Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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8.8.03

 

A Grande Praga.


Não estou pensando na AIDS (ou como se devia dizer em português: o SIDA ), nem em uma dessas misteriosas gripes que de vez em quando chegam de algum longínquo país do Oriente. A Praga a que vou me referir é "doença" bem mais velha e, embora tenha existido desde a Antigüidade, esteve sob certo controle, por incrível que possa parecer, naquela fase da história que os mal informados costumam chamar de Idade das Trevas. Durante cerca de mil anos, existiu em maior volume o "antídoto", a "vacina" que diminuía bastante o número de pessoas infectadas.

Lá, mais ou menos, pelo final do século XIV começou a rarear o antídoto, a vacina. A partir dali, a Praga começou a se desenvolver, a se espalhar mais. Quando chega o iluminado século XVIII, ela já se tornara endêmica na Europa e, por via das conseqüências, também nas colônias que as grandes nações européias haviam estabelecido principalmente na América.

Disse principalmente na América, mas o mal foi também levado para dentro do milenar império chinês, terra do sereno e sábio Confúcio, autor de muitas máximas prudentes, talvez na maioria autênticas, outras criadas por bem humorados imitadores do tranqüilo mestre. Na primeira década do século XX, se não estou enganado, já estavam desembarcando ali, na pátria dos mandarins, certos doentes crônicos, desde jovens infectados pelo terrível bacilo, dessa vez aperfeiçoado no laboratório de um certo Dr. Marx .

Neste ponto do post, o leitor tem todo o direito de me interpelar dizendo: "Pipocas! Chega de suspense; diga logo o nome dessa doença a que você está misteriosamente se referindo!" Respondo dizendo que se trata da sombria, impiedosa e desumana: ambição de poder.

É bem provável que o leitor retruque: "espera aí, Ruy, isso é doença que só acontece com os políticos !"
Ledo engano, amigo leitor! Todos nós, membros da sociedade moderna, que aceitamos pacificamente, seja vivendo na estrutura das democracias (ou democratismos) ou sofrendo na estrutura mais rígida dos diferentes tipos de ditadura que existem no mundo, todos os que aceitamos passivamente a presença do Estado, a presença da burocracia estatal em nossas vidas, achando isso muito natural, já estamos infeccionados por essa doença. Dela talvez só escapem: as crianças, os poetas autênticos e os monges que usam grande parte de seu tempo para cantar louvores ao verdadeiro Senhor de todos nós.


RECESSO; Ruy vai ficar ausente por uns 2 ou 3 dias. Se Deus quiser, volto na terça-feira, dia 12. Até lá!


posted by ruy at 6:33 da manhã

7.8.03

 
Belezas traiçoeiras.


Caro leitor, em que pese ao título acima, não irei falar em belas mulheres, de corpos bem torneados, provocantes, sorrindo maliciosamente para nós. Não é desse tipo de beleza sensível, palpável, que já fez muita gente boa perder a cabeça ( haja vista, por exemplo, o caso do profeta Davi) que vou tratar aqui .Vou falar, sim, em um tipo de beleza serena, bem comportada, incorpórea, que atrai muito mais o olhar da inteligência que os inquietos olhos do rosto. E nem por isso deixa de ter o seu perigo.

Ensina-nos a boa filosofia tradicional, a que vem de um remoto e respeitável passado, que a inteligência humana pode operar em três graus de abstração formal: a abstração física, a abstração matemática e a abstração metafísica , pela ordem crescente de sua generalidade e importância.Em outros termos: o primeiro grau de abstração formal é o da física, o segundo o da matemática e o terceiro: o da metafísica. O assunto deste post se liga ao primeiro e ao segundo graus referidos.

Formado em engenharia , após alguns anos de trabalho nessa profissão acabei me ligando às tarefas acadêmicas de professor em escola formadora de engenheiros. Há dezenas de anos este é meu trabalho : ministrar aulas e participar discretamente em pesquisa aplicada à engenharia, sem contar outros fazeres correlatos, tais como a de participar de bancas de exame e dissertação de Mestrado.

Para quem não ainda não sabe, explico. O moderno ensino da engenharia se faz apoiado fortemente no conhecimento científico, basicamente da Física e da Matemática, fazendo uso de elaborados modelos matemáticos que servem de seguro aval aos projetos, permitindo ao engenheiro que ele saiba a priori o que ele pode e o que não pode realizar, supondo, é claro, que estejam satisfeitas as condições legais, que sejam suficientes os recursos materiais e financeiros disponíveis, etc.

Esses modelos matemáticos, estudados por professores, pesquisadores e alunos durante anos de forma continuada e sistemática, têm uma beleza própria, perceptível pelos que possuem real inclinação para o primeiro e o segundo grau de abstração.E o que é bastante comum de acontecer no meio acadêmico ligado à engenharia é que surge um entusiasmado amor por esses modelos. Até aqui nada de mal; até pelo contrário: é bom que exista mesmo esse laço afetivo.

