Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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21.9.03

 
Reflexão dominical.


Por causa de um probleminha de horário, hoje não assisti à minha habitual missa de preceito, a que é celebrada pelo padre S..., de quem gosto devido ao jeito como ele celebra e cujas homilias também me agradam muito.Voltando de carro para casa, no caminho vinha pensando o que escrever neste post.

Se a memória não me engana, foi o grande padre Vieira quem certa vez escreveu isto: “o bom pregador é aquele que prega o que faz”. Bem, com a permissão do notável sacerdote seiscentista , vou discordar, dizendo : “o bom pregador é aquele que prega quem ele é”.

Neste instante, com toda a certeza mais de um leitor vai me dizer isto:
- “péra aí, Ruy! Cada um de nós é aquilo que faz. E, assim sendo, Vieira disse a mesma coisa que você !”
Retruco eu: não; não é exatamente a mesma coisa, ainda que uma vida vivida com coerência possa dar mesmo certa razão ao amigo leitor.Vamos ver por que discordo de Vieira.

Neste mundo, conforme nos ensinam os manuais de filosofia, vivemos constantemente usando as faculdades que Deus nos deu, ao criar o ser chamado homem: a sensibilidade, a vontade e a inteligência. Todas são importantes e devem ser mesmo cultivadas. Aliás - para não perder tempo e sempre lembrando algo muito sério por que me bato neste blog – a função correta do curso secundário não é a de preparar os moços para o vestibular. É, sim, “treinar” o bom uso das nossas três faculdades (notem: não usei erradamente o verbo “educar”, como infelizmente muitos cometem o equívoco ao usar; quem se educa, ensina o sábio Adler, é a própria pessoa, é o adulto).

Ora, ainda que de fato as três faculdades existam e as três devamos usar, é bom notar, entretanto, que existe uma hierarquia entre elas.Todas são importantes; porém convinha lembrarmos que, tal como analogamente ocorre com as virtudes teologáis – fé, esperança e caridade – das nossas faculdades duas possivelmente não estarão conosco, ou pelo menos do jeito como as conhecemos, quando – que Deus nos ajude! – voltarmos à Casa do Pai: a sensibilidade e a vontade. Por quê ?

Quanto à sensibilidade, segundo o próprio Senhor Jesus nos disse, na eternidade seremos como os Anjos. Anjo não tem frio, nem fome, nem sede; não se apaixona por mulher bonita e nem chora de saudade.
Quanto à vontade: o que poderemos querer, desejar, se estaremos com o Bem como tal, o Bem infinito ?
Resta a inteligência.Feita para a verdade, ela vai gozar eternamente a contemplação da verdade eterna, do bem eterno e da beleza eterna (que Deus nos ajude!).

Bem, agora voltemos ao desejável bom pregador. Muito mais que à nossa sensibilidade e à nossa vontade, suas homilias deveriam acordar, estimular nossa inteligência para que ela começasse desde agora a contemplar – ainda que de modo imperfeito – o que deverá contemplar no Céu. E aí entra o ponto em que discordo de Vieira: só pode nos despertar essa disposição para contemplar o pregador que seja ele mesmo, pelo menos “lato sensu”, um contemplativo. Caso contrário – e prestem muita atenção nos pregadores para verem se estou exagerando– ele vai sempre fazer algum tipo de piedosa retórica, vai ficar mais ligado, mais preocupado, com o mover a nossa vontade, esquecendo-se talvez disso: para desejar algo devemos primeiro conhecê-lo.

Não estou inventando moda. Julian Marías, em seu excelente livro: “A Felicidade Humana”, escreve – e escreve muito bem - que seria muito bom se os pregadores falassem sobre como deverá ser o Céu, despertassem a curiosidade dos fiéis sobre esse assunto, que é, afinal, o próprio núcleo de nossa vida : como será o Céu ?



posted by ruy at 12:22 da tarde

20.9.03

 
Uma história verdadeira.


O que vou contar aconteceu já faz muitos anos, antes do começo da segunda Guerra Mundial.
Ia um certo engenheiro de carona no carro de um amigo, médico pesquisador (filho de um famoso médico brasileiro), quando, de repente, o veículo passa por cima de uma pedra. O forte impacto fez abrir o porta luva e dali caiu aos pés do engenheiro um missal com vários santinhos. Para os mais novos, que não sabem do que se trata, explico. Missal é um livro em que estão os textos de todas as missas do ano litúrgico; houve tempo em que muitos de nós católicos íamos com o nosso missal à Igreja, para melhor acompanharmos o santo sacrifício da missa. “Santinho” é um pequeno cartão, em geral fino, em que aparece a imagem de um santo, de Nossa Senhora ou do próprio Senhor Jesus, e onde vem impressa uma curta oração. É costume ser usado para marcar o missal ou outro livro, obviamente livro de assunto sério.

