Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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9.3.03

 
9/mar/03.
Aquilo que escrevi na quinta-feira a propósito do que a pessoa do Cristo deveria significar em minha vida, “mutatis mutandis” se aplica à Igreja. Há escritores que, escrevendo livros ou artigos em que falam sobre a Igreja, mostram uma atitude respeitosa, formal, civilizada para com essa instituição. Mas, no meu caso tenho que dizer isto: para mim, Ruy Maia Freitas, a Igreja é sobretudo : minha Mãe. Aliás: “Mater et Magistra”.Qualquer pessoa que tem ou tenha convivido com sua própria mãe entenderá o que estou dizendo.
Para mim, mãe é aquela que dá o carinho e a palmada, o beijo e o castigo, tudo na hora certa; é a que está sempre providenciando o alimento e o remédio. É a que chora e se alegra com seus filhos, sempre lembrando os aniversários deles , mormente quando distantes.É a que estabelece, metódica, um bom número de regrinhas, talvez incômodas, mas que nos garantem a boa ordem e o conforto da casa.É a que, mesmo sem ter grande instrução, sabe intuir que a escolaridade de seus filhos faz parte de um longo, penoso, mas necessário processo educativo.É a que luta para que a unidade de seu lar não seja desfeita.E sabe muito bem porque essa unidade é essencial !
Note o leitor que nada eu disse sobre o trabalhar ou não trabalhar fora de casa. Conheci mães que trabalhavam fora de casa e, mesmo assim, tinham uma imponente presença moral em suas famílias.
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Quando eu era menino, meu pai costumava nos contar a historieta dos três ingleses que estavam bebendo chope em uma mesinha junto à Avenida Atlântica, Copacabana, no tempo em que eram bem poucos os automóveis existentes lá no Rio de Janeiro.
De repente passa na rua um carro. Um dos ingleses pára de beber, levanta a cabeça e diz: “foi um Packard! “ E volta a beber. Um minuto depois, um outro inglês, levanta a cabeça e diz: “não! Foi um Oldsmobile ! “ E volta a beber. Um minuto depois disso, o terceiro inglês bate com a mão na mesa e diz : “se vocês não pararem com essa discussão, eu me levanto e vou embora!”
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( lembrando a historieta contada por meu pai).

Londres.

Eu queria ir a Londres;
Não para ver o Tamisa,
Com suas águas mansas;
Nem para olhar o Parlamento,
Ou para escutar o Big Ben;
Nem para visitar a velha Torre,
Onde habitam históricos fantasmas;
Nem para apreciar Trafalgar Square,
E o grande Nelson olhando lá de cima.
Porém, queria mesmo ir a Londres,
(e como desejo isso!),
Para ouvir, com muito gosto,
A fala silenciosa de seu povo.








posted by ruy at 6:16 da manhã

8.3.03

 
08/mar/03.
Ensinam-nos os doutos que existem três graus de abstração formal. O primeiro é o da física; o segundo, o da matemática ( ou matemáticas), e o terceiro: o da metafísica.
Existem pessoas que por dever do ofício realizam atividades sem dúvida alguma conexas aos dois primeiros desses graus de abstração. Estou pensando mais especificamente no caso dos professores e pesquisadores que lecionam em nossas faculdades de engenharia.
Esse contínuo trabalho intelectual, apoiado em elaborados modelos matemáticos, acaba gerando nessas pessoas de nível de escolaridade dito superior uma relação afetiva, diria mesmo:apaixonada, com suas tarefas de ensino e/ou pesquisa.Isso é compreensível.Aqueles modelos matemáticos têm uma ordem lógica, uma precisa relação de causa e efeito, uma harmonia e, por que não ?, tudo isso termina provocando um emocionante prazer estético. É comum o caso de pesquisadores, tão envolvidos com suas investigações científicas,que acabam se esquecendo de voltar a seus lares no final de um cansativo dia de trabalho...
Alguém poderá perguntar neste instante: “quer dizer, então, que aquela tendência afetiva inspirada pelos primeiro e segundo graus de abstração formal é condenável?” Respondo: em princípio, não!
O problema de fato existe quando, por uma falha em seu processo educativo – que deveria ser, como para qualquer ser humano, uma atividade pessoal permanente – o engenheiro ou pesquisador tem seus olhos e ouvidos fechados para outras realidades do mundo. Por causa dessa falha, ele se tornou, por exemplo, desprovido de sensibilidade para ouvir com agrado o concerto de um Beethoven ou o prelúdio de um Debussy; tornou-se indiferente à leitura do poema de um Fernando Pessoa ou de um Carlos Drummond de Andrade.Não consegue ler outros livros que não sejam os de assunto científico...
O problema se torna visível quando esses competentes professores, capazes de estabelecer complexas relações matemáticas para modelar situações concretas da engenharia cotidiana, não são igualmente capazes de perceber, por exemplo, o modo burocrático, bizantino, chato (desculpem o termo...) como se faz o acompanhamento e a avaliação do ensino de nível superior no Brasil. Aliás, não percebem a absurda impropriedade do nome : Ministério da Educação, que a rigor deveria ser chamado: Ministério do Ensino, ou Ministério da Escolaridade.
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(Em homenagem ao Alexandre Soares Silva, especialmente pelo que escreveu hoje sobre o tal : “estímulo governamental à leitura”).
Já faz muitos anos, o saudoso Rubem Braga contava, em uma de suas deliciosas crônicas, certo fato acontecido em uma exposição de quadros do pintor Volpi. O salão cheio de convidados, todos loquazes, copo na mão, falando animadamente sobre pintura. Enquanto isso, Volpi, cigarrinho no canto da boca, em pé em um canto, meio afastado, só fazia olhar e escutar. De repente, tirou o cigarro da boca e disse, à socapa, a um amigo que estava a seu lado:
- “Muita gente que está aqui falando sobre pintura faria melhor se fosse para casa tentar pintar um pouco.”
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“How much knowledge
Have we lost in information;
How much wisdom
Have we lost in knowledge.”
( T.S.Eliot )
(curiosamente, citado em um livro didático sobre Engenharia de Telecomunicações)