Porém, muitos desses amorosos vão além do amor; entram na perigosa esfera da paixão. Seus olhos se tornam míopes, seus ouvidos se tornam surdos para outros tipos de beleza, como a que existe na literatura e na música.
Suas mentes perdem a agilidade, a sutileza necessária para adquirir outros tipos de conhecimento, como por exemplo: o da história.
Tornam-se, muitas vezes, incapazes de julgar com acerto certos aspectos da sofrida, da prosaica realidade da existência humana, que não é feita de abstrações bem comportadas...

Foi nisso tudo que pensei ao usar aqueles termos : “belezas traiçoeiras ”.


posted by ruy at 5:24 da tarde

6.8.03

 
A questão fundamental


Já abordei o tema em posts passados, mas o assunto é tão importante que tenho que aborda-lo novamente.
Todo homem deseja ser feliz, uma frase que o Conselheiro Acácio certamente a subscreveria. Até aqui morreu Neves. O problema está em que essa procura de felicidade é uma tarefa complexa, uma aventura pessoalísima , porquanto cada um de nós está sujeito a um inumerável conjunto de circunstâncias, umas internas ( temperamento, saúde, estrutura física ) , outras externas (começando pelo ambiente do lar paterno e continuando pelos incontáveis encontros e desencontros da sociedade ). Cada um de nós é um mundo, um drama, uma história bem específica.

Começa o dia e lá vamos nós nessa diuturna procura de felicidade. De repente, embora sem premeditação, ofendemos o nosso próximo, o nosso irmão , já que todos somos filhos do mesmo pai que está no Céu. Passam-se as horas e vem o arrependimento. Por quê ? Porque no fundo da consciência todos sabemos que as circunstâncias que condicionam nossas atitudes podem explicar , mas não podem justificar o que fazemos de moralmente errado.

Hoje de manhã , pouco antes de sair para o trabalho, fiquei pensando em um gesto bem católico que é o chamado sinal da cruz. Fazemos com a ponta do polegar da mão direita três pequenas cruzes imaginárias, uma sobre a testa, outra sobre os lábios, e uma terceira sobre o peito, ao mesmo tempo em que dizemos: "Pelo sinal da santa cruz, livrai-nos Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos." Reflitamos um pouco sobre isso (nem sempre paramos para fazer essa reflexão...)

Comecemos pela expressão : "Nosso Senhor". Se para nós Deus for apenas uma idéia elevada, um ser esotérico e distante, nada preocupado com nosso destino, então não poderemos entender essa relação pessoal de respeito e de obediência que existe entre o Senhor e o seu servo.A quem realmente servimos quando ministramos nossa aula, quando escrevemos nossos artigos, quando curamos um doente, quando defendemos um cliente, quando construímos uma estrada? Será um serviço à nossa vaidade, ao nosso orgulho? Ou de fato move-nos o serviço que devemos ao Senhor ?
E mais, para o cristão, o Senhor é ao mesmo tempo Pai.

E quanto aos nossos inimigos ? Serão os perigosos assaltantes que infernizam a vida das pessoas nas grandes cidades ? Serão os irritados leitores que lêem espumando de raiva meu artigo semanal ? Será aquele companheiro de serviço que disputa comigo uma vantajosa promoção funcional na empresa em que juntos trabalhamos? Acho que não...

Cruz sobre a testa : Ruy, por que você não pára e pensa no problema, nas limitações do outro ? Cruz sobre os lábios : Ruy, por que você não mede suas palavras antes que elas saiam de sua boca e agridam o outro ? Cruz sobre o peito: Ruy, por que você não procura se mais humano com o outro ?

O cuidado com essas coisas pode não nos garantir a complicada felicidade. Mas, com certeza vai nos ajudar a manter a alegria de viver. E esta é a questão fundamental que dá o título a este post , editado neste dia 6 de agosto, dia em que a Igreja festeja a gloriosa Transfiguração do Senhor, de Nosso Senhor.


posted by ruy at 7:16 da manhã

4.8.03

 
Um post talvez um pouco longo, porém necessário.


Me desculpem, mas tenho que falar neste assunto.
Nestes últimos dias vêm ocorrendo diversos ataques à Igreja, contra aquela que para mim é Mãe e Mestra. Como ninguém gosta de ver sua mãe ofendida, sinto-me obrigado a dizer alguma coisa em resposta a tais ataques.

