Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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9.11.03

 
O “post” de hoje poderia ser chamado assim : gracinhas de crianças e de gente grande.

Mais uma pérola...


Deu na Internet e nos jornais; não sei se também na televisão, porém, a mais recente pérola do “homem” foi esta : “Tão limpo que nem parece a África”. Mesmo descontando a tremenda grosseria do comentário, feito publicamente na região por ele visitada, há um importante detalhe, conexo ao que foi expresso na frase infeliz, que precisa ser lembrado e divulgado. Mas, antes, vamos ver a notícia na Internet.

[Copiado da Internet:
WINDHOEK, Namíbia (Reuters) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi infeliz nesta sexta-feira ao elogiar a Namíbia em comparação a outros países da África. Ele disse ter ficado surpreso de encontrar uma cidade limpa e bonita num país africano. ]

Faz mais ou menos uns 30 anos, o Ruy ouviu, por acaso, de um certo respeitável jurista brasileiro um depoimento sobre viagem feita por ele às antigas colônias portuguesas na África. Segundo o referido professor contava a seus ouvintes, aquelas colônias, antes de se tornarem independentes, eram um brinco de limpeza e organização. Aquela beleza, aquele cenário civilizado começaram a desaparecer a partir do instante em que lá chegou a subversão comunista plantada pela propaganda e pela espionagem soviética.

Uma curiosidade minha: este fato é ignorado pelo nosso “homem”, ou ele finge que não sabe ?


Lição bem aprendida em casa !


Bárbara, menina de seus 5 ou 6 anos, muito experta, foi matriculada por seus pais em um curso de pré-alfabetização.O pai da garotinha é motorista de VAN, ganha a vida transportando pessoas em uma cidade grande.
Certo dia, estava uma das professoras da referida escola explicando às crianças os problemas do trânsito e os cuidados que todas deveriam ter nas ruas. Lá por umas tantas, a mestra pergunta aos pequenos discípulos:
- Vocês sabem por que devemos usar o cinto de segurança quando estivermos dentro de um carro ?
Imediatamente a Bárbara levanta o dedinho e diz em voz alta : “eu sei !”
- Então, por quê , Bárbara ?
E a rápida resposta : “porque, se não, o guarda multa! ”


Subversão precoce.


Certo amigo meu tem um filho único, o Miguel, garoto de 6 anos, com ótima saúde e conseqüente elétrica vivacidade. Além disso, sua inteligência rápida acompanha bem de perto seu bom desempenho físico.

Como o meu amigo mora longe do trabalho e passa o dia inteiro no serviço, o controle do Miguel é feito quase exclusivamente pela mãe, a qual não mede esforços para manter o inquieto primogênito sob uma carinhosa porém firme disciplina. Quando meu amigo chega em casa, o filho se aproveita para fazer muito do que durante outras horas é rigorosamente proibido de fazer.

Faz alguns dias, estando a família dos três reunida no jantar, o “jovem” Miguel fez aos pais a seguinte proposta:
- “não dá prá gente mudar e meu pai assumir a chefia da casa ?”
[bem sutil!]


posted by ruy at 1:29 da manhã

8.11.03

 

Uma esquecida realidade da natureza.


[Com um fraterno abraço ao meu amigo E. W. ]

No meu “post” de ontem fiz referência ao infeliz comentário de um engenheiro que certamente não é comunista, porém, talvez por ter certa prevenção contra os Estados Unidos, deixou escapar aquela frase infeliz em que falava sobre a impressionante taxa de crescimento da China, como se esse fato fosse, digamos assim, um “castigo” para as maldades que o Tio Sam vem fazendo nos últimos anos.

Pois é, se considerarmos o tal espantoso crescimento da China como “castigo”, este será não apenas contra os EUA, mas, sim, contra todo o Ocidente que, há pelo menos uns três séculos, adotou um estilo geral de vida a que o economista E. F. Schumacher denominou com muita perspicácia: “a louca disparada prá frente” (no livro: “ Small is Beautiful”, traduzido no Brasil sob o título : “O Negócio é ser Pequeno” – vale a pena comprar esse livro em um sebo!)