Ora, o engenheiro se abaixou, apanhou o missal e, em seguida, motivado por aquele fato imprevisto, começou a conversar com o amigo sobre um problema que tinha há muito tempo: o problema da fé religiosa. O amigo, depois de ouvi-lo com bastante atenção, sugeriu que ele procurasse certo padre a fim de ser melhor orientado.

Encurtando a história: pouco tempo depois, aquele brilhante engenheiro, um homem cuja penetrante inteligência poderia fazê-lo ficar rico, torná-lo um burguês bem sucedido na vida, caiu de joelhos diante do altar. E dedicou os quarenta anos de vida que lhe restaram pela frente ao apostolado do Cristo.

No centro, no próprio núcleo do Cristianismo, não está simplesmente uma doutrina, um conjunto de princípios filosóficos e teológicos, não está um exigente código de moral. Tudo isso existe mesmo em nossa crença religiosa. Mas, nuclearmente, o que está ali é de fato uma Pessoa, a principal das pessoas que existem. Aquele engenheiro descobriu essa pessoa e passou a amá-la, com toda a sua alma, com todas as suas forças e com todo o seu entendimento. Descobriu que a santidade consiste não tanto em ser moralmente bom. Isso é muitíssimo necessário, sim; é imprescindível. Mas, ser santo neste mundo, como dizia Santo Agostinho, consiste muito mais em estar constantemente na procura da santidade, buscando sempre saber o que o Senhor deseja de nós, o que Ele quer que a gente faça.


Contrariando Vinicius.

Coitada da mulher bonita...
Sempre requestada,
sempre desejada,
acaba mesmo pensando
(engano profundo)
que seja o centro do mundo.
Por isso mesmo, na verdade,
o essencial é a bondade.
Sem ela, qualquer beleza
perde a sua leveza,
acaba mesmo cansando...


posted by ruy at 6:07 da manhã

19.9.03

 
Ainda sobre a China.


A televisão - infelizmente - acabou se transformando em uma praga, um vício, uma boa porcaria (desculpem-me a rudeza dos termos...).Um dos malefícios que ela nos trouxe foi o de quase anular, em nossa população alfabetizada, o salutar hábito da leitura de livros. Em tempos que lá se vão distantes, havia em nosso país dezenas de boas editoras e o excelente movimento editorial se fazia com a publicação de clássicos da literatura ou com obras modernas de boa qualidade. Lembro-me, por exemplo, destas três grandes empresas do ramo: a AGIR, a José Olympio e a saudosa Globo (que na época ainda estava nas mãos dos gaúchos).

Entre os autores modernos na época, havia um que era "best-seller", o escocês A .J . Cronin, falecido em 1981. Autor de inúmeros romances vários dos quais foram levados à tela dos cinemas, como por exemplo: "Cidadela" (um clássico sobre o dilema do médico que fica indeciso entre ganhar um bom dinheiro com a medicina ou se dedicar ao bem do próximo), "Anos de Ternura" (talvez meio autobiográfico) e o belíssimo "As Chaves do Reino", que teve no papel principal (o do padre Chris) o inesquecível Gregory Peck.

É bem possível que Cronin tenha se inspirado, ao escrever este romance ("As Chaves do Reino"), na história real do padre Vicente Lebbe., belga, que foi missionário na China, tendo lá vivido como se chinês fosse (imitando o exemplo de São Paulo: "fiz-me grego entre os gregos...").E graças aos seus teimosos esforços, conseguiu que fossem ordenados os primeiros seis bispos chineses.Tudo isso e muito mais pode ser lido no livro "O trovão que canta ao longe", de Jacques Leclerc, editado pela AGIR (o problema será o de achar esse livro...). Se a memória não me engana, Leclerc diz no final da obra o seguinte: "tendo passado minha vida estudando a vida dos santos, creio que esse homem (o padre Lebbe) era da mesma madeira de que eles foram feitos".

Pois bem, muitos religiosos católicos como o padre Lebbe (que já foi beatificado), e mesmo vários missionários protestantes, estiveram na China como se ali tivessem ido para dizer ao povo daquela milenar nação isto : "Irmãos ! Nem todos os ocidentais são apegados ao poder, ao dinheiro, aos vícios. Lá de onde viemos, existem milhares e milhares de cristãos como nós, e que têm a nossa mesma Fé, vivem a nossa mesma Esperança e procuram, como nós, cumprir o mesmo santo dever da Caridade !"