De início, é preciso distinguir as diversas origens desses ataques. Esquematicamente, direi que podemos identificar os seguintes principais tipos de agressores:
a)- homossexuais, organizados em grupos frenéticos, que estão irritados com as recentes firmes declarações do Vaticano contra as propostas de legalização das uniões entre pares de pessoas do mesmo sexo, propostas essas que, se efetivadas, colocariam no mesmo nível de direitos: os casamentos normais, feitos de acordo com a Lei Natural inscrita na consciência do homem, e os relacionamentos viciosos oriundos de uma subversão da natureza;

b)- intelectuais que se dizem “cristãos”, mas não admitem que essa instituição chamada Igreja Católica Apostólica Romana seja de fato a legítima detentora das chaves do Reino de Deus, chaves essas colocadas nas mãos do bispo de Roma, que é o Papa;

c)- intelectuais que se dizem “católicos”, mas acham que a Igreja católica seja uma outra instituição que não essa que exige dos fiéis uma obediência nem sempre fácil de ser prestada; são “católicos” entre aspas, à sua maneira, escolhendo da doutrina e das normas da Igreja aquilo que não os aborreça, que não contrarie suas idiossincrasias, que não tenha para eles um aspecto “inquisitorial” (para usar um termo que lhes agrada escrever).

Curiosamente, entre os nervosos agressores não estão, em geral, os protestantes, salvo os membros de algumas seitas agitadas, onde é fácil perceber o medíocre nível intelectual de seus pregadores.

Não vou me deter em uma demorada análise da atitude das pessoas que se enquadram no grupo da letra a). Qualquer leitor que tenha bom senso sabe que tais homens e mulheres agem movidos por um fremente desejo de serem reconhecidos como aquilo que não podem ser, a saber : normais, isto é, seres que vivem de acordo com a natureza das coisas.

Nos dois outros grupos ( b) e c) ), estão incluídos “cristãos”. Ora, perguntamos, o que é fundamentalmente um “cristão” ?
Ensina-nos o catecismo: cristão é aquele que, tendo sido batizado, crê e professa a doutrina e a lei de Jesus Cristo.
Ora, a partir desta crença, e obviamente admitindo-se que o crente seja sincero, ele deve procurar “escutar” com a máxima atenção, com total desapego de suas opiniões próprias, ouvir o que o próprio Cristo disse em sua curta passagem por este mundo.

Bem, uma das mais solenes e mais diretas declarações de Jesus foi aquela em que estabeleceu Pedro como a pedra fundamental de sua Igreja, da comunidade que seria constituída pelos seguidores do Filho de Deus feito homem.

Logo de início, notemos este fato: o apóstolo escolhido não foi o mais culto, nem o mais virtuoso, nem aquele que por ter mais mocidade tivesse por isso mesmo melhores condições físicas para exercer o papel de principal pastor do rebanho. Mais: sendo Jesus Cristo o Filho de Deus, portanto a própria Sabedoria encarnada, sabia plenamente que seria negado três vezes pelo referido apóstolo. Após sua ressurreição, Jesus cobra de Pedro uma tríplice declaração de amor, como que para compensar, publicamente, a tríplice covardia de Cephas, a Pedra.

Mas ainda: nos Atos dos Apóstolos lemos o episódio em que o apóstolo Paulo repreende Pedro “in faciem”, isto é : cara a cara, publicamente. Será que Jesus ignorava que Pedro iria cometer um deslize ? Será que ignorava que o número de epístolas doutrinadoras escritas por Paulo seriam muito maior que o das ditadas por Pedro ? Será que ignorava as grandes e perigosas viagens apostólicas de Paulo, contrastando com a imobilidade de Pedro, que fixará residência em Roma ? Pode Deus desconhecer o que um homem ainda vai fazer, de bem ou de mal, ao longo de sua vida ?

Jesus sabia de tudo isso e muito mais; sabia de tudo o que iria acontecer através dos séculos. Sabia que sua Igreja não se limitava a uma episódica, transitória comunidade naquela distante Palestina.
Por tudo isso, caro leitor, pare e pense, reflita. Pare e procure ouvir aquela voz solene que, conscientemente, fundou a Igreja sobre um homem tão frágil.

Um adendo: é óbvio que se o leitor não acredita, com plena convicção, que Jesus Cristo seja o Verbo de Deus encarnado, que seja a própria Sabedoria Eterna, tudo o que acima escrevemos sobre a nuclear importância Petrina nada significa para esse leitor ...


São João Batista Maria Vianney.


Pois é, esse grande santo da Igreja, um dos maiores do século XIX, quase não se ordenava padre, tal o grau de dificuldade que teve quando fazia seus estudos no seminário. Entretanto, nomeado pároco da esquecida cidade de Ars, ali foi seguramente um sábio na difícil tarefa de confessor.Um verdadeiro médico de almas.
Neste instante, é bom lembrar uma reflexão de Murilo Mendes sobre o padre em geral. Dizia o nosso saudoso poeta:
- O padre é como o burrico em que Jesus Cristo montou em Jerusalém: por mais medíocre que seja, carrega sempre o Evangelho. (in: “O Discípulo de Emaús” ).

São João Vianney, rogai por nós !




posted by ruy at 2:59 da tarde

 

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