Ao aderir a esse alucinado desenvolvimentismo, os dirigentes comunistas adotaram mais um mau costume nosso, de nós Ocidentais. Já haviam adotado as idéias do Dr. Karl Marx e os métodos do Sr Stalin, ambos do lado de cá do planeta.

Ora, infensos à religião, inimigos figadais do cristianismo, já que esta doutrina prega a Esperança em um mundo melhor na Eternidade, contrapondo-se, pois, à filosofia que inspira a rígida ditadura ali reinante, segundo a qual o homem precisa apenas da sobrevivência biológica – os empedernidos burocratas que há muitos anos conduzem a China jamais pensariam em ler um documento escrito pelo muito saudoso (para mim pelo menos) papa Pio XII em novembro de 1951, portanto: há 52 anos.

Esse documento é um discurso de Eugênio Paccelli, Pio XII, dirigido à Academia Pontifícia de Ciências, e aborda, de modo não só preciso como elegante, “ as provas da existência de Deus à luz da ciência atual da natureza ”. Não vou citar aqui todos os muitos itens do impressionante texto. Vou ater-me a um deles, aquele em que o papa se refere a uma lei da natureza estabelecida no século XIX pelo físico alemão RUDOLPHE CLAUSIUS e ligada às transformações termodinâmicas .

Segundo essa lei equacionada por Clausius, o Universo, submetido ao que é chamado “uma entropia, uma desordem crescente”, tende à morte térmica. Em outras palavras, nossos mais distantes descendentes não mais terão energia alguma disponível para que possam sobreviver. É um processo irreversível, a longuíssimo prazo, é verdade, mas irreversível. A energia do Universo não é inesgotável.

Ao falar sobre isso, Pio XII não pretendia amedrontar os cientistas que o escutavam, nem aos não cientistas que certamente iriam ficar sabendo do seu discurso. Com a serenidade de intelectual bem informado, como foi aquele papa, e com sua responsabilidade de Pontífice – o homem que arma a ponte – Eugênio Paccelli aproveitou, sim, o ensejo para nos lembrar isto: paradoxalmente, esse destino melancólico do mundo visível postula eloqüentemente a existência de um Ser necessário.

Foi como se Pio XII tivesse dito aos cientistas ali presentes:
- digam aos demais homens : gente, parem com a correria e pensem na Eternidade! Pensem no Senhor Deus !

Infelizmente, há muito tempo não mais existe uma Cristandade. Em conseqüência, a palavra dos papas permanece entre os homens apenas enquanto dura o papel do jornal diário ou enquanto é escutado o rápido noticiário da televisão.


posted by ruy at 1:14 da manhã

7.11.03

 
O problema dos Estados Unidos .


Este talvez seja o “post” mais difícil que já me propus a escrever neste “blog”. Mas, vou tentar chegar ao fim !

Hoje de manhã, ao participar de uma penosa reunião no trabalho, de repente, ao fazer uma referência “en-passant” àquela memorável palestra que Soljenitsin proferiu em Harvard na década de 70, fui surpreendido pelo comentário de um dos outros engenheiros. Eu havia acabado de citar o trecho em que o grande romancista russo, exilado de sua pátria pelo regime comunista, diz com total franqueza aos americanos que o escutavam :

- venho de um país onde a rigor não existe lei, e isso é terrível. Porém, os senhores têm um outro problema não menos preocupante, qual seja: a hiper-valorização da lei escrita, da chamada Lei Positiva, com esquecimento do seu desejável fundamento, que deve ser a Lei Natural .

[estou citando de memória; é bem possível que as exatas palavras de Soljenitsin não tenham sido exatamente estas. Mas, o espírito é o mesmo]

Ora, mal acabei de citar, um colega me diz o seguinte: pois é, por causa disso é que a China está crescendo 7% ao ano e vai acabar ultrapassando os EE UU; os chineses não estão muito preocupados com essas minúcias da lei!

