Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





Arquivos:





Fale Comigo

6.4.03

 
6/abr/03.
O terceiro homem.
O famoso romancista inglês Graham Greene, entre as muitas obras de ficção que nos deixou, certa vez escreveu especialmente para o cinema o roteiro de um notável filme policial e de “suspense” : “O terceiro homem”.
Talvez a cena mais dramática do filme seja aquela em que Harry Lime, o vilão da história ( protagonizado por Orson Welles) encontra seu antigo amigo de infância, Rolo (protagonizado por Joseph Cotten), no alto de uma enorme roda-gigante e lhe diz mais ou menos estas palavras: ele, Harry, apesar de todos os nefandos crimes que vinha praticando (contrabando de penicilina falsificada) continuava acreditando em Deus, no Céu, no Inferno, nos Anjos e em tudo mais que ambos, quando meninos, haviam juntos aprendido no catecismo. É uma trágica demonstração de que a Fé, ainda que necessária, não é suficiente.
Ora, neste instante me lembro de uma idéia sobre a qual, por diversas vezes, meu amigo Magno tem conversado comigo. Diz ele que todas as relações humanas, e entre elas com especial ênfase a do casamento, seriam estabelecidas de modo excelente se incluíssem um “necessário triângulo”, a saber : eu, meu próximo e o Cristo. Este é o “Terceiro Homem” de quem nos deveríamos lembrar sempre !
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
Bagdá.
Este nome, hoje de conotações tão sombrias, em outra época de nosso país lembrava a muitos leitores de Malba Tahan as pacíficas e fascinantes histórias de califas, palácios orientais, caravanas no deserto, ulemás, dervixes, mulheres misteriosas com seus belos rostos ocultos por um diáfano véu, etc. Aquele nome foi de fato o pseudônimo de um professor de matemática, bem brasileiro, chamado: Júlio César de Melo e Sousa, que escreveu inúmeros livros de lendas que envolviam povos da Arábia, da Síria e demais regiões do oriente, hoje sufocadas pela fumaça da guerra. Entre as obras de Malba Tahan destaca-se, sem dúvida alguma sua obra prima: “O Homem que Calculava”, romanceada história de um jovem e genial matemático, Beremis Samir, livro que, ao ser lançado, provocou no Brasil inteiro um generalizado entusiasmo pela ciência que - conforme os doutos nos ensinam - constitui o chamado: “segundo grau da abstração formal”.
Aí o(a) leitor(a) vai me perguntar: “ como você sabe de tudo isso ?” Bem, isso me foi contado, há muitos anos, por meu pai, que sempre foi um entusiasta da ciência de Euclides, Arquimedes, Euler, Gauss, Lagrange, Descartes, Pascal, Leibniz, Newton, Riemann, Weierstrass, Lobatchevsky e tantos outros gigantes do cálculo.
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
Meu amigo Alexandre fala sobre as pessoas boas. Bom assunto para pensar. Acho que um bom indício de bondade em uma pessoa seja sua capacidade de rir de si própria. Quem si toma muito a sério, acaba se esquecendo dos outros...


posted by ruy at 5:59 da manhã

5.4.03

 
5/abr/03.
Jean-François Mattéi, no livro “A Barbárie Interior” (a que já nos referimos), fazendo um comentário sobre Montaigne escreve, por assim dizer, uma defesa do ensaísta seu compatriota.É direito de Mattéi. Mas, outros autores, também sérios, vêm o assunto de modo diverso. É o caso de Mortimer Jerome Adler, que nos diz claramente:

- “There is no doubt that Montaigne was a moral relativist. Indeed, he is the great granddaddy of our social scientists today, who insist that our moral judgements simply reflect the “mores” or customs of the society to which we belong. They tell us that a system of morality merely express the values in vogue at a given time and place. What is thought right in some societies or culture is thought wrong in others. They conclude from this that there is no objective right or wrong, and no way to determine what is good or bad for all man.”
(note bem o leitor: Montaigne é o avozinho dos modernos relativistas morais... ).
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
E por falar em relativismo, há uma palavra que provoca urticária nos adeptos do “liberou geral”, a palavra : dogma. Ora, sobre os dogmas escreve o sensato e lúcido André Frossard:

