Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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11.5.03

 
Retrato de mãe.


Faz pouco tempo,
guardaram teu corpo no túmulo.
“Baixinha e braba” –
Assim em vida foste rotulada
(como é pequeno o julgamento humano,
tão distante das solidões profundas).
Bem poucos ouviram,
contristados,
tuas sentidas queixas;
bem poucos viram,
silenciosos,
as lágrimas correndo, quietas,
dos teus olhos verdes.
_*_
(21 de novembro de 1995).



Transcrito in memoriam de uma senhora que certa vez sofreu a imensa dor de perder uma filha moça, falecida em conseqüência de um parto. E mais: alguns anos mais tarde, ouviria do netinho órfão esta pungente pergunta: “vovó, a senhora quer ser minha mãe ?”





































posted by ruy at 5:43 da manhã

10.5.03

 
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Meu pai.

Meu pai, coitado, teve seus defeitos.Haverá quem goste de se lembrar deles. Porém, deu-me hoje vontade de falar em certas qualidades que ele também possuía, mormente algumas que certamente contribuíram profundamente para minha educação.Sou-lhe imensamente grato por isso.
Aprendi com meu pai: a admirar a beleza da precisão que existe na matemática, a gostar de poesia (quando eu era menino, ele recitava para mim Gonçalves Dias e Castro Alves), a gostar de música.
Aprendi com ele, exímio atleta em vários exercícios físicos, que existem esportes “bem educados”, em que o adversário é respeitado, como no tênis; e outros mais “rústicos”, como o futebol...
E há uma coisa ainda mais importante que aprendi com ele: diante da mentira ou da trapaça, aquele mesmo modo de olhar que os americanos adotam quando, referindo-se a alguma atitude contrária ao que é correto, comentam com simplicidade: “But, it is not nice.”



Tia Tita

Tia Tita, irmã de minha mãe, morreu velhinha, cercada do maior respeito na cidade (em lugar pequeno quase todo mundo se conhece).Os que a conheciam sabiam de sua longa vida simplesinha, sem grande feitos visíveis, mas iluminada por aquele olhar modesto e bondoso, que ela nunca deixou de ter, apesar de longos e sofridos anos, suportando pacientemente, em sua face direita, a terrível nevralgia do trigêmeo. Tenho absoluta certeza que ela ofereceu ao Pai Celeste aquela dor por muita gente, inclusive pelo sobrinho Ruy.



Meu avô paterno.

Não conheci meu avô materno. Mas, durante muitos anos estive perto do pai de meu pai. Morreu com quase 95 anos, completamente lúcido. Era um velhinho de quem muita gente gostava, devido àquele jeito alegre, olhar matreiro, com uma enorme bagagem de histórias do tempo antigo, aventuras por ele mesmo vividas. Existe entre nós um blog muito simpático chamado: “Asa de Borboleta”. Ora, uma das atividades que meu avô exerceu em sua mocidade foi justamente a de confeccionar quadros de borboletas, que ele caçava na mata da Tijuca, no Rio de Janeiro. Contou-me ele que certa vez vendeu um daqueles quadros ao rei da Bélgica, quando o monarca veio ao Brasil (naquela época não havia o IBAMA...).



Um dos aspectos mais sombrios que percebo na utopia socialista ou comunista consiste na obsessiva valorização do futuro e a conseqüente e quase completa desvalorização do passado, o qual é visto apenas como se fosse mera etapa da marcha rumo ao Estado perfeito. Reminiscências como as que registrei acima nada valem para um sisudo construtor do “Paraíso Terrestre”. Para tal “idealista”, essas lembranças são pueris devaneios burgueses.


posted by ruy at 4:23 da manhã

9.5.03

 

Me perdoem, mas há certos temas que constantemente voltam à minha lembrança, mormente quando ocorre um desagradável encontro com o despreparo de alguém que, apesar de possuir um alto nível de escolaridade, revela uma lamentável insciência com respeito a certas realidades essenciais da existência humana. Como hoje de manhã ocorreu um caso desse tipo, a título de desabafo vou relacionar abaixo uma pequena lista de alguns daqueles temas.

