Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





Arquivos:





Fale Comigo

24.8.03

 
As diversas formas da cruz.


Segundo explicam os doutos, a cruz em que se pregavam os condenados, a própria cruz em que Nosso Senhor padeceu as últimas horas de sua dolorosa paixão, era de fato uma enorme e pesada viga (cerca de cinqüenta quilos de peso) que era levada sobre o ombro pelo próprio infeliz destinado ao terrível suplício. Dizem que no Santo Sudário de Turim existe a marca da chaga do ombro de Jesus, detalhe esse não mencionado em nenhum dos 4 evangelhos.A parte vertical do conjunto era constituída por um poste, fixado no chão, terminado na parte superior por uma ponta cilíndrica onde se fixava a “cruz” propriamente dita A forma final lembrava mais um sombrio “T” .

Porém, as formas da cruz às quais me refiro hoje neste blog são bem diferentes; não têm aquele contorno geométrico, ortogonal e nítido, da cruz histórica. Vejamos, por exemplo, como é a forma da cruz do Papa.

Homem destes dois recentes séculos, João Paulo II tem vivido em um mundo impregnado de comunicações abundantes e rápidas : rádio, televisão, satélites artificiais, cabos de fibra óptica, Internet, jornais, revistas. etc. Tudo isso acaba transformando o bispo de Roma em notícia: aquilo que hoje existe e de que, amanhã, ninguém mais se lembra como era. O Papa sabe disso; e sabe também – e quanto – que ele é muitíssimo mais que essa transitória notícia. Ele é o sucessor de Pedro. Mas, como fazer com que os homens se lembrem disso em um mundo secularizado, laicizado, hostil ao Cristianismo ? Um mundo em que não mais existe uma Cristandade.

Se o leitor começar a prestar atenção, irá perceber em si mesmo e em torno de si outras particulares formas de cruz. Cada um de nós tem a sua.


“Post hoc, ergo propter hoc.”


“Post hoc, ergo propter hoc” = “depois disso, logo: por causa disso.” Este é um dos clássicos sofismas sobre os quais nos previnem os elementares manuais de lógica. Entretanto, apesar de prevenidos, muitos de nós caímos nesse erro de indução. E ao fazê-lo, muitas vezes cometemos inconscientes e duras injustiças. Causamos tristonhas mágoas; criamos dolorosas angústias; fazemos derramar lágrimas sentidas...Ou então geramos preconceitos virulentos contra muitas instituições, incluindo entre elas a própria Igreja fundada pelo Cristo. Como é apressado e pequeno o julgamento humano...


Cinema.


Todo mundo está cansado de saber que é gigantesca a produção cinematográfica americana. Os filmes realizados nos EUA são exibidos praticamente no mundo inteiro.

Ora, faz alguns anos, comecei a perceber a quantidade enorme de películas de baixíssima qualidade que vinham chegando do grande país do Norte. Irritei-me e resolvi fazer meu particular boicote contra os filmes americanos; fazia de tudo para não ir ao cinema.

Porém, eis que chega uma bela tarde em que minha mulher consegue me levar a uma das salas de projeção de um “shopping”, aqui perto de casa. Estava passando ali a comédia: “Melhor é impossível”, com Jack Nicholson e Helen Hunt nos principais papéis.

Fui acompanhando atentamente o desenrolar da história, em que todos os personagens eram interpretados com a maior autenticidade; um “script” em que havia inclusive um simpático cãozinho - de verdade - habilmente treinado pelos produtores.

Quase no final do filme, em uma rua deserta e de madrugada, ocorre uma cena em que Melvin, o escritor psicótico (Nicholson), faz uma apaixonada declaração de amor a Carol, a humilde garçonete (Hunt). Essa memorável cena é uma das mais lindas, mais românticas cenas que já foram levadas à tela ! Meus olhos lacrimejaram. Saí dali de pazes feitas com o cinema americano!


posted by ruy at 5:45 da manhã

23.8.03

 
Retomando o tema predileto.


Mais uma vez retorno ao magno tema da educação, por mim entendida segundo o sensato, claro e preciso ponto de vista de Mortimer Jerome Adler.