“Contrariamente ao que se afirma, os dogmas não fixam limites à inteligência, limites que lhe seriam proibidos transpor; pelo contrário, lançam-na para além das fronteiras do visível.Não são os muros, são as janelas da nossa prisão.”
( no livro : “Deus em Questões”).
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
(Esta me foi contada por meu avô, e passou-se quando ele estudava no ginásio Paula Freitas, no Rio). Os alunos usavam um uniforme cáqui, com túnica abotoada e uma gravatinha preta (devia ser horrível ir à aula no verão com aquela roupa...). Os professores ministravam suas aulas vestidos de paletó e gravata, passeio completo. Naquele tempo, todos os alunos, do mais brilhante ao mais fraco, eram obrigados a fazer exame oral.
Ora, certa vez, em um exame oral de geografia, o examinador perguntou ao aluno: “qual é o principal afluente do rio Amazonas na margem esquerda ?” O pobre examinando gelou, branqueou, e dali a pouco estava suando frio...
Com pena do rapaz, o professor segurou em sua própria gravata, dando uma evidente cola ao infeliz.E este não titubeou: “ rio Gravata !”


posted by ruy at 1:18 da tarde

4.4.03

 


4/abr/03.
Na minha especialidade de engenharia (telecomunicações), costuma-se dividir os sistemas em três tipos: o chamado SIMPLEX, em que a comunicação se faz sempre apenas em um único sentido, como se costuma dizer: de oeste para leste ou de leste para oeste; o SEMI-DUPLEX, em que ora o sinal é transmitido em um sentido, ora no sentido inverso; e, finalmente, o DUPLEX, em que a comunicação se faz simultaneamente nos dois sentidos (é o caso típico da telefonia rotineira ).
O problema fundamental que a televisão traz para a sociedade humana está justamente no fato de ser ela um sistema do tipo “simplex”. O locutor, o jornalista, o entrevistado, o animador de auditório, o filme, a propaganda, o noticiário dizem o que quiserem para o telespectador: lugares-comuns, tolices, erros de tradução de termos estrangeiros, meias-verdades, mentiras etc. E o telespectador nada retruca, nada critica, nada comenta em retorno.Só faz receber; nada transmite. E, a menos que a pessoa que assiste ao programa tenha em sua mente um bem seletivo “filtro cultural”, permanentemente ligado, acaba, sem sentir, sendo enganada, manipulada pelo que lhe é transmitido pela brilhante e onipresente imagem...
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*

“Toda alma necessita de uma irmã na poesia”.

Essa iluminada afirmativa está no poema : “Romance da Visitação” , um dos muitos inspirados testemunhos poéticos que compõem o livro: “ Contemplação de Ouro Preto”, do muito saudoso poeta mineiro (e universal): Murilo Mendes.Vale a pena transcrever um pequeno trecho daquele belíssimo poema em que é relembrada a visita de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel
Toda alma necessita
De uma irmã na poesia.
Por isso a Virgem bendita
Vai visitar Isabel
Comunicar a alegria
Que lhe trouxe Gabriel.
Duas almas que se abraçam
Suscitam a sombra divina
Como o Senhor mesmo disse
Um dia na Palestina.