Fiquei siderado. Ali, diante de mim, estava um típico exemplo de aplicação do antigo aforismo : “ouviu cantar o galo, mas não sabe onde...” O engenheiro que fez o comentário infeliz percebeu minha decepção. Perguntou até se eu tinha ficado aborrecido com ele. Abstive-me de retrucar. Fica difícil nessas ocasiões, sem prejuízo dos objetivos da reunião, tentar explicar aos menos informados as sutilezas de um tema alheio ao nosso assunto. O colega apressou-se a acrescentar que não era a favor do comunismo, porém, mesmo sendo isso verdade, ele já havia – como se como se costuma dizer – pisado na bola...

Bem, estou fazendo esta “introdução” para alertar o leitor sobre o seguinte fato: até pessoas de razoável nível de escolaridade e dotados de média cultura não conseguem fazer sobre o aquele grande país do Hemisfério Norte uma análise onde estejam ausentes o preconceito e/ou o lugar-comum. Ou pior: muitas vezes uma análise que não tenha, subconsciente, um mesquinho sentimento de inveja. Por isso, o título deste “post” a rigor deveria ser: “o problema de fazer um juízo correto sobre os Estados Unidos ”.

Por diversas vezes neste “blog” tenho falado sobre a necessidade de nos conectarmos ao passado, de buscarmos no passado remoto as origens dos atuais problemas políticos do mundo moderno. Acredito que a presença dos Estados Unidos na política internacional envolva um mistério que fica acima da compreensão até mesmo da maior parte da classe política que dirige aquele país desde o século XVIII. Um mistério ligado ao espantoso respeito que Deus tem pela liberdade humana, portanto: um mistério essencialmente religioso. Ora, como esperar que a maioria das pessoas do Ocidente entendam isso se, em todos os países deste lado do planeta, há vários séculos estamos vivendo imersos em um declarado secularismo, em um sombrio laicismo ? Mais uma vez repito: desde o final do século XIV vimos todos vivendo em um crescente antropocentrismo e, nos séculos mais recentes, numa “louca disparada prá frente”, conforme escreveu E.F. Schumacher em seu livro : “Small is Beautiful”.

A civilização americana tem um feitio bem característico: tem enormes defeitos e vícios e não menores qualidades e virtudes. Ocorre que os defeitos e vícios são bem conhecidos, e até copiados farisaicamente por outros povos que os criticam, por exemplo: a prática exagerada dos diversos tipos de esportes (aliás, a palavra “sport” é tipicamente anglo-saxônica). Essa prática já era duramente criticada por Leon Bloy no final do século XIX(dizia ele que o único esporte de seu agrado era desancar, por exemplo, os burgueses). Contam os bem informados que o teatro do “strip-tease” foi de fato criado nos EUA, e não na França, conforme sempre disseram as más línguas.

Entretanto, pergunto: quem conhece, quem comenta, por exemplo, a brilhante, a nobre cultura realmente universitária que existe nos tradicionais centros de estudos e pesquisas daquele país ? Quem, por exemplo, sabe que o ensino formal de engenharia nos Estados Unidos começou no século XIX e dentro da Academia Militar de West Point, em época que aquele país nem sonhava que um dia seria a grande potência científico-tecnológica do mundo ? Quem sabe, por exemplo, que o sábio pensador Mortimer Jerome Adler recebeu em sua pátria o honroso título de PhD apesar de não ter sequer o diploma de segundo grau? Quem está a par de que na Califórnia existe um belo colégio católico chamado Saint Thomas que já tem previsto para o verão de 2004 um curso baseado na leitura e discussão dos “ Great Books” da civilização Ocidental ? Hoje para nós, o nome Califórnia lembra apenas o feioso governador recém eleito naquele Estado americano.