Pensemos neste fato histórico: quando Marco Pólo e seus irmãos chegaram à China, no século XV, já estava bruxuleando a grande luz que durante cerca de mil anos iluminara o Medievo.Dali para a frente, os ocidentais que iriam chegar ao Oriente já pertenciam a um outro tipo de civilização.

Somos inteiramente solidários com as vítimas e os parentes da vítimas - aí incluindo os bravos bombeiros de Nova York - que foram agredidos pelo insano ataque suicida naquele dantesco 11 de setembro de 2002. Mas, há um detalhe sobre o qual devemos meditar profundamente, demoradamente : o contraste que existe entre aquelas duas torres erguidas como um monumento ao lucro comercial e as esguias e veneráveis torres das catedrais de pedra. Nesse contraste, amigo leitor, está a imensa tragédia de nossa época...


posted by ruy at 7:07 da manhã

18.9.03

 
Sobre a Ação Católica.


Meu amigo R.P..., leitor deste blog, enviou-me faz uns dois dias uma boa notícia. Nosso papa está desejando reativar a Ação Católica, esse instituto leigo criado por Pio XI já faz muitos anos. Vejamos uma definição da A C :

- " Em 1920, o Papa Pio XI, angustiado com a missão da Igreja diante dos desafios e das grandes mudanças na realidade mundial (processo de urbanização e industrialização), estimulou a chamada Ação Católica que era o espaço de participação dos leigos católicos no apostolado hierárquico da Igreja, para o difusão e a atuação dos princípios católicos na vida pessoal, familiar e social." ( trecho colhido no ótimo "site" editado pelo professor Jean Lauand).

Muitos, ao tomarem conhecimento pela primeira vez da existência da Ação Católica, ficam ligados ao termo "Ação". Cometem o equívoco de julgarem que a essência desse "movimento" seja um entusiasmado ativismo.Na realidade, uma Ação Católica autêntica deve ser de fato uma escola de santidade, cujos participantes se apóiem mutuamente na busca daquilo que foi determinado por Nosso Senhor:
" Querit primo regnum Dei."


São Pio de Pietrelcina


O "site" católico americano www.ewtn.com traz hoje (18 de setembro) uma belíssima foto em close desse moderno santo franciscano, um dos muitos estigmatizados presentes na hagiografia católica (e não há exagero algum no advérbio que usei; é belíssima mesmo).
Dizem que uma imagem vale por mil palavras. Creio que este lugar comum seja um pouco exagerado. Entretanto, olhar essa foto de São Pio é descobrir de imediato a bondade, uma bondade pacificada, aquela que nasce do íntimo de quem está em paz com Deus. Uma bondade que nos convida a sermos bons.Neste instante, é oportuno lembrar uma curiosa coincidência : entre os textos da missa de hoje está aquele trecho da primeira epístola de São Paulo em que lemos:

" A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa.Não é arrogante. Nem escandalosa.Não busca os seus próprios interesses. Não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade.Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. "

Tudo isso a gente vê ali, no olhar do Padre Pio.


Uma retificação.

Tenho recomendado aos leitores deste blog a leitura de um livro de Paul Johnson, cujo assunto é a história do mundo entre os anos 20 e os anos 80. De fato, o nome do livro é este: " TEMPOS MODERNOS" . E a frase: "Dos anos 20 aos anos 80" é apenas o sub-título da obra. Me desculpem essa escorregadela...


posted by ruy at 5:51 da manhã

17.9.03

 

Uma sugestão!


Ensinam-nos os entendidos que a comunicação humana se faz em um destes quatro discursos : poético, retórico, dialético e lógico, enumerados assim mesmo, pela ordem crescente de sua eficácia comunicativa. Por que ordem crescente? Porque no primeiro nível, o da poética, fazemos mais um apelo à sensibilidade.No que toca ao problema do outro, isto é, daquele que nos lê ou ouve, a sensibilidade é de fato mais universal. Porém, a linguagem da poética é limitada, ela se faz normalmente com economia de palavras. O bom poema é sóbrio, usa os versos essenciais.No outro extremo, está o rigor, a precisão do discurso lógico, aquele que ouvimos em postura formal, com seriedade nos olhos e disciplina nos ouvidos.