A leitura do citado livro de Murilo poderá incentivar o(a) leitor(a) a conhecer ( caso ainda não a conheça) aquela histórica cidade mineira. Sugiro que essa viagem seja feita fora de temporada, e em um dia com bem poucos turistas no local. Nessas condições, pode-se caminhar pelas ruas de Ouro Preto com melhor disposição para repetir interiormente o que disse o poeta : “minha alma sobe ladeiras, minha alma desce ladeiras”.


posted by ruy at 8:46 da manhã

3.4.03

 
3/abr/03.
( Para refletir) - Oito citações de André Frossard, que soam melhor na língua
original (tiradas do livro: “Le monde de Jean-Paul II “) :

1. Plus on avance dans l'exploration de l'homme, moins on lui trouve de raisons
d’éxister. .

2. L'histoire du monde est celle d'une interminable querelle de
l'homme avec son Dieu, ou avec l'idée qu'il s'en fait.

3. Le Christianisme est la langue maternelle des Européens.

4. L'Europe cherche, avec raison, à se donner une politique et
une monnaie communes, mais elle a surtout besoin d'une âme.

5. L'égoïsme est en fin de compte le pire ennemi du bonheur humain.

6. La nation est une famille, le nationalisme une abstraction.

7.Un amour qui n'a pas le sentiment d'être éternel n'a jamais commencé.

8. L'erreur de l'homme d'aujourd'hui, est de vivre si "comme Dieu n'existait pas".


*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
Por diversas vezes tenho me referido com entusiasmo ao grande educador americano Mortimer Jerome Adler. Peço que me desculpem por transcrever alguns trechos da entrevista que ele concedeu a Max Weismann, em 1995, a respeito do tema: “Somente adultos podem ser educados” ( “Only Adults can be Educated” ). É de notar a maneira clara e firme com que Adler expõe seu pensamento.

“A maioria de nós, e a maior parte dos educadores profissionais, mantém uma falsa visão da escolaridade. Consiste na noção de que o fim ou propósito das escolas – e uso a palavra “escolas” para incluir todos os níveis de educação institucional desde o jardim de infância até o colégio e à universidade – seja o de tornar homens e mulheres educados, sendo sua educação considerada completa ou finda quando eles recebem um título acadêmico ou um diploma. Nada pode ser mais absurdo ou despropositado. Isso significaria que pessoas jovens – crianças de vinte ou vinte e dois anos – fossem homens e mulheres educados. Todos sabemos, e ninguém pode negá-lo, que nenhuma criança - na escola ou no momento da formatura – é uma pessoa educada. ”
=#=#=#=#=
“ Muitas pessoas podem não concordar comigo porque sofrem da mesma generalizada ilusão Americana de que a melhor coisa no mundo seja uma criança. Nada pode estar mais longe da verdade. Uma criança é o mais imperfeito de todos os seres humanos. Nossa tarefa é torna-lo um adulto. Exceção feita das escolas progressistas os professores erroneamente tentam tornar-se iguais a seus alunos, sentando-se com eles no chão, e pedindo-lhes sua opinião sobre tudo,ora, a situação de uma sala de aula é aquela em que o mestre é superior.”
=#=#=#=#=
“A finalidade da educação é cultivar as capacidades do indivíduo para o desenvolvimento mental e moral, ajudá-lo a adquirir as virtudes intelectuais e morais necessárias para uma boa vida humana, vivida privadamente fazendo um uso nobre e honrado de seu tempo livre, e publicamente em serviços ou atividade política.”
















3







3/abr/03.
( Para refletir) - Oito citações de André Frossard, que soam melhor na língua
original (tiradas do livro: “Le monde de Jean-Paul II “) :

1. Plus on avance dans l'exploration de l'homme, moins on lui trouve de raisons
d’éxister. .

2. L'histoire du monde est celle d'une interminable querelle de
l'homme avec son Dieu, ou avec l'idée qu'il s'en fait.

3. Le Christianisme est la langue maternelle des Européens.

4. L'Europe cherche, avec raison, à se donner une politique et
une monnaie communes, mais elle a surtout besoin d'une âme.

5. L'égoïsme est en fin de compte le pire ennemi du bonheur humain.

6. La nation est une famille, le nationalisme une abstraction.

7.Un amour qui n'a pas le sentiment d'être éternel n'a jamais commencé.

