Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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2.11.03

 
Um contraste bem melancólico.


Em seu delicado e inteligente “blog” Asa de Borboleta, a professora Assunção Medeiros acaba de postar algumas oportunas considerações sobre o verdadeiro amor que deve existir em um casal, entre um homem e uma mulher que desejam realizar um casamento autêntico, e não “uma aventura para ver que bicho vai dar”.
Para melhor ilustrar suas idéias, a professora apresenta o belíssimo, o clássico soneto de Elizabeth Barrett Browning : How do I love thee ? , que faz parte do livro daquela poetisa inglesa : Sonnets from the portuguese . E, logo em seguida, Assunção Medeiros nos brinda com uma ótima tradução que fez do mesmo soneto para o português, tradução que ela modestamente classifica como: “canhestra” !
(para quem não sabe: Elizabeth Barrett Browning foi casada com o grande poeta Robert Browning, o qual mereceu uma biografia escrita por Chesterton.

Pois é, enquanto uma simples pessoa leiga, isto é, não religiosa “stricto sensu”, discretamente, porém com enorme sensatez, discorre sobre coisas essenciais, coisas sobre as quais deveríamos todos estar refletindo, mormente nós católicos, veja o amigo leitor – e pasme com o contraste melancólico - os assuntos com os quais nossos bispos da CNBB andam mais preocupados (transcrito da Internet) :

BRASÍLIA - O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Geraldo Majella Agnelo, usou o mesmo tom do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que classificou como covardes seus antecessores por não promoverem as reformas necessárias, ao dizer que o Governo prioriza questões econômicas em detrimento das sociais. Agnelo admitiu que Lula tem projetos para a área social, mas cobrou ações imediatas. “O problema da fome precisa de socorro imediato”, criticou.
Documento divulgado ontem pela CNBB faz a seguinte análise: “Mantém-se, portanto, a política macroeconômica que obriga o Brasil a pagar uma parte substancial de sua dívida pública por meio do superávit primário”.


Pois é, e tem gente que não acredita na existência do Diabo...


Ajudando a reparar uma injustiça.


Há injustiças que ocorrem, por assim dizer, de modo espontâneo, isto é, sem que possamos apontar um responsável direto. É bem o caso da falta de divulgação do livro:
“A FRATERNIDADE CÓSMICA DO REPOLHO MÍSTICO ” , uma ótima coleção de crônicas inteligentes e bem humoradas, escritas por ALEXANDRE RAMOS DA SILVA, com prefácio de Dom Estêvão Bettencourt, OSB. (na época da edição, o Alexandre assinava seus textos sob o nome : Irmão Agostinho, do Mosteiro da Ressurreição )

Anteontem, reli uma das crônicas, aquela em que o Alexandre nos lembra um caso ocorrido faz alguns anos: o assassinato de uma comunidade de monges no norte da África. Na crônica é citada a comovente carta do abade do mosteiro, na qual o religioso se dirige a um seu possível assassino – já que os monges viviam no meio de muçulmanos fanáticos – tratando-o por “meu irmão” (anteriormente eu já havia lido essa mesma carta citada em um belo artigo de Rubem Ricúpero, publicado, se a memória não me engana, no Jornal do Brasil).
É isso aí: ser cristão prá valer, no duro mesmo, não é nadinha fácil !

Não deixem de ler o fantástico “Repolho” !
O livro: “A Fraternidade Cósmica do Repolho Místico”.
O autor: Irmão Agostinho, do Mosteiro da Ressurreição.
E a Editora: Peregrina, de Curitiba , Paraná.

Bom Domingo para todos !


posted by ruy at 1:17 da manhã

1.11.03

 
Algumas reflexões vespertinas.


- É possível que muitas vezes Deus conceda uma idade avançada a uma pessoa com um destes dois objetivos:
a) dar tempo para que esse homem ou essa mulher possa se arrepender completamente de todos os pecados cometidos em sua vida ( por ação e, principalmente, por omissão);
b) permitir que as outras pessoas possam se beneficiar da sabedoria do longevo, obviamente supondo que nele haja lucidez.
(desconfio que Ruy esteja sendo levado pouco a pouco para a letra (a) ... ) .

