedade secularizada e laicizada, na qual não mais existe o santo temor de Deus, que é o princípio da Sabedoria, com “ S ” maiúsculo. E tudo o que tentar se esconder desta melancólica realidade é papo furado, é conversa mole prá boi dormir.É pura perda de tempo...
Ruy Maia Freitas



posted by ruy at 3:26 da manhã

14.11.03

 
O que permaneceu e o que mudou.


Calar é sempre mais cômodo, mas há momentos em que não conseguimos conter o impulso que vem do mais íntimo de nós, mesmo que fiquemos sujeitos a ouvir o comentário maldoso: “ele está naquela idade em que, não podendo mais dar bons exemplos, dá bons conselhos...”

Por diversas vezes neste “blog” já falamos com entusiasmo sobre a Idade Média, aquela época que os mal informados chamam de “Idade das Trevas”. Também já falamos com certo saudosismo sobre o nosso tempo da mocidade, seja para nos referirmos, por exemplo, ao comportamento típico dos católicos naqueles anos que precederam o Concílio Vaticano II, seja para comentarmos as atitudes dos homens públicos deste país antes de ocorrer a trágica e nefasta decisão política de Getúlio Vargas em 24 de agosto de 1954. Pode muito bem acontecer que um leitor moço deste “blog” me interpele perguntando isto: “você quer insinuar que naquelas referidas épocas os homens eram melhores do que os de hoje?” Vamos responder de modo explicativo.

Quando ampliamos e aprofundamos as lições do nosso primeiro catecismo, uma das verdades que aprendemos sobre o homem é a diferença existente entre a sua “natureza” e o seu “estado”. Aprendemos que o gênero humano depois da Queda se encontra em um “estado” de privação, sem que esse fato elimine a “essencial” nobreza do ser que, na hierarquia da Criação, está colocado logo abaixo dos anjos. Esse estado de carência, de fraqueza, de imperfeição acompanha todos os homens, sem exceção, ao longo dos séculos. Considerando tal circunstância, medievais ou modernos somos todos iguais.

Entretanto, é preciso agora frisar isto: se é verdade que existe uma fundamental igualdade humana, fruto da nossa natureza, se é também verdade que o estado em que nos encontramos também é o mesmo, independente de época ou de região geográfica, não é menos verdade que o comportamento do ser humano é tremendamente variável no espaço e no tempo. E, basicamente, esse comportamento está condicionado pelas nossas envoltórias culturais. Vamos dar um exemplo bem fácil de entender.

É fato bem sabido que o casamento ao longo dos séculos e praticamente entre todos os povos sempre foi inaugurado com uma cerimônia religiosa. No cristianismo, essa realidade cresce a um elevado nível de significado, constituindo o casamento na Igreja um dos sacramentos, portanto destinado à santificação do homem.

Essa sacramental natureza do casamento sempre levou os católicos a terem um zeloso cuidado com a fase que precede a cerimônia, o rito do compromisso definitivo. Havia o tempo do namoro, havia o tempo do noivado. Ora, qualquer leitor atualizado com as notícias dos jornais e da televisão está cansado de saber, por exemplo, que a palavra “namoro” tem hoje em dia em geral um sentido diferente daquele que possuía em outra época. Está cansado de saber que na cultura contemporânea, mesmo nos ambientes supostos católicos, não mais existe o zelo para preservar, entre os casais candidatos ao casamento, uma coisinha que no passado era conhecida como castidade , virtude esta conexa à obediência ao sexto mandamento.

Neste instante é bem comum aparecer um leitor meio irreverente que diga isto: “é Ruy, mas no passado havia mais hipocrisia...” . Retruco: é possível que sim. Entretanto, creio que um certo moralista do século XVIII certa vez escreveu isto: “a hipocrisia é a última homenagem que o vício presta à virtude”.E acrescento em termos talvez mais cristãos que os do tal moralista: em outros tempos se davam os nomes aos bois; virtude era virtude, libidinagem era libidinagem. Ninguém tinha coragem de negar a verdade; não se procurava uma teoria para tentar justificar o erro. E é essa diferença cultural que nos está colocando, a nós modernos, em quilométrica desvantagem em relação aos antigos...

Eu havia pensado em pôr neste “post” uma referência explícita a um híper-doloroso fato ocorrido nestes últimos dias. Porém, deixo à imaginação do leitor, provavelmente bem atualizado com as notícias, o comentário que deixo de fazer, mesmo porque, segundo penso, o correto exercício de uma virtude não deve coexistir com o medo de eventuais perigosas conseqüências do não ser ela praticada. A bom entendedor meia palavra basta.