E agora, indo para o terreno da política internacional: quem se lembra que por duas vezes os Estados Unidos socorreram a Europa, impedindo que seus países ficassem sujeitos a regimes tirânicos? Não foi culpa dos americanos, por exemplo, o pacto germânico-soviético que ajudou a Alemanha de Hitler a conquistar a Polônia e logo em seguida a França.

Sintetizando: é ingênua pretensão querermos rotular os Estados Unidos de modo simplista, esquecendo-nos – conforme disse acima – que existe um mistério histórico ligado àquele grande país do Norte. Um mistério infinitamente maior que a pequenez dos Carters, dos Clintons, dos Bushes (pai e filho). Só Deus sabe o real significado do papel daquele país no drama da humanidade. Mas, quem entre os homens que governam os países do Ocidente - aí incluídos os próprios presidentes americanos - acredita realmente na existência de um Deus Pessoal, um Deus que nos ama, que se interessa pelo ser humano a tal ponto que se encarnou e viveu entre nós ?


posted by ruy at 1:18 da manhã

6.11.03

 
Algumas reflexões avulsas.


Quase como um desabafo do Ruy, aqui vão:

- Amar é QUERER o bem do outro, isto é: desejar o bem para o outro. Fiz questão de colocar a palavra “querer” em caixa alta para nos lembrarmos de que o amor verdadeiro (e não o das revistas ilustradas e dos programas da TV ) reside muito mais na vontade , e não na sensibilidade, ainda que venha acompanhado do sentimento (afinal de contas, não somos anjos; somos seres humanos). André Frossard, em seu pequeno grande livro “Deus em Questões” diz que a mulher entende do assunto melhor que o homem, já que, em geral, nós, os barbados, buscamos saber por que viver, enquanto as mulheres procuram saber por quem viver.

- Ser cristão é um “fato ontológico”, obviamente causado pela Graça de Deus.Porém, ser católico, ainda que tenha sido também um chamado adicional, é sobretudo uma arte . É saber conservar sempre presente em nossa lembrança o riquíssimo e multissecular patrimônio cultural que nos foi entregue e, ao mesmo tempo, lembrando aquilo que Murilo Mendes disse em “termos exatos” : evitarmos ser chatos, “bore catholics” !

- No próximo dia 27 deste mês de novembro vai ocorrer mais um aniversário de um trágico fato histórico ocorrido neste país em 1935. Há sessenta e oito anos, um grupo de apaixonados por uma IDÉIA tentou tomar o Poder pela força, cometendo, para chegar a esse objetivo, enormes violências e vilanias. Essa idéia é a mesma que fez nascer na Rússia certo regime político que esperou 70 anos para ouvir, de um de seus ditadores, ao entrar em uma fábrica de seu país, esta patética pergunta: por que a geladeira russa é de tão má qualidade ? .É essa mesma idéia que já fez morrerem no mar do Caribe centenas de homens, mulheres e crianças fugitivos de um triste “colégio interno” que já dura mais de 40 anos...

- Faz poucos dias enviei a um velho amigo – pessoa muito inteligente e bem preocupada com a situação de nosso país – uma longa carta em que procurei mostrar a origem histórica dos atuais problemas, nossos sem dúvida, porém não desligados dos problemas do resto do mundo. Meu amigo, ao me responder, de modo fidalgo, disse que preferia não se ligar demais ao passado; preferia olhar o “hoje”.
De fato, mesmo entre as melhores pessoas vão ficando raros os que percebem a importância e a necessidade dessa conexão com o passado. É uma pena, uma grande pena...

- [Esta não é minha; é do meu compadre e grande amigo D...; mas eu assino embaixo].
“A verdadeira Universidade no Brasil está fora das universidades”.

- Certa vez vinha o Ruy viajando em uma longa e cansativa travessia Atlântica quando, em certo momento, conversando com o Imediato do navio, este fez o seguinte comentário:

o mar ensina a gente a ser paciente.

Ora, todos nós deveríamos lembrar-nos de que nossa vida é um lento navegar no profundo mar da Eternidade. Deveríamos, sobretudo, confiar no Piloto, silencioso e atento, Aquele que conhece muito bem o porto do nosso destino final.