- Um amigo ( R.P.) está divulgando pela Internet a notícia sobre a posição fechada da Santa Sé contra a clonagem de seres humanos. Ora, é uma pena que o meu amigo não tenha aproveitado essa oportunidade para nos fazer lembrar daquilo que Nosso Senhor profetizou quando disse que “haverá falsos Cristos e falsos profetas, que farão tão grandes prodígios e milagres que, se possível, até os eleitos poderiam ser iludidos”. Notícias como essa da clonagem deveriam fazer-nos parar e meditar profundamente sobre o mistério da vida humana.

- É curioso como, no Brasil pelo menos, existem muitas pessoas com ótimo nível de escolaridade mas que se deixaram envolver pelas vazias e muitas vezes ridículas idéias do espiritismo. Isso para mim confirma aquele dito antigo : “a Natureza tem horror ao vácuo”. Durante dezenas e dezenas de anos os ambientes católicos menosprezaram a cultura geral séria, deixaram de lado o bom uso, sistemático, da inteligência em benefício da emotividade. O resultado foi esse: o avanço da burrice...

- nós católicos temos, sem dúvida alguma, a melhor doutrina, a tradição autêntica, a fé verdadeira. Tudo bem. Mas, creio que dois pontos deveriam ser sempre lembrados por nós:
1o. nossa condição de sermos católicos é uma Graça de Deus, e não uma conquista de nossos brilhantes raciocínios;
2o. não devemos ser católicos contra os outros , isto é: como se estivéssemos permanentemente em briga contra os que não crêem nas mesmas coisas que nós cremos. Ah! Murilo Mendes, quanta sabedoria existe naqueles seus versinhos...

- É preciso rezar sempre, como se isso fosse a nossa própria respiração espiritual. O amor-próprio, aquilo que Santa Catarina de Siena odiava com um ódio constante e profundo, é o que nos sufoca, dificultando esse outro respirar de que nos descuidamos tanto...E isso parece estar ocorrendo mais em nossa época, quando existe uma fixação obsessiva na prática de exercícios físicos para melhorar a respiração corpórea. Por exemplo, já vai bem longe o tempo em que chefes de família rezavam diante de seus filhos, dando, assim, um excelente exemplo de vida de oração.


Os santos.


É uma terrível falta de atenção a de nossos irmãos separados que lêem com tanta freqüência a Bíblia, os evangelhos, mas não se lembram de quantas vezes os discípulos intercederam por alguém junto a Jesus.
Houve um católico, um imenso católico que foi Leon Bloy – hoje infelizmente pouco lembrado – que vivia intensamente o mistério da Comunhão dos santos. Quando o casal Jacques e Rahíssa Maritain o procurou, em um certo dia 11 de junho, para pedir que o Peregrino do Absoluto lhes desse uma palavra de esperança, a eles dois que estavam perdidos no escuro da descrença e do desespero, Leon Bloy lembrou-se logo de São Barnabé (comemorado naquele dia) como o provável guia dos dois angustiados moços até a sua pobre casa de mendigo.


posted by ruy at 2:44 da manhã

31.10.03

 

Paz.


Qualquer pessoa que tenha o hábito de assistir aos noticiários de televisão já terá visto inúmeras vezes as famosas passeatas realizadas “em favor da paz e contra a violência”, a maioria delas estimuladas e organizadas com o apoio da notória rede Globo. Sempre aparecem nesses movimentos muitas e enormes faixas brancas em que se lê, em letras garrafais, a palavra PAZ , suposto motivo da passeata.

Escrevi ali :“suposto motivo” porque o que se supõe estarem as pessoas participantes de tais reuniões desejando seja alguma coisa que, pelo menos para os produtores da TV, possa ser de fato designado por aquele monossílabo. Ora, o que a população das grandes cidades realmente deseja é a diminuição da criminalidade , isto é, aquilo que na televisão é designado pelo nome pastoso e covarde de violência . E, ironicamente, uma das causas remotas desse aumento da criminalidade – com os crimes coloridos pelos tons escuros da violência gratuita – é justamente a desagregação do sentido ético, a perda do respeito à pessoa humana, que durante décadas os programas de TV inoculou na cultura deste país, mediante seus debochados e grossos “humoristas”, suas novelas amorais ou imorais, seus noticiários tendenciosos ou repletos de meias verdades, seus filmes em sua maioria medíocres etc.

Convém sempre nos lembrarmos do correto significado da palavra : paz. Comecemos pelo que nos ensina o grande Doutor da Igreja: Santo Agostinho:

- A paz é a tranqüilidade na ordem.