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I)-A alegria é uma necessidade fundamental em nossa vida. Ao contrário da felicidade, que pode ser vista como um tipo de projeto complexo e demorado, a alegria pode ocorrer em tempos curtos e de modo simples. Isso, entretanto, não significa que a alegria, a verdadeira, deva ser vista como se fosse algo desligado da nossa inteligência, uma atitude em que somente a sensibilidade tivesse lugar.

II)- A escolaridade não deve ser confundida com a educação. A rigor, somente pessoas adultas, isto é, livres de qualquer tipo de tutela ( dos pais ou da escola) podem ser educadas. É a própria pessoa que se educa, em um processo continuado que só acaba no instante final de nossa vida biológica. Por tal motivo é absurdo o nome : "Ministério da Educação".Deveria ser : Ministério do Ensino, ou Ministério da Escolaridade. O nome atual é um nome antigo, mas essa antiguidade não muda o erro em verdade;

III)- O uso das drogas, principalmente quando ele ocorre entre pessoas jovens, deveria nos angustiar a todos que nos julgamos pessoas normais. Deveria obrigar-nos a um verdadeiro exame de consciência com respeito aos nossos conceitos sobre valores, sobre o que seja civilização, dignidade humana, e vai por aí.Nessa hora cabe lembrar o verso de John Donne: "No man is an island."; se alguém se droga, isso de alguma forma é problema meu;

IV)-Ocorre um bom exemplo de "cientificismo de fato" quando alguém se deixou a tal ponto deslumbrar com os cartesianos e brilhantes modelos matemáticos da ciência ou da engenharia que acabou deixando de lado outras formas de beleza e verdade existentes na vida neste mundo. Se a formação básica dessa pessoa descuidou desses outros valores, será muito difícil para ela descobri-los quando estiver em idade madura;

V)-- O Cristianismo não é basicamente um conjunto de exigentes leis Moraes, embora ele as conserve e as proponha ao comportamento dos homens.É, sim, o encontro muitíssimo pessoal com uma Pessoa : Jesus Cristo, que, para os que têm fé, é o próprio Deus encarnado. E como é uma Pessoa, Ele quer basicamente o nosso amor. Quando infringimos uma daquelas leis, estamos sendo pouco atentos a esse afeto. O problema principal do mundo moderno, especialmente do Ocidente, é o de responder corajosamente a esta pergunta: : quem é Jesus Cristo para mim ?




posted by ruy at 4:00 da manhã

8.5.03

 
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Ônibus Noturno.

Longa viagem de ônibus interestadual.
Catarata de idéias,
sono entrecortado,
roncos noturnos,
estalos de beijos no escuro,
risinhos discretos.
Pelo vidro da janela orvalhada,
passam postes com sua luz mortiça,
passam abrigos de caminhões cansados.
Ali na frente, sentado em postura correta,
o motorista, sisudo e bem arrumado,
(bem diferente daqueles que dirigem na cidade grande),
silencioso e desperto executa seu trabalho.
Enquanto isso, em meio a solavancos tristes,
cresce a saudade se vamos de partida,
cresce a esperança se vamos de regresso.



A Cruz Escondida.

Não apenas na beleza nobre
dos versos de Herculano:
no ermo bucólico da serra,
na torre de uma igreja vespertina.
Mas, também, oculta, quase desconhecida,
na mesmice das horas e dos dias,
assim te amo, o' cruz,
e o teu restaurador mistério.



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Feliz aniversário, Rebeca !





posted by ruy at 3:44 da manhã

7.5.03

 
Uma pergunta desafio.


No “site” Viramundos ( www.osviramundos.hpg.ig.com.br) Walter Bandeira propôs aos leitores daquele jornal uma pergunta-desafio. Vou transcrever o que está no Fórum do “site” e, depois, farei alguns comentários. Bandeira escreveu isto:

Vou propor aos amigos uma pergunta, tipo desafio, para ser respondida depois de um bom tempo de reflexão: - "Por que hoje em dia as pessoas, particularmente as pessoas jovens, vêm usando drogas?" Por favor, repito, por favor: não vale resposta apressadinha (do tipo: "as famílias não educam ", ou "a culpa é dos americanos"). A resposta tem que ser bem pensada. Para mim pelo menos, a pergunta é importante!