Um adendo especial.

Este “post” já estava escrito, pronto para ser editado, quando tomei conhecimento das declarações de um bispo que – para mim pelo menos – não é lá muito “Bispo”. A dúvida que eu ainda tinha sobre publicar ou não o “post” deixou de existir no instante em que acabei de ler as palavras do referido eclesiástico.
Ruy Maia Freitas.


posted by ruy at 1:01 da manhã

13.11.03

 
Informações de um setuagenário para os seus leitores moços.


[Com um grande abraço ao amigo A ...]
Se há coisa difícil de fazer neste mundo é dar opinião, é julgar o comportamento de pessoas.Por quê? Porque a menos que conheçamos pessoalmente a pessoa em pauta, corremos um enorme risco de fazer uma análise com certo grau de preconceito, podemos ser injustos.Ora, é bem o caso de três pessoas citadas há poucos dias em certa conversa que ouvi por acaso: Jacques Maritain, Alceu Amoroso Lima e Gustavo Corção.

Dos três citados, só conheci pessoalmente os dois brasileiros. Alceu, ou o Dr.Alceu –como o chamávamos – sempre foi um homem cordial, naturalmente inclinado à simpatia, ao sorriso, ao abraço descontraído,tolerante e bem humorado.
Corção foi do tipo “espanhol”, mais duro, menos maleável. Entretanto, isso não significa que fosse desprovido de ternura, haja vista o famoso romance escrito por ele – premiado em 1954 pela UNESCO – que é o belíssimo : LIÇÕES DE ABISMO. Vale a pena ler esse romance, no qual podemos ressaltar o comovente capítulo : “Os rubis de Burma”. Foi um homem cuja bondade não era fácil de descobrir, mas ela existia.

Alceu não deixou obra – digamos assim – para a posteridade. Seus livros eram como ele: descontraídos e cordiais, faltava-lhes certa profundidade.
Corção deixou excelente bibliografia..Para mim e para outros leitores desse autor, sua obra prima é : DOIS AMORES, DUAS CIDADES. Editado pela AGIR no final da década de 60, é talvez o ensaio histórico mais importante que já se publicou neste país. Vale a pena o esforço de procurar o livro em um sebo.Ali o leitor vai encontrar – muito bem explicado – por que o antropocentrismo é a raiz dos atuais problemas do Ocidente.

Tanto no que se refere a Alceu quanto ao que toca a Corção, creio que seja meio leviano queremos rotular um ou outro com alguma classificação simplista. Ambos foram homens não instalados na vida. No que toca às idéias, fico muito mais ao lado de Corção, sintonizo muito mais com as idéias dele.Acho que o bom Alceu, coitado, se perdeu nos últimos anos de sua vida no que toca à posição por ele assumida perante à onda modernista que surgiu com as idéias do padre Teillard de Chardin.
Corção permaneceu muito mais ortodoxo.Porem, infelizmente não teve sempre perto de si bons amigos que lhe dissessem NÃO a alguns excessos por ele cometidos. O bom amigo é aquele que é capaz de nos dizer NÃO quando é preciso!
Para os moços que não tiveram contacto pessoal com esses dois pensadores é quase impossível saber avalia-los com plena justiça.

Na conversa por mim ouvida, houve certo momento em que alguém disse que Maritain “foi de esquerda antes de converter-se”. Pergunto: foi mesmo ? Quem disse? Quem escreveu isso?
O que sei mesmo é que Maritain criticou duramente as idéias de Teillard de Chardin; chamou-as inclusive de “moeda falsa”. Ora, foram tais idéias que inspiraram os “católicos de esquerda”, tais como: Betinho, Leonardo Boff, “frei” Betto, entre outros.

É difícil no engajamento manter uma posição correta, equilibrada, longe dos extremos, longe e acima dos extremos.
Quem se isola, quem foge ao engajamento, fica menos sujeito ao tombo. Porém, há momentos em que temos que agir. Lembremo-nos do pito que São Paulo passou em São Pedro. Esse fato escandaliza nossos irmãos protestantes, mas um católico bem informado sabe que São Paulo tinha razão e, nem por isso, São Pedro perdeu o Primado.
Reflitamos bem nisso.Não basta termos idéias e crenças certas; muitas vezes temos que tomar atitude. E aí ? Não existem “receitas de bolo” para esses problemas...







posted by ruy at 5:59 da manhã

12.11.03

 
Política é memória.