(como pode, pois, falar em “paz” um veículo de comunicação que há muitos anos vem criando a desordem ? )

Ora, a verdadeira paz começa no interior da pessoa. Quem diz isto não é o Ruy. Quem diz isto é São Padre Pio de Pietrilcina, cujas palavras impregnadas de sabedoria vou citar em seguida, valendo-me do que fui colher no “site” católico americano www.ewtn.com

Peace is simplicity of heart, serenity of mind, tranquility of soul, the bond of love. Peace means order, harmony in our whole being; it means continual contentment springing from the knowledge of a good conscience; it is the holy joy of a heart in which God reigns. Peace is the way to perfection, indeed in peace is perfection to be found. The devil, who is well aware of all this, makes every effort to have us lose our peace.

-- Saint Pio of Pietrelcina


Releia leitor, com atenção, e veja se isso tem alguma coisa a ver com a :”paz” das passeatas da rede Globo.

Sugestões aos moços.


Existe uma antiga frase, um tanto ou quanto cínica, que, referindo-se a uma pessoa idosa diz assim: ele está naquela idade em que, não podendo mais dar bons exemplos, dá bons conselhos. Pois é, mesmo correndo o risco de ouvir esta frase, o Ruy vai dar algumas sugestões aos moços, aos poucos moços que lêem este “blog”.

- aproveitem seu tempo de agora, de sua juventude, para ler. Ler bastante, ler muito; e ler conforme recomenda Mortimer Jerome Adler em seu livro (duas vezes editado no Brasil ): “Como ler um livro”: uma leitura ativa, anotando, marcando, convivendo com o livro; fazendo leituras paralelas, comparativas, a outros livros de assunto similar.Leiam !
- não se descuidem de sua vidas afetiva, começando pelas pessoas que estejam mais próximas de vocês. Com todas as limitações que certamente elas possuem – já que a sociedade Ocidental há vários séculos não é mais uma Cristandade – tais pessoas são muito importantes. E quem de nós não tem suas próprias limitações ?
- e finalmente o principal: se vocês forem católicos, procurem viver uma piedade religiosa centrada no Cristo. Perguntem honestamente a vocês mesmos:

- “quem é Jesus Cristo para mim? .


Dica de um bom livro !


Meus amigos:
- se puderem, não deixem de ler esta ótima coleção de crônicas inteligentes e bem humoradas : “A FRATERNIDADE CÓSMICA DO REPOLHO MÍSTICO ”
(o nome do livro é este mesmo ! A intenção do autor, em um dos capítulos, era justamente mostrar o risível desses esoterismos da Nova Era) .
O autor é : ALEXANDRE RAMOS DA SLVA, e o livro pode ser achado na livraria do mosteiro de São Bento, no Rio.

Recesso: talvez o Ruy fique ausente até segunda-feira.Bom fim de semana para todos !


posted by ruy at 3:10 da manhã

30.10.03

 
Ainda aprendendo com Chesterton.


Se a memória não me engana, foi G. K. Chesterton quem certa vez disse isto:

- Ser pai é infinitamente mais que escrever um livro sobre pedagogia.

É bastante provável que ele pudesse ter dito frases semelhantes referindo-se a outros seres , como por exemplo: ser marido, ser amigo, ser professor, ser médico, e vai por aí. O que o grande escritor quis ressaltar com aquela frase, usando seu iluminado humorismo, foi a abismal diferença que existe entre um ideal sonhado e sua realização concreta.

Ora, no que tange ao ser cristão , um dos pontos sensíveis desse modo de ser, todos sabemos, é o amor ao próximo.E é bem conhecida a passagem em que Nosso Senhor, respondendo a uma pergunta meio ou bastante capciosa de um Doutor da Lei, nos conta a parábola do Bom Samaritano (v. São Lucas, cap. 10, vrs. 25 a 37 ).Notemos que, em vez de fazer uma longa exposição, cheia de brilhantes argumentos, para responder à maliciosa pergunta, Jesus mostra de maneira simples, quase direta, o que significa ser próximo de alguém.

Um dos graves erros do protestantismo consiste em se apegar à letra das Sagradas Escrituras e, por isso mesmo, durante muitos anos nossos irmãos separados criticaram a nós católicos por não facilitarmos aos fieis o acesso à Bíblia. Ora, acontece que a Bíblia não é um livro de leitura fácil; pelo contrário, há trechos dificílimos, que exigem um imenso trabalho da chamada “exegese”.
Se, por exemplo, nos deixarmos prender aos detalhes específicos da parábola do Bom Samaritano ou a outras circunstâncias semelhantes às daquele cenário montado por Nosso Senhor, ficaremos, quem sabe, à espera de que alguém seja assaltado por bandidos ou que, pelo menos, fique doente, para pormos em prática nosso amor ao próximo. E aqui o grande Chesterton pode vir, com seu maravilhoso senso poético, para corrigir o nosso lamentável equívoco.