É curioso como em um espaço tão pequeno, em um conjunto de palavras tão reduzido, alguém tenha realmente colocado um tão grande e provocante desafio!
Há dois dias ocorreu ali no Rio de Janeiro mais um caso, entre centenas de outros semelhantes já ocorridos, de uma pessoa inocente - desta vez uma pobre estudante de enfermagem – ficar tragicamente ferida por disparos feitos por bandidos, por criminosos. A manchete do Globo fala na “Guerra do Tráfico” como a autora dos tiros que foram dirigidos contra a Faculdade onde estudava a moça vítima daqueles perversos alucinados.
Para mim, essa expressão “Guerra do Trafico” é meio inexpressiva. Ou melhor: é uma expressão matreira. A palavra “guerra” provoca desde logo a simpatia de grande parte dos leitores dos jornais, leitores que há muito tempo vêm diariamente sendo induzidos a aderirem ao pacifismo. A manchete dá, portanto, a falsa impressão de que o jornal esteja no caminho certo.
Ora, o que todos os jornais – obviamente incluindo o Globo – deveriam de fato há muito tempo estar fazendo era pesquisar com seriedade o porquê do uso da droga, mormente o vício da droga entre os jovens. Mas, isso não interessa aos jornais fazer. Por quê ? Porque uma parte da resposta inclui forçosamente a história da terrível dissolução dos costumes provocada por inúmeros programas de TV e por várias revistas noticiosas que exploram a vida fútil da maior parte dos artistas do rádio, da televisão, do teatro e do cinema. A divulgação cínica, aberta dessa futilidade contribui para minar o respeito que todos deveríamos ter pela família; colabora para a descrença nos valores tradicionais. Dessa descrença nasce a desesperança e o tédio; e deste surge a tentação da droga. Que jornal terá coragem para falar deste modo a seus leitores?
Mas, deixemos aos leitores do Viramundos a oportunidade de ampliar e aprofundar estas reflexões. Afinal, foram esses leitores que foram desafiados a responder à pergunta de Walter Bandeira.


posted by ruy at 2:43 da tarde

6.5.03

 


Poe.


Faz dois dias comprei uma edição de bolso das Histórias Extraordinárias de Edgard Allan Poe.De fato eu não queria o livro todo; queria, sim, ter em casa, mais uma vez, para reler de vez em quando, o conto que considero uma obra prima: "O Escaravelho de Ouro".
É uma pena que muitas pessoas hoje em dia percam um enorme tempo assistindo a tantos e tão medíocres programas de televisão. Uma leitura atenta daquele conto do grande poeta americano pode nos trazer alegrias profundas, emoções bem mais duradouras que as eventualmente geradas em nós pela mágica tela colorida.
Gostaria de frisar dois entre os muitos pontos atraentes da emocionante narrativa do "The Golden Bug".
O primeiro é o que se refere à capacidade descritiva de Poe. Ele cria para nós a paisagem adequada ao mistério que envolve aquela excitante caça ao tesouro. Topografia, clima, vegetação - tudo é lembrado, nada é esquecido quando ele arma o grande cenário do conto.
O segundo ponto é a amizade entre o preto Júpiter, escravo liberto, e um moço da família que havia possuído aquele pobre ser humano como instrumento de trabalho. Joaquim Nabuco, se a memória não engana, fala em um de seus escritos sobre essa amizade que existia entre senhores e escravos, uma amizade que poucas vezes ele via entre um dono de indústria e os operários.



Detetives na TV.


Para que não me digam que estou cheio de má vontade com a televisão, vou falar sobre um excelente filme policial, ou melhor: filme de detetive, a que tenho assistido aos domingos pela NET.
A Áustria, a França, a Itália, a Inglaterra e, é claro, os Estados Unidos têm produzido vários filmes seriados, isto é, de episódios semanais, sobre o tema da investigação policial, da caça ao criminoso. De todos os que tenho visto, o melhor sem dúvida é o "MONK".
Monk é um melancólico viúvo, obcecado pela limpeza das mãos e da roupa, in-hábil no relacionamento com as pessoas, enfim: um anti-herói, ou: um anti-herói-típico.
Entretanto, muito inteligente, dono de uma excelente memória e de um não inferior poder de observação, Monk - mesmo desajeitadamente - acaba sempre detectando o bandido, o autor do crime. A presença feminina permanente nos capítulos corre por conta de Sharona, simpática secretária de Monk, muitas vezes agindo como se fosse mãe do menino grande e problemático.
Se ainda não assistiram, não deixem de ver : MONK !



