Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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12.10.03

 
Um adendo ao “post” de ontem.


Uma jovem senhora muito minha amiga está matriculada em Programa de Mestrado (é sempre bom lembrar aos distraídos que, a rigor, não existem cursos de Mestrado ou Doutorado).Bem, como parte de suas tarefas, ela está redigindo sua Dissertação, com tema na área da Pedagogia e, de vez em quando, liga para mim ou me envia e-mail pedindo opinião sobre algum texto recentemente redigido.Então, embora meu setor acadêmico seja o da Engenharia, dou meus palpites à minha amiga.
Ora, ontem à noite ela telefonou e me fez umas duas perguntas ligadas a um dos capítulos já escritos, perguntas essas que me deixaram com certa preocupação e, por que não ? , até mesmo com certa angústia. Por quê ?

Conforme os que têm experiência no assunto sabem muito bem, nos trabalhos de Dissertação ou de Tese, é necessária e obrigatória a presença de um orientador, um professor mais antigo e supostamente com muito mais experiência, que vai acompanhando, dia após dia, o progresso do aluno candidato a um título acadêmico. Vai sugerindo caminhos, soluções mais eficientes umas, mais eficazes outras. Nesse trabalho de acompanhamento, o orientador acaba se tornando, digamos assim, cúmplice do orientando.

Bem, as perguntas feitas por minha amiga deixaram transparecer que sua orientadora, mesmo que não seja adepta das teorias marxistas ou socialistas, é de fato alguém que, sem perceber, ao longo dos anos de vida escolar, no segundo e terceiro níveis de escolaridade (jamais confundir isso com educação!), foi sendo continuamente, solertemente, doutrinado a se posicionar diante destas alternativas: individualismo ou vida dedicada ao social , como se elas representassem, nesta forma de um binômio grosseiramente simplificador, uma equivocada síntese de todas as possibilidades para uma pessoa que vai se tornar autônoma na sociedade humana.

Ora, nem o homem deve egoisticamente fechar-se em seu pequeno mundo, nem tão pouco o Bem Comum da sociedade é uma simples soma de bens individuais diante da qual cada um de nós deve curvar-se, esquecido de si próprio. E aí está mais um bom exemplo da tradicional sabedoria : a virtude está no meio.

Se o leitor tiver a pachorra de reler meu “post” de ontem poderá ver que aquele binômio simplista revela o esquecimento (proposital ou não) daquilo que deveria ser de fato o objetivo de uma pedagogia autêntica: ajudar o ser humano a crescer como pessoa, atendendo aos três aspectos que Mortimer Jerome Adler nos lembra em sua Proposta Paidéia- Um Manifesto Educacional : crescimento mental. moral e espiritual.
Queira Deus que minha boa amiga não se deixe envolver por aquele cerceador equívoco.


Ato e Potência.

A morna e fina cachoeira,
quase âmbar,
cai, rápida e ruidosa,
sobre o pequeno lago transparente.

Quase sempre distraídos,
não vemos a lição, tão repetida,
sobre o constante transitório nesta vida.


Perplexidades.


O evangelho da missa de hoje fala na perplexidade do jovem rico. Talvez fosse bom lembrar que há riquezas outras que não a monetária.


posted by ruy at 11:15 da manhã

11.10.03

 
Um “detalhe” muito importante, porém muitas vezes esquecido...


Ontem fui dormir meio aborrecido comigo mesmo. De fato, poucas coisas são mais incômodas que a lembrança – e o correspondente arrependimento - de uma omissão. Este “post” sai hoje por conta desse arrependimento.

Ainda que seja batidíssimo lugar comum, sempre é bom ser lembrado o seguinte fato: vivemos imersos em uma atmosfera impregnada de informação. Muitos pensadores, escritores e jornalistas já deixaram registrado, nos mais diverso tipos de textos, sua angústia, maior ou menor, com essa incômoda circunstância em vive o homem moderno.A assombrosa pletora de notícias – desde a mais trágica até a mais fútil – difundidas pelos modernos meios de telecomunicações, com sua fantástica velocidade de transmissão, colocam-nos em permanente sobressalto.Muitos poucos conseguem reagir e manter-se com uma razoável tranqüilidade .

Um necessário parêntese: quero deixar bem claro, muito claro, que o pronome “nós” que estaremos usando neste “post” não é mera expressão de retórica.Quando eu escrever “nós”, o Ruy está realmente incluído no referido conjunto.