Com certeza, o genial ensaísta inglês nos diria que cada um de nós, conforme escreveu Ortega Y Gasset , pode afirmar isto : “eu sou eu e minha circunstância”, e que esta circunstância precisa ser olhada sob a perspectiva chestertoniana . Assim, desde a nossa infância somos “assaltados”, “surrados”, “espoliados” pelos costumes, pelos maus hábitos, pelos preconceitos de todos (note bem, leitor : todos ) os grupamentos humanos de que participamos, levando necessariamente em conta o fato de que, há vários séculos, não mais existe uma Cristandade em torno de nós.

Está aí uma boa sugestão para o dia de hoje: a de olharmos de modo chestertoniano as pessoas que estiverem mais próximas de nós, começando em nossa casa.


Filmes.


E por falar no Evangelho, há um trecho em que o Senhor nos diz: vós sois o sal da terra .
Faz alguns anos, fiquei pensando nisto: ninguém gosta de tomar uma sopa salgada demais.Mas, não apenas a sopa; comidas excessivamente salgadas tornam-se insuportáveis.Esses fatos sintonizam com aqueles versinhos de Murilo Mendes várias vezes citados por mim neste “blog” (“Senhor, minha prece se faz....”). E agora falando em termos mais sisudos: nós católicos deveríamos lembrar-nos sempre daquela pergunta de São Judas Tadeu, aquela que praticamente ficou sem resposta. O chamado que Deus faz a uma determinada pessoa é uma Graça, e também será sempre um indevassável mistério.
Ora, por que estou falando neste assunto quando o título posto ali em acima é: filmes ? Vejamos.

O cinema faz parte da cultura moderna tanto quanto a geladeira, o automóvel e o telefone celular. São raras as pessoas que nunca vão a um cinema, apesar das comodidades das salas de projeção confortáveis onde o espectador pode assistir ao filme sem se preocupar, por exemplo, com a segurança do carro, estacionado no “shopping”. Em resumo: ir ao cinema é um hábito generalizado.

Como deveria se posicionar um “sal da terra” diante dessa indiscutível realidade sociológica ? Isolar-se ? Recusar sua presença nos cinemas ?

Creio que duas atitudes devam ser evitadas por nós católicos, a saber: uma posição sistematicamente moralista ou uma posição intelectual olimpicamente distante.
A primeira dessas atitudes impediria que o virtual espectador assistisse, por exemplo, a um filme impregnado de riqueza humana como é a excelente comédia “Melhor é Impossível”, estrelada por Jack Nicholson e Helen Hunt nos principais papéis.
A segunda deixaria o telespectador privado de assistir, em sua televisão, ao ótimo seriado “Monk”, baseado nas aventuras de um detetive viúvo e obsessivo-compulsivo, brilhantemente representado pelo ator Tony Chaloub. Trata-se de uma série de filmes, cada um rico em sutilezas, tanto no que se refere aos misteriosos crimes solucionados pelo arguto investigador, quanto a várias cenas em que os sentimentos de afeto entre pessoas normais são mostrados de forma simpática e convincente.

Para poder apreciar filmes como esses dois exemplos apresentados, não precisamos possuir uma bagagem cultural incomum; eles não foram produzidos para o deleite de um “inner circle” de grandes iniciados.Nem tão pouco precisamos ser modelos de santidade.


Uma frase bem infeliz.


O Brasil é o país que, no mundo de hoje, goza de uma curiosa peculiaridade: temos dois presidentes, um de direito e um outro de fato . Ora, faz alguns dias o presidente de fato disse para um ex-presidente que este deveria : cuidar de seus netos e de sua biblioteca..

A frase é no mínimo mal-educada. Mas, boa educação e senso de humor não têm sido o forte da Esquerda brasileira. E quanto à inteligência criadora, faz um longo tempo que deixou nosso convívio a pessoa única e simpaticíssima que foi o Barão de Itararé.
Melhor seria se o autor daquela frase infeliz a tivesse apresentado, como sugestão de amigo, ao “ditador mais longevo do planeta”.
(isso que escrevi não significa que Ruy tenha simpatia pelo tal ex-presidente).


posted by ruy at 3:28 da manhã

 


posted by ruy at 3:04 da manhã

29.10.03

 
Notícia de jornal.


