Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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14.8.03

 
A condição de católico.


Ontem de manhã fiquei pensando: se tivesse de escolher quatro pontos básicos que me definissem como católico, quais seriam eles ? O que vai a seguir é minha resposta para mim mesmo e para alguém que deseje me fazer a mesma pergunta. Antes que o leitor comece a ler, digo com absoluta firmeza isto: minha condição de católico não me faz "ipso facto" moralmente melhor que qualquer outro ser humano.Vamos aos pontos.

(I)- Amor à Igreja, para mim: Mãe e Mestra.
Minha relação com a Igreja (a Católica Apostólica Romana) não é pura e simplesmente um enlace intelectual, isto é, não é apenas a satisfação de saber que a doutrina a mim ensinada desde os tempos do catecismo é de fato a verdadeira. Uma tal satisfação é análoga àquela que sinto quando estudo e aprendo tais ou quais princípios ou teoremas da engenharia de telecomunicações. O conhecer esses princípios, esses teoremas, me dá sempre, como professor que sou do assunto, uma enorme alegria. Porém, isso não me liga a eles de modo afetivo, do mesmo modo como me ligo às pessoas que amo. A realidade da Igreja, para mim, não se confunde com a pletora de dados filosóficos e teológicos que formam a doutrina católica. A Igreja para mim é como uma pessoa de quem preciso para viver, sem a qual a vida não tem sentido para mim. Discutir religião, a minha religião, com outras pessoas soa para mim como se eu me propusesse discutir com alguém se devo ou não gostar de minha mulher. É uma discussão absurda (sem falar que toda discussão é pesada e fonte de aborrecimento...).

(II)- Respeito e afeto para com o Papa.
Muitas pessoas, entre elas intelectuais e políticos, falam sobre o Papa com elogiável respeito. Difícil é encontrar homens e mulheres supostamente civilizados que se atrevam a agredir verbalmente o bispo de Roma. No caso concreto, é um ancião, alquebrado pela doença e pelos invisíveis sofrimentos morais.Se a memória não me engana, o grande cardeal Newman certa vez fez um sermão sobre os sofrimentos morais do Cristo. As pessoas apressadas, superficiais, não param para refletir o quanto deve ser doloroso, por exemplo, para um homem como Karol Woytila, tomar conhecimento do condenável comportamento moral de tantos padres, seus irmãos de sacerdócio; saber que os cínicos do mundo inteiro se divertem com a leitura dos jornais escandalosos, com o noticiário parcial e debochado que escorre das telas coloridas das televisões.
Posso às vezes não gostar de alguma atitude que aquele velho polonês tome, por exemplo, quando envia um telegrama cumprimentando um chefe de Estado cuja estatura moral (e cultural também) não chega ao calcanhar do Papa .Bem, e daí ? Isso faz com que ele deixe de ser o sucessor de Pedro? Lembram-se da passagem em que Paulo criticou publicamente Pedro ? Por acaso isso desfez o primado Petrino ?
Respeito o Papa, sim; mas sobretudo tenho por ele o afeto da ovelha pelo pastor que a protege e conduz de volta ao aprisco.

(III) Carinho para com os Santos.
Quando a Igreja canonizou Edith Stein, houve um rabino que se aborreceu e disse coisa parecida com isso: que ele não estava de fato preocupado com "o modo pelo qual a Igreja faz seus santos."
Engano seu, caro rabino. A Igreja não faz santo algum. O que faz realmente o santo é este binômio: [a Graça de Deus + a docilidade do homem ]. Isso que parece uma fórmula simplista ou simplória envolve um tremendo mistério, que é o da vocação de cada um de nós. Voltamos sempre àquela pergunta de São Judas Tadeu, a pergunta que ficou praticamente sem resposta: por que eu, Senhor ? Por que de repente resolvi dizer àquele filho de santo Inácio : "padre, quero voltar à Igreja! " ?
A diversidade das vocações é outro fato curioso. Um Santo Agostinho resolve deixar a mulher com que vivia, deixar a vida das honrarias mundanas para se dedicar ao estrito serviço religioso. Um Santo Tomás Morus casa-se, tem filhos, netos, trabalha nos ambientes palacianos, junto dos poderosos, servindo lealmente ao rei que haveria de enviá-lo ao carrasco.
Difícil para mim é deixar de admirar, de gostar dos santos. Como não gostar de um São Maximiliano Kolbe, padre, que ali, no deprimente e agressivo campo de concentração, deu sua própria vida para salvar a de um chefe de família? Sim, leitor, nossa Igreja é a igreja dos santos !