Bem, se a maioria das notícias fosse constituída apenas por novidades agradáveis, trazendo-nos, dos mais distantes lugares, fatos alegres e pitorescos, provavelmente o efeito psicológico sobre nós seria benéfico. Qual é a pessoa normal que não gosta de receber boas notícias? Mas, o que temos visto, lido e ouvido anos a fio, durante todas as horas do dia? Façamos rápida listagem:
- o governante de um grande país ocidental, homem sabidamente ignorante, faz uma bombástica visita de solidariedade ao notório “ mais longevo ditador deste planeta” (conforme escreveu muito bem a jornalista Dora Kramer);
- em diversos países, supostamente civilizados e sem o desgaste de graves problemas sociais, milhares de homens e mulheres posam nus diante de um doentio fotógrafo que se distrai colhendo fotos desse tipo em todas as partes do mundo;
- em uma universidade que se diz Pontifícia e Católica , duas professoras assinam um documento em que defendem abertamente o infanticídio (mais conhecido como: aborto);
- uma pobre princesa, depois de um casamento infeliz - que provavelmente surgiu como conseqüência remota das arbitrariedades do sexo-maníaco Henrique VIII - morre em grave acidente de carro quando fugia de jornalistas degenerados que ganham a vida exibindo a desgraça alheia;
- em diversas importantes cidades do mundo, homossexuais de ambos os sexos organizam (...) desfiles em que, orgulhosamente, exigem que seus “direitos” sejam respeitados;
- na distante e pequena Palestina, diariamente árabes e judeus se matam com requintes de ódio e fanatismo.
Paremos por aqui. O leitor conhece, certamente, tudo o que foi listado e muito mais.

Bombardeados – é isso mesmo: bombardeados – continuamente por notícias iguais ou semelhantes, nós (o Ruy incluído) acabamos por nos irritar: isto não é um mundo bom de se viver nele ! Bem, diante disso tudo, onde entra o tal detalhe que dá o título ao “post” de hoje ?

“Rationalis natura, indivisa substantia”. Esta é a serena e sóbria definição filosófica que o grande Boécio deu para aquilo que, em linguagem comum, se chama: “pessoa”. E se a memória não me engana, sobre ela escreveu Santo Tomás de Aquino: “persona significat quod est perfectissimus in tota natura”.Em vernáculo: “pessoa significa o que há de mais perfeito em toda a natureza” . E é este, caro leitor, o “detalhe” de que – infelizmente - nós comumente acabamos nos esquecendo quando nos deixamos sufocar pelas notícias que recebemos diariamente: as pessoas. A começar pelas que estão bem perto de nós: Therezinha, Luís, Rebeca, Raquel, Conrado, Estevam, Vicente, Ingrid, Brenno, Cecília, Sarinha, Lena, Luzia, Débora, Adhemar, Mario, Edson, Waldemar Henrique, e vai por aí... Cada leitor terá suas próprias pessoas mais próximas ( já parou para pensar nisso, amigo leitor ?)

E o mais dramático, extremamente dramático, infinitamente dramático, é o fato de que o tal governante ignorante e bombástico, o tal fotógrafo maníaco, cada um dos exibicionistas pelados, cada um dos chamados “gays” (que tristeza usarem este adjetivo tão bonito para designar um tão horrendo desvio da Lei Natural...), cada guerrilheiro árabe, cada soldado judeu, cada um destes é mesmo : uma pessoa , única e insubstituível (a proposta espírita é uma fuga simplista e burra).


posted by ruy at 6:02 da manhã

10.10.03

 


A Verdade e a Beleza.


O amigo e leitor R.P. enviou-nos ontem uma mensagem circular alertando aos colegas da rede que tenham filhos pequenos sobre a seguinte notícia : os produtores do desenho animado “Os Simpsons” (que costuma ser exibido pela televisão) teriam avisado que, em 2004, o referido filme exibirá uma cena de homossexualismo.

Ora, qualquer matéria exibida pela TV e que traga nítida apologia de não importa qual tipo de vício, que faça propaganda de qualquer atentado à Lei Natural, deve ser mesmo motivo de indignação e preocupação para todas as pessoas sensatas, sejam elas pais ou não de crianças pequenas. Mas, no que toca ao caso específico comentado por R.P., existe certo aspecto que merece uma abordagem especial.Vejamos.