8. L'erreur de l'homme d'aujourd'hui, est de vivre si "comme Dieu n'existait pas".

*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
Por diversas vezes tenho me referido com entusiasmo ao grande educador americano Mortimer Jerome Adler. Peço que me desculpem por transcrever alguns trechos da entrevista que ele concedeu a Max Weismann, em 1995, a respeito do tema: “Somente adultos podem ser educados” ( “Only Adults can be Educated” ). É de notar a maneira clara e firme com que Adler expõe seu pensamento.

“A maioria de nós, e a maior parte dos educadores profissionais, mantém uma falsa visão da escolaridade. Consiste na noção de que o fim ou propósito das escolas – e uso a palavra “escolas” para incluir todos os níveis de educação institucional desde o jardim de infância até o colégio e à universidade – seja o de tornar homens e mulheres educados, sendo sua educação considerada completa ou finda quando eles recebem um título acadêmico ou um diploma. Nada pode ser mais absurdo ou despropositado. Isso significaria que pessoas jovens – crianças de vinte ou vinte e dois anos – fossem homens e mulheres educados. Todos sabemos, e ninguém pode negá-lo, que nenhuma criança - na escola ou no momento da formatura – é uma pessoa educada. ”
=#=#=#=#=
“ Muitas pessoas podem não concordar comigo porque sofrem da mesma generalizada ilusão Americana de que a melhor coisa no mundo seja uma criança. Nada pode estar mais longe da verdade. Uma criança é o mais imperfeito de todos os seres humanos. Nossa tarefa é torna-lo um adulto. Exceção feita das escolas progressistas os professores erroneamente tentam tornar-se iguais a seus alunos, sentando-se com eles no chão, e pedindo-lhes sua opinião sobre tudo,ora, a situação de uma sala de aula é aquela em que o mestre é superior.”
=#=#=#=#=
“A finalidade da educação é cultivar as capacidades do indivíduo para o desenvolvimento mental e moral, ajudá-lo a adquirir as virtudes intelectuais e morais necessárias para uma boa vida humana, vivida privadamente fazendo um uso nobre e honrado de seu tempo livre, e publicamente em serviços ou atividade política.”






