posted by ruy at 3:13 da manhã

7.3.03

 
07/mar/03.
Posso escrever muitas resmas de papel sobre o tema; posso publicar brilhantes artigos, e até mesmo livros, declarando publicamente minha imensa admiração e meu profundo respeito por um personagem histórico chamado Jesus e que viveu há mais de vinte séculos na Palestina. Mas, o problema nuclear para mim acaba sendo, em qualquer instante, responder a estas perguntas básicas: “quem é para mim, Ruy Maia Freitas, e que importância tem de fato em minha vida a pessoa do Cristo ? Qual é a parte que essa pessoa ocupa em meus pensamentos, em minha análise dos fatos passados e presentes, em meus sonhos, desejos e planos ? Ou só me lembro vagamente dessa pessoa quando alguma coisa me incomoda bastante ?”
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(O fato me foi contado por uma senhora, muito minha amiga, que estava na fila da Caixa e assistiu de perto a tudo, do jeito como aconteceu realmente).
Finalmente chegou a vez do velhinho. A funcionária contou o dinheiro e o passou às mãos do aposentado.Ele apanhou o pagamento e se afastou um pouco de lado, para contar sobre um balcão o modesto maço de notas. A fila avançou. De repente, o velhinho se volta e, timidamente, faz menção de falar com a moça no guichê. Antes que o coitado abrisse a boca, a funcionária trovejou, bem alto e não menos agressiva:
- “Olhe, meu senhor! A reclamação tinha que ser feita na hora! Agora não dá mais !”
O velhinho não se perturbou. Apenas respondeu:
- “Pois é, eu vinha dizer que a senhora me pagou a mais! O quanto a mais, não vou
lhe contar. A senhora vai ter que descobrir sozinha!” E, dito isto, foi-se embora bem rápido, sob os aplausos das outras pessoas que estavam na fila.
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“Senhor, minha prece se faz,
Em termos exatos:
Que os maus sejam bons,
E os bons não sejam chatos.”
( Murilo Mendes )