Felizmente, costumo assistir pouco aos programas de televisão. Algumas vezes, muito rapidamente, vi cenas do tal desenho animado ( “Os Simpsons” ). O que posso dizer sobre ele é o seguinte: trata-se de filme de péssimo gosto, figuras grotescas, disformes, que deixam transparecer, ao espectador mais atento, o riso sarcástico, zombeteiro e maldoso do sujeito que gerou aquelas insultuosas caricaturas da pessoa humana. Quem disser que gosta de ver semelhante desenho animado – contenha ele ou não matéria nitidamente contrária à moral verdadeira – é pessoa que talvez esteja precisando de um bom tratamento psicológico, ou então é simplesmente mais um (ou mais uma) dos Maria-vai-com-as-outras infelizmente abundantes na decadente cultura ocidental moderna.Resumindo minha apreciação sobre o desenho: ele é horrível.

Bem, agora chego ao motivo principal deste “post”, qual seja: uma falha, uma desatenção (para mim grave) que vem ocorrendo entre nós católicos, supondo, é claro, que esta catolicidade seja mesmo autêntica.

Há uns versos de Olavo Bilac, várias vezes lembrados por mim, em que o genial parnasiano diz isto: “a Beleza, irmã gêmea da Verdade.” E Bilac tem toda a razão. Entretanto, muitos de nós, filhos e discípulos da Mãe e Mestra , ficamos a tal ponto preocupados (uns até mesmo obcecados) com certos gravíssimos problemas morais contemporâneos, que nos esquecemos de CONSTRUIR (coloquei a palavra em caixa-alta de propósito, para chamar a atenção dos sonolentos) um ambiente cultural em que as pessoas possam notar e admirar o bom gosto, a elegância, a beleza “tout-court”. Não fazemos divulgação de bons concertos de música, em que se possa ouvir, por exemplo, um belo concerto para piano e orquestra de Beethoven ou um agradável trio de Mozart; não levamos nossos filhos para verem exposições de pintores autênticos; não lemos boa poesia em voz alta para eles ouvirem e começarem a perceber, desde cedo, a beleza do som das palavras, do ritmo dos versos.A propósito, a primeira vez que escutei:
- “não chores meu filho, não chores que a vida é luta renhida, viver é lutar”
foi quando, em menino, ouvi estes versos declamados por meu pai. Com ele aprendi também a admirar a beleza existente nas estruturas da matemática (um detalhe:meu pai, atleta de ótimo preparo físico, veterano de duas sangrentas revoluções na década de 30, não era nenhum molenga adocicado).

Por favor, não pensem que eu esteja sendo contrário a que se façam justas e necessárias críticas duras, condenações veementes aos absurdos erros morais contemporâneos.Apenas lembro aos amigos a necessidade – não menos imperiosa – de fazermos todos, em paralelo com a nossa vigilante censura, um entusiasmado trabalho de reconstrução cultural !

Convenhamos: uma criança que não percebe como é horrível o tal desenho dos Simpsons está precisando urgente aprender, em casa, a diferença entre o que é belo e o que é feio. E a gostar do primeiro !
Pensem bastante nisso, meus amigos.







posted by ruy at 10:49 da manhã

9.10.03

 
A Regra de Ouro.


[Este é um "post" doloroso. Mas, vou ter que editá-lo.Paciência...]

Creio que por diversas vezes já me referi ao tema, mas acho que vale a pena retomá-lo neste "blog".
André Frossard, em seu pequeno grande livro: "Deus em Questões" (editora QUADRANTE), lá no capítulo onde fala sobre a Lei Natural diz isto:
- Até ao século XIV - ou aproximadamente isso, pois trata-se somente de um ponto de referência, que podemos situar mais cedo ou mais tarde, mais cedo na Itália mais tarde na Espanha - Deus era a personagem principal da História, que girava em torno dele como as cidade em volta da sua catedral, e dominava o pensamento, a arte, a vida social e a vida privada.

Pois é, a partir daquele ponto de referência referido por Frossard, começa, na cultura daquela que fora uma Cristandade, um duplo processo de decadência: filosófica e religiosa. No terreno do pensamento, cresce e propaga-se o nominalismo que, conforme nos ensinam os doutos, é a morte da inteligência. Nos domínios da fé, começam a surgir, aqui e ali, isoladas rebeldias contra a crença tradicional. Além disso, o peso da rotina acomodada, o traiçoeiro apego ao mundo e à carne fazia-se sentir até mesmo no Papado. Um deles levou um tremendo pito de Santa Catarina de Siena (que depois não saiu pelas ruas gritando: "abaixo o Papa !" e nem pregando uma outra igreja).

