Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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23.3.03

 

23/mar/03.
A TV é, sem dúvida alguma, “verborrágica”. Por isso mesmo, temos que estar sempre muito atentos para ver e ouvir nas entrelinhas das imagens que a tela colorida nos mostra na sala. Ontem apareceu uma cena que merece comentário especial. Apareciam sorridentes soldados americanos substituindo, em uma estrada do Iraque, uma típica tabuleta de sinalização com dizeres escritos em caracteres arábicos por uma outra semelhante, porém em que estava escrito, em bom e bem visível inglês: “ WELCOME TO IRAQ ”.
Os soldados provavelmente estavam cumprindo ordens. De qualquer forma, aquilo pode sugerir esta pergunta : “esta a guerra é contra um tirano ou contra um povo e sua multissecular cultura” ?
Seria muito galante se a tabuleta nova viesse, por exemplo, escrita em várias línguas, começando lá em cima pelo idioma do próprio país invadido.
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Uma pessoa muito minha amiga enviou-me pela rede um conjunto (letra e música) de antigas e bonitas canções: brasileiras, italianas, mexicanas, francesas e americanas. Entre as americanas existe uma (“Perhaps love”) que me pareceu mesmo ser de fato irlandesa, ou pelo menos tem aquele tom romântico típico das canções irlandesas. Fica pois registrado um pedido: quem poderia confirmar ou não a minha opinião quanto à procedência da citada música ?
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Frederico II tinha mercenários em seus exércitos. Ao incorporar novos soldados, o imperador da Prússia, depois de algum tempo, ia pessoalmente inspecionar os recrutas e, sistematicamente, fazia-lhes, em alemão, três perguntas, exatamente nesta ordem:
1)- Qual é sua idade ?
2)- Há quanto tempo você está servindo?
3)- Está satisfeito com a comida e o soldo (pagamento) ?
Ora, aconteceu que um jovem francês, recém incorporado, não falava o alemão e, preocupado em não desagradar o grande chefe, decorou as respostas.
No dia da inspeção, Frederico por um motivo qualquer, inverteu a ordem das perguntas e começou pela segunda: “há quanto tempo você está servindo ?”. O jovem respondeu: “Vinte anos.” O imperador admirou-se, mas ficou quieto. Veio então a que deveria ter sido a primeira pergunta: “qual é sua idade?” O rapaz respondeu: “seis meses !” Frederico arregalou os olhos e exclamou: “um de nós deve estar maluco !” E aí vai o francês, rápido: “ ambos!”
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Reflexão bem melancólica: nada é mais humilhante quanto o verificar em nós a permanência de antigos defeitos...


posted by ruy at 3:57 da manhã

22.3.03

 
22/mar/03.
Hoje, sábado, acordando de modo natural, sem a obrigação rotineira. Abro os olhos e vejo, de imediato, o ângulo diedro formado pelo teto e pela parede. Ambas as superfícies vazias de desenhos e pintadas com cores convencionais. Mas, o diedro surgiu ali; como se fosse uma colossal novidade neste meu despertar. É de fato um mundo, um vasto mundo, aquele em que vivemos : o quarto, a cama, a parede, o teto, o ângulo, o diedro, as palavras, as sílabas, as letras, os sons, e vamos por aí afora, a todo instante re-descobrindo coisas bem perto de nós, porém esquecidas. Coisas que continuariam existindo se eu, de repente, parasse de viver (uma hipótese sempre viável).
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De vez em quando aparece nos jornais um artigo, uma crônica, falando, com alguma admiração, sobre o caso deste ou daquele famoso intelectual - pensador, filósofo, poeta ou romancista – que, em certo dia de sua agitada existência, interrompeu seus hábitos característicos e partiu para uma aventura : a de participar, como executor direto, de uma atividade operária, camponesa ou outra de natureza semelhante.
Diz o sábio conselho evangélico que não devemos julgar os outros, já que somente Deus conhece a intenção das pessoas. Entretanto, parece-nos legítima uma análise do fato objetivamente observado. Os antigos usavam a expressão (e creio que ainda seja válida) : “dever de estado”, para se referir a certas obrigações próprias da vocação de cada um de nós. Já imaginaram, por exemplo, um Santo Tomás de Aquino, interrompendo suas profundas reflexões sobre o maniqueísmo e sobre como achar bons argumentos contra aquela perigosa heresia, para ir trabalhar como pedreiro na construção de uma catedral?
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Regina sempre foi cheia de vida. Quando em pequena, seu pai, que tinha por hábito botar apelido nos filhos, chamava-a : “a exuberante”.
Um dia, Regina se foi; partiu poucos minutos depois de seu parto do filho mais novo.
Neste instante lembro-me de um pensamento de Adélia Prado, em que ela diz:
- “Uma vela não se finda; vai para onde se formam os maios e os meninos. Onde estão os que chamamos mortos.”
É lá onde está Regina. Viva.