Não sou leitor habitual de jornais.Faz alguns anos tomei birra contra esse meio de comunicação, uma atitude que já me valeu a suspeita de ser pão-duro... Ora, meu grande amigo N.B. há muitos anos conserva o hábito da leitura diária de jornal, e às vezes compra dois deles. Ocorre que N.B. tem muito mais paciência do que eu e, além disso, é dotado de um fino senso crítico, o que lhe permite ficar imune aos venenos usualmente segregados pela imprensa. De vez em quando, esse meu bom amigo bate à minha porta trazendo um artigo ou uma notícia que ele leu e gostou de ter lido. Mostra desse modo que ficaria contente de me repassar a informação, tornando-me, portanto, partícipe de sua alegria. Outras vezes, a matéria trazida por N.B. fala sobre um fato risível ou revela a ignorância ou o ridículo de quem a escreveu.

Foi desse modo indireto que fiquei a par de uma notícia que muito me agradou. Falava um artigo do jornal de anteontem (27/out) sobre a encenação de uma peça do escritor francês PAUL CLAUDEL, a saber: Le Soulier de Satin , no Théâtre de la Ville, em Paris.

Convém dar ao leitor que nunca tenha ouvido falar em Claudel pelo menos uma ligeira informação.
Paul Claudel foi um homem de carreira dupla: diplomata e escritor; uma de suas missões diplomáticas foi justamente a de ministro plenipotenciário no Rio de Janeiro, em 1916. Dizem que seu livro “La Messe lá bas” teria sido inspirado por sua passagem em terras brasileiras.
Autor prolífero e versátil, abordando diversos gêneros literários tais como a poesia, o romance, o ensaio e por último o diário pessoal, no período de 1886 a 1951 Paul Claudel deixou publicadas mais de cem obras, sendo duas póstumas (os dois volumes de seu “Journal” ).Alguns títulos de sua vasta bibliografia : “Tête d’or ”, “Le Partage de Midi”, “Cinq Grandes Odes”, “L’Otage”, L’Annonce faite a Marie”, “Le Soulier de Satin”, “Conversations dans le Loire et Cher”.

Cabe lembrar que duas de suas peças foram traduzidas aqui no Brasil pelo monge beneditino Dom Marcos Barbosa (que foi grande fã de Claudel): “O Anúncio feito a Maria” e “Joana na fogueira” (um auto baseado no martírio de Santa Joana d’Arc ). É uma lástima que tais livros se achem esgotados. Seria ótimo se o leitor os encontrasse em um sebo (detesto esta palavra...).

Bem, dada essa minúscula notícia sobre tão grande poeta, voltemos à encenação da peça, fato que nos inspirou este “post”.
Segundo o(a) jornalista (M.L.) que escreveu o artigo, a peça, escrita com um texto desmesurado nas palavras, derramado no pensamento teológico e excessivo no lirismo , tem lotado nesta temporada o Théâtre de la Ville, com sua capacidade para mil (1000 !) pessoas.
E agora um dado final para o leitor que tenha tido a paciência de nos acompanhar neste “post” :
- a peça “Le Soulier de Satin” tem a duração de doze (12 !) horas , e ocorre ínfima deserção nos intervalos .

Pois é, amigo leitor, por esta e outras é que eu tranqüilamente afirmo: apesar dos pesares, a Europa continua sendo o pólo da civilização. Reflitamos bem sobre isso.


posted by ruy at 1:15 da manhã

28.10.03

 
O papel da Arte.


Um dos efeitos mais curiosos da moderna pletora dos meios de comunicações, com seus fabulosos recursos tecnológicos, é o que podemos chamar: uma generalizada hiper-sensibilidade ética, contrapondo-se à divulgação maciça de todos os erros morais, dos mais variados tipos, que vêm ocorrendo no planeta, aí incluídos: o exibicionismo dos bandos de pelados que estão posando publicamente para fotógrafos degenerados; os desfiles organizados (...) de “gays” e de defensores do aborto (leia-se: infanticídio); os escândalos de corrupções envolvendo políticos; os milhares de crimes de morte que diariamente acontecem nas grandes cidades (aquilo que a TV e os jornais chamam pelo vago e covarde nome de “violência” ), etc.