Quando Colombo, em 12 de outubro de 1492, depois de sua dramática viagem chega às praias da América, já estava bem crescida aquela dupla decadência. E é uma cultura européia decadente a mesma que irá colonizar as demais regiões do planeta; uma cultura que deixara de ser teocêntrica para dar lugar a um orgulhoso, auto-suficiente antropocentrismo: o homem como centro do Universo.

Um rápido parêntese: fico melancólico ao ver moços inteligentes, de boa cultura e melhor índole, nervosos, irritados, empenhados em criticar acerbamente os erros dos chefes políticos contemporâneos sem, nessas críticas, mostrarem a menor curiosidade em saber como as coisas começaram, sem irem às raízes profundas da atual crise.Fechemos o parêntese.

Passarem-se cinco séculos. O mundo se ocidentalizou. O próprio regime político que hoje domina a China foi ali implantado sob a influência das lições de um pensador europeu, o Doutor Karl Marx. Mas, não são as transformações políticas, as revoluções, as guerras que neste instante chamam minha atenção. Por mais relevantes que esses fatos sejam, prefiro agora falar em outros, para mim pelo menos, muito mais graves. Vejamos, como exemplo, dois casos recentes sobre os quais meu amigo R.P. me informou pela Internet:
- em Nova York, um casal de americanos, visando a um prêmio oferecido por uma certa marca de cerveja, teve relações sexuais no recinto da catedral de São Patrício (aliás, o homem, protagonista da profanação, faz dois dias morreu de ataque cardíaco);
- em São Paulo, duas professoras da Pontifícia Universidade Católica assinam um texto em que defendem abertamente a legalização do infanticídio, mais conhecido como aborto.

De propósito, meus amigos, dei dois exemplos dos mais chocantes que a cultura ocidental moderna, a antropocêntrica, nos brinda diariamente. Porém, é sabido que muito mais horrores vêm acontecendo no planeta. E agora chego ao que deu motivo a este "post".
Nós católicos - é claro que não estou incluindo neste nós aquelas duas professoras nem uma freira (sic) que também apóia a mesma barbaridade do aborto - nós católicos temos, pela graça de Deus, a melhor doutrina, temos os melhores princípios para analisar e criticar os fatos acima citados, e muitos outros mais ainda. Até aqui, morreu Neves, como diziam os antigos.Entretanto, levados pela justa indignação contra erros de tamanha perversidade, podemos nos descontrolar (o verbo é este mesmo: descontrolar) e infringir aquela que podemos chamar : a Regra de Ouro de Santo Agostinho :
- Odiar o erro, porém amar o pecador".

Sei que vou desagradar, talvez, um ou outro eventual leitor deste "blog". Mas eu, Ruy Maia Freitas, não creio que seja para nós católicos um bom negócio isso de, a pretexto de mostrar nossa justa indignação, esquecermo-nos do sábio conselho agostiniano.Se houver tal esquecimento, "pode ser pior a emenda que o soneto", podemos "entornar o caldo". Pensemos seriamente nisto. Há, sem dúvida, uma grande tentação de "dar uns bons pontapés naqueles caras safados"ou de "dizer uns bons palavrões àquelas desavergonhadas"; a tentação é grande, mas é bom lutar contra ela.
De resto, é bom lembrar - conforme escrevi ali em cima: tudo o que temos de melhor foi-nos dado pela graça divina.


posted by ruy at 3:20 da manhã

8.10.03

 
A Descoberta do Mundo.

Apaga o adjetivo em tua mente.
Diante dos olhos, antes distraídos,
surgirão joviais, recém nascidos:
um lápis, uma chave, um simples pente,

coisas banais, bem próximas da gente.
Para enxergá-las, reduz os ruídos
do lugar-comum. Abre teus ouvidos
para ouvir um som novo, diferente,

substantivo, implícito no mundo,.
Ouvi-lo não é fácil. Na verdade,
é preciso um mergulho mais profundo,

um risco que talvez nem sempre agrade.
Porém, acaba sendo bem fecundo,
trazendo para nós mais claridade.


Outubrino.

O canto vespertino da cigarra
acompanha meus passos pensativos,
enquanto a lua, quase cheia,
ilumina um céu ainda sem estrelas.