(IV) "At last, but not at least " : Maria !
Amanhã Ruy estará viajando, não poderá editar este blog. É uma pena porque amanhã, tradicionalmente no dia 15 de agosto, nós católicos festejamos a subida ao Céu - em corpo e alma - da mulher perfeita, aquela que, sendo escolhida para ser a mãe do Salvador, disse o "faça-se" que inaugurou a restauração do mundo.
Ruy está hoje aqui, vivo e caminhando em suas próprias pernas, porque em um certo dia, lá se vão mais de trinta anos, essa mulher admirável, "tota pulchra", "refugium peccatorum", "auxilium christianorum", "consolatrix aflictorum", em um instante bem crítico ouviu um grito desesperado e salvou a vida deste pobre escriba. "Salve Regina !"


Leitor, se você leu com atenção tudo o que está acima escrito neste post, deve ter percebido que, para mim pelo menos, ser católico não é simplesmente ter um punhado de idéias verdadeiras e bonitas, não é assumir uma cerebrina atitude intelectual diante da vida, diante dos fatos. Não se pode ser católico jogando a vida afetiva pela janela, sendo apenas um ardoroso defensor de crenças e princípios.


Se Deus quiser, estarei de volta na segunda-feira !


posted by ruy at 4:12 da manhã

13.8.03

 
Um bom texto para nossa reflexão.


Este blog tem bem poucos leitores, mas, como diziam os antigos: "Pauca, sed bona.": "Poucos, porém bons."Um desses poucos me enviou um sermão de Santo Agostinho em que o grande Doutor da Igreja faz certas recomendações a seus fieis (como sabem, ele foi bispo de Hipona, no Norte da África). Tais recomendações continuam, segundo penso, bem atuais, já que em nossos dias a pluralidade de crenças, de modos de crer, é bem maior do que já foi no passado. E quanto à irritabilidade das pessoas, isso faz parte da condição humana, está inserido em nossa herança do Pecado Original... Peço, pois, vênia aos amigos leitores para dar a palavra ao santo Doutor.


Sermão de Santo Agostinho.



Uma vez que ignoramos quais sejam os que pertencem ao número
dos eleitos, devemos encher-nos de tanta força de amor, que a
cada um desejemos a eterna felicidade, e ajudá-lo para que a
alcance. O que nos leva a compreender os homens, é unicamente
a carinhosa participação da sua vida. É o amor que nos dá
conhecimento mais perfeito.

Nossos pais tinham o excelente costume de não rejeitar, mas
reconhecer o que de bom e divino encontrassem, não
contaminado, em alguma heresia, ao passo que expunham e
retificavam devidamente que o erro ou o cisma contivesse de
estranho e peculiar. Aos dissidentes devemos nós, os
cristãos, demonstrar benevolência católica. Trata-se de curá-
los. Estão com os olhos inflamados; só muito de leve podemos
tocá-los. Ninguém arme controvérsias com eles. Ninguém se
meta a polemizar, nem mesmo para defender sua fé, para que
não venha acender alguma faísca, e para que, aos que procuram
uma oportunidade, seja dada essa oportunidade. "Antes de
tudo, procurai a paz e a santificação; porque sem elas
ninguém pode contemplar a Deus " (Heb. 12, 14)...

A piedade procura Deus pela fé; a vaidade procura-o pela
controvérsia. São dignos de louvor os que procuram a paz. Os
que a odeiam, devem ser antes apaziguados por meio da
doutrina e do silêncio do que irritados pela censura. Quem
ama a paz, ama também os inimigos da paz. Quem ama a luz, não
se irrita contra o cego, mas tem pena dele. Antes de
condenares o cego, procura curar o infeliz que estiver ao teu
alcance. Ouves uma injúria? Tolera, cala, esquece. Lembra-te
de que deves curar. Mas injuriam a Deus? Tu o percebes; e
Deus não perceberia? Tu o sabes; e Deus não saberia? E, no
entanto, "Ele deixa o seu sol nascer sobre bons e maus, e
chover sobre justos e injustos".

Mas o que farei? Eu te direi: fora com toda contenda! Entrega-
te à oração. Não refutes com injúrias o injuriador. Não digo
que te cales, mas que reflitas: falarás com ele no silêncio,
de lábios fechados. Deixa falar o coração . Mas se
alguém fizer questão cerrada de não aceitar a paz, se a todo
o custo quiser brigar, responda-lhe pacientemente: "Dize o
que quiseres; odeia o quanto quiseres; despreza à vontade:
nem por isso deixas de ser meu irmão; irmão mau, irmão
briguento, sim, mas sempre irmão..."