Uma ótima notícia veio do Rio, dada pelo telefone por meu amigo Bruno:
- Omayr José de Moraes Júnior começou ontem, na UNIVERCIDADE ( desculpem, mas o nome é este mesmo...) um curso sobre Santo Tomás de Aquino !
Boa sorte, Omayr! E felizardos os que puderem assistir às aulas !


posted by ruy at 6:23 da manhã

5.5.03

 

Descansando em meu pequeno oásis.


O lema deste blog é : "Um pequeno oásis para os amigos." Ora, seguindo a boa doutrina que nos manda ser amigos de nós mesmos, hoje vou "descansar" um pouquinho por aqui.
Não adianta querer tapear a nós mesmos usando mil e uma distrações. Todos os dias, seja por meio das notícias divulgadas pela mídia, seja pelas notícias que nos são contadas quando chegamos ao serviço ou quando voltamos para casa, sempre tomamos conhecimento da precariedade da vida humana, sempre somos lembrados da existência da "indesejada das gentes". Até aqui não escrevi nenhuma novidade. O que se pode esperar de novo é alguma reflexão, algum escrito que exponha, a um eventual leitor, nossa pessoal atitude diante do universal fenômeno a que chamamos: morte.
Acho que a grande maioria das pessoas assume diante da morte uma posição que eu classificaria "lato sensu" como: estóica, ou seja: diante do inevitável desfecho, o melhor seria não pensar no assunto, empurrar com a barriga, ir levando a vida do jeito mais confortável possível, até que não haja mais nada a fazer.
Ora, a malignidade fundamental dos regimes comunistas não consiste nos campos de concentração, nas eventuais torturas ou nos possíveis fuzilamentos das pessoas dissidentes. Todos essas agressões físicas, obviamente condenáveis por qualquer observador normal, mexem muito com nossa sensibilidade e, por isso, acabam ocultando de nós o núcleo perverso de um regime totalitário, qual seja: a sistematização da desesperança estóica. Uma concepção de vida que reduz o ser humano a pouco mais que um animal aperfeiçoado, que considera o homem essencialmente vinculado ao tempo e ao espaço, isto é: sem nenhum sentido transcendente.Uma concepção de vida que propicia a construção dos "colégios internos", do jeito que "frei" Betto gosta.
Se o estóicos viram as costas ao mistério da vida humana, de outro lado os adeptos das doutrinas que pregam a crença na reencarnação, ao nos proporem inumeráveis vidas futuras - ou seja uma infindável vinculação ao tempo - pretendem grotescamente escamotear aquele mistério. Assim, a única concepção de vida que encara e aceita corajosamente o mistério da nossa existência é a doutrina cristã. É por meio dela que conhecemos a virtude da Esperança, com É maiúsculo, sem a qual o sofrimento humano pode se tornar um intolerável tormento.
Quando uma civilização está realmente impregnada pelos ensinamentos que, há mais de vinte séculos, nos vêm sendo ministrados pelo Cristianismo, todas as manifestações culturais, todas as estruturas jurídicas, todos os nossos fazeres, nossas dores e nossas alegrias - tudo isso se encaixa como em um gigantesco quebra-cabeças, que só pode mostrar sua maravilhosa beleza se estiver corretamente montado. Tal estado de coisas já existiu no mundo, no conjunto de nações que surgiu das ruínas do Império Romano.Resta saber se conseguiremos reencontrar aquela condição.
Que São Bento, São Domingos, São Francisco de Assis, Santo Tomás de Aquino, São Luís, São Boaventura, São Bernardo, Santa Hildegarda de Bingen, Santa Catarina de Siena e outros Bem-aventurados daqueles velhos tempos nos inspirem e nos ajudem nessa desejável procura !


Agora volto ao deserto do cotidiano, onde somos obrigados a conviver com os lugares-comuns cartesianos e com os moralismos fáceis...


posted by ruy at 4:09 da manhã

 

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