Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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18.5.03

 
O Óbvio Ululante.


Nelson Rodrigues devia estar mesmo em um dia super-inspirado quando criou esta sintética e sugestiva expressão. Volta e meia nos deparamos com situações em que ela se aplica.
Ora, há em nossa vida um permanente “óbvio ululante”, que para a enorme maioria das pessoas passa despercebido, talvez porque – conforme dissemos em um post anterior – nossa moderna sociedade ocidental vem, há muito tempo, coagindo-nos a “andar de bicicleta”.
Os que teimam em “andar a pé” têm, sem dúvida alguma, melhor chance para perceber o óbvio ululante a que nos estamos referindo, e que é: o Absoluto, o Único Necessário. Aquele em quem vivemos e para Quem fomos criados; e Nele teremos definitivo descanso. Conforme escreveu Santo Agostinho.
Nesse nós está incluído o tempo. Mas, qual “ciclista” vai pensar nisso tudo?



Gratidão.

De muita coisa preciso
que eu mesmo não sei,
ou não consigo fazer;
a lista é muito grande,
vou ter que resumir.

Existem as mãos que cozinham
a comida do meu prato;
as mãos que me cortam o cabelo,
sempre teimoso a crescer;
as mãos que me tiram o sangue,
para o médico analisar;
as mãos que abrem o portão
deixando meu carro passar;
as mãos que ligam uma chave
na distante usina elétrica;
as mãos que dirigem o táxi,
que me leva aonde eu quero;
as mãos que me trazem cartas,
avisos, contas a pagar;
as mãos que consertam a máquina,
onde minha roupa é lavada;
as mãos que, semanalmente,
deixam essa roupa passada.
E vai por aí afora
minha grande dependência.

Por isso fiquei pensando:
- como justa homenagem,
por que eu não teria ainda,
para um festejo pessoal,
criado o Dia das Mãos?






posted by ruy at 3:33 da manhã

17.5.03

 
Oportuna reflexão de Mortimer J. Adler.


“Sem dúvida, hoje sabemos mais sobre o mundo, e na medida em que o conhecimento é um requisito indispensável para a compreensão, isso é indispensável, isso é vantajoso.Mas, o conhecimento não é tão indispensável à compreensão quanto se pensa. Não precisamos saber tudo sobre determinada coisa para compreendê-la. Um excesso de fatos pode ser um obstáculos tão grande para o entendimento quanto a insuficiência. Em certo sentido somos inundados com fatos em detrimento da nossa compreensão.
Uma das causas dessa situação é que a própria mídia faz com que o pensamento pareça supérfluo. A divulgação maciça de posições e opiniões intelectuais é uma das mais extensas atividades dos nossos dias. Ao espectador de televisão, ao ouvinte de rádio, ao leitor de revistas é apresentado um complexo global de elementos – desde a retórica elaborada até dados e estatísticas cuidadosamente selecionados – com o objetivo de levá-los a uma “decisão” facilmente e com um esforço mínimo.Porém, a informação maciça é muitas vezes tão eficiente que o espectador, o ouvinte ou o leitor não chega a decisão nenhuma.”

(de: “Como Ler um Livro”; tradução de Aulyde Soares Rodrigues; ed. Guanabara, 1990) .



Reencontro na praça


Meio- dia.
De costas para o mar,
sinto a brisa soprando sobre mim.
Olho para cima e vejo,
ao lado do Corcovado:
um céu de maio,
azul e com nuvens brancas.

Porém, nesse exato instante,
repentina e radiosa,
a imagem que surge,
ante meus olhos deslumbrados,
é a de um céu azul de maio,
com algumas nuvens brancas,
recém-criado para mim;
e eu, agradecido,
também volto a ser criança.


-----*----

(recordando um dia passado no Rio).





posted by ruy at 11:06 da manhã

16.5.03

 

Duas dramáticas perguntas.


Nas páginas do Novo Testamento leio duas perguntas feitas ao Cristo que me tocam de modo muito especial. Uma delas praticamente ficou sem resposta; a outra teve resposta cabal.Elas, de certo modo, ocorrem eventualmente em nossa vida, deixando-nos – conforme o tipo da pergunta – perplexos ou desafiados.
A primeira, quase sem resposta, foi a de São Judas Tadeu: “Senhor, por que razão hás de manifestar-te a nós e não ao mundo?”São João, cap.14, vrs. 22).Nosso Senhor praticamente não deu resposta a São Judas. A vocação de cada um de nós faz parte dos misteriosos desígnios de Deus.E o mistério, como nos lembra Chesterton, é essencial em nossa vida.
A segunda, a que teve resposta completa, foi a de São Paulo naquele meio-dia na estrada de Damasco: “Senhor, que queres que eu faça?”(Atos, cap.9,vrs. 6). Esta é a pergunta que pode nos armar um grande desafio diante da resposta. Esta, por sua vez, será ouvida ou não. Deixará de ser ouvida se não fizermos a pergunta ou se a fizermos de modo errado. São Paulo, como bom fariseu, era honesto e queria mesmo agir de acordo com a resposta que lhe fosse dada. Isso não implica que devamos aderir ao farisaísmo.