Entretanto, em que pese à humilde pobreza do discurso poético - ou talvez por isso mesmo - ele tem uma enorme vantagem: se for "usada" corretamente, a poesia é capaz de nos provocar valiosas intuições. Pode fazer com que nossos olhos e ouvidos, de repente, passem a ver, a ouvir, coisas antes ignoradas ou esquecidas. Coisas que estão bem perto de nós e passamos por elas distraídos.

Por isso mesmo, peço aos leitores deste blog que façam o seguinte: tentem encontrar as edições completas da obra poética deste dois imensos poetas católicos brasileiros : Jorge de Lima e Murilo Mendes, um alagoano e o outro mineiro de Juiz de Fora. E leiam, por favor, esses dois autores que, em passado que vai ficando distante, eram lidos com entusiasmo por nós católicos, e hoje - lamentavelmente...- estão ficando no rol dos "desaparecidos"... Repito: por favor, leiam Jorge de Lima e Murilo Mendes !


E por falar em poetas cristãos...


Hoje a Igreja, nossa Mãe e Mestra, comemora os sagrados estigmas de São Francisco de Assis, o imenso poeta cristão da Idade Média e de todos os tempos.Peço vênia ao leitor para transcrever de um "site " católico americano, "ipsis litteris", uma poética oração de São Francisco. Vai assim mesmo, em inglês, para nos lembrarmos de que há muita coisa boa nos tão xingados EUA.

Oração de São Francisco de Assis.

May you be praised, O Lord, in all your creatures, especially brother
sun, by whom you give us light for the day; he is beautiful, radiating
great splendour, and offering us a symbol of you, the Most High. . .
May you be praised, my Lord, for sister water, who is very useful
and humble, precious and chaste. . . May you be praised, my Lord,
for sister earth, our mother, who bears and feeds us, and produces
the variety of fruits and dappled flowers and grasses. . . Praise and
bless my Lord, give thanks and serve him in all humility.

St. Francis of Assisi, Canticle of the Creatures.



Uma informação para quem ainda não sabia.

É comum rezarmos nas igrejas e em outros lugares a chamada "Oração de São Francisco" ( aquela que começa dizendo: "Senhor, fazei-me instrumento de Vossa paz..."). Ele poderia ter escrito e assinado essa oração, sem dúvida alguma. Porém, ela é mesmo um belíssimo poema da autoria da poetisa chilena Gabriela Mistral, prêmio Nobel de literatura E aqueles inspirados versos que rezamos são a tradução feita pelo nosso inesquecível Manuel Bandeira.



posted by ruy at 5:22 da manhã

16.9.03

 
Um ponto essencial para nossa reflexão.


Nós católicos corremos um permanente perigo, e não é o da famosa "bala perdida" (este é "ecumênico" ...). O curioso nesse fato é que ocorre um certo paradoxo, qual seja: o perigo ronda justamente as pessoas mais bem equipadas, melhor armadas para enfrentá-lo, e que talvez por isso mesmo fiquem desprevenidas, desatentas ao que lhes pode suceder.

Temos, nós católicos, a melhor doutrina. Elaborada durante séculos, guardada com enorme carinho por nossa Mãe e Mestra, essa doutrina nos permite refletir com segurança, com acerto, sobre os mais diversos temas, que envolvem desde os prosaicos - e nem por isso menos importantes - assuntos ligados à família, às formas primárias da vida em convivência, até os agitados, nervosos, muitas vezes explosivos, encontros e desencontros das nações deste planeta.E é bom, é necessário mesmo, que usemos o dom da inteligência para analisar todos esses tipos de problemas. Até aqui, como diz antigo ditado, morreu Neves.

O traiçoeiro perigo que nos ameaça é o da auto-suficiência. É o de nos esquecermos que esse imenso patrimônio cultural de que dispomos, como usuários dele, não nos liberta do mistério essencial da existência.

Muitos de nós nos entusiasmamos em controvérsias, em discussões travadas cara a cara ou via Internet, com pessoas que pensam de modo diferente de nós. Deixamo-nos levar muitas vezes por um certo tipo de moralismo mais refinado, mais sutil que os costumeiros. E com isso vamos passando ao largo daquele que talvez seja o problema fundamental em nossa vida.