Já faz muitos anos, quando o Ruy começava a aprender a importância de certos conceitos tais como o de Bem Comum , quando me era ensinada a importância da participação de um cristão, mesmo que indireta, na vida pública – justamente tendo em vista o dito Bem Comum – naqueles anos da mocidade me disseram esta frase de que nunca mais me esqueci: política é memória . Entenda-se: a boa política, aquela desejável em uma sociedade que pretenda ser justa e fraterna, precisa que os cidadãos dessa sociedade nunca se esqueçam dos fatos passados, nunca se esqueçam dos feitos, bons ou maus, de seus homens públicos. Lembro-me, por exemplo, de uma frase usada pelo saudoso Brigadeiro Eduardo Gomes em sua campanha para Presidente: o preço da liberdade é a eterna vigilância . Tenho quase certeza que o Brigadeiro foi buscar aquele aforismo em um belíssimo livro de Chesterton: “The Everlasting Man”. Bons tempos aqueles...

A segunda Guerra Mundial havia terminado. A Rússia Soviética, devido a um tremendo equívoco dos líderes ocidentais, aparecia como heroína da vitória sobre o nazismo. Esquecia-se o fato de que as vitórias iniciais de Hitler foram facilitadas pelo tenebroso pacto da Alemanha nazista com o país que desde 1917 vivia sob a férrea ditadura comunista. Essa absurda exaltação pós-guerra do regime soviético propiciou a legalização do Partido Comunista Brasileiro, que durante vinte anos vivera clandestino. E de repente, o senador Luís Carlos Prestes, eleito pelo PCB, declara na tribuna que, se o Brasil entrasse em guerra com a Rússia, ele ficaria ao lado daquela nação estrangeira! Quem viveu naquele tempo sabe de tudo isso.

Mas, demos um salto até o ano de 1954. Era Presidente do Brasil o velho caudilho Getúlio Vargas, o mesmo que havia sido ditador entre 1930 e 1945. No meu tempo de adolescente, influenciado pela imprensa anti-getulista, me posicionei clara e totalmente contra Getúlio. Somente mais tarde, com o amadurecimento trazido pela experiência que nos traz a idade, comecei a olhar com olhos mais atentos e a perceber certas sutilezas que davam àquela famosa ditadura um feitio sui generis . Era ditadura, sim.Mas, estranhamente, durante aqueles anos sem eleições e sem congresso, houve, por exemplo, seriedade e eficiência na administração pública brasileira. Tivemos ministros íntegros e competentes. Foram estabelecidas leis em favor dos que trabalham. O ensino dado pelas escolas do governo (o mal denominado "ensino público" ) era sério e ombreava sem desdouro com os melhores colégios mantidos pela iniciativa privada (a mal denominada “escola particular”)

Derrubado do poder em 1945, Getúlio voltou como presidente eleito em 1950. Voltava mais velho, mais cansado e cheio de ressentimentos contra todos os que o haviam rejeitado anteriormente.E, como caudilho típico, trazia consigo um homem de sua inteira confiança para chefiar a guarda pessoal do Presidente. Nessa mesma época, o brilhante e corajoso jornalista Carlos Lacerda começou uma campanha pública contra diversas corrupções que estavam acontecendo na administração pública.Tanto barulho fez Lacerda, tanto incomodou os implicados nos cambalachos que atraiu o ódio dos corruptos. Estes pressionaram o tal chefe da guarda pessoal e ele deu partida a uma conspiração criminosa de que resultou o assassinato do major da Aeronáutica Rubem Florentino Vaz e o ferimento de Carlos Lacerda.

Seguiu-se uma rigorosa investigação feita pelos colegas do falecido major, que deixava viúva e quatro filhos pequenos. Nessa investigação apurou-se não só a responsabilidade do homem de confiança de Getúlio como se tornaram públicas inúmeras corrupções alimentadas pelo tráfico de influência manipulado pelo poderoso chefe da guarda pessoal. O Brasil inteiro se posicionou a favor de Lacerda e contra os bandidos que haviam tramado o nefando crime.Jamais ficou provada a participação de Getúlio naquele monstruoso conluio. Entretanto, qualquer leitor sensato concorda que ele indiretamente tinha, pelo menos, alguma parcela de responsabilidade. Que faz o velho político? Em vez de renunciar ao cargo, como seria o esperado, agride sua própria vida e sai do Catete morto.