A entropia crescente


No post de ontem me referi à realidade física da entropia crescente. Lembrando para quem tenha esquecido suas lições do curso colegial, aquele fenômeno, estudado no capítulo da Termodinâmica, se refere à degradação da energia no universo. Trocando em miúdos: à medida que ocorrem os processos naturais, aumenta a desordem no universo. Existe, pois, a possibilidade da chamada “morte térmica” do mundo.
Em 22 de novembro de 1951, o Papa Pio XII, em seu discurso aos membros da Academia Pontifícia de Ciências, falando sobre essa transformação que ocorre no macrocosmo, usou inclusive esta expressão: “destino fatal”.
O conceito da entropia, estabelecido pelo físico alemão Rodolfo Clausius no século XIX, deveria ser, pois, assunto para refletir. Mas, existem muitos que preferem, como se diz, empurrar o problema com a barriga.



Deslumbramento


Céu azul de maio:
Mágico, recria o mundo,
Para o meu olhar.


posted by ruy at 10:03 da manhã

15.5.03

 
O problema “ bicicleta”.


Um dos grandes problemas que nos arma o mundo moderno é que ele nos coage a “andar de bicicleta”, quando o normal seria todos “andarmos a pé”.
(quem sabe andar de bicicleta vai entender o que estou dizendo).



O grande perigo despercebido.


Se existe um generalizado perigo, e poucas vezes percebido na sociedade contemporânea, é o que pode acontecer se formos bem sucedidos na vida. Na Idade Média tínhamos, por exemplo,um São Bernardo ou uma Santa Catarina de Siena para nos alertar sobre esse perigo.



Um apoio muito justo


Decorrido um certo tempo do tríplice fuzilamento acontecido lá no “colégio interno” de Fidel, o compositor e cantor Chico Buarque – segundo nos informou a Internet – assinou um documento de apoio a Cuba.
Muito justo esse apoio de Chico.Afinal, foi lá que ganhou muito, muito dinheiro mesmo, em “shows”, peças, entrevistas etc.; foi lá que ganhou muito dinheiro em gravação de CD’s.E foi lá, sobretudo, que ele, caminhando por entre as ruas sempre vigiadas por espiões do governo local, encontrou sempre inspiração para suas belas canções românticas. Muito justo o apoio.



Política internacional


Quem cria suas idéias sobre a política internacional usando apenas os dados que recebe diariamente do agitado noticiário fornecido pela mídia, provavelmente não costuma refletir sobre certos conceitos fundamentais, tais como: o que é a Nação, o Estado, o Nacionalismo, o Patriotismo etc., conceitos estes necessários para definir uma tomada de posição coerente diante dos fatos.
Talvez também nunca tenha refletido, por exemplo, sobre uma certa realidade do mundo físico que é o fenômeno da entropia crescente e as suas dramáticas implicações na vida do homem aqui na Terra.Como será que os governantes dos países se posicionam diante da entropia crescente?


posted by ruy at 2:17 da tarde

14.5.03

 

Vencedores e Derrotados.


Um dos aspectos mais melancólicos da moderna civilização Ocidental é a existência do que seria uma linha imaginária separando as pessoas (obviamente adultas) em dois grupos distintos: o dos vencedores e o dos derrotados. Não estamos falando em separação entre ricos e pobres, que seria o resultado de uma medida, digamos, simplesmente aritmética, de uma avaliação numérica de recursos financeiros e de bens móveis ou imóveis. Este tipo de separação quantitativa sempre houve no mundo, e tudo leva a crer que continuará existindo. Não constitui um mal em si mesmo.A respeito do assunto convém ler as sensatas reflexões do pensador espanhol Julian Marías (“Sobre los pobres y la pobreza”, no jornal La Nación, Buenos Ayres,5 de julho de 1985) .
O problema a que nos estamos referindo é mais sutil, é mais psicológico. Está vinculado à mentalidade burguesa que se instalou no Ocidente a partir do fim da Idade Média, e de lá até nossos dias só fez crescer, para infelicidade nossa.
Nos romances de Machado de Assis, mormente nos de sua idade mais avançada, se prestarmos bem atenção podemos perceber como o nosso grande mestre observa em vários de seus personagens esse apego à posição social, ao prestígio político. Não é tanto o ter ou não ter muito dinheiro; é às vezes apenas estar perto dos ricos ou dos poderosos, porque isso significa ter prestígio. A sociedade que aparece nos romances de Machado é uma sociedade cuja religião é apenas a das rotineiras manifestações superficialmente piedosas. Uma religião que não implica nenhum compromisso com a procura da santidade. De lá para cá, pergunto: teríamos progredido? Infelizmente acho que não.Haja vista o modo como os perdedores são olhados na sociedade moderna...