posted by ruy at 1:44 da tarde

2.4.03

 
2/abr/03.
Diziam os antigos : “Verba volant, scripta manent”. Esse velho aforismo me deixou preocupado com o que escrevi ontem : teria eu deixado claro meu pensamento? Assim, tenho que a voltar a um assunto por mim abordado neste blog, a saber : a citação de um trecho do livro de André Frossard e sua ligação com a atual perplexidade dos povos ocidentais. Volto para tentar eliminar uma possível lacuna.
Em certo instante do “post” escrevi isto: “Os apressadinhos só enxergam a presença do Mal nos Estados Unidos. Não se dão conta de que estamos todos no mesmo barco.” Vale a pena explicar estas palavras.
Vejamos, por exemplo o caso do Brasil. No século XVIII, aqueles fogosos intelectuais que, juntos com Tiradentes, planejavam a Independência deste País enviaram certa feita dois representantes aos Estados Unidos a fim de solicitar o apoio da recém tornada independente nação do Norte ao movimento congênere que eles pretendiam desencadear aqui na grande colônia portuguesa. Quando se proclamou a República, a primeira bandeira republicana era uma cópia da americana, só variando as cores. Por sorte, alguém menos insensato sugeriu na ocasião um outro desenho, que é o atual.
Caso da França. A Revolução Francesa ocorreu depois da Independência Americana. Benjamin Franklin, grande mentor intelectual dos rebeldes contra o domínio inglês, era recebido com festa entre os membros das Sociedades de Pensamento, os mesmos que instalariam, pouco tempo depois, o Regime do Terror na pátria de Joana D’Arc. E foram os americanos que por duas vezes desembarcaram na França (nas duas Grandes Guerras) para ajudar os descendentes de Lafayette a se livrarem do jugo dos germânicos .
Para não nos alongarmos, vamos logo ao ponto básico. Depois daquela inflexão assinalada por André Frossard, os povos do Ocidente, todos, orgulhosamente, ao longo dos séculos desenvolveram seus nacionalismos tendo como base filosófica as idéias arrogantes do Iluminismo, entre elas aquela citada por Frossard: o esquecimento voluntário do Pai. Obviamente, pergunto:como dali para a frente poder-se-ia pensar seriamente, coerentemente, em Fraternidade entre as nações ? Fraternidade sem um Pai comum ? Isso é uma terrível piada... Depois todo mundo se espanta com os conflitos entre nações...
Quando ali em cima escrevi: “ Estamos todos no mesmo barco” foi isso que eu quis dizer : todos saímos do mesmo saco da farinha política que gerou os Estados Unidos. Querer hoje, tolamente, farisaicamente, posarmos de bonzinhos, como se o único bandido nessa história toda da política internacional fosse o Tio Sam , é virar as costas para o passado que nos formou, fingindo que não temos nada a ver com ele.
O problema maior é que são muito poucos os intelectuais que tem a coragem de André Frossard para colocar o dedo na ferida...
E um detalhe curioso: antes daquela guinada que ocorreu lá pelo século XV, existiu na Europa um importante e fecundo relacionamento cultural entre cristãos e muçulmanos.Isso também é esquecido, e nem sequer é comentado pelos jornalistas da TV que hoje nos dão as notícias sobre o bombardeio de Bagdá. Mas, como criticar esses rapazes da mídia, quando pessoas supostamente de melhor nível cultural não estão nem um pouco ligando para o que aconteceu naquele remoto passado ? Desculpem meu desabafo...


posted by ruy at 2:47 da tarde

1.4.03

 
1o./abr/03.

“A partir do século XV – um pouco antes ou um pouco depois; trata-se sempre de uma referência móvel sobre o mapa das correntes do espírito – o homem desprende-se do seu fascínio por Deus e volta-se para o mundo : vai perder o seu Pai e atribuir a si próprio uma Mãe, a Natureza, a ponto de a expressão “mãe natureza” ter-se tornado uma banalidade corrente.”(André Frossard, em: “Deus em questões”; tradução de Maria Cecília de M. Duprat, editada pela QUADRANTE, 1991).

Revendo nesse pequeno grande livro de André Frossard o oportuno trecho acima transcrito, mais uma vez encontro assinalado o ponto da história em que a civilização ocidental deu uma infeliz guinada. Estamos em abril de 2003. São passados, pois, seis séculos, durante os quais o desvio do rumo só fez crescer. Nestes dias mais recentes, o barulho das bombas que caem em Bagdá, amplificado pelo noticiário da TV e dos jornais, paralisa a reflexão da maioria de nós, e nos impede de fazermos esta pergunta que seria a mais necessária :
- por que o Ocidente, hoje, está vivendo na mesma perplexidade hamletiana : “how out of joint are the times !” ?
Os apressadinhos só enxergam a presença do Mal nos Estados Unidos. Não se dão conta de que estamos todos no mesmo barco...
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
Continuando a leitura de Jean-François Mattéi. Vale a pena ler a crítica clara e firme que ele faz à chamada PPO, Pedagogia Por Objetivos. Citemos, por exemplo:

“Centrar a pedagogia em objetivos é centrar a educação no sujeito que os visa, ocultando os conteúdos reais do saber, os quais, de sua parte, são indiferentes às intenções subjetivas e aos processos objetivos, em razão de sua autonomia.” ( página 193 da obra citada ).

