Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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24.4.03

 

A alegria.


Faz alguns dias fiz rápida referência a um livro de Julian Marías sobre a felicidade humana.
( “A Felicidade Humana”, tradução de Diva Ribeiro de Toledo Piza; editora: Livraria Duas Cidades).
No mesmo post escrevi isto:
“ Gostaria mesmo que aquele brilhante compatriota de Cervantes nos brindasse com um outro livro, desta vez abordando, com a mesma perspicácia: a alegria, a importância essencial da alegria na vida humana! (Voltarei ao assunto. Preciso voltar ao assunto!) .”
Voltei, pois, para ficar (é claro, ficar enquanto dure o post !).
Há vários anos estou firmemente convencido de que a alegria é essencial à vida humana, muito mais que a tão falada, tão popular felicidade. Tenho que explicar o porquê desse meu modo de ver.
De fato, o que se chama felicidade é constituído por um conjunto de circunstâncias agradáveis, um generalizado bem-estar que nos deixa alegres, ou pelo menos alegres na maior parte do tempo. O problema todo está naquele fato, isto é: isso a que chamamos felicidade é “um conjunto de circunstâncias agradáveis”. Exatamente por ser definida por esse conjunto de circunstâncias é que a felicidade se torna algo instável, complexo e aleatório; ela é mesmo fugidia, difícil de atingir...
Neste ponto, um leitor pode, com todo o direito, me interromper dizendo: “espera aí, Ruy, você não acha que está sendo um pouquinho pessimista? Não está querendo ser mais realista que o rei? ”
Não, amigo leitor! Paradoxalmente como lhe possa parecer, ao dar o lugar de honra à alegria, estou mesmo me tornando um paladino da felicidade humana. Como assim? Vejamos.
Para início de boa conversa, a alegria verdadeira, segundo penso, passa pelos caminhos claros e tranqüilos da inteligência.Só existe alegria autêntica quando a sensibilidade não usurpa o papel reitor que é o da razão. Isso é fácil de ver; por exemplo: você consideraria legítimo, verdadeiro, o alegrar-se alguém com a desgraça dos outros? Concorda comigo que uma alegria desse tipo seja uma terrível impostura, uma grotesca e vil imitação?
A alegria verdadeira é generosa. Há tempos, quando estive no Rio, Dom Ireneu Penna, OSB, me dizia que, em certo lugar da Suma, Santo Tomás afirma que Deus é alegria. Afinal, Deus é a infinita generosidade.
Ao falar em Deus neste ponto do meu excurso, acho que acabei de dar ao leitor a pista para chegar ao ponto onde cheguei, depois de muita reflexão.
A felicidade é mesmo, gostemos ou não gostemos disso, meio ou bastante complicada. Ela precisa de bastante tempo para se realizar. Ao contrário da silenciosa e mais modesta alegria que precisa, muitas vezes, de apenas alguns minutos; por exemplo: para ler o pequeno poema em que o autor nos faz notar o fantástico mistério existente nas prosaicas e menores coisas colocadas perto de nós. No mundo moderno, agitado pela televisão, pelo rádio, pelos jornais, e, infelizmente, até mesmo por certas formas de liturgia, essa contemplação vai ficando cada vez mais rara e difícil, porém nem por isso menos necessária.
Julian Marías, em certo ponto do livro várias vezes por nós citado, diz que os pregadores deveriam falar, com mais freqüência, sobre o Céu, sobre como deverá ser o Céu. Leon Bloy, se não me engano quando estava para morrer, respondeu a alguém que lhe perguntou como estava esperando a morte: “Avec d’une grande curiosité”. Se fôssemos mais curiosos sobre o Céu, quem sabe se não seriamos mais alegres? E vivendo na alegria dessa esperança, na alegria da Esperança, com certeza seríamos mais felizes!



Um adendo: as páginas do Evangelho estão repletas de graves preceitos e conselhos ensinados por Nosso Senhor. Ora, uma vida cristã autêntica deveria ser vivida alegremente de acordo com esses ensinamentos.


Estarei fora da cidade durante uma semana. Até a volta, se Deus quiser!


posted by ruy at 3:35 da manhã

23.4.03

 
A Guerra de Foyle.


Minha amiga Sarah costuma dizer: “se o filme é inglês, em princípio é bom!”.Ora, faz poucos dias assisti, pela NET, a um excelente filme policial inglês: “A guerra de Foyle”.
Foyle é o nome do detetive herói da narrativa; é ele quem fará a investigação do assassinato de uma bela e rica mulher. Tudo acontece no começo da Segunda Guerra Mundial, quando a Inglaterra já estava sentindo os efeitos dos repetidos bombardeios feitos pela então poderosa Luftwafe.O roteiro do filme entrelaça as tragédias do crime e do choque entre nações.
O espectador atento poderá perceber muitas sutilezas que a direção do filme conseguiu, com muita habilidade, inserir na seqüência das cenas. Ressalte-se também a personalidade forte, com um senso de humor bem britânico, do detetive Foyle.
Não irei contar ao leitor pormenores nem muito menos vou revelar o culpado do assassinato. Direi apenas: veja esse filme ! Porém, para não deixar aqui um comentário pobre, acrescento isto: homens como Foyle é que permitiram à Inglaterra suportar sem desânimo e com bravura aquela fase mais tenebrosa da guerra.