Já escrevi neste “blog” sobre a normal hierarquia que deve presidir os atos humanos, conforme dizia um velho amigo meu. De acordo com a típica posição vertical do homem: primeiro, lá em cima a cabeça; logo abaixo, o coração; depois, o estômago. E finalmente, o resto.
Ora, para a máxima infelicidade do Brasil, o povo deste país subverteu aquela desejável hierarquia.Tão logo se divulgou pelo rádio a notícia do ato tresloucado cometido por Getúlio, uma enorme multidão de brasileiros virou-se contra Lacerda, esqueceu o covarde assassinato do major Rubem Vaz, não mais se preocupou com a corrupção, não mais se condoeu da dor de uma infeliz viúva mãe de quatro crianças órfãs...

Afirmo agora, com plena convicção: de lá para cá, a maioria dos nossos problemas políticos, meus amigos, decorre - direta ou indiretamente - daquela distante quebra de hierarquia cometida pelo nosso povo, povo emotivo e pouco afeito ao uso habitual da inteligência... E mais uma vez se comprova como o ato de um único homem, para o bem ou para o mal, pode influenciar o comportamento de milhões de pessoas, de imediato, a médio e a longo prazo.
Política é memória.


posted by ruy at 1:33 da manhã

11.11.03

 
O problema fundamental na vida humana.


O título deste “post” é, sem dúvida, meio ou bastante pretensioso. Porém, uma de minhas filhas já me disse isto: “pai, o senhor está numa idade em que pode dizer quase tudo sem se preocupar!” Vou usar, pois esse “direito”.Entretanto, de qualquer forma, cabe-me justificar o que escrevi ali em cima.

Faz mais ou menos uns 45 anos, o Ruy fez um exame vestibular para ingressar em uma escola de nível superior. Terminado o exame, fiquei com certa angústia porque, ainda que tivesse certeza de ter acertado a maior parte das questões, não sabia qual o critério que seria usado na correção das provas. Em certo momento, liguei para um amigo, pessoa bem experiente, e contei-lhe minha preocupação. Seu comentário foi este:
- não se angustie! O principal mesmo é a salvação eterna !

Depois, o mesmo amigo, usando outras palavras mais terra-a-terra, procurou me tranqüilizar. Mas, aquele primeiro comentário dele veio como um inesperado jato de água fria sobre mim.
Hoje, passados muitos anos, tendo já visto muita coisa nesta vida, acredito que valha a pena fazer uma digressão partindo daquela conversa telefônica, em especial, das palavras iniciais do meu amigo.

Acredito piamente que vários eventuais leitores, ao lerem o que contei, vão dizer isto: “o amigo do Ruy tinha mesmo razão!” Pois é, acontece, meus amigos, que eu nunca disse que ele tinha faltado à verdade quando afirmou aquilo sobre a salvação eterna. O que ele me disse – no que se refere ao valor de uma alma humana – é absolutamente correto. Entretanto...

Há muitos católicos – e vou falar nos católicos porque sou um deles e acho que conheço bem o meu povo – que sempre o foram, desde meninos, sem maiores problemas que não fossem aqueles típicos da adolescência, que é quando ocorre, conforme escreveu um dos homens mais inteligentes que já houve no Brasil : “um desencontro trágico com as funções que geram a vida”.

Educados desde pequenos por pais católicos, em vários casos com verdadeiros exemplos de piedade autêntica, esses católicos – moços e moças – crescem sem que lhes ocorram traumas na fé. Ingressam como adultos no mundo sem que nunca lhes tivesse acontecido algum tipo de angústia quanto ao fato imediato, intuitivo da existência . Para eles, tudo é “naturalmente natural”.Os próprios artigos da fé católica – aquilo que aprendemos no catecismo – ainda que tivessem sido corretamente apresentados como mistérios, são assimilados de modo sereno, sem que lhes fuja o sono em meditações noturnas, em incômodas insônias.Mais ainda, talvez nunca façam, em uma eventual e desconfortável solidão, uma pergunta semelhante àquela feita por São Judas Tadeu: “Senhor, por que sou católico? por que nasci eu em uma família católica ?”