Todo professor em escola do chamado “nível superior” talvez tenha melhor oportunidade para constatar certas falhas, hoje crônicas, na área do ensino, particularmente, na escola secundária, falhas essas que, por via das conseqüências, acabam redundando em um grande número de pessoas “mal-educadas”, ou mais precisamente, pessoas que têm maior dificuldade em se educarem, entendendo esse verbo conforme a perspectiva de mesmo Adler, qual seja: a de que somente adultos podem se educar, e é a própria pessoa quem se educa.

Como professor em uma escola de engenharia, sou um dos beneficiados por aquela melhor oportunidade de constatação.Peço vênia para começar este excurso falando em assunto do meu ramo profissional, mas prometo poupar o leitor não o assustando com exagerados “tecnicismos”.

Todos os leitores com certeza têm em suas casas, em seus carros um receptor de rádio FM (modulação em freqüência) , e provavelmente já perceberam que a qualidade da recepção, do som que sai no alto-falante, é bem melhor nesse tipo de modulação ( FM ) que na mais antiga, mais popular e mais difundida AM (modulação em amplitude). A razão dessa superioridade da FM está muito ligada ao fato de ser essa modulação do tipo : “faixa larga”. O preço que pagamos por essa melhor qualidade, além do grande aumento da largura da faixa transmitida, é o de termos que usar circuitos eletrônicos bem mais elaborados, obviamente mais caros, que os da AM, para transmitir e receber sinais modulados em FM.

Ora, quando ministra aos seus alunos esse emocionante capítulo da Teoria das Comunicações que explica minuciosamente por que ocorre melhor qualidade na recepção da música se o sinal for modulado em FM, o Ruy sempre frisa este ponto: tal melhoria é observável na audição de música autêntica, e não na escuta de barulho orquestrado. Uma sinfonia de Mozart, uma cantata de Bach, um prelúdio de Debussy – qualquer composição desse tipo tem nuances melódicas, tem trechos em que o sinal é delicado, é perceptível apenas pelos ouvidos que foram “treinados” para perceber essas filigranas acústicas. Ouvidos “toscos” serão incapazes de perceber a diferença essencial que existe entre um concerto de “rock” e um concerto de Beethoven.

Aquele “treinamento” deveria ocorrer na escola secundária, e não só para o que toca à música. Também no que se refere à leitura em voz alta de poesia e prosa de boa qualidade.E ainda mais: “treinados” para perceber a serena beleza que existe em um teorema de matemática ou em um princípio da física. Para se emocionarem com o misterioso drama da história universal. Entretanto, infelizmente, faz mais ou menos uns quarenta anos que a escola secundária no Brasil se transformou em mera ponte para o vestibular... E o pior é que essa distorção tem o apoio tácito dos pais dos alunos...

[ Um lembrete: nunca é demais, meus amigos, recordar aquele verso muito feliz de Olavo Bilac em que ele diz isto : “...a beleza, irmã gêmea da verdade.”]

Leitor, desculpe agora a frase meio deselegante, mas é a que melhor me ocorre neste minuto: usar a complexa matemática e os correspondentes complicados circuitos eletrônicos da FM para transmitir “rocks”, “raps”, sambões e similares é mais ou menos como lavar porco com sabonete...


Hoje, 23 de agosto - Santa Rosa de Lima, rogai por nós!



posted by ruy at 3:40 da manhã

22.8.03

 
Saudade.


Não, amigo leitor, não vou falar de lugares distantes onde vivi - como dizia o poeta - "a aurora de minha vida"; nem vou tão pouco narrar os casos engraçados que ouvi contados por meu pai ou por meu avô. Nem muitíssimo menos vou ousar descrever aqui a emoção do primeiro beijo no tempo do namoro. A saudade de que pretendo falar é menos sensível, está muito mais na memória intelectual.

De início repito o que já disse várias e várias vezes, em diversos textos: acredito piamente que no Céu deva estar uma imensa multidão de pessoas que na Terra foram analfabetas ou de pouquíssima cultura. O essencial para ingressar na Vida Eterna é a prática da Caridade, entendida esta como o amor voltado, orientado para Deus, diretamente ou através do nosso próximo.