De certo modo, há um aspecto salutar nessa reação hiper-sensível. Ela significa que a maioria das pessoas ainda não perdeu o senso moral, não se afastou da normalidade, graças a Deus ! E pour cause , a esse tipo de reação não escapamos nós católicos; afinal, somos herdeiros, como cristãos, das regras de proceder que foram fixadas para os judeus nas Tábuas da Lei. Talvez seja até bem possível que fiquemos mais sensíveis que as demais pessoas. Ora, e é aí que ocorre um sério problema. Qual ?

Ao assumir essa exclusiva atitude de contraposição, de revolta mesmo, contra a geral bagunça, quase sempre no esquecemos das coisas principais a que deveríamos estar mais atentos, entre elas: a Vida Eterna, aquilo para o qual fomos criados, aquilo em que deveríamos acreditar, esperar e – antecipadamente – amar!

Neste exato instante seria excelente se um leitor, de preferência jovem, me interpelasse dizendo: “péra aí, “seu” Ruy, como posso amar uma coisa que jamais vi ? ”
Ruy Maia Freitas iria dormir hoje felicíssimo se acontecesse isto: um leitor jovem fazendo tal pergunta ao editor deste “blog”! Por quê ?

Porque o tal questionador (como hoje é moda dizer) provavelmente seria alguém vivo , não totalmente preso à rotina bem comportada, acomodada, como se tudo em volta de nós fosse muito natural, excessivamente natural, sem relação nenhuma com... a Eternidade !

Tenho para mim que, ao longo dos séculos, a misericórdia divina, para compensar o triste vazio criado pelo antropocentrismo orgulhoso e burro, fez nascer os artistas dos mais diversos tipos: poetas (nos sentidos lato e estrito), pintores, escultores, romancistas (os bons) e, sobretudo, os músicos. Pode ser que Claude Debussy tenha sido um boêmio típico do século XIX, pode ser. Mas, ao ouvir sua música com bastante atenção, poderemos escutar, falando-nos muito discretamente, a voz de Deus quando criou as coisas e viu que elas eram boas. Poderemos, então, começar a sentir um pouco de “saudade” do Eterno.

Desculpem agora este desabafo do Ruy: triste do católico que não tenha um pouco, pelo menos um pouco, de sensibilidade para apreciar a arte, mormente a música...


E é sempre bom lembrar o velho Murilo Mendes:

Senhor, minha prece se faz
em termos exatos:
- que os maus sejam bons,
e os bons não seja chatos.



28 de outubro -
São Judas Tadeu, rogai por nós, para que não sejamos demasiados inquietos, querendo resposta prá tudo.




posted by ruy at 1:36 da manhã

27.10.03

 
Descanso para a prosa , um tempinho para os versos...


Catecismo.

Eram duas operárias pretas,
altas e magrinhas,
quais donzelas do Egito antigo.
Daqueles lábios de pobres,
pela vez primeira ouvi falar,
com meus ouvidos distraídos de menino bobo,
do mistério da Santíssima Trindade,
dos Dez Mandamentos,
e tudo mais o que a Igreja, Mãe e Mestra, ensina,
ou pede aos mais humildes que, em seu lugar, expliquem,
dando para nós, deste modo, uma lição em dobro:
- o ensino da doutrina e a Caridade.


A Missa Desejável.

Nobres sejam o canto e o movimento,
propiciando o total recolhimento.
Que se faça o silêncio necessário,
e que ninguém se mostre refratário
à postura serena –corpo e mente-,
aquela que de fato é reverente
ao magno mistério celebrado,
ao máximo espetáculo sagrado:
-um Deus que se faz carne e, mansamente,
a dá como remédio ao penitente.
Que a homilia mostre, de verdade,
um padre que procura a santidade,
e não apenas dando, honestamente,
edificantes aulas para a gente.
Não fique adormecida a inteligência,
nem tenha a emoção preeminência;
porém, em equilíbrio bem mantidas,
se deixem pela fé ser conduzidas.
Não sirva o Santo Rito de homenagem
a qualquer coisa, a qualquer personagem,
e muito menos sirva de protesto
(o desemprego, o crime e mais o resto),
pois tal desvio é sempre uma injustiça,
um sacrilégio contra o Rei da missa !


Simples.

Silenciosamente,
o mundo em torno de mim
conversa comigo.

Basta abrir os olhos
e fechar a opinião,
que tudo se faz presente.

















posted by ruy at 1:21 da manhã

 

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