posted by ruy at 6:38 da manhã

21.3.03

 
21/mar/03.
(Pensando no que escrevi ontem a respeito de muitas costumeiras homilias, e também motivado por essa agitada situação política mundial).
A continuada e hipnótica pressão da mídia faz com que a grande maioria das pessoas analise o conflito EUA "versus" Iraque de um modo, digamos assim, “estanque”, como se os fatos de hoje nada tivessem a ver com o passado. E quando escrevo: “passado”, não estou me referindo aos anos mais recentes, ou mesmo aos séculos mais próximos do atual. Vejo, sim, um longo encadeamento histórico que, de modo meio esquemático, teria seu início lá pelo final do século XIV ou XV, um começo marcado – entre outros eventos – pelo aparecimento do nominalismo, que é a corrosão da filosofia clássica. Para os pragmáticos isso pode parecer afirmativa de sonhador, de alguém desligado da realidade. Esses eternos distraídos, que são os pragmáticos, se esquecem, por exemplo, que foi uma certa filosofia que acabou implantando na Rússia o estúpido regime que esperou mais de meio século para ouvir de um presidente soviético, ao visitar uma fábrica, aquela patética pergunta: “por que a geladeira russa é de tão má qualidade? ” Como também se esquecem que foi uma outra filosofia que entregou nas mãos de um sapateiro boçal, para ser por ele cuidada, certa criança inocente : o pobre filho de Maria Antonieta.
Poucas pessoas param para refletir sobre a origem dos modernos orgulhosos nacionalismos. Como também poucas pessoas sabem a respeito do intercâmbio cultural que existiu entre cristãos e árabes muçulmanos na Idade Média, aquela que os mal informados chamam de “Idade das Trevas” (sobre esse ponto convém ler Alain de Libera no livro : “Pensar na Idade Média”, traduzido faz pouco tempo pela editora “34”).
O fato é que, em certa época bem distante da nossa, apesar de muitos equívocos e erros que ali existiam, houve uma civilização que tinha o consenso desta colossal novidade : o Verbo se fez carne e habitou entre nós. É isto que seria desejável ouvir, dito com entusiasmo, com muito entusiasmo, com visível entusiasmo, pelos pregadores, na maior parte de suas homilias. Quem sabe se isso não levaria a um melhor entendimento entre as nações ?
Mas, hoje em dia, há religiosos (...) que, em vez de nos mostrarem claramente aquele entusiasmo, preferem exibir-se como assessores de chefes de Estado.
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Se víssemos um adulto ensinado um menino de seis ou sete anos a recitar uma poesia de sentido dúbio, maliciosa, certamente diríamos que a inocência da criança estaria sendo agredida, ainda que aquele menino não estivesse percebendo a maldade do agressor. Ora, há cerca de sessenta anos a maior parte da população brasileira vem sofrendo, e sem perceber isso, uma estranha agressão, qual seja: a existência do ultra-absurdo nome do chamado Ministério da Educação. Não compete ao Estado ditar normas, fixar regras para a educação de qualquer pessoa. A minha educação é problema meu, eminentemente pessoal. Não confundamos escolaridade com educação. A primeira (a escolaridade) termina com o recebimento de um diploma; a segunda (a educação) termina quando damos nosso último suspiro. O correto seria, pois : Ministério do Ensino, ou Ministério da Escolaridade.
Não se trata de criticar o atual governo Lula; ele já recebeu o erro de um outro que, por sua vez, recebeu de seu antecessor, e assim por diante, até chegar ao primeiro burocrata que teve a infeliz idéia...Mas, nunca é tarde para corrigir um erro. Alertemos, pois, nossos parentes, amigos, colegas e conhecidos sobre essa silenciosa agressão.Isso é mais urgente que ficar dando palpites sobre a guerra no Iraque!
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(Um pedido de ajuda).
Quando meu pai se casou com minha mãe, deu-lhe de presente o livro: “Nós”, uma coleção de sonetos de Guilherme de Almeida.Infelizmente, o livro perdeu-se em algum lugar do passado...
Hoje em dia está na moda promover os românticos, e muito bem elaborados, sonetos de Vinicius de Moraes; mas eu continuo gostando também do estilo “naïve” de Guilherme: um lirismo mais modesto, porém bem próximo da gente. Lembro-me destes tercetos:

“Vou partir. Para longe ? Para perto?
Não sei. Longe de ti tudo é deserto,
E todas as distâncias são iguais.

Como eu quisera que na despedida,
Quando se unissem nossas mãos, querida,
Não conseguissem separar-se mais...

