Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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13.3.03

 
13/mar/03
Este fato me foi contado pelo professor Borges, hoje aposentado. Quando ele era estudante, um grupo de doze universitários brasileiros (ele incluído) foi selecionado para fazer um estágio em um centro de pesquisa nos Estados Unidos. Fazia parte das instalações do centro um salão de repouso, onde os pesquisadores e funcionários podiam beber uma Coca Cola, tomar um café, conversar, ler jornais e revistas, ouvir música etc.
Havia no referido local uma balança daquele tipo que ejeta um cartão em que foi impresso o peso da pessoa, desde que esta, é claro, tenha colocado uma moeda na apropriada fenda do aparelho.
Ora, cedo os estagiários descobriram o seguinte: se uma pessoa, após ter sido pesada, mantivesse um pé fazendo pressão no piso da balança, uma outra pessoa poderia subir e obter seu cartão do peso sem precisar colocar uma nova moeda. E logo se fez uma risonha fila de estudantes brasileiros, um a um usando aquele truque experto.
De repente, passa perto um pesquisador do centro e um dos nossos rapazes, sorridente, mostra ao americano a grande descoberta que haviam feito. Ele, olhando sério para eles, apenas comentou: “ But it is not nice.”
Notemos bem o diminuto tamanho da frase: “But it is not nice.”, apenas cinco pequenas palavras. Mas, por trás dessa economia de fala, está presente o que se chama: um consenso moral. Quando ele existe, podemos dizer que a sociedade está bem ordenada. E isso se obtém, sem dúvida alguma, por meio de um longo e sério processo educativo, e não simplesmente como fruto do acúmulo de inúmeros diplomas escolares e títulos acadêmicos.
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Diz antigo provérbio: “Água mole em pedra dura, tanto bate que até fura.”
Por isso , Ruy Maia Freitas vai continuar teimosamente, quixotescamente, dizendo a seus parentes e amigos isto: o nome Ministério da Educação é um absurdo; é um nome que fere a dignidade da pessoa humana. O nome correto deveria ser: Ministério do Ensino, ou Ministério da Escolaridade. Reflitamos bastante sobre isso.
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Sem dúvida alguma, são válidas quaisquer reflexões nossas feitas sobre problemas morais, ou éticos, como muitos gostam de falar.
Seja na estimulante área da educação, seja no controvertido e agitado setor da política, seja ainda no terreno irregular e escorregadio dos costumes, tudo isso pode - e muitas vezes deve – ser discutido livremente.
Porém, por mais bem informados que sejamos sobre o assunto, e por melhor que sejam as nossas intenções, ficaremos ainda assim muito distantes de uma solução para esses problemas todos se não levarmos em conta um dado nuclear: o mistério do Mal.
Esquecendo esse dado, qualquer um de nós pode emigrar da moral legítima para um moralismo sonhador. Desse risco não escapa nem o mais brilhante filósofo...
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Recesso: Ruy Maia Freitas vai sair de São Paulo por uns cinco dias. Até a volta, se Deus quiser.