Solitário na rua meio quieta,
levo comigo o Corpo do Cristo, há pouco recebido,
(ousadia tantas vezes repetida),
silencioso acompanhante, como sempre,
da minha apressada volta para casa.

.
Telefone celular.

Ouvi tua voz distante
Pertinho do meu ouvido.
Fiquei muito radiante,
Qual menino convencido !


E agora, um pouco da poesia de Santo Agostinho.

[Citado no “site” católico americano: www.ewtn.com ]

The garden of the Lord, brethren, includes - yes, it truly includes - includes not only the roses of martyrs but also the lilies of virgins, and the ivy of married people, and the violets of widows. There is absolutely no kind of human beings, my dearly beloved, who need to despair of their vocation; Christ suffered for all. It was very truly written about him: who wishes all men to be saved, and to come to the acknowledgement of the truth.
-- St. Augustine




posted by ruy at 3:30 da manhã

7.10.03

 
Uma imperiosa hierarquia !


[Certo fato ocorrido na tarde de ontem me obrigou hoje a escrever sobre o tema deste “post”. De passagem: hierarquia não é algo exclusivo da vida militar].

Tenho um velho amigo, um gaúcho legítimo, desses que usam calças bombachas e tomam chimarrão, que para mim é uma das pessoas mais inteligentes que conheço. Convém lembrar, neste instante, o sentido etimológico da palavra inteligência: ler nas entrelinhas, ir ao ponto essencial do assunto. É assim que faz o meu amigo: ele usualmente vai ao cerne do problema. Há muitos anos ele costumava dizer, em nossos bate papos, o seguinte:

- A posição típica do ser humano é a vertical, em pé. Isso já nos faz lembrar a hierarquia correta: primeiro – lá em cima - a cabeça; depois, o coração; em seguida, o estômago. E finalmente, o resto.”

De fato, se pedirmos a uma criança, ou até mesmo a um adulto, que nos faça o esboço de um homem, com toda a certeza no papel vai ficar o desenho de uma pessoa em pé. É o mais espontâneo.
Ora, quem diz hierarquia não está, obviamente, falando em exclusão. Está apenas fixando prioridades certas.

Um bom exemplo de inversão na desejável hierarquia apontada pela perspicácia do meu amigo gaúcho é a atual maneira errônea (e quem diz que é errônea é o próprio papa, na encíclica que citei faz bem pouco tempo) como se processa a liturgia da missa em muitas de nossas igrejas. Nessa maneira se pode notar claramente o desejo de agradar a sensibilidade dos fiéis que vão cumprir seu dever Dominical. A pobrezinha da inteligência fica meio esquecida, como se nada ou muito pouco tivesse a fazer ali...Digam francamente se estou mentindo, leitores deste “ blog “, por favor !

Dei de propósito o exemplo talvez mais chocante entre nós católicos. Mas, em outras situações de nossa vida, diante de sérias decisões que devemos tomar (ou acreditamos, imaginamos que deveríamos tomar), infelizmente agimos da mesma forma como agem os novidadeiros que vêm abagunçando (desculpem o termo rude) a solene cerimônia do santo sacrifício da missa, ou seja: invertemos a boa ordem das coisaa e damos preferência à nossa sensibilidade, em detrimento da razão.

Muitos de nós não procuramos adquirir o bom, o necessário hábito de ler (obviamente bons livros, por exemplo: livros sobre idéias), sobretudo com o objetivo de usar, de treinar, disciplinar nossa inteligência. E, por incrível que possa parecer a um leitor que ainda não tinha parado para observar o fato, esse descuido infeliz acontece até mesmo em pessoas de bom nível de escolaridade... O que só faz confirmar as sensatas reflexões de Mortimer Jerome Adler quanto ao papel da escola. Ela não nos educa. Somos nós que temos de nos educar continuamente, ao longo de nossas vidas! Ora, o hábito da boa leitura sistemática poderia ajudar-nos a recuperar aquela fundamental hierarquia.

Neste exato instante sei que estou correndo o risco de desagradar bastante a pessoas por quem tenho respeito e amizade. Mas, como diziam os antigos:
- Amicus Plato, magis véritas” : “Platão é meu amigo; muito mais é a verdade”.