Quem poderia me dizer: quais são os quartetos correspondentes? e onde seria possível encontrar todos os sonetos do livro “Nós” ?


posted by ruy at 10:39 da manhã

20.3.03

 
20/mar/03.
(Minha próxima reflexão gira em torno de um tema que talvez não seja habitualmente meditado por muitas pessoas sinceramente piedosas, mas, nem por isso convinha deixá-lo esquecido).
Acho que a quase totalidade das homilias proferidas pela maior parte dos pregadores pode ser considerada como pertencente a um destes dois tipos: o primeiro é o das pregações que se dirigem mais à vontade e à sensibilidade dos fiéis, estimulando-os à prática das virtudes cristãs; o segundo tipo, também dirigido mais à vontade e à sensibilidade, é o dos discursos “sociais”, em que se procura fazer com que eles, os fiéis, se conscientizem da importância do bom relacionamento com o nosso próximo e da necessidade da transformação da sociedade em outra, melhor que aquela em que vivemos.
Em ambos os tipos esquematicamente acima referidos há, sem dúvida alguma, propostas legítimas; porém, neste instante, me lembro do comentário várias vezes feito por meu amigo Ney : “Ruy, seria muito bom que nossos bispos e padres tivessem um pouco mais de espírito poético!”
Entendamos: “espírito poético” para o Ney (e para mim também) não significa de jeito algum um modo relaxado, superficial, de analisar a vida. O autêntico poeta é alguém que`, usando uma linguagem concisa, consegue chamar nossa atenção para realidades bem próximas de nós e que, distraídos, costumamos deixar de ver. O bom poeta fala à nossa inteligência, tanto quanto à nossa sensibilidade.
Um exemplo bem específico de um assunto que merecia ser tratado nas homilias com esse vital espírito poético é aquele citado por Julian Marías em seu livro: “A Felicidade Humana”, a saber: como será o Céu ? Como podemos (e mesmo devemos) imaginar o Céu? Dou um doce para o leitor que já tenha ouvido algum pregador falar sobre isso !
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E por falar em “bom relacionamento com o nosso próximo”, quem se lembra que o nosso primeiro próximo é mesmo cada um de nós, e que o amor de caridade para consigo mesmo vem logo depois do amor para com Deus?
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Um pequeno poema de Abgar Renault:

NO ALTO DA MONTANHA

Já não sinto saudade de mais nada,
a não ser do começo da escalada,
quando o azul era azul de azul sem fim
e Deus criava de novo o mundo em mim.

( Abgar Renault era tanto capaz de escrever belos sonetos em autêntica forma quinhentista, semelhantes aos do velho Camões, quanto poesia no estilo moderno mais ousado.Homem de vasta cultura, entre muitas importantes funções públicas, foi Ministro da Educação deste país. Mas, isso tudo foi em prístinos tempos, quando ainda éramos civilizados...).


posted by ruy at 7:54 da manhã

19.3.03

 
19/mar/03.
Ruy Maia Freitas está de volta a São Paulo e ao seu oásis, isto é, a este blog !
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A anedota é antiga. Mas, mesmo assim, é oportuno contá-la.
O sujeito vinha de carro por uma estrada deserta, à noite, quando de súbito solta-se uma das rodas.O motorista pára e verifica que os quatro parafusos caíram e se perderam pelo caminho. Angustiado, olha em torno: ninguém, nenhum outro carro. Apenas, próximo da estrada, um prédio soturno, com grades em todas as janelas, e que ele logo se lembrou: era um hospício.
De repente, surge em uma das janelas iluminadas um rosto e a pessoa grita lá de cima:
- “ Caiu a roda ?
- “ É , caiu sim !...” E, baixinho para si próprio: “só faltava essa: um louco prá me chatear!”...
- “Olhe - grita a mesma pessoa da janela – tire um parafuso de cada uma das outras três rodas e use-os na roda que está solta. Aí você pode ir até a cidade !”
O motorista se alegra e, agradecido, grita para o seu benfeitor:
-“Obrigado! O que você está fazendo aí em cima ? ”
Ä resposta vem rápida: “ Sou louco, mas não sou burro !”
Sempre me lembro desta anedota quando, passando por várias calçadas da cidade, durante o dia, sou obrigado a caminhar na rua, com risco de ser atropelado, para não correr o risco de cair no chão ensaboado.Houve um prefeito de São Paulo, famoso político, que diziam ser meio ou bastante biruta. Mas ele, certa vez, baixou uma postura proibindo que as calçadas fossem lavadas durante o dia. E aí eu penso: aquele prefeito podia ser maluco, mas não era burro!
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E por falar em loucura, sempre é bom lembrar a definição de Chesterton:
- “ Louco é o homem que perdeu tudo exceto a razão.”
(se a memória não me engana, o genial ensaísta, no mesmo texto em que apresenta aquela curiosa definição, nos lembra que casos de loucura são mais freqüentes entre enxadristas e matemáticos que entre os poetas.Não nos esqueçamos disso, mormente quando provocados por teimosos provocadores cartesianos ).




posted by ruy at 5:54 da tarde

 

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