posted by ruy at 10:27 da manhã

6.3.03

 
6/mar/03.
Hoje é muito comum nas escolas, nos programas de televisão, nas diversas associações religiosas etc. o incentivo ao que alguém, com muita perspicácia, denominou : "o grupismo".A pessoa é levada a acreditar nisto: "quanto mais eu for capaz de me comunicar com os outros, de viver em grupo, mais serei realizado(a)". As virtudes maiores passaram a ser : a solidariedade e a simpatia.
Ora, se a memória não me trai, foi o insuspeito André Gide quem certa vez disse isto: " A forma mais autêntica de bondade que já vi estava mesmo escondida sob o rosto severo de uma Irmã de Caridade." ( para o leitor que desconheça certos detalhes explicamos : ele estava se referindo a uma freira Vicentina, da ordem religiosa de São Vicente de Paulo.Naquele tempo, essas freiras usavam um hábito semelhante aos traje de certas camponesas da França).
Ora, hoje talvez Gide já não poderia fazer aquele mesmo comentário. Em nossos dias os religiosos preferem ostentar uma fisionomia mais "light", mais adequada, por exemplo, à função de assessoria a um chefe político...
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O que vamos escrever a seguir de fato já se tornou lugar comum nos ambientes literários, mas nem por isso convém deixar de ser repetido.
Há três qualidades que se exigem de um bom tradutor: a )-conhecer bem sua própria língua; b)- conhecer bem a língua em que foi escrito o texto a ser traduzido.; c)- conhecer bem o pensamento do escritor que se pretende traduzir.
Ora, faz pouco tempo a editora Record lançou uma tradução do livro de George Steiner : "Nenhuma Paixão Desperdiçada" . Trata-se de uma excelente coleção de ensaios literários escritos por um mestre em que se juntam uma fina inteligência, uma vasta cultura e uma invulgar sensibilidade artística. Merece ser lido por qualquer leitor que tenha bom gosto.
Infelizmente, houve alguns tropeços na tradução. Por exemplo, na página 20, referindo-se a Santo Agostinho, está escrito isto: " Agostinho, em uma passagem famosa, registra o fato de seu patrão, Amboise, ser o primeiro homem que ele via ler sem mover os lábios".Cabem estas observações: Steiner está se referindo a Santo Ambrósio ( Amboise é a forma anglo-saxônica do nome) , bispo de Milão e que foi mestre ( a palavra "master" em inglês tanto pode significar "senhor", de um servo ou escravo, como ainda: "mestre", "professor" ) daquele que seria mais tarde o famoso bispo de Hipona. Basta consultar as Confissões do grande Doutor da Igreja para conferir .Escrever que Santo Ambrósio foi patrão de Santo Agostinho é um tremendo pisar na bola...
Na página 58, referindo-se a São Jerônimo, está escrito que ele " foi um tradutor ( da Vulgata) talentoso porém arrogante." Seria bom consultar o livro original de Steiner. A palavra "arrogante" me parece pesada. Quem sabe se "altivo" ,ou melhor ainda: "auto-suficiente" não seria mais adequada ?
Na página 201, uma falha muito comum em redações de estudantes que usam livros didáticos escritos em inglês : traduzir "to assume" por : assumir, em vez do correto : " supor".

posted by ruy at 2:23 da tarde

5.3.03

 
Rio,5/mar/03-
Vem trafegando pela rede uma enxurrada de receitas de bom viver, umas meio piedosas, outras sem essa preocupação religiosa, porém todas montadas de modo a agradar nossa sensibilidade. E quem não gosta de agrado ? Mas, como dizia um velho amigo meu, um gaúcho atilado, a própria posição típica do ser humano, isto é: a vertical, já nos dá um sentido da adequada hierarquia: lá em cima, em primeiro lugar, a cabeça; mais abaixo: o coração; abaixo dele: o estômago.Paremos por aqui. O leitor atento completará o esquema.
Uma pergunta que poderíamos fazer a nós mesmos seria, portanto, esta: qual é o lugar que concedemos à inteligência em nossa vida ? A de mera serviçal, a Sebastiana Quebra-Galho da nossa existência? Ou a faculdade por meio da qual podemos crescer na contemplação do Eterno escondido nas coisas que nos cercam ? Isso não é figura de retórica.Nosso comportamento como ser humano depende do modo como pensamos em nossa inteligência, se é que de vez em quando paramos para refletir sobre ela. Até mesmo as pessoas ditas de nível de escolaridade superior deveriam regularmente fazer esse "exame de consciência".
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O filme " Prenda-me se for capaz" - apesar de um ou outro exagero do conhecido fogueteiro Spielberg - merece ser visto. É uma interessante junção de comédia, drama e aventura, aquilo tudo afinal que ocorre na vida de cada um de nós.
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" Hoy es el Miércoles de Cenizas"- Começa a Quaresma. Leio em um "site" americano, hoje, aquele versículo do Gênesis que nos diz: "Lembra-te de que és pó e ao pó retornarás". Muito bom para refletir

posted by ruy at 4:06 da manhã

4.3.03

 
3/mar/03- Por sugestão de um amigo poeta, alguém que sobrevive neste silencioso deserto em que se transformou a civilização ocidental moderna, começo hoje estas reflexões solitárias. Este é meu particular oasis, mas está aberto aos companheiros de viagem..

posted by ruy at 11:39 da manhã

 

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