Entretanto, como nos ensina o sábio e santo Tomás de Aquino, se Deus nos concedeu o dom da inteligência, ela existe para ser usada. E é por aí que vou falar na saudade que deu motivo para este item do post.Tenho muita saudade do tempo em que nós católicos respeitávamos o bom uso da inteligência. Um tempo em que, muito sensatamente, nos lembrávamos do que está escrito no Eclesiastes, mais especificamente em seu Capítulo 3, versículos 1 a 8, onde se diz que existe um tempo para tudo: tempo para a guerra e tempo para a paz; tempo para chorar e tempo para rir; tempo para calar e tempo para falar; e outras conexões semelhantes.

Hoje, infelizmente, quando assisto a certas missas, fico bastante contristado ao ver que muitos se esqueceram da sábia advertência do Eclesiastes. Tolamente se esqueceram de que em cada missa ocorre um profundo e impenetrável mistério, e que seria muito mais inteligente guardar um reverente silêncio, bem mais adequado àquele sacrifício incruento, já que isso é o que na missa celebramos. Pobre inteligência, coitadinha: foi mandada às urtigas...

[Em tempo: haverá quem diga que tais atitudes agitadas e ruidosas surgiram para compensar uma ausência de sentimento, para suprir uma falta de emoção que existiria entre os católicos. Ora, jamais existiu essa falta de sentimento dentro da Igreja. Haja vista, por exemplo, os sonoros, os belos hinos de louvor a Nossa Senhora, que durante séculos sempre foram cantados por nós, com muito entusiasmo! ]


Ainda sobre os Santos !


Meu amigo M... é engenheiro como eu. Somos ambos do ramo "elétrico"; mas, enquanto opero com correntes da ordem de mili ou microampères, ele trabalha com correntes de ampères , e daí muito mais prá cima! Talvez por isso, M... de vez em quando me envia textos "robustos", com muito maior conteúdo que minhas pobres divagações feitas neste blog...

Hoje de manhã, recebi uma longa citação de Santo Agostinho. Não vou transcrevê-la aqui. Antes prefiro divulgar o próprio comentário do meu amigo M..., feito após o referido texto, e que abaixo vai colado.

Estes mesmos Santos e Sábios do Senhor foram forjados no mesmo "cadinho universal" que é a Igreja. Sem Ela, não haveria estes espíritos mais fortes que o aço. Ela que possibilitou, pela fecundidade de seu seio, gerar e nutrir estes homens e mulheres inspirados. Sem Ela para servir de base à multitude de manifestações dos homens, este "bem" seria dispersado em caos ou diluído e dissolvido até o desaparecimento. Mater et Magistra, fonte e matriz da civilização para que os homens elevem a uma só voz um brado de reconhecimento e de amor.

É isso aí, velho M...! E mais uma vez: obrigado !




posted by ruy at 4:02 da manhã

21.8.03

 

Chesterton.


Hoje de madrugada, durante uma rápida insônia, não sei por quê, me lembrei de Chesterton, o mestre do humorismo. Aqui no Brasil, quando se fala em humorismo, pensamos logo em chanchadas, em piadas grosseiras, em gargalhadas indiscretas, ou no mínimo em brincadeirinhas irreverentes. Ora, em Chesterton o humorismo não é nada disso!

Nos escritos do imortal autor de Ortodoxia, das excelentes biografias não rotineiras de São Francisco de Assis e Santo Tomás de Aquino, das divertidas aventuras do padre Brown, das centenas de ensaios brilhantes sobre os mais diversos assuntos e de muito mais que, citado agora, alongaria este post sem necessidade, em toda a obra chestertoniana, digo, o humorismo é essencialmente um atilado apelo à nossa inteligência para que ela preste mais atenção nas coisas que estão bem perto de nós, próximas no mundo simplesmente físico e no mundo mais sutil que é o coração do próprio homem.

Oxalá nossos mais bem dotados ensaístas passassem a se inspirar na maneira de Chesterton ver o fascinante mistério da vida!


Modelos: os desejáveis e os indesejáveis.