Uma dúvida bem pragmática.


Durante um bom tempo, conversando “eletronicamente” com vários leitores deste “blog”, pude perceber que muitas angústias minhas são as mesmas que os incomodam. Uma delas é o infeliz desvio de muitos de nossos bispos daquilo que deveria ser sua preocupação fundamental: a santificação das ovelhas do rebanho a eles confiado.Aliás, é bom lembrar que a palavra bispo significa : “guardião” (do grego: “epíscopus”). Vamos ao “finalmente”. Minha dúvida é a seguinte:
- como fazer chegar aos senhores bispos o nosso angustiado balido ?

Pode ser que a idade esteja me tornando cada vez mais ranzinza; mas gostaria muito que meus leitores me dessem uma boa resposta a esta pergunta ! Uma resposta bem prática ! Por favor !



posted by ruy at 1:17 da manhã

5.11.03

 
João Paulo II .


Faz uns dois ou três dias, uma senhora muito minha amiga, em conversa comigo – já não me lembro bem o assunto – de repente, batendo palmas e rindo de modo brejeiro, fez esta observação:

Estou percebendo que o pessoal dessa tal CNBB, esses enjoados bispos brasileiros estão agourando o papa; parece que estão doidos para que ele morra ! Eu queria ver agora Deus fazer um milagre e, de repente, o papa ficar novinho em folha, saltando de saúde com a sua “bengalinha” [minha amiga se referia ao báculo] , só para deixar esse pessoal desapontado !

Minha amiga é uma pessoa simples, espontânea, sem profundos conhecimentos sobre assuntos religiosos. Porém, tem um senso de observação apurado, tem boa intuição feminina e, sobretudo, tem o coração bem formado, provavelmente fruto de uma infância feliz. Ela já pôde perceber, nas entrelinhas das notícias, aquilo que infelizmente é verdade, a saber: muitos eclesiásticos parecem estar mesmo assanhados, desejando que venha rápido um outro papa, talvez um do tipo de reformador social, (quem sabe um latino-americano?), um construtor do chamado “mundo melhor”, um que não faça tantas exigências quanto aos preceitos da moral, exigências – segundo eles pensam - não sintonizadas com a modernidade...

Bem, talvez Deus não faça mesmo aquele milagre tão desejado por minha dileta amiga. Mas, de qualquer forma, como até mesmo muitos homens não-católicos porém inteligentes e cheios de grandeza humana já notaram, João Paulo II já deixou sua mensagem para os pósteros. Uma mensagem fiel à Eternidade. E isso é o que conta. Porque para ela, para a Eternidade, é que nós fomos criados.
Que Deus proteja e conserve nosso Papa !


Um caso contado por “seu” António.


“Seu” Antonio, hoje motorista de táxi, já faz muitos anos trabalhou como vendedor na antiga loja Ultralar, hoje extinta. Ali se vendiam os vários tipos de eletrodomésticos: fogões, geladeiras, ventiladores, rádios, enceradeiras etc.
Ora, entre os muitos clientes da loja havia um enorme conjunto de pessoas residentes em um bairro pobre e distante, com ruas denominadas por letras do alfabeto e com a maior parte das casas sem numeração...

Ora, quando um desses humildes compradores estava para fechar negócio com “seu” António, era comum ele perguntar: “ ‘seu’ José, qual é o número de sua casa para que o motorista do caminhão possa entregar a geladeira ?” Vinha a resposta típica : “não tem número, não.O senhor diz prá ele procurar na rua B a casa do Zézinho da farmácia !”

Bem, aí “seu” Antonio rapidamente “determinava” : “pois bem, ‘seu’ José, hoje, logo que o senhor chegar em casa, pinte na porta o número 50; de agora em diante vai ser o número dela !”
E desse modo, “seu” António numerou as casas de um bairro pobre inteiro!

Explicação dele: “em cada geladeira ou fogão que eu vendesse, ganhava comissão. Se o caminhão voltasse sem a entrega feita, eu perdia dinheiro !”