posted by ruy at 1:28 da tarde

12.3.03

 
12/mar/03.
Há no mundo certas coisas que são de tal modo semelhantes que podem induzir o observador desatento a concluir que elas sejam da mesma natureza, ou até mesmo iguais. Comecemos por dois exemplos triviais, para depois passar a outros de maior seriedade.
Uma onça e um gato têm de fato, descontando o tamanho e a ferocidade da primeira, muitos pontos de similaridade. Entretanto, qualquer pessoa de julgamento ponderado evitará dizer, por exemplo, que a onça seja simplesmente como uma espécie de gato que, em pequeno, tenha sido alimentado com Toddy pela mãe gata.
Ser surpreendido por uma chuvarada ao sair em um passeio a pé não é o mesmo que, intencionalmente, tomar um banho de chuveiro em casa, ainda que nos dois casos a água seja igualmente fria.
Agora, vejamos duas palavras, dois adjetivos que, se forem usados em uma conversa ou em uma redação podem sugerir, até mesmo a um estudante universitário, que sejam qualificativos sinônimos. Refiro-me aos termos: nacionalista e patriota. Vejamos.
Ambos, o nacionalista e o patriota, amam seu país; ambos serão capazes de dar por ele a própria vida. Ambos cultivam as tradições do seu povo. Ambos desejam que todos os habitantes de seu país tenham uma existência tranqüila, segura e que, atendidos em suas necessidades básicas, vivam em constante progresso.Bem, então, onde eles se diferem? Muito simples. Para o nacionalista, tudo se passa como se o seu país fosse o único no mundo, ou pelo menos como se os demais países tivessem uma existência não merecedora de respeito, uma existência menor. Quando o nacionalista fala em pátria, não se lembra de que outros povos também têm uma pátria, e têm amor por ela. O patriota, ao contrário, ao mesmo tempo que ama seu país, mantém o senso da reciprocidade; respeita o direito de outros povos amarem sua “Vaterland”, sua “Homeland”. Aceita tranqüilamente que o mundo seja constituído por essa diversidade de nações e Estados.
Hoje em dia (estamos em março de 2003), há um forte rumor de guerra. Isso nos sugere outros dois adjetivos que também apresentam notáveis semelhanças e. portanto, são capazes de confundir as pessoas menos avisadas. São eles : pacifista e pacífico.
Ambos detestam a guerra. Ambos desejam que a vida humana seja respeitada, principalmente quando pensam no drama das populações indefesas, quando visualizam o quadro pungente de mulheres correndo entre escombros carregando seus filhinhos no colo ou crianças maltrapilhas vagando sem pai nem mãe, em estadas enlameadas . Paremos por aqui. Para que pintar cenas tão conhecidas de todos nós ?
Mais uma vez, então, onde está a diferença entre os dois, entre o pacifista e o pacífico ? Como se diz em linguagem filosófica, eles se distanciam – e muito – na posição formal diante da guerra. O pacifista é aquele que faz qualquer negócio, faz qualquer acordo, por mais imoral, por mais indecente que seja, para que não haja a guerra. O pacífico sabe que há concessões que jamais podem ser feitas. Sabe que a dignidade das pessoas e, em conseqüência, a dignidade das nações – que são, justamente, conjuntos de pessoas – têm um valor maior que o da própria vida. Sabe que é melhor morrer que viver como escravo.
O mais melancólico em nossa época é verificar que estas noções, tão elementares, são desconhecidas por uma grande maioria de pessoas. Mas, o que se podia esperar de uma cultura diariamente alimentada apenas pelo noticiário dos jornais e da televisão ?
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Citando Murilo Mendes , que foi um poeta amante da paz:
“ Guerra à guerra ainda é uma divisa belicosa.”
( do livro : “Discípulo de Emaús” )
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Sempre será bom lembrar a clássica, correta e concisa, definição de Santo Agostinho:
" Paz é a tranqülidade na ordem."

posted by ruy at 2:29 da tarde

11.3.03

 

11/mar/03-
Os professores mais antigos aqui na universidade contam o famoso caso de um professor americano ( vamos chamá-lo F...) que em certa época foi contratado como pesquisador em nosso Departamento. Era, segundo dizem, alto, louro, forte, bem do tipo cinematográfico, e sem dúvida alguma muito competente. Seus alunos tinham o maior respeito pelo “gringo”. Em pouco tempo aprendeu bem o português, e apesar de ser de pouca conversa, parece que logo arranjou uma namorada brasileira.Morava em um apartamento não muito longe da universidade. Um belo dia chega à Reitoria uma carta do síndico do prédio onde morava o professor F... A carta, bastante queixosa, trazia em anexo um bilhete, escrito pelo americano e endereçado ao síndico, em que só aparecia esta pergunta : “ Quando é que vocês brasileiros vão deixar de ser crianças ?”
Costuma-se falar nos chamados: “defeitos da qualidade”, uma expressão em que provavelmente aquele professor americano nunca tenha ouvido falar. Existe na tradição cultural dos brasileiros uma certa descontração jovial, uma flexibilidade bem humorada, conexas àquela habilidosa maneira com que chegamos à definitiva abolição dos escravos, quase ao final do século XIX, sem termos que passar pelo trágico processo da sangrenta Guerra Civil dos Estados Unidos. Mas, quando exageramos essa descontração e essa flexibilidade, corremos, de fato, um enorme risco de entornar o caldo.É o que vem ocorrendo, por exemplo, nos resultados de muitas eleições políticas em nosso país, resultados que parecem justificar a pergunta daquele professor americano....
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Conta meu avô Leôncio que antigamente, nas escolas de primeiro grau, era costume obrigar os alunos à leitura de poesias em voz alta.Tal costume, além de conseguir a memorização de um bom número de poemas dos melhores poetas brasileiros, fazia com que o aluno adquirisse certa sensibilidade para o ritmo e a pontuação, não só na leitura de versos como também na leitura de textos em prosa.
Um clássico exemplo de como o uso de uma aliteração só é percebido em sua sonora beleza se o leitor fizer a leitura do verso em voz alta está naquele poema de Castro Alves em que o condoreiro baiano “canta”:
“ Auri verde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança.”
No que toca à pontuação, temos o verso, também clássico, do famoso soneto camoniano : “Sete anos de pastor...”, onde lemos:
“ Que a ela só por prêmio pretendia. “
Se lermos este verso sem dar uma ligeira pausa logo depois do termo “só”, transformaremos o pobre Jacó de grande apaixonado de Raquel em vulgar interesseiro...Experimente o leitor a leitura em voz alta do referido verso, com e sem aquela pequena pausa depois do “só”.
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E por falar em aliteração, Alexandre Soares Silva, que é um grande fã de Chesterton, sabe bem melhor que eu que há trechos do grande ensaísta inglês difíceis de traduzir sem que se perca o encanto de certas aliterações existentes no original. Gostaria muito que Alexandre nos desse um ou dois exemplos disso !