Ainda estamos sob o impacto da notícia sobre o brutal atentado terrorista ocorrido ante ontem no Iraque. Para nós brasileiros o fato teve um aspecto muito mais doloroso porquanto implicou a morte estúpida de um compatriota nosso, o diplomata Sérgio Vieira de Melo. E agora vem esta reflexão melancólica: foi preciso que ocorresse essa morte trágica para que se tornasse conhecido da maioria da população brasileira a importante pessoa que era Vieira de Melo. E que pessoa era ele?

Na noite do dia em que houve o atentado, minha mulher e eu ficamos um bom tempo vendo e ouvindo, no canal da BBC da NET, uma longa entrevista gravada pelo falecido no início deste ano. Ora, já falei algures sobre o que chamo: a proliferação no Brasil de cursinhos que se propõem ensinar aos alunos, em sua maioria moços, a falar no idioma de Shakespeare e Poe. Obviamente, o interesse desses milhares (quem sabe, milhões ?) de jovens alunos está na oportunidade de melhores empregos, mais altos salários que devem existir para os que souberem se expressar bem em inglês.

Pois bem, ao ouvir a longa entrevista de Vieira de Melo, fiquei prestando atenção no seguinte aspecto: ali não estava simplesmente alguém que sabia falar em inglês com desembaraço. Muito mais que isso, o que minha mulher e eu ouvíamos fascinados era uma pessoa que sabia pensar em inglês, e pensar depressa, dando respostas prontas e bem articuladas ao seu interlocutor. Alguém que se expressava com elegância nos gestos, com vivacidade no olhar. Alguém plenamente seguro de si próprio. Um homem culto, cujo honroso título recebido na Sorbonne certamente lhe tinha sido entregue em reconhecimento de seus reais méritos.

Agora, amigo leitor, dê uma demorada e panorâmica visada sobre os nossos homens públicos, mais especificamente sobre os que hoje estão no Poder , seja no governo dos Estados ou no governo do País. Pergunto: podemos dizer que eles sejam um desejável modelo de civilização ? Constituem eles tipos de pessoas que podemos apontar como exemplo para nossos filhos e netos ? Reflita bem sobre isso, caro leitor!


Hoje : 21 de agosto - São Pio X, rogai por nós !


posted by ruy at 4:17 da manhã

20.8.03

 

A respeito de santos.


Faz poucos dias escrevi neste blog que, para mim pelo menos, uma das características marcantes do católico é o seu carinho para com os santos. Bem, escrevi isso mesmo e não nego. Entretanto, sou obrigado agora a fazer uma ressalva.

Existe uma pletora de tipos de santos, variando a idade, o sexo, a cultura, a personalidade etc. Devido a esse fato, o católico - ainda que respeite e aceite a canonização feita pela mãe Igreja - acaba mesmo tendo suas preferências bem pessoais, dentre a imensa galeria dos santos canonizados. E mais: ocorre também o curioso caso das ... antipatias !

Fiz essa introdução para falar agora sobre o santo cuja festa é hoje celebrada: São Bernardo.
Eis aí um ótimo exemplo de um aureolado que divide a opinião dos católicos, ficando uma parte de nós com simpatia e uma outra parte torcendo o nariz quando houve falar nesse homem que - falem bem ou mal dele - é um legítimo representante do mundo medieval. Vejamos por que acontece essa disparidade de atitudes.

Uns, quando ouvem falar no austero abade de Claraval ( "Clairvaux") lembram-se logo do enérgico e obstinado pregador de uma Cruzada; pensam no religioso que fez tremenda pressão inquisitorial contra o pobre Abelardo, o infeliz apaixonado por Heloísa. Outros, por sua vez, ao ouvirem o nome Bernardo, o associam à sua emocionante homilia sobre o "fiat" que a Virgem disse ao anjo Gabriel, dando início à história da nossa salvação; recordam-se da belíssima prece "Lembrai-vos" ( "Memorare" ), dirigida à nossa Mãe celeste, prece de autoria do grande monge da Cristandade, Doutor da Igreja.

E o Ruy? de que lado fica ? Bem , que me desculpem os meus irmãos que estejam no outro lado, mas Bernardo tem minha simpatia !


Reflexão à margem do atentado no Iraque.