Pedido ao meu anjo da Guarda.


- Não deixe que minha sensibilidade seja exageradamente sensível ! Faça que na minha memória surjam sempre imagens bem humoradas ! Amen !



posted by ruy at 1:36 da manhã

4.11.03

 


A Língua.


Faz uns dez anos, o saudoso professor Gladstone Chaves de Melo, ao proferir certa palestra na Confederação do Comércio, fez referência à seguinte reflexão de Olavo Bilac citada pelo escritor Barbosa Lima Sobrinho no livro “A língua portuguesa e a unidade do Brasil ” :

A pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos; é o idioma , criado ou herdado pelo povo.
Um povo só começa a perder a sua independência, a sua dignidade, a sua existência autônoma, quando começa a perder o amor ao idioma natal. A morte de uma nação começa sempre pelo apodrecimento de sua língua.


No que toca especificamente ao Brasil, não vai nenhum exagero na reflexão de Bilac. Note-se, por exemplo, o tamanho minúsculo da Bélgica com seus três idiomas, cada um correspondendo a uma etnia, contrastando com a imensidão do nosso país, ligado efetivamente de Norte a Sul, de Leste a Oeste, por uma única língua. Ruy já esteve nesses quatro extremos, a passeio ou em atividade profissional; nunca houve sequer um caso de dificuldade de entendimento com as pessoas com quem eu dialogava. O sotaque de certas regiões, a existência de um certo conjunto de substantivos, adjetivos e verbos diferentes para designar um mesmo objeto, uma mesma qualidade, uma mesma ação, nada disso me impediu estabelecer comunicação com meus irmãos brasileiros nos lugares mais distantes.

O fato é que a língua é um dos nossos mais preciosos patrimônios e, como tal, deveria ter o nosso maior apreço. Mas..., como esperar que nossas crianças e nossos adolescentes tenham essa inclinação afetiva para o idioma pátrio quando nossa maior autoridade costuma dizer em público pérolas semelhantes a esta : Eu nomeio e desnomeio quem eu quiser ! ?


A Verdade.


No capítulo 8 do evangelho de São João, no mesmo capítulo onde nos é contada a dramática passagem da mulher adúltera, o Senhor Jesus nos diz claramente:

A verdade vos libertará.

Ele não disse: “a verdade vos fará ricos”, ou “a verdade vos fará poderosos”, ou “vos dará prestígio”, ou “vos dará conforto e segurança”, ou “ vos fará simpáticos às demais pessoas”, ou “vos impedirá de ficar presos sob regimes políticos injustos e prepotentes”.
A liberdade que o Senhor nos promete é essencialmente a liberdade com que ele nos criou, ou seja : ela manifestada em sua plenitude original, que existia antes da Queda.

Ora, o magno problema hoje em dia é justamente este: inebriados por tantas realizações assombrosas da ciência e da tecnologia, muitos de nós modernos damos sorrisos de superioridade satisfeita consigo mesma quando alguém nos fala em coisas tais como: a Queda, o Pecado Original, o Inferno, a Encarnação do Verbo, a Virgindade fecunda de uma certa humilde mulher judia, a Ressurreição de um Rei que não quis ficar visível no mundo para impor seu Reino à força, os Sacramentos e outras realidades não cartesianas como estas.

A verdade incomoda...


posted by ruy at 2:14 da manhã

3.11.03

 
Uma necessária hierarquia.


A palavra hierarquia é uma das palavras infelizes de nosso idioma. Por quê ?
Porque, se a pronunciarmos ou escrevermos fora de um ambiente militar, provavelmente a maioria das pessoas que a ouvirem ou lerem vão torcer o nariz, talvez comentando aborrecidas: isso de hierarquia é coisa de “milico”, é sobra da ditadura militar...
Ora, essa reação me parece meio ou bastante infantil. A pessoa que tem esse preconceito contra a hierarquia em geral talvez nunca tenha refletido seriamente sobre o sentido e, mais que o sentido, sobre a importância da hierarquia.Mas, sossegue o leitor infenso às coisas militares, vou falar sobre outro assunto.