Andam por aí muitos faladores, mas corretos na fé. Nada mais
fácil do que afirmar ou persuadir-se a si mesmo de haver
encontrado a verdade: isto é dificílimo, na realidade! Queira
Deus conceder-nos sentimentos de paz e um espírito tranqüilo,
que antes procure sanar do que aniquilar! Vociferar contra
homens de outro credo é próprio daqueles que não sabem o
quanto é trabalhoso encontrar a verdade e o quanto é difícil
preservar-se do erro. Vociferem contra eles os que ignoram
como é raro e penoso suplantar as complicadas imaginações
humanas pela clareza de uma mente piedosa. Vociferem contra
eles os que desobedecem a dificuldade que há em purificar a
vista do homem interior, para que se capacite a ver o seu
sol, o sol da justiça. Vociferem contra eles os que não sabem
quantos gemidos e suspiros custa apanhar ao menos um tênue
clarão do conhecimento divino. E, finalmente, vociferem
contra eles os que nunca sucumbiram à ilusão do erro! Eu,
francamente, sou incapaz disso.

"Forçoso é que haja dissensões", diz o apóstolo. Com demasiada
indolência procuraríamos a verdade, se ela não tivesse
adversários. Muitas coisas que fazem parte da fé católica
devem primeiramente ser impugnadas pelas paixões irrequietas
dos hereges, para que, depois, sejam apreendidas com maior
clareza e realçadas com maior precisam. A questão
tratada pelo adversário, torna-se estímulo para uma
compreensão mais profunda. Assim, os hereges, por sua atitude
hostil, trazem proveito aos membros verdadeiros católicos do
corpo do Cristo. Deus se serve também dos maus. Por isso, a
Igreja deve trilhar o seu caminho até o fim, entre as
perseguições do mundo e as consolações de Deus. O aguilhão do
temor, o tormento da dores, o peso dos trabalhos, o perigo
das tentações: tudo isso, para ela, redunda, no mundo
presente, em educação e purificação".



Sto Agostinho.


Sermões, 357, 240, 51

Obrigado, amigo M...



posted by ruy at 6:11 da manhã

12.8.03

 
Ele é mesmo, para mim, o meu Senhor ?


Quando me deito no final do dia, é para Ele que meu pensamento vai antes que meus olhos se fechem ? Quando me levanto, de imediato penso n'Nele ?

Quando faço minhas refeições, lembro-me de que Ele também sentia fome nos dias que passou por este mundo visível? Lembro-me de Lhe agradecer essa comida saudável e de bom sabor que raramente falta em meu prato ?

Quando vou para a sala de aula, a fim de cumprir minha tarefa de professor, lembro-me de que Ele é quem de fato merece ser chamado por aquele título que várias vezes meus alunos me endereçam: Mestre ? Minhas aulas são bem dadas, com aquele mesmo jeito, com o mesmo empenho com que Ele fazia bem feitas todas as coisas, desde a infância, quando aprendera com seu pai adotivo a nobre e útil arte da carpintaria ? Ou minhas aulas servem apenas à minha vaidade ?

Quando me encontro com meus colegas e amigos, procuro ouvi-los com o mesmo respeito, com a mesma atenção com que Ele ouvia todas as pessoas com quem conversava, fossem pobres ou ricas, simples ou poderosas ? Gosto de discutir, de me irritar com os outros, ou procuro lealmente falar apenas sobre a verdade ?

Quando em passeios ou em diversões, lembro-me de que Ele também participava de festas - nunca esquecendo, por exemplo, as importantíssimas bodas em que transformou água em vinho - lembro-me de que nessas participações Ele esteve sempre atento ao cumprimento de Sua divina missão?

Quando as coisas não vão bem, quando surge o inesperado, aquilo que contraria meus planos, peço confiante a Ele que me ajude, que me faça manter a cabeça fria, ou deixo-me levar pela impaciência e muitas vezes pela raiva?

Quando registro neste blog minhas idéias e meu modo de sentir, cuido de fato para que os ensinamentos d'Ele não sejam por mim deturpados ?

Pois é, Ruy, se você não pode dar respostas claras, precisas e, sobretudo, corretas a todas estas perguntas e outras mais, como você pode dizer que Ele é mesmo o seu Senhor? Pense muito nisso, amigo Ruy!


Sobre o post do dia 8 de agosto.


Diz antigo aforismo que a pressa é inimiga da perfeição. A palavra "perfeição" é meio forte. Digamos pois: "a pressa é inimiga do trabalho bem feito." Foi o que ocorreu no dia 8. Eu estava para viajar; escrevi às pressas. O resultado foi aquele "A Grande Praga" que deixou grandes lacunas...De fato, o que surgiu na Europa lá pelo final do século XIV, mais ou menos, foi um lamentável antropocentrismo que, de lá para cá, para mal nosso, só fez se agigantar...A ambição de poder é apenas um aspecto dessa arrogante atitude do homem ocidental moderno.



posted by ruy at 4:32 da manhã

 

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