A notícia sobre o irracional, o alucinado ataque às instalações da ONU ocorrido ontem pode perturbar nosso julgamento do fato.Talvez fosse mais sensato esperar algum tempo para, então, fazermos adequados comentários a respeito do assunto. Mas, por outro lado, é importante que se dê um alerta para não deixarmos que a emoção nos empurre para uma ou outra atitude extremada. No caso específico: de um lado, uma atitude de ira contra os Estados Unidos; do outro, uma idêntica atitude contra o país ocupado pelas tropas americanas.

Desde o início do conflito EUA versus Iraque, vimos refletindo sobre o longo processo de decadência da cultura Ocidental no que se refere a dois fundamentais aspectos: um filosófico e outro religioso. Tal decadência teve seu início na Europa, lá pelo final do século XIV e veio se avolumando ao longo dos séculos.

Já não nos lembramos de que na Idade Média existiu uma convivência razoavelmente pacífica entre a cultura cristã e a cultura muçulmana (entenda-se: árabe).Com o passar dos tempos, cresceram os nacionalismos auto-suficientes (entenda-se: impregnados de arrogante laicismo) e o mundo foi se fragmentando entre nações fortes e nações fracas, sem nada que as mantivesse solidárias, já que é ridículo falar em fraternidade ( a "Fraternité" da guilhotina...) quando não se aceita a existência de um Pai comum...

Por exemplo: como esperar que os muçulmanos olhem com respeito as nações "soi-disant" cristãs quando essas mesmas nações há muito tempo enviaram de fato o Cristianismo às urtigas ? Ou algum dos nossos leitores ingenuamente acredita que ainda exista, tal como existiu na luminosa Idade Média, uma Cristandade?


posted by ruy at 3:32 da manhã

19.8.03

 



posted by ruy at 4:11 da manhã

 

O mistério da conversão.


É generalizado costume nosso o de criticar políticos corruptos e/ou truculentos; criticar os chefes de Estado orgulhosos e prepotentes ou submissos e ridículos; criticar os "gays" arrogantes que fazem passeatas em favor dos direitos (...) de suas aberrações; criticar professores pedantes que parecem querer, em suas aulas universitárias, exibir muito mais sua vaidade que apresentar, aos seus alunos, a sabedoria existente no mundo; criticar os moços nervosos e afoitos que usam a maravilhosa tecnologia embutida na Internet para se entregarem ao inglório pugilato das polêmicas exaltadas; criticar os alcaides ("male or female") que escondem sua incompetência administrativa por trás de atos demagógicos; etc.

Todas estas críticas e muitas outras mais que fazemos ao longo dos nossos agitados dias modernos são legítimas. Insensato seria o Ruy Maia Freitas se abrisse a boca para contestar o direito da crítica.Entretanto, posso - a neste exato momento acho que devo - fazer uma necessária ressalva.

A menos que o leitor seja adepto de um bizarro e solipsista irracionalismo, há de concordar comigo no seguinte ponto: o que dá consistência, o que confere significado inteligente a qualquer crítica que fazemos é, sem dúvida alguma, a existência da liberdade humana. Elimine-se essa liberdade e todas as nossas críticas se transformam imediatamente em brincadeirinhas de meninos mal-criados ou de crianças com congênitos problemas mentais.Se por acaso o leitor até este instante nunca havia pensado no assunto, convido-o a refletir sobre ele.

Essa liberdade humana é o dado essencial que deveria pautar nossas conversas, nossos textos, sejam eles publicados em papel ou na tela dos computadores. É o fato dela existir que nos dá pleno direito de nos indignarmos contra os chamados "crimes hediondos", crimes estes que só recebem glamour quando vistos sob a óptica de cineastas canalhas ou degenerados, ou quando descritos com a pena de poetas geniais que muitas vezes ocultam, sob versos muito bem elaborados, uma profunda e sombria angústia existencial.

[ A "Ode Marítima", de Fernando Pessoa, só atinge sua beleza plena no final, quando o poeta - como que arrependido dos versos marcados pelo furor dos assassinos - retoma o ritmo tranqüilo do início do poema, e passa a usar uma linguagem mais conforme às coisas comuns, ou aparentemente comuns, aquelas que nos cercam na mesmice das horas e dos dias.]