Quando se é católico bem informado sobre a doutrina, sobre a tradição, sobre o rico e multissecular patrimônio cultural da Igreja, é normal que a pessoa tenha um certo orgulho, no bom sentido desta palavra, a saber : a alegria confiante e altiva de estar do lado da verdade. Até aqui, menos mal, ainda que seja sempre oportuno lembrarmos que aquele bem imenso possuído por nós católicos foi-nos entregue pela Graça de Deus.

Toda divisão esquemática que não seja armada na área das chamadas “ciências exatas” é sempre perigosa. Porém, correndo esse risco, o Ruy dirá que na vida temos dois grandes bens sempre colocados diante de nós católicos: nosso cabedal de idéias e crenças, e as pessoas com quem convivemos diariamente, a começar pelas que estão mais próximas de nós. Ora, aí é que se torna necessária uma “hierarquia”, não uma hierarquia no sentido absoluto, mas uma que se refere à nossa conduta, ou melhor dizendo: ao nosso agir .E dentro dessa hierarquia, a lei máxima é a da Caridade, que é uma virtude ligada à vontade, e não à inteligência.

Demos um exemplo bem prático.Sabemos que o homossexualismo é um pecado gravíssimo contra a Lei Natural, aquela que Deus colocou no coração do homem quando o criou. Saber disso faz parte do nosso patrimônio de idéias. Pois bem, pergunto: o fato de estarmos cientes, convictos do erro superinfeliz cometido pelos homossexuais dá a nós algum direito de agredi-los com palavras ou, pior, fisicamente ?

Agora um exemplo menos complicado, bem mais terra-a-terra. Acabamos de conhecer uma pessoa que goza de um certo prestígio, por exemplo. Muito bem, o que nos interessa saber em primeiro lugar sobre essa pessoa: o quanto ela tem de idéias brilhantes ou o quanto ela realmente possui de bondade ? Note leitor: não falei em simpatia ; falei em bondade .


Em uma igreja.


Ele entrou. A igreja estava quase repleta. Mas, apesar disso, havia um total silêncio. Quando alguém chegava de repente e precisava falar a uma pessoa que já estava sentada, perguntando, por exemplo, se um certo lugar já estava ocupado, a pergunta era feita em voz bem baixa, quase sussurrando. A maioria dos presentes se limitava a esperar, com paciência, o início da missa; alguns rezavam discretamente o “terço”, que continuou a ser chamado assim apesar do acréscimo dos Mistérios da Luz. Não se via ninguém de bermuda, nem de camisetas marcadas com dizeres piedosos ou de outro tipo.

O padre entrou, aproximou-se do altar acompanhado de um único leigo e logo começou a celebração em voz firme e serena, pronunciando de modo claro as palavras do missal. Os fieis só respondiam às orações quando a rubrica da liturgia assim indicava.
A homilia foi proferida abordando o sentido das leituras da missa, feitas por um leigo de boa pronúncia e sem afetação, menos a leitura do evangelho, que foi lido de modo bem calmo pelo padre.Podia-se notar na atitude do celebrante que ele era alguém profundamente ligado ao mistério religioso existente nos textos lidos, alguém que vivia tudo aquilo sobre que falava aos assistentes.

No momento das palavras : “saudai-vos uns aos outros em Cristo”, as saudações foram rápidas, discretas, limitando-se ao vizinho mais próximo no banco em que a pessoa estava sentada.

Na hora da comunhão, ouviu-se um cântico reverente à Eucaristia, cantado por um coro de poucas pessoas, ao som de um órgão tocado sem exagero algum no volume. Terminada a missa, as pessoas saíam em silêncio; se alguém encontrava um amigo ou conhecido, falava com ele em tom de voz baixa, com um sorriso simples e sem alarde.

Daí, acordei...


posted by ruy at 2:03 da manhã

 

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