Parlamentarismo.


Ontem veio aqui em casa meu tio Juca. Quase com 80 anos, ainda está bem lúcido e com a memória perfeita. Gosta muito de falar sobre política.Depois da jantar, falava-me sobre o parlamentarismo. Existiu no Brasil um notável político gaúcho, de nome Raul Pila, que se dedicou a vida inteira à defesa do regime parlamentar, único regime, segundo ele acreditava, capaz de propiciar ao nosso país uma democracia autêntica.
Em certo momento da animada conversa, tio Juca deu um sorriso bem malicioso e comentou:
- “Se o velho Pila estivesse vivo, ia ficar muitíssimo admirado ao ver que hoje, no Brasil, estamos vivendo mesmo sob um parlamentarismo de fato!”
Nesse instante perguntei:
- “E quem estaria sendo, então, o Primeiro Ministro, tio Juca?”
Ele deu um outro sorriso, desta vez meio enigmático, e me respondeu:
-“Menino, parece que você não lê jornal e nem vê noticiário na televisão!”



A liberdade política

“O preço da liberdade é a eterna vigilância.”
(G. K. Chesterton)


posted by ruy at 10:24 da manhã

22.4.03

 
Razão e sensibilidade.

Meu amigo Magno postou faz poucos dias ( www.olhandoomundo.blogspot.com) um texto com este título: Razão e sensibilidade.Creio que o tema merece ser glosado; se não, vejamos.
No que toca à sensibilidade, há dois dias pude ler, com muito gosto, um ótimo ensaio de Assunção Medeiros ( www.outonos.com ), no qual ela, com um jeito bem de acordo com a feminilidade que Deus lhe deu, faz uma comovente digressão em torno do fato recentemente divulgado pela mídia, a saber: a morte da jovem Gabriela, tragicamente levada deste nosso mundo visível, separada subitamente do convívio de seus familiares e amigos por causa de mais um agressivo crime cometido naquela que já foi chamada : Cidade Maravilhosa. Detesto (detesto mesmo! As pessoas que me conhecem pessoalmente sabem disso), detesto o uso indevido da palavra “violência”. Para mim, esse vago e desfibrado uso do referido termo se deve, principalmente, ao pessoal da televisão, gente que, por um misterioso motivo, não gosta de usar a adequada, a correta palavra: “crime”.
Descrevendo carinhosamente o risonho cenário que emoldurava a vida da menina morta, Assunção Medeiros ressalta para o leitor normal o contraste com o absurdo dessa morte trágica. E especifica para nós a maravilhosa unicidade de uma certa pessoa humana que conhecíamos pelo nome de Gabriela.
Ora, vêm ocorrendo muitos crimes de morte em que moços, de ambos os sexos- jovens como essa menina que, como presente de aniversário, iria passear de escuna em Angra dos Reis - têm perdido a vida. Crimes que deixam para sempre, no coração dos que ficaram chorando, uma permanente, uma infinita mágoa. Aquele “muitos crimes” é que constitui o fato que pede, que exige uma palavra da razão, uma vez que a sensibilidade já nos disse, de modo bem claro, a sua palavra.
Ali em cima, falamos sobre o uso vago da palavra “violência”, em lugar da correta “crime”, e dissemos que a televisão é a grande culpada desse uso impróprio.Vale a pena comentar esse ponto.
Todos estamos cansados de saber que a maior parte dos crimes nas grandes cidades estão ligados ao sombrio tráfico de drogas. Neste ponto, fazemos a pergunta que, para nós pelo menos, é a pergunta-chave: “por que as pessoas, neste e em outros países, se viciam em drogas?” Dizem os mais sensatos (e aí pensamos, por exemplo, em um Dom Lourenço de Almeida Prado,OSB) que o uso das drogas se origina do tédio. E por que o tédio? Boa pergunta ! Vejamos o caso particular do Brasil.
Durante anos e anos, a televisão (mormente ela), o rádio, o cinema e as revistas noticiosas (principalmente as que nos expõem a vida privada dos artistas), vêm despejando (a palavra é esta mesma: despejando) sobre a população o lixo imundo do deboche, da vulgaridade, da meia-verdade, do desrespeito aos valores tradicionais, da pornografia etc. O que é o infeliz programa “Big Brother” se não um grotesco capítulo da sexolatria existente no mundo moderno? Juntem-se a isso os já conhecidos e antigos laicismo e secularização - velhos inimigos da religião, o que vale dizer: inimigos da transcendência do destino humano - e veremos por que existe na sociedade deste país uma generalizada desesperança, e o conseqüente tédio. Nos demais países do Ocidente as coisas devem estar se passando de modo bem semelhante.
Meu tio Roberto, que há muitos anos mora no Rio, conta que o problema da criminalidade naquela capital se agravou terrivelmente quando lá foi eleito governador um famoso político oriundo dos Pampas gaúchos. Esse homem teve o apoio firme de um grupo de intelectuais que, apesar de já conhecerem as idiossincrasias e os vícios dele, consideravam o candidato como o virtual heróico propulsor das famosas “reformas sociais”.
Um daqueles intelectuais faleceu há vários anos, mas continua até hoje sendo incensado pelo pessoal da televisão. Ele e seus companheiros de idéias reformistas ignoravam (ou se esqueceram) que a justiça social é um dos ramos da virtude da Justiça, esta, por sua vez, uma das quatro Virtudes Cardeais. Ignoravam (ou se esqueceram) que a justiça distributiva e mais a virtude da Prudência sugeriam, com vigor, que aquele tal político jamais deveria ter sido escolhido como candidato.
Ora, tão logo o novo governador tomou posse – conta meu tio - passou a existir no Rio um perverso clima de leniência em relação aos bandidos De lá para cá, o quadro só fez agravar-se.E agora, como reverter o processo?
Creio que escrevi demais. Mas, tudo o que está acima escrito ainda é muito pouco para homenagear a memória da menina Gabriela e de tantos outros moços, incluindo um sobrinho de Ruy Maia Freitas, vítimas de absurdos e brutais assassinatos. Oxalá esse pouco que escrevi sirva, pelo menos, para incentivar muitas pessoas a procurarem, usando metodicamente a razão, as causas remotas desses crimes que hoje tanto nos fazem sofrer.