*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*

No trânsito

Viajando na rotina,
A desesperança quieta,
Sem choro, sem grito.
Olhos que não vêm,
Apesar de abertos,
A verde novidade: o verde,
Em cada árvore ao longo do trajeto;
E apenas enxergam, já cansados,
Sem admiração alguma,
As coisas que se movem na paisagem urbana.



posted by ruy at 9:44 da manhã

31.3.03

 
31/mar/03.
Ontem de manhã, bem cedo, acordei criando mentalmente curiosos elos entre fatos e pessoas aparentemente desconexos. Comecei me lembrando de um certo filme.
Faz poucos dias sugeri a um amigo, apreciador do gênero, que procurasse em uma loja de vídeo aquele que considero o melhor filme sobre guerra já feito até hoje: “UMA PONTE LONGE DEMAIS”. Acho que é de fato o melhor por várias razões. A primeira é que se trata de uma história real, referente a uma famosa operação militar na segunda Guerra Mundial. Para fazer o filme, os produtores convidaram bons artistas americanos para representarem personagem americanos, ingleses para os ingleses e alemães para os alemães. O diretor conseguiu colocar na tela, diante do espectador, todas as ambivalências de uma guerra : a meticulosidade dos planejamentos e a dramática falta de suprimentos na hora mais difícil da refrega; o entusiasmo vibrante de uma vitória e a acabrunhante amargura de uma derrota; o colorido “cartão postal” de uma típica cidade holandesa e suas desoladas ruínas depois de um encarniçado ataque; as clarinadas do início de uma ofensiva e o silêncio triste de um campo de batalha quando ela termina.
Bem, pensando no termo “ponte”, de repente me lembrei que o Papa é chamado Pontífice, isto é: aquele que estabelece, que constrói a ponte. A ponte entre o tempo e a Eternidade. Em seguida, veio-me à lembrança o bem recente firme apelo que João Paulo II fez em favor da paz, e a enérgica condenação dele à guerra no Iraque.
Desse discurso do Papa, passei rápido aos movimentos pacifistas. E aí veio a pergunta: seria o Papa um pacifista? Eu mesmo respondi a mim mesmo: não! De forma alguma ! Quem ousaria, por exemplo, colocar em paralelo o pronunciamento do bispo de Roma e aquela grotesca encenação das setecentas mulheres australianas que, formando com seus corpos um enorme desenho em campo aberto, com formato de coração e dizeres a favor da paz, posaram completamente nuas diante das câmeras de TV e das máquinas fotográficas dos jornalistas?
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
O erro de muitos bispos, padres e religiosos não está basicamente em lutarem por uma melhor distribuição de renda, pelo aumento do número de escolas, pela existência de trabalho para todos os homens, por melhores condições para a saúde pública etc. Está, sim, em passarem a uma enorme multidão de fiéis ingênuos a falsa idéia de que o Cristianismo seja simplesmente um magnífico programa de justiça social.
O Cristianismo pode ser visto infinitamente mais como uma concepção poética da vida, e infinitamente menos como uma utopia desejosa de transformar a sociedade humana em um gigantesco colégio interno para crianças bem comportadas.
Visto em “close” na TV ( ah! a TV, essa insaciável devoradora de vaidades...), o olhar de um notório “religioso” brasileiro, hoje elevado a assessor do atual Governo, lembra não o modo de olhar de um inspirado profeta, porém, sim, o jeito de um cartesiano e resoluto reformador político...
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*<>*
Fato ocorrido quase no fim da segunda Guerra Mundial.
Reuniam-se na Europa não ocupada, dirigentes das Nações Aliadas. De repente, alguém fez uma referência ao Papa. Ao que imediatamente retrucou Stalin:

- “ O Papa ? Quantas divisões blindadas tem o Papa ? ”

Existem perguntas e perguntas. A pergunta de Alice à irmã que lia no jardim: “para que serve um livro sem figuras ? ” revela a cândida ignorância infantil; a pergunta do tirano soviético mostra a que ponto pode conduzir a rude simplificação do espírito pragmático





posted by ruy at 2:35 da tarde

 

Powered By Blogger TM