posted by ruy at 9:28 da manhã

10.3.03

 
10/mar/03.
Sou meio desligado dessas “homenagens dirigidas”, como foi a de sábado, quando se comemorou o Dia Internacional da Mulher. Mas, embora atrasado, gostaria de apresentar aqui duas reflexões sobre aquela pessoa que muitos de nós, homens, conhecemos tão pouco. A primeira é de um grande pensador espanhol, Julian Marías, que acredito ainda estar vivo e lúcido; a segunda é do saudoso poeta mineiro Murilo Mendes, cuja mulher tinha o ultra poético nome de Maria da Saudade.
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“Se nós homens fôssemos mais inteligentes, teríamos procurado sempre que as mulheres fossem mais felizes do que são, porque é a condição primária da felicidade no mundo.À medida que as mulheres não são felizes, não há felicidade; e evidentemente não a pode ter o homem.”
( Julian Marías, em : “A Felicidade Humana” )
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“O homem é em grande parte culpado dos erros de sua companheira. O homem é o chefe, a cabeça da mulher. Compete-lhe guiá-la, elevar seu nível de espírito, fazê-la passar da ordem da natureza à ordem da caridade, valendo-se de sua doçura e submissão – e não rebaixá-la, como acontece muitas vezes, à qualidade de utensílio.”
( Murilo Mendes, em : “Discípulo de Emaús”)
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Faz alguns anos encontrei por acaso um senhor da mesma cidade em que nasci, e que me conhecia desde que eu era menino. Depois de alguns minutos de conversa, olhando-me nos olhos, disse em tom sentencioso : “Ruy, meu jovem, há três coisas perigosas na vida de um homem: jogo, bebida e mulher !”
Constrangido pela diferença de idade, pelos cabelos brancos dele, não quis contradizer meu interlocutor. Entretanto, interiormente, comentei para mim mesmo: “É, de fato essas três coisas podem causar muitos problemas para um homem, mas há duas outras bem mais perigosas: a ambição de poder e o ser bem sucedido na vida.
A primeira – a ambição de poder – acaba fechando o coração do homem para as necessidades, para os sofrimentos das outras pessoas. A segunda – o ser bem sucedido na vida – pode fazer com que o homem bem sucedido considere suas crenças, sua matriz de valores, seus critérios de julgamento totalmente corretos. Algo como se ele dissesse para si próprio: “Se eu venci, por que meu modo de interpretar a vida estaria errado ?”
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(de uma biografia de Maria Antonieta, um livro que tive na mão e, infelizmente, deixei de comprar...)
A rainha da França está prestes a ser guilhotinada. O populacho em volta grita-lhe os piores impropérios. De repente, sem querer, ela pisa no pé do carrasco.Contristada, vira-se e diz para o homem: “Pardon, monsieur! “



posted by ruy at 1:28 da tarde

 

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