Uma oportuna reflexão de São Bernardo.(colhida no “site” católico americano : www.ewtn.com ):

In dangers, in doubts, in difficulties, think of Mary, call upon Mary. Let not her name depart from your lips, never suffer it to leave your heart. And that you may obtain the assistance of her prayer, neglect not to walk in her footsteps. With her for guide, you shall never go astray; while invoking her, you shall never lose heart; so long as she is in your mind, you are safe from deception; while she holds your hand, you cannot fall; under her protection you have nothing to fear; if she walks before you, you shall not grow weary; if she shows you favor, you shall reach the goal.
-- St Bernard




posted by ruy at 3:17 da manhã

6.10.03

 
A questão fundamental.


Todos os dias costumamos comentar, criticar, discutir os fatos do momento. Sabedores desses fatos, graças à pletora de informações que nos são entregues diariamente pelos diversos e eficientes meios de comunicação, acostumamo-nos a uma rotina em nossa existência, a saber: a de nos preocuparmos apenas em sobreviver no meio de tantas coisas que nos agridem física ou psicologicamente, no meio de tantas ameaças virtuais constantes que nos causam o tão falado “stress” moderno, algo que os medievais nem imaginavam o que poderia ser.

Pois bem, diante dessa realidade incômoda que é o viver neste mundo agitado e muitas vezes desumano (haja vista as absurdas campanhas a favor do aborto e dos chamados “direitos” dos homossexuais), convinha parar, nem que fosse apenas por alguns minutos, desligarmo-nos do sufocante consabido, e fazermos lealmente a cada um de nós mesmos esta pergunta fundamental:
- o que é para mim, o que significa em minha vida Jesus, chamado o Cristo?

A mesma pergunta pode ser, em seguida, acompanhada por esta outra, correlacionada com a primeira:
- e quem é Ele, o que Ele significa para as pessoas que estão mais próximas de mim, começando pela minha família e continuando pelos meus demais parentes, amigos e colegas de trabalho?


Um exemplo bem apropriado.


Conheço muito pouco sobre filosofia e menos ainda sobre teologia. Entretanto, o pouco que sei sobre tais assuntos eu o aprendi basicamente lendo autores respeitados e conversando com pessoas que, para mim pelo menos, têm sabedoria (penso, por exemplo, em um Dom Lourenço de Almeida Prado, OSB, ou um Dom Ireneu Penna, OSB).

Com esses autores e mestres, um certo dia aprendi a respeitar o grande filósofo francês JACQUES MARITAN. Li vários textos de Maritain, a maioria deles traduzidos para o português. Fiquei admirando aquele estilo sóbrio, sereno, com a elegância própria da boa tradição gaulesa. Me emocionei ao saber de sua morte, na década de 70, notícia essa ouvida por mim por acaso, no rádio de um carro, em viagem pelo interior de Minas.

Pois bem, já na década de 60, entre os católicos era moda o dizer-se que Maritain era um “pensador ultrapassado”. Por que se dizia isso? Muito simples. Desde a morte do grande papa Pio XII, crescera entre o “pessoal da Igreja” (por favor: não confundam isso com a Igreja mesma) uma admiração pelas quiméricas fantasias do padre Teillard de Chardin, idéias essas que deram surgimento aos Bettos e Boffs, e outros que tais, essas pessoas agitadas que vivem teimosamente, obcecadamente, sonhando com o tal “mundo melhor” dos socialistas e comunistas.Abandonou-se, pois, o tradicional respeito à inteligência, ao bom uso da inteligência e às suas regras próprias, regras que garantem o trabalho intelectual bem feito, e aderiu-se ao irresponsável chacoalhar das palavras bombásticas, essas que dão Ibope na imprensa.

Ora, não tenho competência para julgar a competência filosófica de pessoa alguma. Porém de um fato estou a par: a conversão de Jacques Maritain e sua mulher Rahíssa à Igreja Católica, conversão essa acontecida no início do século XX, mediante a influência providencial do imenso Leon Bloy, o Peregrino do Absoluto. E mais: sei também que aquele casal, durante os muitos anos em que esteve unido pelo sacramento do matrimônio (até a morte da esposa), conservou em sua casa, por especial permissão da Igreja, um sacrário com o santíssimo Corpo de Cristo. Era um casal de adoradores do Verbo de Deus Encarnado.

Disso, pois, tenho absoluta certeza : sei o que era, o que representava Jesus Cristo para o casal Jacques e Rahíssa Maritain.

Agora, amigo leitor, releia, por favor, o primeiro item deste “post”. Por favor !
Em tempo: eu não acho que Maritain esteja ultrapassado !





posted by ruy at 3:16 da manhã

 

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