O sentido de gratidão.


No parágrafo anterior nos referimos à mentalidade burguesa que campeia na sociedade moderna. Ora, um dos aspectos mais feios dessa mentalidade, desse modo de se colocar diante da vida consiste na perda do autêntico sentido de gratidão.
Pagamos alguém por um serviço que ele nos fez e achamos que nada mais lhe ficamos devendo. Esse alguém pode ser o garçom ou o professor; o vendedor da padaria ou o médico. “Pagamos pelo trabalho feito para nós? Então, fim de papo; nada mais estamos devendo.”
O sentido da gratidão deveria ser manifestado de um modo muito especial para com aqueles que nos propiciaram os bens que não se gastam, a saber os bens do conhecimento; aquilo que adquirimos nas diversas escolas por onde passamos, no longo caminho da escolaridade (não a confundamos com a educação).Que tal uma visitinha a um velho professor?Ou, quem sabe, enviar-lhe uma simples carta?






posted by ruy at 2:40 da tarde

13.5.03

 


Ouvindo um sábio.


É sempre salutar pararmos de vez em quando nossa parolagem e ficarmos quietinhos ouvindo alguém mais sensato, alguém que, muito mais que o simples conhecimento, tenha sabedoria para nos transmitir.
No "post de ontem, talvez por influência de certa contrariedade que me aborreceu nestes dias, não fui muito feliz. Devo ter deixado sérias lacunas que provavelmente, além de desagradar o leitor, podem ter-lhe transmitido idéias algo confusas... Vou a seguir transcrever um trecho de uma homilia de Dom Lourenço de Almeida Prado,OSB. Nestas seguintes linhas o leitor terá muito melhor explicado o que eu queria dizer ontem.


"E há, efetivamente, entre nós, na linha de nossas empobrecedoras tendências coletivistas, um tipo de farisaísmo, semelhante ao do legisperito. Ele anda por aí sob formas variadas - ora sob a capa pacifista, ora sob a feição do zelo naturista ou ecologista, declamando amor aos homens e às árvores, ora sob a bandeira da autenticidade ou do anticonvencionalismo, ora mais abertamente, como movimento hippie, enfim, diversas maneiras de ter uma multidão de amigos, sem reconhecer a face singular do próximo, a seu lado.
O preceito do amor, o próprio amor humano se esvazia ou, mais ainda, pode transformar-se em impostura, quando se perde em profissões genéricas. Os caminhos do coração e do afeto são diferentes dos caminhos da inteligência: esta chega às coisas, aprende-as pelos universais; a afeição, ao contrário, se realiza no singular concreto.Amar o próximo indefinido e indeterminado é propósito fácil de ser formulado, pois não representa um compromisso ou, como dizem hoje, um engajamento.Ainda mais, essa proposição genérica, por não implicar um servir concreto, pode ser proclamada com ilusória sinceridade, como quem se acredita generoso.Amar este próximo é o verdadeiro desafio, pois com o discurso, mesmo sincero de amor a todos, corremos o risco de não amar ninguém.
(do livro: "NA PROCURA DE DEUS- (Reflexões e sermões)", Editora AGIR, 1992)




Pois é, aí estão as palavras de alguém que entende o que seja realmente a educação. Porque é justamente alguém que conhece a pessoa humana, e a respeita.



O zelo da amargura
São Bento nos fala no "zelo mau", o zelo da amargura, aquele que, a pretexto de corrigir injustiças reais ou supostas, acaba mesmo envenenando o convívio em uma comunidade de religiosos, e por isso mesmo gerando uma injustiça maior.
Ora, usando um outro jeito de falar, o escritor Olavo de Carvalho, em seu artigo de sábado no Globo (10/mai/03) abordou esse mesmo problema, porém observado agora na sociedade leiga, fenômeno a que ele chamou: "A Injustiça Revoltada." Vale a pena ler esse oportuno artigo! Ler e divulgar.


posted by ruy at 3:37 da manhã

12.5.03

 
Definindo este blog.