Essa mesma liberdade que existe para o homem adquirir os mais degradantes vícios, cometer as mais torpes baixezas, planejar os mais sanguinários crimes, existe também para qualquer um de nós que resolva dizer - de coração aberto - estas palavras : "meu Senhor, e meu Deus !" Palavras que inauguram a conversão, a volta Àquele que nos criou, com tudo o que temos: inteligência e vontade livre (que são praticamente sinônimos, porquanto dizer que sou inteligente é quase o mesmo que dizer que sou livre).

O que dificulta o primeiro passo é sempre o apego ao nosso vaidoso eu.Temos medo de perdê-lo, com nossas idiossincrasias e manias... No que toca a Deus, Ele sempre respeita nossa liberdade e nos espera com uma infinita paciência.


Algum eventual leitor que ainda não tenha enviado mensagem a este escriba poderá fazê-lo usando este endereço:
ruymaiafreitas@bol.com.br



posted by ruy at 4:08 da manhã

18.8.03

 

De repente...


De repente, em uma rua feia daquela cidade do interior, antiga e meio desajeitada, descobrimos uma livraria simpática. E mais que isso: na vitrine muito bem arrumada, uma edição recente, de capa bonita, do Ivanhoe, o clássico romântico de Walter Scott !

De repente, uma loja de jornais e revistas, tendo na entrada uma tabuleta onde lemos: "Banca do Alô." Era assim que, já faz muitos e muitos anos, o bem humorado vendedor anunciava sua chegada aos fregueses da risonha vila construída sobre uma colina: "Alô !" Um belo dia ele se foi, levado por um acidente de ônibus, deixando tristes seus fregueses amigos. Será que os atuais donos da banca conhecem essa história verdadeira ?

De repente, o reencontro com as águas escuras e mansas do Paraíba do Sul, águas por onde ingressaram no grande mar da Eternidade tantos parentes e amigos da minha infância Recordações tristes...

De repente, no silêncio da noite, no quarto simples do hotel modesto, o aperto de duas mãos, uma delicada e outra forte, um aperto carinhoso prenunciando carinhos mais quentes e mais demorados.A antiqüíssima história do encontro do homem com a mulher.

De repente...


Uma reflexão sobre o tempo.


Anos atrás, trabalhei em uma firma de consultoria e ali me tornei amigo de um excelente engenheiro que havia sido meu professor no curso de engenharia.Sob a cobertura de vidro da mesa de trabalho de F... (o meu amigo) estava sempre a seguinte frase:
O tempo é matéria-prima rara, de aquisição difícil e reposição impossível.


Ainda sobre a gloriosa festa da Assunção de Nossa Senhora.


Meu amigo M... faz uns quatro dias enviou-me um longo texto que fala sobre a crença milenar católica que em 1950 foi solenemente definida como dogma pelo saudoso papa Pio XII, hoje vilmente caluniado pelos antigos e bem costumeiros e também pelos atuais detratores da Igreja.

No referido texto são citadas, além de inúmeros trechos da Sagrada Escritura, as opiniões dos veneráveis Padres tais como: São Jerônimo, São João Damasceno e Santo Agostinho, opiniões expressas em argumentos ao mesmo tempo precisos e serenos, dos quais está ausente o recurso do artifício retórico; argumentos firmes onde não se percebe o mais longínquo embuste. Uma linguagem - hoje meio esquecida - que já por si própria dá o aval à veracidade daquilo em que sempre se acreditou. Entusiasmados, lemos ali o imenso, o riquíssimo tesouro da tradição católica ! E, ao mesmo tempo, melancólicos, nos lembramos de como, a partir do século XIV, decaiu a cultura do Ocidente; convencemo-nos de que em nossos dias, infelizmente, não mais se pode falar em uma Cristandade...
A grande festa, que durante séculos foi comemorada no dia 15 de agosto, hoje, por causa do generalizado laicismo e da não menor secularização, no Brasil se comemora em um Domingo.

Mais uma vez: obrigado, amigo M... Deus lhe pague !



posted by ruy at 3:30 da manhã

 

Powered By Blogger TM