Luís Miscow (www.osviramundos.hpg.com.br), referindo-se ao texto de Magno, fala em uma escolha sua (dele, Luís) quanto a um dos termos do binômio “razão” e “sensibilidade”. Agora vale a pena lembrar o que ocorreu com Santa Terezinha quando ela era menina. Mostraram-lhe um conjunto de brinquedos e mandaram que escolhesse um deles. A pequena Therèse Martin respondeu: “escolho todos!” Ela se tornou santa porque escolheu tudo: rosas e espinhos.
É isso aí, Luís. De modo análogo – e obviamente em um plano inferior - do referido binômio devemos escolher ambos: razão e sensibilidade.
E, por favor, amigos leitores, chega de usarmos inadequadamente o termo: “violência”! Violência, para mim, ocorre, por exemplo, quando um jogador de futebol chuta de propósito o joelho do adversário.







posted by ruy at 8:36 da manhã

21.4.03

 

Felicidade e alegria.
Julian Marías, em certo ponto de seu excelente livro: “A Felicidade Humana”, nos lembra uma infeliz “atualização” que muitas modernas (ou modernosas?) traduções da Bíblia nos apresentam ao substituir o tradicional termo Bem-Aventurança pelo que seria seu equivalente : felicidade. Conforme o grande pensador espanhol explica, essa “atualização” comete um erro grave, já que o bem-aventurado não é, segundo os usuais critérios humanos, necessariamente um homem feliz.
Essa atilada e oportuna observação de Marías me faz pensar em algo que talvez seja de importância bem mais nuclear na vida humana que a fugidia, muitas vezes complicada, felicidade. Gostaria mesmo que aquele brilhante compatriota de Cervantes nos brindasse com um outro livro, desta vez abordando, com a mesma perspicácia: a alegria, a importância essencial da alegria na vida humana! (Voltarei ao assunto. Preciso voltar ao assunto!)



E por falar em alegria, e aproveitando que estamos na Páscoa, vejamos um bom motivo para que nos alegremos:
Da primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios, cap.13, vers.12:

“Hoje vemos como por um espelho, confusamente, mas então veremos face a face.Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido.”


Da primeira Epístola de São João, Cap. 3, vers.2 :

“Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isso se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é.E todo aquele que nele tem esta esperança torna-se puro, como ele é puro.”



As 5 gotas.

Contado por meu amigo Danilo, um cearense sempre bem humorado.
Naquela pequena cidade do interior, o médico tinha o consultório em sua própria residência, uma casa grande e antiga, tipo colonial. Chega um cliente, pessoa típica da roça. Caminha pelo corredor comprido até a sala do doutor, entra e começa a contar seu problema. Depois do exame, o médico lhe dá um vidrinho de remédio e explica: “note bem, o senhor vai tomar, deste remédio, cinco gotas no café, cinco gotas no almoço e cinco gotas no jantar! Entendeu?” Vem a resposta: “nhôr sim!” E sai o roceiro pelo mesmo corredor. Chega à porta da casa, pára e retorna .
“Doutor, o senhor pode repetir como é mesmo para eu tomar o remédio?” E o médico, com toda a paciência: “cinco gotas no café, cinco gotas no almoço e cinco gotas no jantar”. Lá vai o visitante de novo pelo corredor comprido.Pára de novo na porta e, mais uma vez, se encaminha para o consultório. “Doutor, o senhor me desculpe, mas eu ando meio esquecido...” Segue-se, com a mesma paciência, a mesma explicação, e lá vai o doente em direção à porta da casa. Já se preparava o médico para ler o jornal do dia, quando entra seu encabulado cliente. E aí vem a pergunta crucial: “Doutor, eu sou mesmo um homem ignorante; o senhor pode me dizer: gota é pingo ? “



posted by ruy at 3:58 da manhã

 

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