Ora, para desejar de modo perfeito a própria salvação eterna, acho que cada um de nós –mormente nós católicos- precisa, nuclearmente, contemplar, de repente, o maravilhoso mistério da vida, precisa estar alegre com a própria vida, sem adjetivos. Não me refiro àquele sentimento de generalizada euforia que ocorre quando nossas funções biológicas funcionam certinhas, bem comportadas. Nem me refiro também àquela sensação eufórica que sentimos quando nossos projetos estão indo de vento em popa.Trata-se, sim, de uma outra alegria, aquela que, conforme registra a fina observação de Chesterton, é rara e difícil de ser encontrada, e tão trabalhosa quanto a agricultura . É uma alegria que precisa do uso habitual da inteligência. A palavra foi posta de propósito em itálico para lembrar ao leitor distraído que não se trata de um “hábito” mecânico. É, sim, o uso que deveria ser treinado na escola secundária, conforme muito bem nos ensina o mestre Mortimer Jerome Adler.

Ora, já faz dezenas e dezenas de anos que nossos adolescentes – infelizmente - vêm é mesmo sendo adestrados para passar no vestibular da universidade; apenas estimulados para serem “vencedores na vida”. Passam pela escola do segundo grau sem nunca terem sido sequer alertados para o sentimento da verdadeira alegria.
É uma pena, uma enorme pena...


posted by ruy at 1:43 da manhã

10.11.03

 
Comentário de um Físico.


Comentando meu “post” do dia 8, meu amigo E.W. enviou-me uma cordial mensagem da qual transcrevo o trecho abaixo copiado. Para os que não sabem, o sacerdote a quem E.W. se refere com tristeza (e faço companhia ao amigo nessa tristeza) é o padre Teillard de Chardin, cujas mirabolantes fantasias sobre um tal “mundo melhor” deram nascimento aos “católicos de Esquerda”, tais como: o famoso Betinho, o Leonardo Boff e o renitente “frei” Betto, assessor do atual governo.
E muito obrigado, amigo E.W. , pelo seu fraterno apoio!

O mito do progresso (sem pé e sem cabeça... progresso para onde? para quê?)
encontra na sua frente a inexpugnável barreira da segunda lei da
termodinâmica (jamais violada em qualquer experimento físico), um pedaço da
física do século XIX que resistiu até mesmo às revisões relativística e
quântica das leis da natureza.

É verdade que existem alguns cientistas e pensadores imbuídos de péssima
metafísica (materialista-panteísta ou gnóstica) que propuseram soluções
mirabolantes para salvar o mito do progresso infinito (sem fim e sem um
fim), como a idéia de um ponto ômega (imagino que saiba quem foi o autor
dessa sandice, certo padre jesuíta francês que influenciou de modo marcante,
e trágico, o Vaticano II e o que veio depois) ou a idéia de que existem
infinitos "Universos paralelos", ou níveis de realidade, para serem
explorados ou que nunca conseguiremos explorar (e, pergunto mais uma vez:
explorar por quê? para quê?). Não preciso dizer que a ciência séria, fundada
nos experimentos, na realidade, não dá o mínimo suporte a essas especulações
absurdas e ridículas.

O caminho delineado pelo Papa Pio XII é bem diferente desta loucura que
deseja transformar o Universo visível numa espécie de Éden à medida do
homem, manipulando a natureza contra a própria natureza, culminando no
niilismo que é a imagem do mundo como uma imensa máquina, um imenso
computador, onde somos apenas meras simulações.

Deus nos livre deste pesadelo. “Feciste nos ad Te, et inquietum est cor nostrum donec requiescat in Te”. (Santo Agostinho).


[Mais uma vez, obrigado E. W. ]


Antigamente...


Me desculpem a melancolia deste item, mas algumas mensagens, recebidas pelo Ruy neste fim de semana, me obrigaram a ser saudosista por alguns minutos...

Antigamente, um católico medianamente instruído sobre sua religião tinha razoáveis conhecimentos de apologética; não se deixava enrolar por expertos provocadores.
Antigamente, o ser católico era quase como um atestado de respeito ao bom uso da inteligência; significava ser alguém em que o sentimento e a opinião se mantinham sempre disciplinados, sem ultrapassarem suas legítimas esferas.
Antigamente, um católico sabia perceber sutis diferenças, tais como a existente entre alguém ser simpático, agradável, educado, e o ser bom , de uma bondade que venha lá de dentro, radicada em convicções profundas (como aquela que o insuspeito André Gide viu no rosto duro de uma freira Vicentina).
Antigamente...


posted by ruy at 2:28 da manhã

 

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