Neste instante, como já me ocorreu em um certo dia, em um passado remoto, pode alguém me dizer em tom meio brincalhão: "calma, Ruy! Não se preocupe! O principal é a salvação eterna! " E de fato é. Entretanto, em que pese à verdade disso que um eventual leitor acabou de me lembrar, continua existindo imenso, profundo, intrigante, incômodo o mistério da minha existência e da existência de todas as coisas que me cercam.E isso é muitíssimo mais perturbador que qualquer discussão sobre o que seja moralmente certo e o que seja moralmente errado. E acho que, se alguém ainda não percebeu esse fato, talvez não tenha ainda começado a viver.

O ponto que deveria ser fundamental em nossa vida é a alegria. Não uma alegria sensível e fácil; mas aquela que decorre de uma confiança readquirida no próprio ato de existir.Uma alegria trabalhosa para conseguir.
Ensinam-nos os entendidos que há dez categorias, das quais nove são acidentes (no sentido filosófico do termo).Em geral nos fixamos em nossos "acidentes". Pois bem, seria muito salutar que nós todos, principalmente nós católicos, percebêssemos a nuclear importância deste fato "substancial" : eu existo. Descartes talvez tenha errado justamente por ter deixado de ressaltar em primeiro lugar o óbvio.


posted by ruy at 4:57 da manhã

15.9.03

 
O equívoco de um homem de bem.


Navegando sábado passado pela Internet li alguns textos recentes escritos por um homem de bem, um cristão sincero e corajoso; um católico que pode ser apontado como verdadeiro modelo de autenticidade. Um homem que, não faz muito tempo, exerceu relevante atividade pública no País, ocasião em que deu mostras de cabal competência e de edificante dedicação ao Bem-Comum, algo de que ele conhece, com toda a certeza, não só o conceito formal como também a realização concreta. Enfim: um grande homem.

Entretanto, em que pese ao indiscutível valor desse homem, seus escritos, deixaram à mostra um enorme equívoco que, em minha opinião, ele comete.Ali estavam vários artigos repletos de porcentagens - com certeza verdadeiras - que comprovam este fato: existem pouquíssimos países que se podem dizer ricos - e por isso mesmo com melhor distribuição de renda, com seus habitantes dispondo de melhores condições sociais - e uma grande quantidade, a maioria do mundo, de países pobres, muitos deles sobrecarregados com gravíssimos problemas no que toca à saúde, à escolaridade, à moradia e vários outros.

Ainda que nos textos não haja uma nítida, direta acusação aos países ricos, apontando-os como os grandes responsáveis por essas humilhantes desigualdades entre os povos deste planeta, percebe-se pelo tom do articulista que ele está mesmo fazendo um veemente libelo contra os governos das nações mais bem desenvolvidas.

Ora, vamos partir dos seguintes pontos: 1o.- todos os dados apresentados pelo bravo escritor são verdadeiros; 2o.- em conseqüência, existe de fato uma injusta desigualdade no mundo. Bem, suponhamos que o nosso mesmo analista de fatos econômicos e sociais resolva pedir uma audiência, digamos, ao presidente Bush, governante do país mais rico do mundo e, sendo por ele recebido na Casa Branca, lhe diga - com modos civilizados, é claro - que é preciso que os Estados Unidos sejam definitivamente mais generosos e procurem acabar de vez com essas injustas desigualdades que atormentam a maioria dos povos.

Acho que aquele rosto fechado e pouco simpático do Chefe de Estado americano vai se abrir em um sorriso, quem sabe irônico, misto de surpresa e de pena.E tudo vai, como diz o antigo ditado, ficar como dantes no quartel de Abrantes.

O equívoco do bravo articulista, e junto com ele muitos, consiste justamente em olhar a situação do mundo moderno de um modo que eu chamo: "estático", "cartesiano"; um modo de analisar os fatos atuais em que falta a sábia presença da história, a esclarecedora lição do passado remoto, aquele que pode nos ensinar, por exemplo, que há muitos séculos existiu uma Cristandade, quando ainda não haviam surgidos os orgulhosos nacionalismos. Pode nos ensinar que, em certa época, homens que a si mesmos consideravam "iluminados" - entre eles, os que fizeram a Revolução Americana e os que fizeram a independência dos outros países que também tinham sido colonizados pelos europeus - resolveram negar a existência de um Pai comum, negação esta que torna a tal "Fraternidade Universal" uma piada de muito mau gosto.

Minha pergunta agora é a seguinte:
- como se pode esperar uma generosidade verdadeira quando já não existe no coração dos homens o profundo sentimento de uma verdadeira fraternidade ?


Hoje :15 de setembro- Dia de Nossa Senhora das Dores.

O' Maria ! Amparai vosso filho : o nosso papa João Paulo II !


posted by ruy at 3:18 da manhã

 

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