Quando, incentivado por meu amigo Alexandre, resolvi editar este “blog”, assumi comigo mesmo um compromisso de sempre procurar a coerência com aquilo em que acredito, mais especificamente: coerente com a fé que recebi no meu batismo e confirmei quando fui crismado. Não pretendo, pois, agradar a “milhões de amigos”, um fantasioso conjunto de pessoas que só existe mesmo naquela cançoneta do Roberto Carlos. Não sei se tenho conseguido ser fiel ao que a mim mesmo me propus. Peço aos eventuais leitores que me digam francamente se tenho conseguido isso.


Sobre o velho e sempre novo tema da educação.

Repetindo o que já escrevi algures, e procurando retransmitir o que em boa hora aprendi com o grande mestre Mortimer Jerome Adler, digo: só os adultos de fato podem ser educados, e quem se educa é própria pessoa, em um processo continuado que só termina quando damos nosso último suspiro.Em que pese o enfado de um grande amigo que, almoçando comigo hoje, se queixou me dizendo: “Ruy, você repete muito essa idéia referente ao nome do Ministério!”, direi de novo que aquele conceito Adleriano da educação fundamenta, para mim pelo menos, a necessidade de mudarmos urgente o nome do hoje denominado: “Ministério da Educação.”
Hoje mesmo aconteceu um fato que me fez perceber, com certa melancolia, que essa desejável mudança de nome será muito difícil de ser realizada aqui no Brasil. Por quê? Vejamos o que talvez seja o principal motivo.
Infelizmente, está generalizada, não só em nosso país, como em todos as demais nações do Ocidente, um modo duplamente errado de encarar a educação.Primeiro porque ela é entendida como se fosse uma ação de fora para dentro, isto é: o educando recebendo de outrem sua “educação”.Mas, o pior é que isso que vem de fora, e que é passado ao educando, é, em geral, uma, digamos, “educação pragmática”.Trocando em miúdos: deseja-se simplesmente que o moço ou a moça seja, para começo de boa conversa: honesto(a), já que o maior mal, segundo a cultura inspirada nas notícias despejadas diariamente pela mídia em nossas casas, consiste no roubar.Para quem ainda se lembra do catecismo, é o pecado contra o sétimo mandamento (matar por meio do aborto já é aceito por muita gente suposta civilizada). Depois, é claro, é preciso vencer na vida, conseguir segurança, arranjar um bom emprego. Aqui no Brasil, incentiva-se o estudo da língua inglesa; não para ler, por exemplo, a boa poesia que existe no idioma de Shakespeare, mas, sim, para conseguir uma ótima oportunidade de trabalho. É preciso disputar, no mercado de trabalho, as vagas existentes, sempre em número menor que o dos candidatos. A primeira preocupação: meus filhos não podem ser perdedores!
Neste ponto um eventual leitor, bem zangado, me interpela : “espera aí, Ruy, o que você acha que um pai carinhoso e dedicado, deve desejar para seus filhos: que eles passem necessidade? que eles sejam infelizes fracassados na vida?”
Não, amigo leitor! Não se trata de fechar os olhos para certas coisas óbvias, tais como a necessidade de ganhar honestamente o pão de cada dia com o suor do rosto. O que desejo lembrar, olhando para sociedades constituídas por milhões e milhões de batizados – no Brasil e em muitos outros países - é que deveria existir uma harmoniosa hierarquia nos fazeres e, sobretudo, nos agires do ser humano. Nós, cristãos, estamos perdendo de vista essa hierarquia. Por exemplo: o domingo deixou de ser, para muita gente, o dia da missa, do culto religioso. Em primeiro lugar está o passeio, a distração (afinal, ninguém é de ferro...), o jogo de futebol (ou do beisebol), etc.Outro exemplo: quantas de nossas famílias – no Brasil e em outras nações nominalmente cristãs - , rezam em comum dentro de suas casas?
Ora depois nós, ocidentais, nos admiramos do aumento da criminalidade (isso que a mídia venal chama pelo nome bastante vago e covarde de “violência”), nos queixamos da corrupção dos políticos, nos espantamos com o crescimento do uso da droga, e vai por aí...Não nos damos conta de que o Ocidente há muitos séculos (conforme escreveu André Frossard) perdeu o endereço da Casa Paterna. Vivemos infelizmente, no Brasil e em muitos outros países, naquele estado de coisas a que o economista E.F. Schumacher denominou com muita acuidade: “a louca disparada prá frente.” Esquecemo-nos da virtude cristã da Esperança, com E maiúsculo. Somos sorridentes “desesperançados”.


Em tempo: na Idade Média, a palavra honesto tinha um significado bem mais sutil; queria dizer algo mais que a honestidade entendida apenas como a recusa a tirar dinheiro do bolso dos outros.


posted by ruy at 3:01 da tarde

 

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